Diário Caipira – dois e meio

Estou quase vesga de tanto ficar na frente da tela hoje. Se for contar, provavelmente houveram dias em que eu realmente passei das oito as 16 encarando o computador. Mas como eu estava em casa alguns dias parece que tudo vale em dobro. E, de alguma forma, dei uma mau jeito no pescoço e estou com torcicolo.

Talvez a própria tensão no trabalho seja o agente causador (stress pode causar esse tipo de dor muscular?). Enfim, eu estava pensando que acho que o sueco define melhor a condição (nackspärr – pescoço travado) do que o português. É verdade que o pescoço pode travar de um jeito torto, o que dá aquele ar de que a pessoa está torcendo a cabeça. Mas é fato de que é justo o fato de não mexer como deveria que incomoda mais.

Falando em lesões, me espanta como alguns nativos são lesados – no sentido mais desrespeitoso da palavra. Ontem fomos visitar meus sogros – sempre nos encontramos ao ar livre, na beira do lago. A temperatura estava muito agradável, chegando aos 8°C (entendedores entenderão, ainda mais depois de experimentar temperaturas abaixo de -10°C por dias), e estávamos contemplando o lago que está descongelando… Quando percebo gente caminhando lá no meio.

Todo tipo de gente tem lá seus fetiches com adrenalina: pular de paraquedas, escalar sem cordas, rally no deserto, traking em trilhas perigosas, etc etc etc… já andar no meio de um lago enorme que está em processo de degelo me parece apenas burro. Eu me pergunto se são adolescentes, e me lembro que logo terei dois desses em casa…

Ilhas de água sobre o gelo…

Rachaduras aparentes…

Acho que descobri o motivo da tensão.

Diário Caipira-dois

Tô usando máscara no transporte coletivo. E mercados. A sensação é ridícula. Eu acredito que a recomendação do uso é importante e, cientificamente, aponta que, quando usada corretamente, é um instrumento importante na contenção do vírus.

Mas por isso mesmo e apesar disso tudo, me sinto ridícula. Não quero ficar fazendo comparações – afinal, não sei o que passa na cabeça dos idiotas que usam a máscara no queixo ou aqueles que se cumprimentam com três beijinhos no rosto quando estão usando a máscara (sim, se eu estivesse sem máscara teria arrastado o meu próprio queixo no chão, o que comprova a eficácia da mesma na prevenção)… como ia escrevendo, não quero ficar fazendo comparações, mas – mas sempre vem antes de algo preconceituoso, você sabe – tenho vontade de gritar tipo: você está fazendo isso errado.

E as perguntas práticas:

* como eu tomo água com isso aqui? Resposta, não toma. Não pode mexer na merda dessa coisa. Isso que eu passo, o quê? no máximo três horas com isso na cara. Como é que enfermeiras fazem? É claro que a lei de Murphy de que tudo que pode dar errado vai dar errado se aplica, ou melhor se ajusta, maravilhosamente bem ao uso de máscaras. É batata: botei a máscara, me dá sede. A garganta seca, parece que fazem 45°C e não -4°C. Posso tomar água antes, mas a coisa ficou psicólogica: não posso beber logo estou morrendo de sede.

* meus cílios ficam molhados (imagina quem usa óculos) e eu vi cristais de gelo pendurados dos meus olhos. Sem exagero. Tudo bem, um pouquinho de exagero. Mas é porque os pingos gelados de água nos meus cílios são milimétricos.

* ah! A tênue diferença entre uma máscara escorregando na nossa face e a sensação de estar cortando a orelha fora. Já encontraram esse balanço? Parabéns, eu não. Me parece que apenas ajustando a máscara no estilo “pra que serve a orelha mesmo?” Ela fica no lugar certo.

Quero tanto tomar essa vacina…

Diário Caipira – 01

Ano novo, contagem nova.

Uma pessoa querida teve bebê essa semana. Passei a semana toda falando de parto, parto, parto de novo, amamentação, puerpério. Hoje fui dar um apoio na questão da amamentação que está um pouquinho enrolada. É difícil quando estamos fora do país e longe da família ter um bebê pois qualquer dificuldade ganha proporções muito grandes. Além disso, o pós parto é um período que exige muito da recém formada família.

Quando cheguei em casa meus filhos estavam brincando com suas pelúcias. É qual não foi a minha surpresa quando o mais novo me diz (misturando português e sueco):

Mãe, ele (o coelho) saiu agora da maternidade mas o pai de ele não pode cuidar ele porque machucou o pé. Então você, eu e o Benji tem que cuidar de ele. Ah, tá bom então filho. Como é que a mãe pode ajudar? Segura ele assim ó (em cima do peito) e deixa ele perto. Ele quer ficar quentinho no seu calor.

Esse menino já é um pai maravilhoso.

Diário Caipira – de Festas

Bem, a Suécia está em mau lençóis em assunto de corona. A vacina começa a ser aplicada já no início do primeiro trimestre de 2021. Ainda que a maioria dos suecos estejam céticos, dizem que irão se vacinar pelo bem comum.

Assim que chegou o Natal e os supermercados ficaram sem salsichas, pão e carvão. Todos queriam comemorar a festividade ao ar livre, para assim poder encontrar a família. Foi… interessante. No Brasil ninguém pensaria sair quando fazem 2°C para um churrasco ao ar livre. Hoje saímos caminhar com os meninos e haviam famílias fazendo piquenique a beira do lago (-3°C).

Sim, há aquele velho bordão sobre “não haver tempo ruim quando as roupas são adequadas”. Ainda assim, sinto que preciso treinar mais… fica nervosa por ver gelo e neve e ficar fora – ainda que esteja corretamente vestida em camadas.

As crianças ficaram muito satisfeitas com o advento e o Natal. Seguimos as tradições suecas de ter calendários de advento, de vários tipos: um de chocolates (presente de avó); um de livros; uma série de TV sobre o Natal e um podcast. A série de TV desse ano contava uma história que caiu nas graças do público, e uma das atrizes mirins no papel principal é brasileira. Não seguimos essa história porque parece que era mais interessante para crianças um pouquinho mais maduras. Isso não nos impediu de assistir uma das séries do Natal de 2016.

Essa mistura de tradições me deixa muito contente. Os meninos ganharam uma linda bíblia ilustrada de presente de Natal e adoraram a história do nascimento de Jesus. Também tivemos a visita de um duende, um dos ajudantes do Papai Noel que se mudou para nossa casa após as festividades de Lúcia. Um duende mais tímido e menos bagunceiro do que o que tivemos no Natal passado. Ele foi embora com Papai Noel na noite de véspera do Natal.

Aqui é deveras importante que alguém da família se fantasie de Papai Noel e entregue os presentes. Eu prefiro que o Papai Noel em passoa deixe os presentes durante a noite. Dessa vez ele tinha um prato de nhoque esperando por ele…

Há muita saudade agora. Quase me sinto triste. Mas as crianças me dão a graça de viver festas mágicas. Indiferente de distância ou corona.

Desejo a vocês o mesmo. Boas Festas!!

Diário Caipira-165

Eu estava sonhando com o Brasil. Não estava claro aonde eu estava, mas eu estava olhando um campo. Era quente e estava ventando. Então o som de um trovão chegou “rolando”.

Quando eu abri os olhos eu não estava certa se eu tinha sonhado com o trovão ou ouvido um trovão, que então me acordou. Poucas vezes ouvi trovões por aqui e, em sua maioria, sempre em tempestades da primavera. Uma, que dificilmente há tempestades de muitos raios e trovões. Outra, que o isolamento das casas faz com que seja mais difícil ouvir qualquer coisa que esteja se passando fora.

Me senti criança outra vez, aguçando os sentidos a espera do sinal: se fosse só chuva eu iria me esconder embaixo do cobertor; mais raios, ventania ou granizo me levariam a correr para o quarto da minha mãe. Mas agora a mãe sou eu… Acho que todas essas sensações e lembranças vieram no embalo do som do trovão se desenrolando e também porque estou lendo “A menina da montanha”. Há tanta coisa nesse livro que me faz lembrar a minha infância! Então veio o clarão e um estrondo, típico de quando o “raio” cai perto. As janelas vibraram. Mais um raio, mais um trovão, mais vibração nas janelas e um alarme disparando. Ao mesmo tempo, começa a chuva de granizo.

Vou espiar os meninos. Dormindo, tranquilos. Então vou dormir de novo, pensando que a minha menina ainda tem medo de trovão.

Diário Caipira-160 e tals

Toda terça e quinta tem reunião com a imprensa e a Folkhälsomyndigheten apresenta a forma como a pandemia tem se desenvolvido no país. Essa semana as duas transmissões foram tensas. Na reunião de ontem a representante do Socialstyrelsen – quase que ministério da seguridade social – tinha um tom bem irritado.

Parece que estamos a poucos passos de um lockdown. O número de casos disparou, agora a gente tem contato com bastante gente que tem um parente que tem corona.

Estamos naquela expectativa terrível pra saber quem será o primeiro desta família a ficar doente.

Argh! Tempos estranhos. A propósito, bom final de semana…

Diário Caipira-162

Desde sexta feira tem sido difícil organizar meus sentimentos. Já recebemos a ordem de fechar as portas no trabalho. Metade do grupo de trabalho da outra entidade que trabalha em conjunto com a gente está em casa doente. Um dos colaboradores avisou que a mulher dele está com Covid.

O tempo hoje estava bem típico do outono. Venta horrores. Há uma tempestade passando pelas costas suecas e há três dias as autoridades vem “lançando aviso de temporal”. Felizmente os temporais aqui trazem menos estragos do que aqueles a que eu estava acostumada, ao menos nessa região.

Fiquei molhada como um pinto saindo do trabalho. Chovia de todas as direções. Não sei se é típico de Gotemburgo mas olha… aqui não adianta ter guarda-chuva.

Apesar disso, há algo de fenomenal em poder presenciar a força da natureza. É bonito. Mas espero que ninguém tenha se machucado.

Diário Caipira-161

Tudo muda, o tempo todo. E a gente dança conforme a música que o corona toca.

Agora a música que o Covid toca é uma marcha. Mas não é marchinha de carnaval nem tampouco marchinha de bailão (alguém ainda dança marchinhas?), e sim marcha do tipo militar, exigindo ordem e… atenção. Os casos dispararam entre as semanas 42 e 43 (dobraram) e a agência de saúde pública comunicou hoje que as pessoas devem evitar aglomerações e nem mesmo encontrar pessoas com as quais não convivem.

Eu imagino o que vai mudar amanhã no meu trabalho. A minha situação no meu emprego é muito confortável comparada a de várias outras pessoas que eu conheço e sou imensamente grata. É também por causa disso que sou flexível. Ainda assim não me anima a perspetiva de voltar para o meu departamento de auxílio financeiro.

Aguardemos as cenas dos próximos capítulos.

Diário Caipira-160

Férias, como diria Cristiano Gouveia do canal Um Canto que Canta, são sempre uma aventura.

Essa semana temos höstlov, que são mini férias de outono. O ano letivo sueco tem quatro dessas pausas: o höstlov e o vinterlöv são pausas de uma semana, enquanto o Jullov e o Påsklov são mais longos (três e duas semanas). O primeiro agora também recebe o nome de läslov pois é pensado para encorajar o hábito da leitura. Depois em fevereiro vem o sportlov, que é o vinterlov, onde se encoraja a prática de esportes de inverno. Jul e Påsk são as férias de Natal e Páscoa, respectivamente.

Como eu ia dizendo, férias combinam com aventura. E nós decidimos nos aventurar em um parque florestal mais ao norte, onde há uma série linda de lagos interligagos por pequenos canais (naturais ou não). Alugamos uma dessas cabanas na margem da floresta e… bem, levamos roupas quentes pra caminhar no bosque mesmo com chuva.

O lago, estava tão sereno que fazia um espelho incrível. Tão incrível que eu duvido que você percebeu que a foto está de cabeça pra baixo.

O parque fica na região de Värmland (terra quente, traduzindo no literal) e meu caçula não parou de perguntar quando é que a gente ia chegar em Värmland, já que estava chovendo cântaros e 10°C não é bem o que a gente pode considerar quente (principalmente abaixo de chuva). Ele deixou bem claro que queria ir pra Värmland ou voltar pra cabana (várias vezes) assim a gente não teve muita escolha senão aceitar que nem todo mundo estava se divertindo. Ao menos não no bosque.

A chuva e a ausência de sinal de internet ou telefone nos fez ler bastante com as crianças e eu fiz crochê até as mãos ficarem no automático. Qual é a aventura nisso?

Sair de casa, nos tempos em que vivemos é uma aventura. Andar na chuva é uma aventura. Remover as folhas que represavam o córrego formando um mini lago é uma aventura. Fazer hotdogs no estilo sueco depois de anoitecer no bosque… era quase aventura demais pra mim.

É a aventura da minha vida.

Diário Caipira-159

Ontem saíram novas medidas de contenção para a estratégia sueca de combate ao Covid: teatros e outros espetáculos poderão contar com um público de até 300 pessoas sentadas – se as orientações de segurança forem seguidas.

Achei interessante que o primeiro ministro foi quem falou a respeito. Ele que andava bem sumido agora está se mostrando mais na mídia. Os suecos gostam de descentralizar e democratizar decisões e, por isso mesmo, o primeiro ministro deixou claro que as regiões estão livre para tornar as medidas mais restritas ou adotar as recomendações do governo.

A região de Gotemburgo não parece querer aprofundar as restrições. Espero que o número de casos não cresça na mesma proporção como em Estocolmo em março.

Diário Caipira-158

De tempos em tempos temos treinamento de como reagir em uma situação de incêndio no trabalho. O alarme soa, todos tem de deixar o edifício e se reunir em um ponto pré determinado (do lado de fora de algum outro predio). Alguém toma para si o papel de verificar que todos saíram e liga para os bombeiros.

Ou melhor, não liga porque se trata de simulação. Mas todo mundo deve buscar a saída mais próxima e, como esse treinamento NUNCA acontece no verão (porque todo mundo está de férias) já passei frio e raiva algumas vezes tendo de sair do prédio sem casaco (porque não é pra parar pra pegar nada) pra ficar 15 minutos no frio e na chuva até alguém aparecer e dizer: tudo bem, foi apenas uma simulação; podemos voltar pessoal.

Esse mês estavam testando os detectores de fumaça do prédio em que trabalho e assim tivemos duas simulações. Nas duas eu “morri”. Na primeira delas eu estava numa reunião online com fones de ouvido e o alarme de incêndio não tocou na sala em que eu estava. Hoje, eu estava no banheiro, naquele momento de concentração profunda e quando saí… cadê todo mundo?

Meu colega apareceu com um colete amarelo e eu já entendi: treinamento/simulação de incêndio. Depois do procedimento terminado faz-se uma avaliação. E aí me perguntaram: por que você demorou pra sair? E eu só: estava com diarreia…

Mentira. Expliquei que dentro do banheiro não era possível ouvir o alarme. Então, verificaram o que estava errado e testaram o alarme de novo e dessa vez, voilà; estava de arrebentar os tímpanos. Então, graças ao fato de que fiquei para trás identificaram um problema que foi solucionado.

Enfim, estava uma senhora chuva quando saí do prédio mas, como eu fui a última a sair não precisei ficar passando frio na chuva.

Diário Caipira-157

Hoje nos perguntaram, a mim e ao Joel, quais os maiores desafios que passamos pra manter a relação. Houve muitos momentos de impasses, mas a pergunta partiu de um casal formado por um sueco e uma latina. Em outras palavras, quais foram as maiores dificuldades por causa das nossas culturas tão diferentes.

Me deu um branco. Eu sempre penso em choque cultural e suas diversas ondas e pegadinhas. Mas, em se tratando da relação com um sueco em si eu penso que não tem uma coisa em especial. Eu acredito que qualquer relação tem suas dificuldades e que são sempre dois mundos diferentes que se chocam e se misturam.

Obviamente que houveram encruzilhadas que foram mais assustadoras porque a relação é com um sueco. O momento de solicitar o visto, por exemplo. Eu me tornei super dependente de um cara que, mesmo que eu estivesse super apaixonada, ainda era uma caixinha de surpresas. Ainda é, mesmo depois de dez anos juntos. Isso é emocionante. A chegada dos filhos acentua nossas diferenças, assim como os dias corridos por causa da rotina em família.

O próprio significado de família é diferente para nós dois. Assim como a questão do espaço pessoal. De como eu recarrego as baterias. Mas apesar disso eu sempre preciso me perguntar: será que somos mais diferentes por eu ser brasileira e ele sueco do que se fossemos ambos do mesmo país?

Há certas coisas que eu jamais vou entender porque elas fazem parte do consciente coletivo sueco. Tipo, as brincadeiras e jogos que toda criança sueca experimenta. A escola na Suécia – que deixa a gente fazendo de conta que entende o que está acontecendo com as crias quando eles estão lá – ou os verões na Suécia. Essas coisas óbvias que ninguém precisa contar para um sueco, da mesma forma que ninguém precisa contar pra mim a sensação de comer fruta do pé. Ou mesmo o saco que é ter de limpar o quintal justamente por causa delas.

A gente vai aprendendo que existem uma série de mau entendidos que a gente nem tinha ideia que só acontecem porque temos culturas diferentes. Um exemplo infame: sempre que eu perguntava “Você quer?” oferecendo comida para o Joel ele comia tudo. Simplesmente tomava minha comida e não devolvia. Até que eu entendi que eu deveria perguntar “Você quer dividir comigo?” Ou “Você quer um pedaço?”.

Ainda estou pensando na pergunta… quem tem um relacionamento com um sueco, o que vocês acham que foi o maior desafio no relacionamento com uma pessoa de outra cultura?