Diário Caipira-83

Hoje no trabalho a minha chefe me perguntou se estava tudo bem, disse que eu parecia cansada e que se algo relacionado ao trabalho estivesse me deixando aflita eu poderia falar com ela. Me deu um calorzinho no coração, me senti feliz.

Quando cheguei em casa minha sogra me diz: “nossa, você parece cansada. Temos morangos e sorvete”. Minha sogra sabe como animar alguém.

Falei com a minha mãe. Ela me disse… que eu parecia cansada. Que eu deveria tomar sol e comer bastante frutas silvestres, ricas em vitamina C. Eu sorri com meus botões… mãe tem um radar que mesmo a 12 mil km de distância nada passa despercebido.

Eu falei com uma amiga pela telefone. Ela estava muito triste e chorou. O pai dela está do outro lado do mundo, internado e hoje foi colocado no respirador por causa do corona. Eu queria dar a ela um verdadeiro abraço, mas ela não mora aqui… espero que eu tenha conseguido consolar a ela da mesma forma que fui acolhida hoje pela minha chefe, minha sogra e minha mãe.

Se você se sentir a vontade, pode fazer uma prece pelo pai da minha amiga?

Diário Caipira-82

A cidade de Gotemburgo estava pondo em prática um plano de ação para se tornar uma cidade onde não se usa papel nas repartições públicas do município. Mas, como não temos um sistema que envia decisões importantes eletronicamente de forma segura, ainda imprimimos várias cartas por dia. Hoje mesmo enviei ao menos cinco.

Enfim, já que não podiam economizar nas folhas A4, decidiram economizar no papel toalha. Nenhum banheiro do nosso escritório (que foi recentemente reformado) contava com cestos de lixo pra papel. Então, o corona aconteceu e agora os planos de Gotemburgo de se tornar um cidade livre do papel foram por água abaixo: temos papel toalha nos banheiros novamente. O que é muito melhor do que aquele jato de vento que somente espirra a água das mãos para a parede – que fica nojenta.

Assim que, na minha humilde opinião, o corona é uma bosta. Mas até que trouxe de volta certas coisas boas.

Diário Caipira-81

Trabalhei de casa. Duas vezes.

Pontos positivos: chove cântaros. Não preciso escolher entre ficar super molhada indo trabalhar de magrela ou tomar o transporte coletivo. Faço a pausa para o cafezinho e posso dar um beijo nas crianças, até mesmo ler uma história curta. Às 16h basta fechar o computador e recolher minhas coisas, enfiar na bag do trampo e… já estou em casa.

Pontos negativos: é péssimo atender gente chata a partir de casa. Meio que contamina o ambiente. E eu não posso desligar o telefone. E tenho de lidar com uma porrada de gente chata. É uma lástima que parece já ver grudada na gente sempre que trabalhamos em repartições públicas. É deveras sensível o que posso ou não posso falar também, já que trabalho com questões delicadas e com dados sigilosos.

Disse isso para as crias: mamãe trabalha com coisas que são segredo. Ninguém pode saber. Então a porta tem que ficar fechada e vocês não podem ficar ouvindo quando a mamãe está ao telefone. O papai não pode entrar aqui porque ele sabe ler e ele não deve ler nada do que a mamãe escreve. É um segredo secretissimo.

Os dois saem correndo do “escritório”. O mais novo grita:

– Papai, a mamãe tem um segredo que é uma surpresa pra você!!

Diário Caipira-79

Nos últimos dias vi uma série de pessoas declarando nas redes sociais que se sentiam idiotas por continuarem cumprindo a quarentena quando “todo mundo” não está nem aí.

Fiquei pensando em alguns comentários deixados aqui nos posts que escrevi… comentários cheios de acusações e julgamentos baseados nas poucas linhas desse diário sem pé nem cabeça. Não só julgando as minhas atitudes como a atitude do povo sueco em geral e a frieza com que nós aqui estávamos jogando com a vida dos outros (aqueles que fazem parte dos grupos de risco). Eu apaguei todos esses comentários, tanto na página do Facebook quanto aqui no próprio blog. Simplesmente porque eu quero guardar aqui tudo o que foi positivo que permeiou esse tempo já tão difícil e cheio de incertezas.

Não tenho a mínima dúvida de que a manobra do governo sueco foi e é arriscada. Também não tenho a mínima dúvida de que essa manobra trouxe muito sofrimento para quem, como eu, esperava um lockdown a qualquer momento. Eu não faço parte do grupo de risco e vi muita gente que faz parte tendo de arcar sozinha com a própria proteção. Ao mesmo tempo, não se deu ao povo brasileiro, que estava fazendo lockdown, a possibilidade de ficar em casa; milhares de famílias no Brasil não contam com a mínima estrutura para fazer isolamento.

A cada vez que eu vejo alguém bravo nas redes, compartilhando filmes ou fotos de locais lotados – shoppings, restaurantes, bares; com o comentário tipo “me sinto um otário, blá blá blá, mas estou em isolamento”; eu imagino a história daquelas pessoas aglomeradas: será que elas queriam estar ali, se foram pegas naquele momento que saíram pra fazer algo essencial; ou se realmente estão dando de ombros para o mundo.

A gente sempre sai com medo. Só sai de carro. Nunca leva as crianças no mercado, em nenhuma loja (comprei chinelos enormes para eles); compra praticamente tudo online; sempre conto o número de pessoas presentes em cada local que entro; estou com as mãos ressecadas de tanto lavar; mas não estou em isolamento, não posso trabalhar remotamente… Eu tô na rua todos os dias. Poderia ser eu numa dessas fotos de gente aglomerada.

E só pra você, que está cumprindo o isolamento saber: também queria poder ficar em casa. Que tal sermos mais carinhosos uns com os outros? Tá super difícil pra quem está em casa, mas também tá difícil pra quem não pode ficar no seu canto.

Diário Caipira-77

Desde o solstício de verão os dias tem ficado mais curtos, mas ainda há claridade até meia noite e às quatro da manhã é possível andar pela casa sem acender as luzes.

Normalmente não me afeta. Não sei se é a situação atual, da pandemia, as coisas loucas que andam acontecendo na América do Sul (gafanhotos e ciclone), mas muita coisa parece de cabeça para baixo… assim que essa semana foi difícil. Dormi mal, sonhei sonhos estranhos e estava muito cansada.

Assim que estava fazendo crochê as quatro da manhã. Ajuda a pensar em outras coisas… e a relaxar. Mas não ajuda a repor as horas de sono perdidas. O que eu devo fazer esse fim de semana para não acabar ficando angustiada.

Eu vi algumas pessoas compartilhando textos sobre ansiedade nas redes sociais. Fico feliz, acho que é positivo. Temos que falar mais sobre transtornos psíquicos. Eu fico muito ansiosa e angustiada de uma maneira que ultrapassa o normal. Com o tempo a gente vai aprendendo a lidar. Mas o que mais importa pra mim é saber que não estou sozinha.

Assim que se você estiver lendo e sofre de ansiedade saiba que passa. E que você não está sozinha/o.

Diário Caipira-76

Está aberta a temporada de mirtilos, os famosos frutinhos silvestres azuis. Essa gostosura dá em arbustos do altura perfeita para acabar com as costas de quem quer que seja que não fique de cócoras pra colhe-los.

Felizmente temos um bosque do outro lado da rua com mirtilos suficientes para fazer a alegria dos meus filhos. Assim que fomos colher frutos silvestres hoje. E eu nem tive que arrastar as crias porta afora apesar do vento gelado (estamos no meio do verão mas… e daí?). O problema, ou melhor, os problemas são: um que se joga no meio dos arbustos sem pensar nos carrapatos e um que não quer entrar no bosque, apesar de desejar de todo o coração colher frutinhas.

Estávamos nem cinco minutos fora quando reconheço no filho o rebolado do “Preciso fazer xixi mas tem alguma coisa rolando agora e eu não quero parar o que estou fazendo”. A casa está a apenas 70m de distância mas eu acabei agora mesmo de convencer o pequeno que não quer entrar no bosque que não há problema em pisar no musgo, nem na grama, nem nos demais arbustos, folhas secas, galhos secos, pinhas, pequenos insetos e tudo o mais que existe no bosque quando nosso intuito é colher frutos que estão dentro do bosque. Com dor na consciência eu apenas:

– Mija aí mesmo, filho. Só não faz xixi no blåbär (se diz algo como blô-béérr) pois senão ao invés de blåbär vai ter blô-blé (a gente sempre usou “blé” pra nominar coisas nojentas).

Riram tanto que teve alguém que esqueceu que estava no bosque.

Diário Caipira-75

Dia desses fizemos uma brincadeira besta no trabalho pra aprimorar o espírito de equipe: haviam cartões com perguntas e cada um deveria tirar um pra falar um pouco de si.

Eu tirei o cartão “conte alguma coisa emocionante que você fez”, ao que respondi: viajar de avião pela primeira vez. Os meus colegas ficaram me olhando com cara de “jura?”. Acho que é difícil para pessoas que viajam de avião desde que usam fraldas entender a sensação de entrar em um avião pela primeira vez já na idade adulta. Eu tinha 27 anos e além disso, eu estava voando do Brasil para outro continente pela primeira vez.

Eu me arrumei toda porque o Joel estaria me esperando no aeroporto mas também porque parecer uma moça pobre e perdida poderia fazer a imigração pensar que eu era uma latina pisando na Europa pra me prostituir. Suecas nunca entenderão a merda que é voar da América Latina para cá sozinha, sendo mulher, ainda mais pela primeira vez. Eu estava me cagando de medo de ser enviada de volta, porque eu não poderia comprar outro bilhete assim, num curto prazo de tempo. Talvez nem num longo prazo.

Hoje fazem dez anos desde que botei os pés na Suécia pela primeira vez. Daquela vez era pra passear apenas…

Se eu soubesse.

Memórias Encaracoladas -11

Esse fim de semana fez um calor digno de Brasil. Eu estava suando às 9h e pude caminhar na chuva sem tiritar apenas de short, regata e chinelos.

Se, por um lado, esses dias grudentos tem um quê de Brasil; por outro não parecem em nada com minha terra natal. Essa coisa de camping, caracol, os lagos suecos, o fast food da viagem, as almôndegas (perfeitas para refeições em uma mini casinha que tem um mini fogão) e pasta… tudo isso é extremamente sueco pra mim.

Me dá uma sensação de viver um sonho, uma realidade paralela onde há sol quente, tempo abafado carregado de nuvens prontas a despencar uma chuva de verão, mosquitos (muitos), suor e aquela leseira típica das tardes calorentas; e também pinheiros, lagos, lagos e mais lagos, trailers (muitos trailers), almôndegas, batatas e o cheiro incessante das churrasqueiras grelhando hambúrguer e salsicha.

Tudo embolado, enrolado, surreal… minhas memórias estão ficando encaracoladas.

Diário Caipira-73

Reflexões do dia:

Uma amiga querida me enviou um texto da Lígia Sena, a Cientista que Virou Mãe. Um texto pra discutir normalidade. Qual a normalidade que queremos? Porque agora está bem comum sentir falta do normal, apesar de que a gente sente que o “normal corona” de certa forma é o cotidiano.

Não, eu não quero de volta a normalidade pré corona. Ao menos não fora da área específica da minha vida relacionada ao trabalho. Eu quero meu trampo de volta, aquele antes do corona. Mas de resto, eu quero transformações radicais. Quero que a bandeira da revolução francesa deixe de ser apenas uma bandeira e passe a ser realidade.

Eu quero principalmente que o mundo seja melhor para as mulheres. E se o mundo “normalmente” é um lugar ruim para nós, o mundo pós corona se tornou ainda mais complicado: aquelas que podem se manter em isolamento estão expostas à violência doméstica; aquelas que não podem estão expostas à violência estrutural e de classe e todas suas consequências, além de estarem expostas ao virus.

Não sei por onde começar. Às vezes acho que vivo em uma bolha, cercada de gente que sonha os mesmos sonhos que eu. Porque mesmo cercada desses “hippies” a coisa não anda e os presidentes do mundo são gente lá do outro polo, eleitos pela maioria que está contente com a normalidade e assustada com direitos sociais e igualdade.

Fazemos um inferno para nós mesmos e nossos filhos enquanto rezamos pelas bênçãos divinas e para que possamos, um dia, entrar no paraíso.