Abismos

Oi.

Minha relação com o blog tem sido meio que como de um frequentador de AA. No começo a gente empolga e fala sobre o “eu” o tempo inteiro. Conta os dias, as semanas, os meses e os anos olhando meio que para o próprio umbigo. Provavelmente você não está entendendo muita coisa desse bla bla bla todo e pra ser sincera, sei lá aonde eu quero chegar.

Chegar eu cheguei, na Suécia, há sete anos atrás. Mas chegar de verdade eu só cheguei quando o Benjamin nasceu. Até o Benjamin nascer eu não me sentia aqui. Sem perceber eu já estava muito mais ligada nos paranauês da sociedade e cultura sueca do que eu imaginava, mas ainda tinha feito uma série de coisas sem saber bem porquê. Eu não tinha o nome dos bois. E agora, para meu desgosto, eu tenho. Porque quando o Mikael nasceu eu percebi que eu tinha fincado em definitivo minhas raízes na Suécia.

Quem segue o blog há mais tempo sabe que eu sempre escrevi sobre uma vontade de voltar para o Brasil. Eu sempre escrevi sobre muita coisa nada a ver, bagatelas do dia a dia, umas coisas mais importantes e outras menos, falei um monte de besteira e idiotice sobre todo o possível porque né, quando a gente é ignorante fala e fala muito; muitas vezes continua falando porque acha que esta abafando e só depois de muito tempo é que percebe que as pessoas ao redor não estavam quietas por achar interessante mas pelo simples fato de ver se a pessoa em si se toca. E a vontade de voltar ao Brasil estava ali sempre no meio dessa bagunça de informação e desinformação – de um troll em transformação. Mas essa, das tantas asneiras que eu falei aos olhos dos outros, foi a única que não era besteira pra mim.

Cansei de ler coisa tipo: “você não sabe o que está dizendo”, “você só fala disso porque não está aqui (no Brasil)”. Quando eu saí do Brasil sabia o que estava deixando no plano estrutural: a sociedade machista, meritocrática e racista. Não sabia o grau da coisa, mas sabia que não era bom. Mudar para a Suécia e viver numa sociedade considerada feminista, igualitária e tolerante a diversidade me deu um breve dislumbre desse abismo que eu nunca tinha entendido. Até eu ter parido aqui eu achava que a maior distância entre Brasil e Suécia estava no plano geográfico e que no resto um dia a gente poderia fazer igual. O problema é que quando eu tive meu filho eu comecei a realmente perceber as pessoas ao meu redor. Eu comecei a pensar nas mulheres ao meu redor. Foi tipo como ter uma revelação. E isso criou outro abismo: um dentro de mim mesma.

Existe uma pequena parte de mim que continua querendo fechar olhos, ouvidos e todos os sentidos que me fazem pensar e entender isso. Mas o fato é que viver na Suécia não é viver em uma sociedade que se contrapõe ao Brasil. A Suécia – talvez a Escandinávia e Alemanha (uma parte dela, ao menos) – é uma bolha num cantinho do mundo. E não é que eu esteja reclamando, estou constatando que a menos que você já tenha vivido em um desses países vizinhos, a hora que você entrar aqui vai perceber que tem coisas que não tem nada a ver com o resto do mundo. E isso tanto para o bem quanto para o mal.

Sete anos de Suécia. O número sete na bíblia tem um significado de totalidade, perfeição. Mas para mim foi mais de cair a ficha mesmo e perceber o quanto estava errada: a distância geográfica entre o Brasil e a Suécia é a menor delas. E a chance de eu voltar para o Brasil fica menor a cada ano que passa.

Isso me deixa triste.

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Saudades

Eu tenho saudades de escrever aqui. Agora ainda mais, quando não sei porquê meu teclado ficou doido e até me deu um ç. Posso escrever criança, lambança e poupança; realizações, felicitações e paparico e bico de pato, assim sem mais. Haha.
Miguel chegou e nós tivemos dois meses muito intensos mas tranquilos. Quem é mãe sabe como é que são essas coisas todas do pós parto, mas eu estava preparada dessa vez e com a minha mãe a tiracolo o puerpério foi fichinha. Sabe como é, mãe sabe das coisas, sabe até mesmo cuidar de outra mãe (que queira esse tipo de ajuda, que fique bem claro). Minha mãe voltou para o Brasil e Murph veio morar com a gente. Simplesmente…
Foi um festival de todas as gripes e viroses (diarréias em geral) que se possa imaginar. Eu ficava doente e aí os meninos ficavam doentes ou eles (um de cada vez ou os dois juntos) e depois eu… e assim foram fevereiro, março e abril. Eu quase ganhei um cartão fidelidade do hospital (#exagerada). Nunca imaginei que um inverno pudesse ser tão comprido… e aí que já se vão seis anos de Suécia e eu não sabia que o inverno podia ser esta merda. Pra você que curte um friozinho e sonha com a neve, só um recadinho: é lindo, mas é letal. É frio que não acaba mais e tudo que você queria é uma semana de sol e calor, uma semana para você botar os colchẽs para fora e abrir todas as janelas da casa para ver se arejando a coisa melhora.
Mas e daí que passou. Amém.
A semana de sol e calor já veio e já foi embora. Eu não botei os colchões para fora mas estou esperando que Gotemburgo me dê ao menos mais uma semana de sol e calor esse ano.
Falando nisso, achei bonito que algumas pessoas me escreveram perguntando se vou parar de postar, já que eu parei de postar, se me entendem. Eu não sei… o engraçado é que ainda recebo perguntas por email a respeito da vida na Suécia. Mas devem haver outros blogs mais atualizados não?
Enfim, essas perguntas que recebo soam super bizarras justo quando a gente está passando por essas situações especiais da vida… tipo, isso que comentei acima, essa sensação de que o inverno nunca acaba… aí uma pessoa me manda um email (fazia uma cara que não recebia perguntas via email, só via facebook) se Gotemburgo dá praia. Eu lendo o email, resfriada com uma puta dor de garganta, meu coral de duas vozes recitando ´´a Tosse´´ numa sonata que poderia ser de Bethoven, chuva lá fora e 4 graus C…
Gotemburgo dá praia. Mas é bom usar neopreno de manga longa.

Nomes bizarros suecos

Já que estou nos finalmente e todo mundo sempre pergunta nessa etapa da jornada se a pessoa/casal já escolheu como vai batizar a crianca pensei em dividir algumas opcões bizarras que existem por aqui. Quê? Achou que essa era uma exclusividade brasileira? Sinto informar mas o gene responsável para que um indivíduo seja sem nocão está presente na espécie humana em geral. :P

Peguei do site do Expressen (um jornal sueco que às vezes, bom… dispensa comentários) uma lista dos 23 nomes mais estranhos com que bebês foram batizados no ano de 2015 (que segundo o Expressen, saiu da central de estatísticas da Suécia – SCB):

– sete meninnas foram batizadas com [o nome de] Tequila (sendo que uma delas tem Tequila como primeiro nome!).
– uma guria com o nome de Svamp (que significa fungo/cogumelo).
– um guri como Skåne (região da Suécia…).
– duas meninas como Ragata (eu penso sinceramente que eles não se referem a palavra italiana).
– dois piás como Pucko (significa idiota).
– um piá como Potatis (me faz pensar naquela piadinha: o colono chega no cartório e diz “quero batizar meu filho de E-batata”; ao que o escrivão responde “não pode, porque E-batata não existe”. E o colono “Mas meu vizinho batizou o filho de E-milho!” Ha ha ha).
– Hitler. Para um menino, coitado.
– Oito meninas foram batizadas como Pung (saco escrotal, em sueco).
– Um menino, Fido.
– Duas gurias de Penna (no caso, caneta/lápis em sueco).
– Está em busca de algo unissex? Cinco gurias e quatro guris receberam o nome de Porsche em 2015.
– Outra opcão unissex: Munk, com a qual 61 guris e 39 gurias foram “contemplados” (que significa monge… mas também pode ser um docinho que lembra nosso sonho de padaria).
– E as opcões unissex não param por aí: Mcdonald para três meninas e dois meninos (um deles chama Mcdonald no primeiro nome).
– Kossa (vaca), para um piá. (seria boi, no caso? nãããão).
– Matta – unissex – para 31 homens e dez mulheres (significa tapete).
– Anus – aquele mesmo – para duas pobres gurias, como primeiro nome.
– Katt – nomes unissex estão com tudo – para dez meninas e três meninos (gato/gata).
– E mais um unissex: Majs [que se pronuncia mais] para quatro gurias e um piá (lembra a piadinha ali de cima da batata? Então).
– Gud (Deus) para uma menina sortuda.
– Balle, para meninos (1) e meninas (4) – eu não vou traduzir.
– Bärs, só para gurias – e são três (eu não tenho certeza aqui se se referem ao verbo carregar ou à gíria para cerveja…)
– Norrman, só para guris – foram quatro (homem do norte – mas isso é meio óbvio quando se nasce na Suécia).
– As, que deve ser a irmã da Anus, ou prima. Coitada. O significado é o mesmo, em todo o caso.

Em alguns casos a coisa é tão feia por aqui que os nomes são proibidos. Por lei. Alguns exemplos são Metallica, Ikea, General, Hallå, Q e HV 71. Mas personagens de ficcão e contos parecem ser permitidos, já que a Suécia tem:
– quatro Spiderman,
– nove Batman,
– sete Phantomen (Fantasma) e sete Guran;
– dois Superman,
– sete Zorros,
– quinze Frankstein,
– oito Yodas,
– dois Darth Vader,
– três Chewbacca,
– um Drakula,
– quinze Tarzans,
– três Skalman (a tarturaga da turma do Bamse),
– um Super Mario,
– um Megaman,
– uma Törnrosa (Bela Adormecida) e
– seis Snövit (Branca de Neve – faz sentido não?).

E pra fechar o post, quero avisar que nomes de filmes também funcionam como nomes na Suécia, tanto que tem um cara que se chama Hajen (Tubarão). Vai ver que a mãe dele é bióloga ou sei lá, o pai era fanático por esse clássico dos anos 80.

Não. A gente vai de algo normal mesmo. Tipo José.

Proibida a entrada de crianças (mas na Suécia não)

Em meados de outubro uma guria de um programa de culinária no Brasil fez uma postagem no facebook elogiando a atitude de um restaurante brasileiro que proíbe a entrada de menores de 14 anos. Uma longa discussão se deu início, e um dos principais argumentos utilizados pela galera que acha essa proposta cabível é de que isso funciona na França, além de pontuar que as crianças francesas são infinitamente mais educadas do que as brasileiras e tem modos a mesa.
Eu nunca estive na França por mais de três dias e não tenho a mínima ideia de se essa história de que restaurantes fecham as portas para uma parcela da população seja realista – o que me parece bem burro, diga-se de passagem. Infelizmente já vi muitos textos de gente que acha aquele livro (crianças francesas não jogam comida no chão) sobre adestramento de crianças a última bolacha do pacote – normalmente gente que não tem crianças – e que acredita que na França tudo é como a autora do livro aponta: crianças francesas são extremamente educadas e não gritam a mesa.
Bom, tenho uma má notícia para quem é fã da Suécia e que adora o modelo francês: crianças suecas são u ó, como se diz lá de onde eu vim. Elas não vão apenas gritar a mesa e jogar comida ao chão, elas vão subir na mesa se quiserem e cagar na cabeça dos pais. Eu não sei se todo mundo compartilha da mesma perspectiva que eu, mas desde que mudei para cá tenho visto como essas criaturinhas são indomáveis nessas terras, e penso que talvez o último traço da barbárie viking se expresse justa na infância desse povo (que a partir da idade adulta não dá um pio, a exemplo das crianças francesas). Aliás, ao contrário do que se pensa a respeito da modo francês de educar os pequenos, a forma sueca de tratar a infância comunente é tratada como um experimento que deu errado porque veja bem, aqui as crianças tem direitos. Mas isso é um assunto para outro post.
Mas é importante salientar: a Suécia está infestada de pequenas pestinhas que tem poder, muito poder diga-se de passagem, sobre os pais. E o pior de tudo: aqui os restaurantes não proíbem a entrada de crianças. É claro que existem ambientes mais sofisticados aonde sutilmente se dá sugestão de que esse é um espaço reservado para adultos. Mas não há placas proibindo a entrada de crianças e adolescentes – não a menos que se trate de um pub ou uma espécie de taverna em que bebidas alcoolicas sejam servidas e aonde a questão comida fique em segundo plano. Aí sim há um aviso relacionado ao fato de que menores não são permitidos sem a presença dos pais.
De modo geral os estabelecimentos comerciais suecos querem ter o reconhecimento de serem espaços amigos da criança e contam com estrutura para receber desde bebês até… bom, principalmente bebês. Mas o cardápio, por exemplo, sempre traz uma sugestão para que a galerinha que ainda não aguenta um verdadeiro prato de comida e que normalmente não gosta dessas combinações que um adulto procura quando sai para jantar possa ser servido. O menu infantil pode nem ter nada a ver com a cara do restaurante – tipo um restaurante de peixes e frutos do mar que tem no menu infantil hamburguer – mas a ideia é que a crianca no caso possa ter uma opção para que os pais não deixem de frequentar aquele espaço justo porque a criança não vai ter o que comer.
Os cafés então são espaços maternos – e todo mundo sabe como essa história de “fikar” é importante na Suécia. Desde que me tornei mãe sempre que saio para a cidade encontrar uma amiga que também tenha filhos nós escolhemos cafés que tem a fama de serem “amigos da criança”. Isso porque sabemos que teremos espaço para o carrinho de bebê (ou um estacionamento seguro para deixar do lado de fora), cadeirões, um banheiro com trocador (essencial nos primeiros meses de vida) e todas essas coisas que crianças de colo precisam. Além disso sabemos que aquele ambiente vai ser mais acolhedor, que com certeza encontraremos outras mães naquele mesmo espaço com suas criaturinhas indomáveis aos berros e portanto, estaremos livres dessa gente chata que acha que criança tem que estar trancada em casa.
Porque é isso mesmo: sair com criança é uma loteria. Há dias em que eles estão tranquilos e felizes, vão sentar no cadeirão, deixar papai e mamãe conversar com os amigos enquanto comem o que estiver sendo servido ou simplesmente vão curtir a vista, olhando curiosos ao redor. Mas há dias… há dias em que um copo de água transforma sua criança em um verdadeiro gremlim, que vai gritar, jogar comida no chão, se contorcer no cadeirão, te bater se você segurar no colo e sair correndo a primeira oportunidade.
O que não é normal na Suécia é crianças serem bem vindas a casamentos, por exemplo, ou alguns tipos de festinhas mais íntimas. De todos os casamentos aos quais fui convidada acredito que apenas um deles não deixava claro no convite que apenas crianças de colo eram bem vindas. Eu reagi a isso de forma forte no começo, mas quando me casei fiz o mesmo. Um casamento a moda sueca tradicional é uma coisa um tanto chata e comprida até mesmo para adultos, um monte de gente fica fazendo discursos e homenagens aos noivos enquanto os demais convidados sentam e comem. Por horas. Tipo, meu próprio casamento teve um “jantar” de aproximadamente cinco horas. Nessas cinco horas foi servido o buffet, então nos prestaram homenagens, e mais homenagens, e mais homenagens, nesse ínterim os convidados poderiam repetir e beber; houveram mais homenagens, uma pequena pausa e então servimos o bolo, com café e mais bebida e mais homenagens e discursos. Todos esperam que enquanto os discursos e homenagens aos noivos acontecem os demais convidados estejam em silêncio. Aí se dão pequenos intervalos entre meio, quando você tem tempo de dar uma mijadinha ou dizer para a pessoa ao seu lado que a noiva está realmente bonita, para aí um novo discurso se iniciar e todo mundo fazer boca de siri. Chato. Bem chato. Extremamente chato quanto você não sabe a língua, se você não é íntimo dos noivos e não entende as piadinhas internas, ou se você tem menos de 20 anos. Dessa forma os noivos normalmente colocam no convite que crianças não são bem vindas porque as pessoas entendem que crianças precisam correr e brincar e que não vão ficar sentadas ouvindo o avô da noivo contar que ele gostava de pescar quando era pequeno. Sei lá se eu acho isso uma justificativa plausível, porque depois que virei mãe tive que escolher entre ir ou não a alguns casamentos. Escolhi ficar em casa quando senti que não queria arrumar alguém para ficar com o Benjamin para ficar sentada ouvindo homenagens para pessoas as quais eu não sou tão íntima, deixei Benjamin com alguém da família quando realmente quis participar de um momento especial na vida de amigos queridos.
Melhor seria ter deixado ele em casa sempre, e em qualquer circunstância?
Não, definitivamente. Acho que você não ensina nada a seu filho deixando ele à margem. Eu posso estar redondamente enganada, mas acredito que na Suécia a perspectiva de encontrar pequenos vikings demostrando toda a sua selvageria e barbarie em locais públicos seja encarada de forma natural porque as pessoas entendem que crianças são seres em desenvolvimento. Há espaços para crianças em restaurantes, em cafés, em museus, na biblioteca (a biblioteca da cidade de Gotemburgo tem uma área tão grande para crianças que é inacreditável) e assim as pessoas que não querem se “incomodar” com gritaria e birra de criança utilizam as outras áreas do mesmo serviço. Além disso eu tenho uma impressão que as pessoas são mais de boas com as escolhas alheias (dentro da perspectiva do lagom de ser) e que normalmente o pessoal anda em tribos. Tipo, a galera festeira vai se juntar para fazer festa até começarem a casar ou ajuntar, aí mais ou menos todo mundo casa, aí mais ou menos todo mundo tem filhos, e você vai seguindo a onda dominante dentro do seu próprio círculo de amizades. E isso é visto como natural, coisas da vida.
É claro que também existe a galera que quer uma placa em restaurantes proibindo a entrada de crianças – ou de forma mais radical ainda, dos pais que não são capazes de domar os filhos. Mas quem disse que a Suécia é um país perfeito?

BVC – Centro de Saúde da Crianca

Fazem apenas dois anos e umas paradas que eu frequento o BVC e desde lá que estou para explicar que bicho é esse – do qual até já reclamei – mas essa é so mais uma para mostrar como as nossas prioridades mudam depois de casamento, comprar uma casa, arrumar trabalho e parir filho – e nem precisa estar nessa ordem. Eu deveria estar lendo – ainda tenho três livros do curso de doula para acabar mas né? Ultimamente se eu tenho um tempinho pra ficar à toa quero escrever.
BVC é a sigla para Barnavårdcentralen – o que a gente poderia traduzir como Centro de Saúde da Crianca. Na Suécia normalmente se usa o termo barn para menores de 18 anos, às vezes se faz a distincão para os maiores de 12 como unga ou tonåringar, mas normalmente barn é usado para todos os menores. O BVC é um centro de atendimento para criancas entre 0 e 6 anos no qual trabalham enfermeiras pediatras partindo da ótica da medicina preventina. Ou seja, o BVC não é para que os pais levem a crianca quando ela fica doente e sim para que os pais facam o acompanhamento do desenvolvimento de seus filhos e sigam o programa de vacinacão.
Normalmente os pais escolhem para qual BVC levarão seus filhos já durante a gravidez e, na maioria dos casos, o primeiro contato dos pais com uma enfermeira pediatra se dá na casa/apartamento do casal já na primeira semana de vida do bebê. Se o parto se dá sem complicacões e a mãe se sente segura com a amamentacão fica cerca de dois a três dias na maternidade antes de ir para casa. Assim que os récem paridos voltam para o ninho a enfermeira pediatra vem dar os parabéns e fazer uma visitinha – que também serve como uma espécie de controle (se os pais se prepararam de forma adequada para a chegada do bebê). Durante o primeiro mês de vida da crianca os encontros com a enfermeira do BVC são semanais, depois passam a ser quinzenais até os 90 dias da crianca. Dos três aos seis meses as visitas ao BVC são mensais, entre os seis e os 12 meses bimestrais e depois o próximo controle se dá aos 18 meses. Aí comecam os grandes intervalos, porque a crianca volta ao BVC aos três, quatro e cinco anos. Essas são as consultas do calendário do programa de acompanhamento ao desenvolvimento da crianca, mas nada impede que os pais marquem mais consultas ao BVC se acharem necessário, sobretudo durante os primeiros meses de vida do bebê.
De tempos em tempos um médico pediatra também está presente nas consultas. Como o parto é feito por parteiras pode ocorrer de não haver nenhum médico na sala durante o nascimento do bebê (há sempre um pediatra e um obstetra de plantão caso seja necessário que assistam ao parto, mas eles só vão entrar na roda se precisarem “dancar”). Depois de 48h do nascimento o bebê vai encontrar um pediatra que fará a primeira avaliacão, coisas como checar a circunferência da cabeca, as juntas da crianca, boca, olhos, ouvidos, auscultar coracão, medir pressão, avaliar a cor etc etc. Na sexta semana de vida o bebê passa por um novo controle junto ao pediatra, assim como aos seis meses e aos 18 meses. Como comentei acima, o BVC segue uma política de saúde preventiva e por isso médicos e enfermeiras acompanham os primeiros meses de desenvolvimento da crianca para avaliar se tudo está ocorrendo como deveria.
No início esse controle se dá por meio da pesagem e medida da altura e circunferência da cabeca da crianca. Daí a enfermeira joga os dados no computador e voilá, temos as famosas curvas de crescimento e desenvolvimento que são super instrumentos para detectar problemas de saúde sérios, anomalias e doencas que fogem do padrão; assim como podem se tornar um pesadelo para todos os pais que não tem um bebê standard (quem mandou querer ser diferente?). Quando o bebê vai crescendo a enfermeira pediatra também vai estar atenta a sinais de retardo no desenvolvimento motor, sensorial ou mental da crianca, por exemplo: se a crianca não segue o barulho de um chocoalho ou vira a cabeca para procurar pelo som; se a crianca não mostra interesse em aprender a caminhar, demora a comecar a falar, etc. Mas nenhum desses sinais tem um ponto pré determinado de quando devem acontecer e de como devem acontecer afinal, as consultas tomam cerca de meia hora e aí vai que o bebê não está afim? Quando Benjamin passou pelo controle de 18 meses a enfermeira deu alguns brinquedos para ele para que ela avaliasse a capacidade de concentracão e o desenvolvimento motor dele. Ele fez uma torre com blocos de madeira e depois viu um livro. E não fez mais nada, porque ele adora “ler”. Ela tentou chamar a atencão dele com outros brinquedos para continuar o teste mas ele não deu moral. Ela me pediu que eu entrasse em contato caso percebesse isso ou aquilo e depois, ficou de boas, dizendo que o Benjamin estava super saudável e se mostrava um piá esperto. Então, elas tem as ferramentas e seguem um protocolo, mas também sabem olhar fora da caixinha – ao menos, às vezes.
As enfermeiras do BVC também são uma espécie de orientadoras nutricionais e educacionais: elas dão informacões sobre como cuidar do bebê (podem até ensinar a trocar fralda), como amamentar (infelizmente, mal e porcamente), como fazer a introducão alimentar (só o tradicional mesmo), como tratar distúrbios do sono do bebê, como incentivar o desenvolvimento motor etc. Acredito que os palpites do BVC são bem interessantes mas nunca segui os conselhos a risca. Primeiro porque não concordo com a linha de pensamento do BVC em relacão a amamentacão, segundo porque gosto de saber o porquê das coisas e se alguém me manda um porquê sim eu já fico com preguica da pessoa e terceiro porque o próprio BVC diz que são orientacões; ou seja, ninguém é obrigado a fazer o que eles mandam. Inclusive, se há pais que por um motivo ou outro não querem vacinar os filhos, eles apenas tem que assinar um termo de compromisso de que recusaram participar do programa de vacinacão.
Se os pais do recém nascido não levam a crianca/bebê as consultas com o BVC passam a ser considerados suspeitos de negligência. Pelo bem e pelo mal acho que apesar de ser uma medida extrema é importante, principalmente se considerarmos que o sistema de saúde sueco não tem um foco preventivo e é para isso mesmo que o BVC existe, para que numa fase importante do desenvolvimento do ser humano seja possível identificar a tempo doencas ou condicões que possam afetar a vida do indivíduo. Se a família recusa o acompanhamento oferecido pelo BVC deve explicar o porquê da recusa e provavelmente – se o escritório de assistência social considerar necessário – serão acompanhados por outros meios.
Agora que vamos ter o segundo bebê já recebemos uma carta do BVC nos dando as boas vindas e informando que seremos acompanhados pela mesma enfermeira pediatra que acompanhou Benjamin. Eu gosto dessas coisas porque antes de nos enviarem essa carta nos fizeram uma entrevista para medir nosso grau de satisfacão. Apenas eu respondi a pesquisa que foi realizada durante uma das consultas de pré natal e acho que isso é um pouco falho… mas mostra que há a oportunidade de trocar de BVC e/ou mesmo apenas de profissional com o qual se tem contato se a família não está satisfeita.
O BVC é um servico gratuito e pode oferecer inclusive apoio às mulheres que tenham depressão pós parto ou que sejam vítimas de violência doméstica.

Barriga de menino

Acho que se há um ponto em que essa coisa de distinguir gênero é sensível na Suécia, esse ponto é a gravidez. É claro que estou baseando meus achismos na minha vasta experiência (de duas gravidezes) mas de certo modo parece que não é ok ficar falando do sexo do bebê durante a gestacão.
Veja bem, de forma geral os suecos se preocupam em despir as criancas dessa classificacão besta de “coisa de menino” e “coisa de menina”. Para a maioria o que existe é “coisa de crianca”, indiferente do sexo dela. Obviamente que ainda há muita diferenciacão e rotulacão – tipo, ainda é de certa forma aceito que meninos sejam mais violentos porque uai, é a natureza deles e se você entrar nas cadeias de lojas normais (tipo HM) vai ver as roupas de crianca separada em roupas de menino e roupas de menina; mas filosoficamente é muito importante dentro da sociedade sueca em geral combater o estereótipo de gênero. Daí que ninguém fica perguntando se eu sei o sexo do bebê porque o sueco quer dar a entender que isso não é relevante. É certo que do meu ponto de vista – um tanto extremo – eu acho que normalmente as pessoas nem conversam sobre a gravidez com uma mulher grávida – praticamente ignoram uma condicão gritante – mas se houver alguma conversa vai ser sobre como eu me sinto, quantas semanas de gestacão, é seu primeiro bebê?, você gosta de estar grávida?, foi planejado?, etc etc. Dentre os casais suecos que eu conheco nenhum deles perguntou o sexo do bebê no ultrassom. Não é incomum que a enfermeira que realiza o ultrassom de rotina (normalmente o único a que se tem direito em toda a gestacão) se recuse a falar sobre o sexo da crianca porque isso é um detalhe irrelevante.
O fim de semana passado eu estava em uma festinha e conversei com mulheres que vieram da América Central. Posso dizer que o comportamento delas me fez entender o quanto a galera pensa diferente desse lado do mundo: antes mesmo de perguntar se eu estava bem ou de quantos meses era a gestacão elas disseram que estava na cara que eu estava esperando um menino. “É um menino né? Tua barriga é barriga de menino”. Eu disse é… é um menino. E elas apenas continuaram naturalmente a tecer comentários de como era bom ter filhos homens, que até a gravidez é mais fácil porque a gente fica mais bonita. “Qualquer homem que te olhe detrás nem perceberia a gestacão, já quando a gente engravida de menina incha e vira uma bola”. Meninos são mais fáceis de cuidar, meninos são mais parceiros para com a mãe, meninos isso, meninos aquilo… ter dois então, dá-lhe guria sortuda.
Não posso negar que eu fiquei super feliz ao saber que esperava outro menino. Não porque eu acredite que a gestacão de meninos é mais razoável para conosco, mulheres, ou porque eu acredite que meninos são mais parceiros com a mãe. Em primeiro lugar, acho muito chato essa coisa de casal margarina que tem um menino e uma menina. Hoje em dia parece que, se você tem duas criancas, tem que ser uma de cada “espécie” porque né, é diferente. Tô pra ver uma mãe que diga que dois filhos sejam iguais, mesmo que estejamos falando de duas meninas ou dois meninos. Criancas são diferentes porque são seres humanos únicos, e não por causa do sexo. Em segundo lugar, não me entenda mal, mas eu acho que criar meninos é mais fácil – para o pobre coracão de uma mãe, não do ponto de vista educacional.
Do ponto de vista educacional é muito trabalho educar um menino para que ele não seja um machinho babaca daqueles que vê mulher como o segundo sexo. Para que não confunda pegada com estupro, para que entenda a diferenca entre sim e não, para que não pense que agir como um animal no cio é ok, para que não sinta aquela pressão de se mostrar valentão e macho man. Nesse aspecto inclusive é bom demais morar aqui porque há muitos exemplos de homem que fogem do estereópitipo padrão, e sabe a importância daquela história do “exemplo arrasta”? Então… normalmente quando se fala da Suécia feminista se descreve o empoderamento feminino como algo negativo que faz com que os homens sejam muito moles. Há cinco anos atrás quando desembarquei aqui fiquei chocada com essa faceta porque pra mim não casava não. Mas olha, nada que cinco anos não resolvam. Depois de acompanhar esse experimento de perto, vejo o quanto é positivo principalmente para os homens não precisar manter uma fachada de durão 24/7 e ter a liberdade de ser humano antes de ser homem. Ou mullher, afinal a Suécia é um país supimpa para se nascer menina.
Só que é isso né? A Suécia é um país supimpa para se nascer menina, assim como as vizinhas Finlândia, Noruega e (a nem tão vizinha assim) Islândia. Depois disso, não importa muito se você vai para direita, esquerda ou para baixo, a coisa vai piorando de padrão e ser mulher é tipo… no mínimo, difícil. E acredito que quando você é criada em uma sociedade “livre e igualitária” tem ainda mais problemas quando você sai do mundo das maravilhas. E há tipos de problemas que sempre serão mais preocupantes caso você seja mulher, tipo estupro e violência doméstica, e essa regra vale também para a Suécia. Mas daí eu tô falando das violências mais óbvias, nem estou falando de questões como direitos sociais, o papel ou lugar da mulher na sociedade, a liberdade de expressão, de ir e vir. Eu vivo angustiada com uma série de perigos que meu filho possa estar correndo, mas como mãe de menino não vou ter que ficar me preocupando com que ele seja vítima de violência doméstica quando ele crescer (a não ser que ele seja homossexual) ou estupro coletivo, assédio sexua no trabalho, salário mais baixo porque pode ficar grávido, ser descartado numa selecao para um trabalho por ter um perfil “errado”; essa coisas.
Eu tenho muito que aprender sobre igualdade entre gêneros e é bem capaz que esse sentimento seja a sombra de bom e velho jargão de que mulheres que parem meninos são mais abencoadas. Eu me sinto desafiada a fazer diferente já que eu sempre acreditei que a resposta para a mudanca de paradigma na quesão de iguadade entre homens e mulheres comecava em casa. E comeca mesmo, porque comecou a partir de mim. Agora eu quero dar ao meus filhos uma educacão baseada no amor e na empatia e que ajude a desconstruir a norma vigente de comportamente entre os sexos. Mas eu também já percebi que essa é uma tarefa bem difícil porque para além de descontruir meus preconceitos (primeiro eu tenho que aceitar que há algo errado para que eu queira e possa fazer diferente) para que eu tenha sucesso nessa empreitada tenho que contar com a ajuda do meio que me cerca: família, amigos, escola. E repito, geograficamente não poderia ter escolhido melhor, mas o desafio ainda é o mesmo: Benjamin me disse hoje que não queria uma bota de borboletas porque é coisa de menina. Ele tem dois anos e dois meses.
Quem foi que disse?

Maternidade colorida

Há coisas que ficam mais fáceis porque eu moro aqui. Isso é um fato que, na minha humilde opinião, mostra que o papo da meritocracia é só conversa para boi dormir (eu não vou explicar como não fiz por merecer para mudar para a Suécia. Chame de destino se quiser). Uma dessas coisas é a maternidade.
Comeca já na gravidez. Foi chocante para mim e assustador ter que aprender que gravidez não é doenca, mas no fundo… eles estão certos (oh my God, isso é difícil para caralho de dizer). Uma mulher grávida não está doente, está apenas vivendo uma condicão inerente de ser mulher. Não vou dizer com isso que toda mulher grávida está desfilando lindamente com seu barrigão (ou não), cheirando flores e suspirando de felicidade a cada chute do bebê. Estar grávida é uma bosta – com B maiúsculo – do ponto de vista hormonal. Sabe aquela TPM fdp? Tipo assim durante nove meses. Você chora, se acha feia/gorda/uma azeitona que foi trespassada por um palito ou uma elefanta com as pernas inchadas horríveis – quando você não está com a cara inchada e o nariz que lembra o nariz dos anões da Branca de Neve. Ou vive o êxtase que descrevi logo acima, ouve o cantar dos pássaros, sente o ar puro e se imagina Bundchen em pleno catwalking com os flash estourando ao seu redor. Há mulheres que tem problemas de saúde que se agravam durante a gravidez e outras que adquirem problemas durante a gravidez – já ouviu falar de hiperemese? diabetes gestacional? pré eclâmpsia? sínfese púbica? – relacionados ou não com a tempestade hormonal de que falei ali atrás. Mas o fato é que não estamos doentes. E ser tratada como uma pessoa normal que está passando por uma condicão especial – a de gestar – faz da gravidez um momento bem mais fácil de se viver. E fica mais fácil de curtir também.
Até o momento posso dizer que tive gestacões tranquilas. Na primeira delas praticamente não tive  enjoos, tive um pouco de dor nas costas e os incômodos costumeiros com achar posicões confortáveis para dormir etc quando você está com aquela barriga que mais parece com uma bola de pilates embaixo do couro da sua cintura. Ah, tinha os chutes também. Primeiro a gente sempre fica loucamente feliz a cada pequeno movimento do bebê e no final da gestacão a gente só pensa “ô moleque tira seu pé do meu pulmão que eu preciso respirar!”. Essa segunda gravidez está passando tão rápido que eu já nem sei ao certo em qual semana gestacional estou (só sei a dpp e acho que está bom não?), além do quê eu vivo como um zumbie. Não, não estou conectada com aquele jogo estranho do Pokemon. É “só” cansaco mesmo. Já tem umas semanas que estou tomando ferro como complemento mas estou ferrada mesmo porque não tem ajudado e eu simplesmente vivo me arrastando. Infelizmente nem sempre estou me arrastando para a cama, e eu sinto que meu dia seria mais fácil se eu pudesse tirar uma siesta depois do almoco – mas como eu não moro naquele país que eu não sei qual é que diz a lenda que as pessoas tem direito de dormir a siesta – eu apago tão cedo quanto Benjamin. Às vezes mais cedo do que ele na verdade, porque a bateria do meu piá é mais forte do que a minha.
Benjamin já percebe que algo está mudando. Uma pessoa cansada não é tão paciente – e eu me pego muitas vezes saindo de perto para não fazer aquelas coisas burras que pais cansados e estressados fazem com os filhos – o que eu sinto que não é nada bom. Nem sempre eu tenho a clareza de parar e explicar: olha meu filho a mãe está cansada. Então eu procuro dar alguns minutos do meu dia para ele em que eu possa estar bem focada. E isso eu só posso fazer porque tem um homem do meu lado que é pai.
Nessas horas de cansaco e estresse eu me imagino sendo mãe solteira, ou vivendo em um país em que a cultura dominante é do pai que ajuda (tipo o Brasil por exemplo). A mãe tem todas as obrigacões com o(s) filho(s) e a casa e o marido chega e descansa do trabalho, mesmo quando a mulher também trabalha fora. Ou o cara já largou a mulher, paga pensão e acha que faz uma grande coisa (aquela louca fica me cobrando, o que ela quer?, eu pago a pensão). Eu me imagino na outra ponta e me sinto aliviada porque estou apenas imaginando, porque eu quero e posso enquanto grávida e mãe tirar um tempo para mim, fazer comida quando meu estômago está revirando de fome sem ter um menino agarrado as minhas pernas e contar com a divisão das tarefas domésticas. Aleluia! Porque sim, porque isto ajuda demasiado a fazer a minha vida como mãe e grávida mais fácil, afinal, eu não preciso chegar ao ponto de espalhar papel higiênico sobre o tampo do meu próprio vaso para dar uma mijadinha com dignidade (e olha que a gestacão implica em muitas mijadinhas).
Eu vivo uma maternidade colorida. E me pergunto: como as mulheres que não tem disso sobrevivem? Porque eu não me considero fraca, eu gosto de um desafio e tenho pulso suficiente pra vencer o Rambo numa queda de braco se eu quisesse. Mas a maternidade quebra as pernas da gente. É uma correria 24/7, você fica planejando os próximos passos para tentar dar uma rotina e seguranca para a crianca (nem sempre dá certo, afinal, criancas são seres vivos imprevisíveis) e ao final do dia sente que… não sente. Não há como prever tudo e, provavelmente por causa do tipo de criacão que eu tive, eu vivo preocupada com o bicho papão que vai pular do guarda-roupa na forma do meu pior pesadelo – igualzinho como acontece no Harry Potter. Um exemplo simples: a gente saiu de férias uns dias e ficamos num apê com sacada no quinto andar. Uma sacada standard, com uma cerca standard. Passei a primeira noite praticamente em claro com medo de que o Benjamin caísse da sacada. Por quê? Sei lá, eu nem vi ele tentar subir. Mas eu não podia dormir. Criancas são criancas, não veem perigo e estão curiosas o tempo inteiro em que estão acordadas – e eu garanto, meu piá fica muitoooo tempo acordado para a idade dele. Vai quê? E eu não estou olhando. Se quiserem recomendar um terapeuta podem fazer isso na caixa de comentários – obrigada – mas eu me sentiria mais tranquila sabendo que outras mães vivem essas paranoias também (alguém levantou a mão aí?).
Eu vi uma mãe escrever no Facebook que queria um tempo da maternidade. Depois eu vi mais uma mãe escrevendo que trocava duas criancas por balas – alguém aceitava? – só para ela poder ir a academia. Loucas? Sem coracão? De modo algum. Às vezes me dá pena ver gente escrevendo sobre como a maternidade é bela, principalmente quando parte de pessoas que não são mães. Porque maternidade é linda, rosas são lindas, carro novo é lindo e casais apaixonados vivem grudadinhos. A gente aceita que a rosa murcha e morre, aceita que até carro novo dá problema, aceita que a paixão acabe mas não aceita de forma alguma que uma mãe diga que maternidade é um saco. Não se ela não usar as palavras mágicas e colocar um “mas… vale a pena” na mesma frase. Vale a pena? Não. Do alto da minha maternidade colorida eu acho que não vale a pena. Ser mãe é literalmente levar na cara o tempo inteiro e é super bom quando estamos cheias de hormônios gestacionais e da amamentacão, mas depois que eles somem do corpo a coisa vai mudando de figura. Eu cheguei a rasa conclusão – baseada nos meus parcos conhecimentos teóricos e empíricos a respeito do tema – que maternidade é uma coisa instintiva e puramente animal. A gente tem que trabalhar e muito para que ela não seja baseada em trocas – tipo eu te cuido agora e você me cuida quando estiver velho, eu te sustento agora e você me sustenta daqui uns anos – e parar de ver a maternidade como se a gente fosse a virgem Maria se doando pela maior causa da humanidade. Não porque não possa ser doacão, eu acredito conhecer mulheres que tomaram uma decisão de se doar integralmente a maternidade e que curtem isso. Não quer dizer que elas achem super todos os dias da semana, correndo atrás dos filhos, limpando vômito, bunda, mijo, fazendo comida, balancando o menino doente num braco e limpando com o outro – não exatamente nessa ordem e muitas vezes tudo ao mesmo tempo – sem pensar um “aonde foi que amarrei meu burro?”. Mas tudo bem se elas pensarem. Tudo bem se eu pensar. Posso compartilhar com algumas outras mães, mas jamais dizer em voz alta. Não se eu não usar as palavras mágicas na mesma frase.
Se você é uma das mães que vai morrer dizendo que maternidade é sempre linda ou que maternidade é padecer no paraíso não me odeie. Eu não te conheco e não estou te criticando, só penso diferente. A maioria das mães que eu conheco vivem aquela agonia louca de amarem muito seus filhos e ao mesmo tempo odiarem – não em tempo integral – a maternidade, principalmente por causa dessa opressão absurda de que a gente tem que dizer que tudo bem, tudo bem, tudo bem, quando não está bem; e ouvir um: “mais vai passar… é fase”. É engracado que a maternidade é feita de uma série de fases difíceis em que a maioria das mulheres está arrancando os cabelos, mas é uma coisa linda demais, um dom de Deus. “Olha que esse tempo vai passar rápido demais e você vai sentir saudade”. Sim, já sinto saudades das coisas lindas e charmosas que meu piá fez enquanto bebê, mas não sinto saudade da trabalheira que era dar conta de todo o resto que envolvia o fato de ele ser bebê. E quando eu penso que mais um está chegando… mas, espera, é uma fase e vai passar.
Eu não consigo entender o paradoxo. Talvez seja cedo demais. Talvez seja porquê meu cérebro de alguma forma estagnou naquela fase que a maioria das pessoas vive entre os 3 e 5 anos quando você irrita infinitamente todos os adultos ao redor fazendo um milhão de perguntas a respeito dos “porquês”. O meu porquê atual é mais um para quê: para quê – e para quem – romantizar tanto a maternidade quando ela é uma coisa tão difícil?
Isso, e eu já falei que vivo uma maternidade bem mais descomplicada aqui na Suécia?