Diário Caipira-60

Tô treinando meus dotes. Vamos fazer um crochê coletivo e eu consegui pela primeira vez fazer um círculo que não virasse um cone. Tô me achando a crocheteira.

Eu queria dizer algo sobre o #BlackLivesMatter. Mas eu não acho que preciso dizer o óbvio: eu sou racista. Talvez não seja uma racista agressiva, mas falo bastante sobre isso com uma amiga negra e ela me ensina muito, às vezes sem nem pensar que está me ensinando e eu percebo o quanto a gente é racista justo por pensar que racismo era coisa lá do tempo da juventude do meu pai – que quase não casou com a minha mãe porque é preto.

Entonces, eu não tenho que dizer nada. Preciso refletir e mudar. Aí sim, vou mostrar na prática que #VidasPretasImportam.

Diário Caipira-59

O governo sueco retirou hoje as restrições em relação à viagens dentro da Suécia. Isso significa que a partir de 13 de junho as pessoas poderão viajar livremente pelo país.

Até o momento a recomendação era de que as viagens deveriam ser de no máximo duas horas de carro do ponto de partida. Mas já que os suecos não podem pisar em outros países parece que o governo decidiu ao menos consolar os cidadãos com o fato de que eles podem ir para Gotland.

Isso porque o número de pacientes que estão sendo tratados na UTI está sob controle ao mesmo tempo que há mais testes disponíveis. O governo diz que a abertura atual depende de como os cidadãos irão se comportar. Se houver denúncias a respeito de aglomerações ou se o número de infetados subir novas medidas de contenção serão tomadas.

Essa semana a polícia sueca repreendeu uma manifestação em Estocolmo que foi convocada para apoiar o movimento #BlackLivesMatter. A polícia havia liberado uma licença para uma manifestação de no máximo 50 pessoas (seguindo as recomendações de distanciamento) acontecesse, mas cerca de mil pessoas compareceram. A confusão gerada dividiu opiniões. O direito de formar assembleias e se manifestar na Suécia é muito forte… Ao mesmo tempo, Estocolmo foi a região que mais sofreu com a pandemia até agora.

O número de testes disponíveis aumentou. Mas ninguém sabe ao certo a porcentagem da população que já esteve doente com corona ou que está doente agora.

Estou aliviada que eu vou ter férias em breve.

Diário Caipira-58

Acho que a vida na Suécia mudou bastante por conta da pandemia. Não foi nada radical como o que aconteceu durante o período de confinamento na Itália. Mas, só pra citar um exemplo: essa semana recebi um e-mail da companhia de transporte coletivo aqui da região (västtrafik) onde a empresa pede as pessoas que não usem transporte público se não for por motivos profissionais. Um e-mail no tom “fique em casa, pelo bem de todos” quando o normal era o contrário.

Eu cheguei a conclusão de que a estratégia sueca primária não era salvar vidas; ao menos não diretamente. Essa é uma opinião simplesmente baseada no achismo e não vale para usar como nada além disso mesmo: um achismo. Todas as vezes que ouço a coletiva de imprensa da Agência Nacional de Saúde Pública se fala da estratégia sueca de enfrentamento ao Covid-19 como se o mais importante durante todo esse tempo tivesse sido administrar o número de casos graves de modo que o sistema de saúde não entrasse em colapso.

Obviamente um sistema em colapso faria com que o número de mortos fosse ainda maior do que é. Eu estou assim com essa impressão de que a idéia era: preservamos o sistema de saúde e o número de mortes será controlável. Mas não foi. E a Folkhälsomyndigheten está até agora sem entender quem foi o caminhão que passou por cima deles.

Ao mesmo tempo, o chefe da agência de saúde virou tipo uma estrela. Tem gente que tatuou o rosto dele. É. Eu sei. Bizarro.

Essa semana não estou muito confiante na estratégia sueca de contenção.

Diário Caipira-57

Desde o final de semana tem feito sol e um tempo gostoso. Me lembra a primavera no sul, com as manhãs e noites geladinhas e os dias com um sol gostoso…

A temperatura está suficiente pra arriscar uma saia ou vestido… Não fosse por causa de um troço complicado chamado ventilação. A ventilação é super importante no local de trabalho pois serve para que o ar não fique parado dentro do edifício mesmo que todas as janelas estejam fechadas. Seria maravilhoso simplesmente abrir as janelas pra deixar passar um ar no escritório mas você leva um pito só de pensar em fazer isso.

Abrir as janelas desregula a ventilação e quase mata o povo que tem alergia a pólen de flores ou de grama. É outra característica típica do verão sueco: nuvens de pólen. E pessoas alérgicas espirrando sem parar, com dor se cabeça e sem pode respirar. Então não é realmente legal abrir as janelas. Daí que a ventilação está programada pra soprar um ventinho mais fresco nesses dias de calor… e como resultado passamos frio dentro do escritório enquanto do lado de fora faz um daqueles poucos dias em que é possível suar em Gotemburgo.

Felizmente terei férias em breve… quando as temperaturas estarão em média sete graus mais baixas de acordo com a previsão do tempo.

Murphy explica.

Diário Caipira – 55

Vinte graus e sol.

Vinte graus, sol e vento frio.

Vinte graus, sol, vento frio e areia quente sob os pés.

Vinte graus, sol, vento frio, areia quente sob os pés e as crianças que correm pra dentro e pra fora d’água gelada do lago.

Vinte graus, sol, vento frio, areia quente, as minhas crianças que correm pra dentro e pra fora d’água gelada do lago com os lábios azuis, a pele arrepiada e o queixo batendo.

Vinte graus, sol, vento frio, areia quente sob os pés, as minhas crianças correndo pra dentro e pra fora d’água gelada do lago com os lábios azuis, a pele arrepiada, o queixo batendo… e eu tentando convencê-las que tem que se secar, esquentar o corpo, ir pra casa.

Vinte graus, sol, vento frio, areia quente sob os pés e crianças que fazem “birra” porque não querem sair de dentro da água gelada do lago.

Vinte graus, sol, vento frio, areia quente sob os pés; uma mãe brasileira de casaco tentando convencer pequenos vikings a sair da água gelada de um lago por morrer de medo do “vento torto” que tanto falavam lá no Brasil (vai que esse menino pega uma pneumonia!).

Ah, hoje é dia das mães na Suécia. Feliz dias das mães a todas nós que precisamos enfrentar as desventuras de ser mãe longe de casa e sob choque de cultura constante; mesmo quando fazem 20graus e tem sol.

Memórias de um Caracol-3

Quando a gente sai encaracolar sempre faz bastante paradas. Só porque é legal fazer isso e pra transformar a viagem em si (que pode ser um tanto chata), em algo mais bacana. Além disso rola meio que um ritual e todo mundo de trailer ou de “motorhome” para bastante.

Nessas paredes sempre dá pra ver uns caracóis gigantes e cheios de paranauês. Normalmente tem a ver com tecnologia, conforto, mas depois de uma determinada faixa de preço é só… luxo mesmo. Nosso caracol funciona a gás e luz elétrica. Gás para cozinhar, mas também como fonte de energia para manter a geladeira funcionando quando não há possibilidade de ligar na luz e ligar o aquecedor. Pode crer que o aquecedor é necessário durante a noite.

A gente (marido) fez umas adaptações e temos um painel solar que carrega a bateria. A geladeira e o aquecedor precisam de muita energia e não funcionariam apenas a base da bateria mas assim temos lâmpadas e tomadas funcionando mesmo se não estivermos conectados a rede elétrica.

Geladeira pra guardar comida, fogão pra cozinhar e calor. Ah, isso e mais o banheiro e voilá, temos um fantástico caracol.