Diário Caipira-107

Ainda temos mirtilos apenas alguns metros da porta. Ainda há framboesas no quintal. O verão e suas frutas que eu adoro.

Já que eu posto pouca foto de comida…

O verão e suas cores que eu amo. De certo modo, a natureza nos lembra que tudo é ciclo, tudo passa. Nós passaremos… mas as cores do pôr do sol continuarão as mesmas.

Diário Caipira-106

Hoje pela manhã meu café da manhã foi interrompido por outra atração no céu: um balão de gás. A gente costumava ver vários deles durante o verão mas, à exceção de uma vez há uns três anos quando um balão voava tão baixo que parecia que ia cair em cima da nossa casa; nunca tínhamos visto um assim tão pertinho.

Falando das coisas que são um tanto incomuns de se ver por aqui parei para dar uma prosa com a vizinha. A gente sempre conversa no verão, aquele papo por cima da cerca (oi, tudo bem? Ah! Estão de férias? Como tuas crianças cresceram; etc) e hoje ela estava por ali e eu parei para a prosa do mês. Papo vai e vem, estávamos falando de gatos e cachorros e eu contei a ela que vimos um texugo no lote do outro vizinho. Esse bicho tem a fama de ser mau humorado e de morder forte e atacar crianças. Como a gente tem gata e eles uma cachorrinha que vive fugindo, achei por bem comentar.

A vizinha então me contou que quando eles se mudaram para essa casa costumavam ver um texugo no mesmo local que nós vimos. E que achavam que eles tinham desaparecido da nossa região já que faziam tempos que essa toca em específico estava desabitada. E acrescentou que viu uma cobra saindo do nosso quintal para o deles, com cerca de um metro e meio. Ela já tinha dito isso para o Joel. Mas ele não acreditou muito na história… uma cobra desse tamanho morando no meio das framboesas e dos rododendros? Tudo bem que há bastante “mato” no nosso quintal que definitivamente não é um jardim desenhado e “clean”. Mas enfim…

Cobra, esquilo, alce, veados, lebres e um texugo… acho que logo poderemos abrir um zoo.

Diário Caipira-105

Ontem, quando estávamos no meio do bosque, um caça passou voando baixinho e deixando quase todos surdos. Hoje, pela manhã, a mesma coisa.

Desde que a pandemia explodiu temos visto menos aviões nos céus. Nos últimos dias o tráfego aéreo cresceu um pouco mas ainda não é como antes de março. Como moramos razoavelmente perto do aeroporto sempre ouvimos muitos aviões de passageiros passando. Assim também como helicópteros, porque estamos próximos ao hospital. Mas caças… bem, essa é uma novidade.

Dois dias seguidos. É bonito ver aquele avião que realmente lembra um avião de papel rasgando o céu. Mas sempre me dá raiva ter a ciência de que se trata de uma arma de guerra. Caças não são usados para impressionar cidadãos com o seu barulho ensurdecedor e seu desenho bonito.

Mas espero que seja só isso mesmo.

Diário Caipira-104

Fomos para o meio do mato, de novo. 1.8km, os meninos de bike, o menor aprendendo ainda com aquela bicicleta sem pedais… o percurso de 25 minutos, segundo o google demorou 120 minutos.

Ele para. Conversa. Olha a borboleta. Olha a lagarta. “Aqui tem que parar, tem pedras”. “Aqui eu não aguento a bicicleta mãe, é subida”. “Fiquei suado”. “Quero água”. Tira o capacete e se agacha porque descobriu o carreiro das formigas. Observa. Conta: “1, 2, 4, 3, 9, 10 formigas! Muitas formigas!”

Está quente demais, eu posso adivinhar o lago logo ali no meio do bosque. Tive paciência 1.75km e agora eu só quero entrar no mato e me jogar na água tão logo quanto possível pra me refrescar. Olho pra trás pronta pra soltar um “vamos agora piá que a gente tá andando a passo de lesma” e me deparo com uma mãozinha estendida segurando uma florzinha amarela.

– Mamãe, uma flor para o seu chapéu! Pra você ficar bonita!

Engulo a frase. Com a flor vem o download de paciência a 1Gb por segundo. Eu pego a flor, ajeito no chapéu.

– Fiquei bonita?

– Uhum.

Pego ele numa mão, a bici na outra e a gente dá mais quatro passos antes de ele parar de novo.

Diário Caipira-103

Calor, de novo. Muito calor pra ser Gotemburgo, mas eu quero deixar muito claro que não estou reclamando.

Hoje liguei pra uma autoescola. Pra pedir os preços pra tirar carteira. Eu não acredito que vá passar na prova teórica ou de direção. Eu já fiz as duas (Há anos, é certo) mas de uma eu não entendia a ambivalência das questões e da outra, eu estava tão nervosa com a cara da avaliadora que eu já sabia que tinha reprovado antes do teste terminar.

É uma das minha piores inseguranças: se eu estiver fazendo qualquer coisa que seja e sinto que há uma interrogação a respeito do que eu estou fazendo, eu fico nervosa e não consigo continuar. Não tem a ver com pagar mico; eu posso ser uma palhaça e deixar os outros rirem da minha cara comigo (ou contra mim). Mas se eu estou fazendo algo e vejo aquela ruga na testa da pessoa, aquela no meio dos olhos que normalmente antecede um p*que o pariu!… perco o compasso.

Não tenho a mínima vontade de passar por isso de novo. Mas o dever me chama e não vai dar pra levar os dois piazinhos pra escola no inverno sem um carro… vamos ver o que vai dar.

Diário Caipira-102

Dia quente de novo e a gente queria achar um canto sossegado pra ficar com as crias. Temos um mapa com as trilhas da região e assim escolhemos um lago no meio de um bosque próximo. Sem praia, mas também sem uma multidão. Suecos não sabem o que fazer quando a temperatura está acima dos 25 graus e eles não estão na água.

Ainda há mirtilos nos bosques e alguns deles estavam bem gordinhos. Tanto que lembravam os mirtilos americanos, bem maiores do que os suecos, mas que não são azuis (nem tão gostosos). Saímos do bosque literalmente roxos de tanto colher e comer mirtilo.

Há lindas libélulas azuis nos lagos daqui. Não lembro de ter visto libélulas azuis no Brasil, mas aqui sempre as vejo nos lagos. São menores, mais parecidas com uma borboleta de asas transparentes. Já tentei tirar fotos mas, além de ser uma fotógrafa amadora muito amadora as bichinhas são muito rápidas.

Mirtilos azuis, libélulas azuis, um dia de céu azul. Bocas roxas, línguas roxas e alguns roxos a mais nas canelas por ter batido nas pedras. O verde escuro do bosque em contraste com o azul do céu e o caramelo dos lagos suecos. (Porque, talvez você que já visitou um lago sueco no meio dos bosques sabe que a água é cor de coca cola, que parece caramelo vista de perto mas tem quê de preto quando a gente olha de longe não é?)

Se esse dia tivesse nome seria cores de um dia de verão.

Diário Caipira-101

Tem dias que eu penso que tô lendo algum tipo de distopia quando olho as notícias. Eu me pergunto quem é que está escrevendo o roteiro dessa bosta e lembro que todo mundo junto está contribuindo, querendo ou não. Aí minha esperança vai parar no fundo do fundo do poço.

Porque, sério mesmo? A gente já discutiu com gente que acredita que vacina provoca o autismo, já revira os olhos com terraplanistas, não consegue acreditar na pachorra dos PhDs de YouTube e (acho que também vou começar a dar carteirada) e agora tem que ler gente defendendo que tomar no koo é o melhor remédio contra Covid.

Como se o brasileiro não estivesse sendo submetido a isso mesmo (subjetivamente) há décadas, agora vai levar a frase ao pé da letra. Porque, como me disse uma parente distante: “a gente tem que tomar azitromicina mesmo, e ivermeticina também, porque se isso ajuda no combate ao Covid é o que temos antes da vacina…” Partindo dessa lógica, o que é que há demais em enfiar ozônio no olho que tudo vê?

Estamos enterrando a humanidade com um belo dumper e uma escavadeira Caterpillar. Tomar antibióticos sem necessidade não mata vírus, fortalece as bactérias que em breve serão imunes aos medicamentos existentes. Aí quando as pessoas voltarem a morrer de uma simples infeção na unha, no pós operatório de apendicite e crianças ficarem surdas por causa de infeção de ouvido vamos poder agradecer a todos os idiotas que tomaram antibióticos contra um vírus. Se você é um deles, obrigada por tornar o futuro dos meus filhos um pesadelo; tudo que desejo é que você pare já de usar antibióticos sem necessidade e comece a usar ozônio… seja lá onde for.

2020: o ano que nunca acaba e que está esfregando na nossa cara diariamente o quanto o homo sapiens não tem um pingo de sapiência.

Memórias de um Caracol-14

Há um coelho no camping. Não era uma lebre, era um coelho doméstico. Imagina a cena: um casal, com barraca, cachorro, uma criança de uns 9 anos, um flamingo inflável enorme e, um coelho. Levaram um cercadinho que botaram na grama e, lá dentro, um coelhinho preto e marrom, de olhos muito atentos, focinho nervoso e pelo super fofinho.

Foi a primeira vez que vi “coelho acampar”. Mas a novidade maior foi que meu piá entendeu que é possível ter coelhos de estimação.

– Mamãe, esse coelho mora aqui no camping?

– Não. Eu acho que o coelhinho é da menina.

Espanto. Que rapidamente muda pra revelação:

– Então a gente pode ter um coelhinho assim em casa?! Por favor mãe, vamos cuidar de um coelhinho fofinho?

Diário Caipira-cento e alguma coisa

Hoje fui ao dentista e ganhei uma estrelinha. Saí de lá e fui comprar um presente na loja de bebidas, um vinho. Na loja de bebidas, ganhei outra estrelinha (porque só pode comprar bebida alcoólica maiores de 20 anos e a caixa me pediu pra mostrar a identidade).

Eu estava ouvindo um programa na rádio, o Sommar i P1, com uma ilustradora. Ela estava falando das vezes que ela escreve pequenas cenas do dia a dia pra usar no trabalho dela. Eu decidi fazer essa experiência:

*À caminho do dentista encontro com uma senhora idosa pedalando de shortinho e biquíni. Não estava na praça do bairro, mas estava totalmente a vontade.

*Crianças gritando e correndo no charafariz do parque, enquanto as mães estão sentadas nas proximidades sorrindo e conversando com outras mães. Todas as mulheres usam véu.

*Um senhor num parque ouvindo música com enormes fones de ouvido.

*Um grupo de homens e uma mulher bebendo (muito) em um outro banco, um pouco mais distante do parque.

*A criança que foge da mãe no banheiro e diz que não vai lavar as mãos. A mãe cansada que apenas retruca: se não lavar vai pegar corona.

*Uma toalha do Grêmio. Sim, olhei de novo e tenho certeza: há um gremista no camping (ou alguém que recebeu a toalha de presente).

E vocês, o que viram hoje?

Memórias de um Caracol-13

Fomos fazer uma trilha num monte muito parecido com o morro do Chapéu que tem lá no Paraná. Inclusive o morro chama Virsehatt, que é a junção da palavra Virse e chapéu.

A trilha era curta, um quilômetro, mas era bem ingrime. Por sorte havia uma caça ao tesouro digital pela trilha e a gente pode ouvir uma história do local (baseada em fatos reais) que ajudou a atiçar o espírito de aventura nos meninos. Praticamente no fim da trilha havia um Troll fingindo dormir entre as pedras. Foi a sensação.

Voltamos pra casa sem conseguir encontrar o tesouro. Não aquele que estava enterrado, ao menos…

Encontre o Troll

Memórias de um Caracol-12

Estamos fugindo de Gotemburgo já que só quer chover. Levamos uma boa parte do dia empacotando e organizando o caracol. Parece que quando a gente dá um tempo disso perde a prática e tudo fica bem mais complicado.

Agora estamos no campo, não em um camping. Só curtindo passear mesmo, brincando de casinha e aproveitando que aqui o céu abriu e o sol deu as caras. Amanhã veremos se nos encaracolamos em algum cantinho ainda mais ensolarado.

Desejem-me sorte!