Diário Caipira-158

De tempos em tempos temos treinamento de como reagir em uma situação de incêndio no trabalho. O alarme soa, todos tem de deixar o edifício e se reunir em um ponto pré determinado (do lado de fora de algum outro predio). Alguém toma para si o papel de verificar que todos saíram e liga para os bombeiros.

Ou melhor, não liga porque se trata de simulação. Mas todo mundo deve buscar a saída mais próxima e, como esse treinamento NUNCA acontece no verão (porque todo mundo está de férias) já passei frio e raiva algumas vezes tendo de sair do prédio sem casaco (porque não é pra parar pra pegar nada) pra ficar 15 minutos no frio e na chuva até alguém aparecer e dizer: tudo bem, foi apenas uma simulação; podemos voltar pessoal.

Esse mês estavam testando os detectores de fumaça do prédio em que trabalho e assim tivemos duas simulações. Nas duas eu “morri”. Na primeira delas eu estava numa reunião online com fones de ouvido e o alarme de incêndio não tocou na sala em que eu estava. Hoje, eu estava no banheiro, naquele momento de concentração profunda e quando saí… cadê todo mundo?

Meu colega apareceu com um colete amarelo e eu já entendi: treinamento/simulação de incêndio. Depois do procedimento terminado faz-se uma avaliação. E aí me perguntaram: por que você demorou pra sair? E eu só: estava com diarreia…

Mentira. Expliquei que dentro do banheiro não era possível ouvir o alarme. Então, verificaram o que estava errado e testaram o alarme de novo e dessa vez, voilà; estava de arrebentar os tímpanos. Então, graças ao fato de que fiquei para trás identificaram um problema que foi solucionado.

Enfim, estava uma senhora chuva quando saí do prédio mas, como eu fui a última a sair não precisei ficar passando frio na chuva.

Diário Caipira-157

Hoje nos perguntaram, a mim e ao Joel, quais os maiores desafios que passamos pra manter a relação. Houve muitos momentos de impasses, mas a pergunta partiu de um casal formado por um sueco e uma latina. Em outras palavras, quais foram as maiores dificuldades por causa das nossas culturas tão diferentes.

Me deu um branco. Eu sempre penso em choque cultural e suas diversas ondas e pegadinhas. Mas, em se tratando da relação com um sueco em si eu penso que não tem uma coisa em especial. Eu acredito que qualquer relação tem suas dificuldades e que são sempre dois mundos diferentes que se chocam e se misturam.

Obviamente que houveram encruzilhadas que foram mais assustadoras porque a relação é com um sueco. O momento de solicitar o visto, por exemplo. Eu me tornei super dependente de um cara que, mesmo que eu estivesse super apaixonada, ainda era uma caixinha de surpresas. Ainda é, mesmo depois de dez anos juntos. Isso é emocionante. A chegada dos filhos acentua nossas diferenças, assim como os dias corridos por causa da rotina em família.

O próprio significado de família é diferente para nós dois. Assim como a questão do espaço pessoal. De como eu recarrego as baterias. Mas apesar disso eu sempre preciso me perguntar: será que somos mais diferentes por eu ser brasileira e ele sueco do que se fossemos ambos do mesmo país?

Há certas coisas que eu jamais vou entender porque elas fazem parte do consciente coletivo sueco. Tipo, as brincadeiras e jogos que toda criança sueca experimenta. A escola na Suécia – que deixa a gente fazendo de conta que entende o que está acontecendo com as crias quando eles estão lá – ou os verões na Suécia. Essas coisas óbvias que ninguém precisa contar para um sueco, da mesma forma que ninguém precisa contar pra mim a sensação de comer fruta do pé. Ou mesmo o saco que é ter de limpar o quintal justamente por causa delas.

A gente vai aprendendo que existem uma série de mau entendidos que a gente nem tinha ideia que só acontecem porque temos culturas diferentes. Um exemplo infame: sempre que eu perguntava “Você quer?” oferecendo comida para o Joel ele comia tudo. Simplesmente tomava minha comida e não devolvia. Até que eu entendi que eu deveria perguntar “Você quer dividir comigo?” Ou “Você quer um pedaço?”.

Ainda estou pensando na pergunta… quem tem um relacionamento com um sueco, o que vocês acham que foi o maior desafio no relacionamento com uma pessoa de outra cultura?

Diário Caipira-156

Falando em Halloween… Para todo lado que se olha a gente vê decoração de Halloween: lâmpadas de abóbora, chapéus de bruxa, aranhas gigantes e suas teias de fibra.

Eu tenho um pequeno que gosta de histórias de terror. Ele costuma criar sozinho histórias que deixam a gente com o cabelo em pé. Ele tinha apenas dois anos quando me disse que é preciso dormir de meias ou com os pés bem escondidos em baixo do cobertor. Eu perguntei por quê? (Besta que sou…) e ele responde como se fosse a coisa mais óbvia do mundo: porquê senão as aranhas vem comer os dedos dos pés.

Eu durmo de meias desde então.

Diário Caipira-155

Passei na biblioteca e peguei uns livros. Gosto porque a cidade sempre tem um “kit” pronto. Eu entro, pego e saio.

Um dos livros fala sobre animais, plantas e outros seres vivos e não vivos que são fluorescentes ou emitem algum tipo de luz a noite. Em uma das páginas são descritas o “irrbloss” (fogo fátuo) que sao bolas de fogo místicas que podem ser vistas (mais frequentemente) em locais pantanosos.

Ainda não há incerteza a respeito do que é que cria o fogo fátuo. Uma das explicações aceitas cientificamente explicam que o fenômeno se dá por meio da oxidação de alguns compostos decorrentes de matéria orgânica em decomposição. Por isso é possível ver o fogo fátuo em cemitérios, também.

Enfim, há lendas que explicam essas bolas de fogo místicas. No Brasil a mais conhecida é a do boitatá. Para os suecos o fogo fátuo é a lamparina de uma alma penada. Alguns acreditam que essa alma vem para assombrar os gananciosos; principalmente aqueles que querem muitas terras e usam de maneiras não muito corretas para obter elas (grilagem). O homem da lamparina teria sido muito ganancioso em vida e tem que pagar seus pecados tentando impedir outros de cometer o mesmo erro.

Achei a historinha tudo a ver com o mês de outubro e o Halloween. Nunca vi fogo fátuo. Mas dizem que meu vô viu um boitatá. Talvez eu deveria sair mais a noite…

Diário de uma caipira exausta

Entonces, a escuridão está chegando e eu sinto bastante. Essa é a época do ano que pesa mais no meu emocional, tudo me deixa levemente irritada.

Sim, vitamina D ajuda mas não, eu não estou procurando dicas de como sobreviver a essa última tentativa inútil de negar o óbvio: os meses de escuridão estão apenas começando. Acho que é um tipo de birra na verdade.

A gente deveria ter a liberdade de hibernar aqui no norte.

Errata – Diário Caipira 153

Eu estava um caco ontem, o que é normal depois de passar uma noite limpando vômito e atendendo a criança vomitada. Mas eu precisava escrever uma errata antes de continuar com os diários.

No post de 13 de outubro eu contei que estive no bosque e colhi cogumelos pela primeira vez. Eu escrevi que os cogumelos conhecidos como kantarell são muito apreciados pelos suecos e que não há um cogumelo parecido com o kantarell que seja perigoso. Aqui a vai a errata.

Minha ou meu coleg@ da página Escandinávia e países nórdicos observou que o falso kantarell não é comestível e pode ser confundido com o kantarell. Várias pessoas me mostraram o falso kantarell e eu não acho ele parecido com o kantarell. Ainda assim é importante esclarecer que se o nome do cogumelo é falso kantarell é porque é possível confundir com o kantarell. O que eu acho ou deixo de achar no caso é irrelevante.

Kantarell aqui, e abaixo, o falso kantarell.
A imagem é do blog Yellow Bread

O falso kantarell é também conhecido por narrkantarell. A Central de Informação Toxicológica (Giftinformationcentralen) não classifica o falso kantarell como um cogumelo venenoso. O Svampguiden (um site autenticado sobre cogumelos) não classifica o falso kantarell como um cogumelo comestível. Enfim, o que isso quer dizer?

O falso kantarell pertence ao mesmo grupo de cogumelos venenosos do plugskivlingen. Nos forums do site Svampguiden essa explicação aparece quando as pessoas perguntam porque o falso kantarell não é categorizado como um cogumelo comestível. A Wikipédia sugere que o narrkantarell tem uma proteína agressiva ao organismo humano que se quebra quando o cogumelo é cozido/frito. Entretanto outros sites (como expressen) sugerem que o narrkantarell pode provocar uma espécie de intoxicação alimentar. Enfim, não se recomenda o consumo de narrkantarell.

Foi bastante interessante ler o forum do site Svampguiden porque nele há várias pessoas escrevendo para perguntar se o cogumelo que colheram realmente é um kantarell ou se é um falso kantarell. Há também muitas pessoas escrevendo que confundiram ambos e colheram apenas falso kantarell. Então, como expliquei acima, era realmente importante escrever essa errata.

E você? Acha que o kantarell e o falso kantarell são parecidos?

Diário Caipira-153

Depois de passar praticamente 10 outonos aqui saí pela primeira vez colher cogumelos. Sempre me disseram que há muito cogumelo comestível aqui nesse bosque ao redor de casa mas, como eu não havia aprendido a diferenciar cogumelos comestíveis dos perigosos, nunca me aventurei a colheita.

Minha sogra cresceu fazendo isso e eu lhe pedi se ela poderia me mostrar como diferenciar cogumelos perigosos de comestíveis. Então preparamos um fika, agasalhamos os pequenos e fomos para o mato com um bom livro sobre cogumelos comestíveis a mão.

Mas porque não usar a internet, não é? Porque nem todos os sites são confiáveis. Eu não sairia perguntando para o Google se é possível comer esse ou aquele cogumelo porque há cogumelos venenosos que podem ser consumidos de determinadas formas e outros que não devem de forma alguma serem consumidos. Cogumelos venenosos afetam o sistema nervoso, os rins e podem levar a morte.

Também por causa disso eu sempre me preocupava de as crianças ficarem mexendo em cogumelos venenosos. Felizmente não é apenas a mãe brasileira que repete que não se deve mexer em cogumelos coloridos demais, nem colher cogumelos que você não saiba (com 100% de certeza) que podem ser consumidos. Hoje na escola meus filhos tiveram uma lição sobre cogumelos.

Coisas que aprendi hoje:

– se você não tem certeza que o cogumelo é comestível, não colha.

– a maioria dos cogumelos comestíveis apresenta uma coloração que vai do amarelo, passa pelo marrom e vai até o verde naqueles “caulinhos” embaixo do chapéu. Se o cogumelo tem cores do tom avermelhado ou azul é venenoso.

-opte por colher cogumelos fáceis de identificar. Os “kantareller” e “trattkantareller” são bons exemplos.

Fonte: Wikipédia sobre “Kantarell”

O kantarell é um cogumelo famoso dessas bandas que não lembra em nada aquela imagem de cogumelo que eu conhecia. Quase parece uma flor ou um guarda chuva que o vento estragou e tem uma cor amarela bem marcante. É um cogumelo que (dizem) tem um cheiro bom também (lembra fruta). Não encontramos nenhum hoje porque esse é muito apreciado pelos suecos, é praticamente inconfundível e não tem nenhum cogumelo venenoso que se pareça com ele. Enfim, uma cartada certa.

Esse fui que colhi!

O trattkantarell é o primo pobre do primeiro. Lembra um pouco o kantarell, um guarda chuva virado ao contrário, mas é marrom e mais miudo. O engraçado do tratt é que ele tem um furo que perpassa todo o “caule” do cogumelo (tratt significa cone). Esse furinho é bem visível mesmo quando o tratt é pequeno. Infelizmente, um dos cogumelos mais venenosos da Escandinávia cresce justamente no meio dos trattkantareller. É mais ou menos da mesma cor, do mesmo tamanho mas não tem o furo característico do tratt, e parece um “chapéu chinês”.

É importante que a cor seja amarelo escuro ou marrom. Há outras espécies sem o buraco que lembram bastante o tratt.

Info adicional: nesta página há informação sobre os cogumelos mais perigosos dos bosques suecos. É bom pra dar um conferida na fotinha do bichinho.

Diário Caipira-152

Hoje terminei a primeira manta de crochê que eu fiz na minha vida (que eu me lembre, antes eram apenas cachecóis e panos de prato). Foi muito gostoso fechar o trabalho e sentir que ficou mais ou menos como eu havia imaginado.

Tem certas coisas na vida da gente que são engraçadas, não é? Eu nem sei quantas vezes eu já torci o nariz para bordados e trabalhos com fio em geral, seja tricô, crochê, macramê, tear ou o que seja. Acho que sempre me faltou paciência. Não sei se foi a maternidade que me deu essa lição, a idade, ou o simples fato de que agora era a hora, chegou o tempo em que eu pude me encontrar com aquela Maria que sente prazer em se demorar pra conseguir as coisas.

Falando nisso, ando refletindo sobre o tempo. “O tempo perguntou ao tempo quanto tempo o tempo tem?”. Eu acredito que a maioria dos suecos tem uma forma bem calminha de viver. Uma coisa de cada vez, en sak i taget, é um mantra sagrado desta nação. Mas sera que a gente sabe, como indivíduos e/ou sociedade, entender o tempo?

Eu diria que não. De modo geral a gente sofre porque o tempo passa rápido demais. Mas aí a gente está focando no quê? Eu imagino há cerca de cem anos atrás, quando as pessoas esperavam um ano inteiro pra comer maçãs, será que a perspectiva do tempo era a mesma de hoje?

Essa manta que eu fiz me tomou cerca de três meses pra ficar pronta. Eu encomendei novelos pela internet, então percebi que havia encomendado pouco, depois desisti de usar quatro cores e voltei para três cores; por fim ainda faltou lã e eu encomendei uma terceira vez. Tudo isso num curto espaço de tempo. Antes, eu teria que ter comprado a lã, fiado eu mesma, pra depois tingir o fio (provavelmente eu não faria isso pois só gente rica podia/tinha condições) e a manta teria demorado bem mais para ficar pronta. Anos até.

Tudo acontece tão rápido. Será que realmente me tornei mais paciente?

Diário Caipira-151

Fui ao mercado hoje fazer o rancho. A gente usa aquele scanner (só pra não esperar no caixa a gente faz de graça o trabalho de alguém…) e eu me perdi entre as seções e quase que coloco na compra de outras pessoas o pacote de peixe empanado que comprei. Reparei no último segundo que aquele carrinho de compras estava com algo estranho. Por sorte, a dona do carrinho não estava lá e não precisei explicar porque parecia que eu estava assaltando as compras de alguém.

Sobrevivi a minha falta de atenção. Já a hipocondria vai acabar acabando com os meus nervos, pois toda vez que volto do mercado tenho coriza.

O que me faz questionar: estaria eu a sofrer do primeiro caso de alergia a mercado do mundo?

Diário Caipira-150

Eu não sei se o anúncio do prêmio Nobel era tão importante no Brasil como é aqui. Talvez o fato dos veículos de comunicação da Suécia falarem bastante sobre isso seja porque a festa de gala do Nobel se dá aqui na Escandinávia.

As vencedoras do prêmio Nobel de química inclusive fizeram uma parte do seu trabalho aqui na Universidade de Uppsala. Mas não há dúvidas que o ponto alto da semana é a escolha do Nobel de literatura (indicado pela academia sueca de literatura) e o Nobel da paz.

O vencedor ser o Programa Mundial de Alimentos da ONU foi, de certa forma, uma deceção pra mim. O programa é importantíssimo e vai se tornar ainda mais essencial por conta das mudanças climáticas. Mas eu ainda acho mais bacana quando uma pessoa é indicada. Um programa é uma coisa tão abstrata… tô ficando velha e achando defeito em tudo.

Segurança alimentar e nutricional tem que se tornar uma política pública. Só assim vai ser possível enfrentar os desafios que as mudanças climáticas e o crescimento populacional vão representar para a humanidade nos próximos anos.

Diário Caipira-149

Notícias que chamaram minha atenção hoje:

1. O partido Cristão Democrata KD quer que o ensino de língua materna deixe de ser oferecido nas escolas. Não sei se entendi bem a coisa mas parece que querem acabar com ele porque funciona mal. É, acredito que o sistema de educação sueco tem muitas falhas, agora me parece que o ensino de língua materna não seja lá alguma coisa tão interessante a se preocupar… a menos que, evitando que estrangeiros tenham acesso a sua língua natal também se acabe com uma parte importante da cultura deles.

2. O governo sueco não alterou o número máximo de pessoas permitidas em consertos, shows e eventos. O limite está em 50 pessoas desde março e aí ficará, apesar de terem avaliado a possibilidade de permitir público de 500 pessoas. É lamentável que o corona tenha atingido tão duramente o setor cultural. Eu ainda não me recuperei de todo da deceção por ter perdido o espetáculo do Cirque du Soleil (que nem sei se existirá pós corona). As óperas estão “operando”, de alguma forma. As salas de cinema reabriram. Mas Håkan Hellström não vai mais poder bater o próprio recorde de público do Ullevi (mais uma vez). Ainda assim, soou extremamente contraproducente aumentar o número máximo de pessoas permitidas em eventos culturais e esportivos quando o número de casos vem crescendo.

No mais, parece que o “novo” normal já não é mais tão novo.