Pro dia nascer feliz

Thomas Edson não conseguiu fazer a lâmpada incandescente na primeira tentativa.

Hoje eu levei um susto quando abri meu e-mail: tinha uma série de e-mails do povo da minha cidadela me avisando que eu fui chamada para apresentar títulos em um concurso do Estado do Paraná que eu nem lembro quando foi que eu prestei… mas eu  passei!! Ahá, bom né?

Eu entendo que meus amigos fiquem me mandando e-mails do tipo: volta guria!!, porque é o que eu gostaria que acontecesse – ter todos os meus amigos perto e que eles me queiram perto também. Mas eu não quero voltar para o Brasil (agora), e isso não tem nada haver com aquela coisa de a Suécia é melhor que o Brasil, vice versa blá blá blá; isso está relacionado ao fato de que eu escolhi morar na Suécia, apostar no meu relacionamento com o Joel e eu mal e mal cheguei aqui.

Quando eu sai do Brasil, mesmo tendo um emprego no setor público e sabendo que eu podia ter licença, eu pedi demissão. É, eu poderia ter requerido uma licença de dois anos, afinal era meu direito (no caso de casar, abrir uma empresa em outra cidade ou … não lembro mas eram três itens) e ainda optei pela demissão. Um monte de gente veio me dizer para repensar porque seria uma garantia se as coisas não dessem certo na Suécia, que eu poderia fazer igual não sei quem que fica dois anos lá e dois aqui e… eu sempre respondi que eu não acredito que funciona ter os pés em dois barcos diferentes ou ficar em cima do muro.

Clichês a parte, e com sua licença para ser repetitiva, ser feliz é escolher e eu não considero dois passarinhos na mão uma escolha. É como aquela história da Bíblia que a mulher vira uma estátua de sal por ficar olhando para trás… qual é o grau de motivação que você coloca numa coisa se você sabe que pode contar com outra? Reserva é para o esporte, onde ganhar ou ganhar é a alternativa, mas na vida, perder muitas vezes significa ganhar: experiência, maturidade, confiança, sabedoria… e não é que eu seja a sabichona que decidiu o mais correto, mas eu escolhi uma coisa: mudar para a Suécia, começar uma vida nova aqui, nova fase, novo tudo; para quê um emprego no Brasil? Para voltar correndo na primeira dificuldade?

Infelizmente, penso que é isso que acontece (comigo) com muita gente: o medo de escolher nos faz ficar paralisados e perder, perder oportunidades, perder tempo, perder pouco a pouco a confiança em nós mesmos. E se não der certo com o Joel? Eu vou sofrer, mas vou seguir porque minha vida não vai acabar. Não é que eu seja sou orgulhosa mas é que não acho que está correta a forma como se maximiza a importância da escolha na nossa sociedade.

Sim: aos 17 anos você deve ter CERTEZA de qual profissão quer exercer, e em 4 ou 5 anos você estará entrando no mercado de trabalho ou, aquela pessoa especial que mexe com você TEM DE SER  o amor da sua vida – não importa se é o primeiro amor. Por quê? Porque não é interessante perder tempo. Desde quando cursar uma universidade é perder tempo? Desde quando ficar perto de outro alguém é perder tempo? Desde que você precisa ser um guru, sempre ganhar e nunca,  nunca, nunca, jamais perder.

Então escolher fica difícil, uma coisa escura e ruim: pense bem, você quer ou não? Tem certeza? Olha que depois não pode mudar, hein? Parece que vamos perder um milhão de reais (oi!)! Nada disso! Sempre podemos recomeçar, tentar outra vez! Sabendo porque erramos, na segunda tentativa fica mais fácil! Ninguém de nós lembra, mas não decidimos um belo dia caminhar e então levantamos e demos um, dois, dez passos e de repente corremos. Com certeza, primeiro ficamos em pé, caímos, ficamos em pé e demos um passo e ficamos em pé e caímos e… só continuamos até que hoje podemos andar sem pensar em direito-esquerdo-direito. Mas não é sempre assim! Às vezes acertamos de primeira, mas o mais importante não é acertarmos e sim decidir arremessar, chutar, tentar.

Eu to super feliz que fui chamada para um emprego, mostra que eu sou/fui boa naquilo que fiz, mas eu não preciso de garantias no Brasil. Tenho minha vida na Suécia e preciso lutar por ela…  Não é orgulho, é só porque eu abracei a minha escolha! Cada um precisa abraçar aquilo que escolhe, trabalhar nisso, e se não for bom, paciência, sempre dá para recomeçar.

Amigos: tenho imensas saudades! Mas tem como estar mais perto do que do lado de dentro?

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Família! Familj!

O Joel tem uma tia fantástica que me ajuda estudar sueco uma vez por semana ou menos, mas quando eu me encontro com ela aprendo uma série de coisas importantes, principalmente no que se refere a gramática do sueco, comportamento sueco, pronúncia (utal) e macetinhos!

Hoje eu estava lembrando a nossa primeira aula quando a Gunnel – nome tipicamente sueco – me falou sobre família sueca. Para mim família é formada por diversos núcleos: os meus pais e prole, os pais dos meus pais e prole, a prole da prole dos pais dos meus pais, assim como a prole dos meus irmãos e em alguns casos também os tios avós e segundos/terceiros primos; e quem tem sorte, pode contar os bisavós e além. Minha família tem 44 pessoas.

Na Suécia, família é só um núcleo: pai, mãe e filhos; ou pai e filhos; mãe e filhos; só o casal; bla bla bla… percebe? Os avós podem ou não estar inclusos na família, mas os tios, tias, primos e primas não são considerados na “minha família”: são os parentes e/ou “outra família”, e muitas pessoas nem chamam os tios ou tias de, apenas pelo nome. É claro que os laços de sangue contam, mas a questão não tem a importância a que eu estou acostumada. Obviamente, existem exceções – a família do meu namorado por exemplo, todo mundo conta – são 10 ao todo: os pais do Joel, suas irmãs, sua tia, seus tios, os avós.

Mesmo que não esteja muito na moda usar essas denominações, é interessante saber, mesmo porque é bem engraçado como os suecos separam quem é parente por meio da mãe de quem é parente por meio do pai. Além disso, outro dia eu conversei com uma moça que disse: ah, é tão confuso essa coisa de tio e tia em sueco,  você não acha? No começo, precisa pensar um pouco para organizar tudo, mas sabendo algumas palavras é simples.

Do princípio: pai em sueco é far e mãe é mor. Tendo isso em conta, você pensa nos avós como o pai da mãe e a mãe da mãe: morfar och mormor; o pai do pai e a mãe do pai: farfar och farmor. Nessa lógica, os tios e tias são os irmãos da mãe e as irmãs da mãe: morbror och moster; os irmãos do pai e as irmãs do pai: farbror och faster. Ou seja: você não trata os parentes não consanguíneos por tio ou tia.

Irmãos se diz syskon, irmão bror e irmã syster. Por exemplo: Jag har tre syskon, två systrar och en bror (eu tenho três irmãos, duas irmãs e um irmão). Eu já falei sobre isso em outro post, mas eu vou lembrar aqui que quando você se refere ao irmão mais velho em sueco usa o adjetivo grande, e ao irmão mais novo o adjetivo pequeno. Seria assim: eu tenho um grande irmão/ uma grande irmã – jag har en store bror/stora syster; eu tenho um pequeno irmão/ pequena irmã – jag har en lille bror/lilla syster.

Os primos são só e simplesmente kusiner (um primo/a=kusin), e todos os sobrinhos são syskonbarn. Mas se é um filho da minha irmã eu posso dizer systerson, ou se for uma filha systerdotter; se for um filho do meu irmão brorson,  ou se for uma filha brordotter. Como neto é o filho do filho é barnbarn.

Cunhado e cunhada só contam se forem casados. Sambo (quando mora junto) é o namorado ou namorada do irmão/irmã. Mesma coisa para nora e genro. Sendo assim eu deixo passar, porque é bem mais simples tratar dessa forma (namorado/a tals) do que guardar um nome que eu não ouvi ninguém mencionar – fora da Gunnel.

Além disso, como meu cunhado sempre diz: “Se cunhado fosse coisa boa, não começava com…” De vez em quando pode ser, mas Bah e Marcelo, saudades d’ocês!!!

Eu fiz uma árvore da família - ficou assim assim mas tem tudo...

O exército de um homem só

Eu to tentando escrever alguma coisa desde sexta, mas nada parece muito pertinente. Foi aniversário do Joel sábado, comemoramos, estivemos com a família dele o fim de semana inteiro, e ontem eu cheguei a conclusão de que, por incrível que pareça, o que acontece é que estou chocada com os acontecimentos da Noruega.

Primeiro, que eu fico puta de pensar que uma pessoa sozinha possa fazer tamanho estrago. Segundo, eu fico puta com o fato do indivíduo se autodenominar cristão – não sei o que rola no noticiário brasileiro, mas aqui é isso; e, terceiro, que a primeira coisa que se pensa por aqui é que quem fez tudo foi um estrangeiro.

Eu não sei se eu senti alívio ou o que quando o noticiário divulgou que o autor dos atentados era um norueguês. Um branco de olhos azuis. Um de seus pares. Dai eu lembrei da tira do Benett que eu li poucos dias atrás, e de uma das mais célebres frases de Marx “O homem é o lobo do homem” (aliás, que eu achava que era de Marx mas que a Lorena ai em baixo me corrigiu: a frase é de Thomas Forbes. Aí Thomas, foi mal…).

Fiquei filosofando sobre essa questão para constatar o óbvio: o mundo é aquilo que  nós deixamos ser. Afinal, sempre é trabalho demais fazer o bem sozinho, mas parece que é quase nenhum trabalho plantar uma bomba ou atirar em jovens. Quanta energia gastamos diariamente recalcando mágoas? Quanto tempo gastamos planejando algo construtivo? Para nós mesmos ou nossa família? Para o bairro? Por que somos tão incrivelmente lentos para o bem e tão visivelmente dispostos a estupidez e ódio?

E enfim, é sempre fácil colocar a culpa em terceiros. Foi um estrangeiro. São os islâmicos radicais. São os pobres. Ou os ricos. Os nordestinos! As mulheres, sempre sensíveis demais. Os homens, sempre tão duros. A escola. Deus. O diabo. Alguém, qualquer um, menos nós mesmos, até quando a questão é a nossa vida… sempre tem alguém culpado, ruim demais, que não nos deixa ser feliz, ou que começou a briga, ou que sei lá. A culpa é dele: nunca colabora! Já eu… putzzzzzz! Até faria alguma coisa, se tivesse tempo…

Somos um exército, o exército de um homem só
No difícil exercício de viver em paz
Somos um exército, o exército de um homem só
Sem bandeira
Sem fronteiras
Pra defender
Pra defender

Não interessa o que o bom senso diz
Não interessa o que diz o rei
Se o jogo não há juiz
Não há jogada fora da lei
Não interessa o que diz o ditado
Não interessa o que o Estado diz
Nós falamos outra língua
Moramos em outro país

Somos um exército, o exército de um homem só
No difícil exercício de viver em paz
Somos um exército, o exército de um homem só
Todos sabem
Que tanto faz
Ser culpado
Ou ser capaz
Tanto Faz…

Até quando seremos covardes assim?

Soneto de Fidelidade

É muito engraçado como algumas mulheres suspiram quando eu ou Joel contamos a nossa história. Eu não posso contestar que ele vir para o Brasil e ficar justo na minha cidade que não tem nada de turística (agrícola, 5 mil habitantes) e eu me me despachar para a Suécia tem seu quê de charme e uma dose cavalar de romantismo mas, apesar da gente viver – ainda – uma fase carregada de paixão no relacionamento, não foi este o fator determinante para que eu mudasse.

Que me desculpem os crentes do amor romântico, mas é fato. Óbvio que não posso descartar a valiosa contribuição da paixonite, afinal esse estranho sentimento sempre nos dá uma dose extra de coragem; mas namorar a distância não tem nada de transcendental, e nós passamos praticamente um ano fazendo disso uma rotina. Eu sempre repeti a minha mãe que ela tinha a filha dos sonhos já que eu namorava a moda antiga: sentava para falar com o namorado pelo Skype por uma ou duas horas, de 2 a 4 vezes por semana. Nem pegava na mão. Tudo absolutamente respeitável. E chato.

Pensando bem, isso foi injusto: era e é – ainda uso o serviço para falar com a família e amigos – emocionante! Você nunca sabe se conseguirá ser ouvido ou ouvir, se vai ter sorte de a conexão ser estável o suficiente para ter vídeo, se de repente choveu uma nuvem perto de Itaipu e a transmissão de energia será cortada por tempo indeterminado… é preciso uma santa paciência! E teimosia.

teimosia (tei-mo-si-a)

s. f. Apego obstinado às próprias idéias, gostos etc.; obstinação, persistência. Sinônimos: birra, capricho, turra, obcecação, perrice.

Verdade, pô! As suecas são consideradas as mulheres mais bonitas da Europa, porque o Joel sentaria para conversar com uma caipira? Somos o país da festa e pegação, qual a graça de ficar blá-blá-blando na frente de uma máquina? Simplesmente porque ficar junto com alguém requer decisão, precisa de querer obstinadamente seguir um capricho.

Mas que vidinha mais sem graça, né mesmo? Tudo tem que ser planejado agora, nada é espontâneo, surpreendente, avassalador… tudo tem que ser quisto! Pois é, amor romântico só existe na tela do cinema e em livros. Na vida real a paixão não dura para sempre, simplesmente porque de repente saltam aos olhos todos os defeitos inimagináveis que a pessoa mais maravilhosa do mundo tem como um jato certeiro de água fria!  …e se você não decidiu gostar dele/a mesmo com tudo isso, adeus fogo da paixão.

Uma das minhas frases favoritas é de André Comte Sponville citando Denis de Rougemont: 

“Estar apaixonado é um estado; amar, um ato.” Ora, um ato depende de nós, pelo menos em parte, podemos quere-lo, empenhar-nos nele, prolonga-lo, mantê-lo, assumi-lo… Mas e um estado? Prometer continuar apaixonado é se contradizer nos termos. Seria como prometer que teremos sempre febre, ou que seremos sempre loucos. Todo amor que se compromete, no que quer que seja, deve empenhar outra coisa que não a paixão.

Eu e o Joel fomos amigos mas do que tudo por todo o tempo em que estivemos longe um do outro, falando de todas as coisas e nada, de sofrer a distância, o que fazer com a saudade. Mas do que a paixão, nos uniu o respeito, carinho, fé e teimosia. Sim, por que não? Não adianta só sonhar, é preciso correr atrás do sonho e para isso você precisa acreditar nele, acreditar que é possível e tentar e tentar.

Todos temos monstrinhos ou somos monstrinhos em alguns momentos da vida e quando você tem um relacionamento verdadeiro com alguém, aquele que é bem perto, não adianta tentar esconder; uma hora aparece um rabo aqui, ou sente-se um cheiro estranho. A paixão não serve para aceitar monstrinhos, nem tampouco nos dá a coragem de apresentar ao outro os nossos. Simplesmente porque na paixão existe a ilusão do perfeccionismo, da beleza, da plenitude… como encaixar uma coisa estranha no meio disso tudo?

Por meio do amor. Uma vez que amor é decisão e você não se encontra em um mundo perfeito pode aceitar a imperfeição e apresentar a sua também, pode se decepcionar com o outro e aprender a olhar para aquilo que o outro é e não aquilo que você imaginou que fosse, pode aprender a perdoar e recomeçar, pode se descobrir e descobrir novas faces do ser amado. Dessa forma eu me apaixonei de novo pelo Joel pelo menos duas vezes depois que nos conhecemos, apesar de descobrir que ele não toma banho todos os dias (ele jura que é só no inverno) – brincadeira. O Joel é uma daquelas pessoas que morrem de nojo quando encontram cabelos que não estão mais na cabeça de alguém… advinha só? Eu sou uma daquelas pessoas que perdem 100 fios de cabelos por dia. Mentira, não perco porque o Joel encontra quase todos.

Eu tenho um monstrinho peludo, o Joel um monstrinho fedido. Eu posso decidir se quero ou não aceitar isso, eu posso lutar ou desistir; assim como ele também. Todos podem viver uma maravilhosa história de amor. Mas para isso mais do que paixão é preciso querer… querer se envolver, querer se doar, querer crescer, querer se machucar, querer perdoar, querer mais fé, querer dividir e conquistar! Eu encontrei alguém fantástico com quem quero tudo isso…

Joel, eu amo você!

De tudo ao meu amor serei atento
Antes, e com tal zelo, e sempre, e tanto
Que mesmo em face do maior encanto
Dele se encante mais meu pensamento.

Quero vivê-lo em cada vão momento
E em seu louvor hei de espalhar meu canto
E rir meu riso e derramar meu pranto
Ao seu pesar ou seu contentamento

E assim, quando mais tarde me procure
Quem sabe a morte, angústia de quem vive
Quem sabe a solidão, fim de quem ama

Eu possa me dizer do amor (que tive):
Que não seja imortal, posto que é chama
Mas que seja infinito enquanto dure.

Vinicius de Moraes

Poderia ser apenas mais uma de amor, mas essa é a minha história de felicidade!

Ô Cride, fala para mãe!…

Hoje a monotonia tomou conta de mim… simplesmente não sei o que fazer, estou total e completamente entediada! Comecei a estudar sueco e em poucos minutos já tinha me distraído, comecei a ler e quando percebi há páginas não sabia mais o que estava escrito, coloquei uma música e isso me irritou. Eu queria dar uma volta – estou em Sjövik, e o lago fica a 5 minutos – mas tá com uma cara de chuva! E quem tomou banho de chuva sueca sabe que não o é muito revigorante.

O que fazer em dias como esse? Nem a ideia de dormir me apetece.

A sensação é a mesma de quando em um domingo de chuva é impossível sair – ou você não tem para onde ir ou está com preguiça de se molhar – e você simplesmente se queda em frente a tv para assistir o nada. Você sabe que isso é uma merda porque é domingo e você deveria aproveitar o seu tempo, mas só pode estar ali, frustrado e cansado demais para enfrentar o objeto da sua frustração.

Eu não sou muito paciente e quando alguma coisa não está dando certo eu deixo. Só e simplesmente mudo a brincadeira quando ela para de me entreter. Isso não é muito positivo em muitos aspectos, e eventualmente me sinto bastante cansada pelo esforço de continuar alguma coisa que me parece tão imensamente aborrecida.

Enfim, talvez ainda não passou de todo a estranheza da semana passada. E no final das contas cansei de escrever também! Mesmo que o sol seja meio fraquinho e as nuvens estejam escuras demais para o meu gosto, vou arriscar o banho de chuva.

Quem sabe olhando o lago encontro alguma inspiração!

Numa folha qualquer eu desenho um sol amarelo…

No Brasil eu tive a assinatura da revista Seleções por quase dois anos. Sempre gostei muito daquelas matérias de histórias fantásticas da vida real e sobre felicidade. Em uma delas, uma pesquisa havia questionado um número X de pessoas sobre qual era a época mais feliz de sua vida em diferentes períodos dela. O resultado em todas as enquetes foi que maioria das pessoas disseram não estar tão felizes atualmente; que tinham sido muito felizes em certo tempo atrás; que cultivavam a esperança de ter mais felicidade no futuro.

Penso que a discussão sobre felicidade é lugar comum, mas você já percebeu que é exatamente isso? As pessoas sempre acham que estavam mais felizes há um ano atrás – por exemplo – do que hoje, e que vão estar melhores no futuro. Mas daqui a um ano dirão o mesmo!!

Essa semana eu estava puta da cara, um pouco triste. Afinal nem tudo são flores, eu passo bastante tempo sozinha, até chorei… eu choro quando tenho vontade. Não gosto: a cara da gente fica horrível, olhos inchados, o nariz escorrendo, que coisa nojenta! Mas eu aprendi com a Angela isso, botar para fora, chorar quando se tem vontade de chorar!! E eu me achei no direito: tem todo aquele blá blá blá de choque cultural, mudança de tempo e espaço, o clima muitas vezes não ajuda (estamos no verão, julho, o mês mais quente do ano: chove e faz entre 15 e 17 graus C), todo mundo está de férias viajando e eu to na casa, as partições públicas (leia-se Arbetsförmedlingen) não ajudam, to estudando sueco quase que todo o tempo sozinha… poxa, tadinha d’eu né?

Eu sou meio Pollyanna às vezes, quem lê o blog sabe, mas não porque eu brinque de contente e sim porque eu sou feliz. Posso estar frustrada, chateada e puta da cara com um monte de coisas, mas eu sou feliz! Simplesmente porque ser feliz é uma escolha. Hoje eu li um blog de uma brasileira que foi para os EUA e ela deixou umas palavras que eu vou copiar (com a maior cara de pau):

Às vezes temos a tendência de achar que a felicidade virá naturalmente.Não é não gente, ela precisa ser cultivada. Às vezes esperamos pelo momento perfeito com a visita perfeita para fazer aquela  sobremesa, para mudar o cabelo, para usar aquele vestido que não sai do guarda-roupa, pelo dia perfeito em que não estaremos cansados demais  para namorar o(a) esposo(a) na cama , pelo o corpo sarado para só então poder usar um biquíni ,pela conta bancária gorda para poder casar, etc…Em suma, passamos a vida esperando por um ideal que não virá até nós.
Na nossa realidade tudo trabalha contra nós:
o trânsito, o atraso, o estresse, a data de entrega de certo material, filas longas de banco, a doença,o almoço que tem que está pronto em cinco minutos, o problema do cliente chato, a criança que não pára de chorar,a burocracia de um país, etc… Essa é a verdade, gente.
O senhor tempo não vai esperar que as condições favoreçam para que sejamos felizes. O tempo de viver bem e feliz é agora. Dê fim as desculpas, dê fim a negação, dê fim a justificativas sem causa.Faça diferente.O amanhã não é garantido a seu ninguém.

 

Cada tempo traz a sua dificuldade, e agora é um período complicado para mim: não poder me expressar em sueco e não ter um trabalho são coisas difíceis e parecem tão grandes, mas eu sou feliz. Quando eu arrumar um trabalho vou ter dificuldades no trabalho – todo mundo tem, mas vou ser feliz. Eu nunca vou deixar de aprender sueco, e ainda quando conseguir me expressar não vou deixar de ser estrangeira. Mas vou estar feliz.

Eu sinto uma saudade enorme de meus amigos. Mas eu me sinto imensamente feliz por ter vivido tantos momentos fantásticos que me fazem pensar nessas pessoas de forma especial! Hoje por exemplo é aniversário da minha irmã (Gio parabéns!!)  e nós estamos milhares de quilômetros longe, mas assim é a vida! Eu posso escolher lamentar pelo resto do mês que foi aniversário da minha irmã e eu não estava lá para comer o bolo ou posso cantar parabéns para ela e mandar um vídeo!

Eu escolho o quanto perto ou longe vou estar, legal ou chata posso ser, o quanto posso amar. É verdade: amor é escolha, perdão é escolha, respeito é escolha, porque felicidade seria diferente?

A vida é aquilo que a gente trabalha para ser. É aquilo que a gente pinta!

Numa folha qualquer
Eu desenho um navio
De partida
Com alguns bons amigos
Bebendo de bem com a vida…

De uma América a outra
Eu consigo passar num segundo
Giro um simples compasso
E num círculo eu faço o mundo…

[…]

Nessa estrada não nos cabe
Conhecer ou ver o que virá
O fim dela ninguém sabe
Bem ao certo onde vai dar
Vamos todos
Numa linda passarela
De uma aquarela
Que um dia enfim
Descolorirá…

1! 2! Feijão com arroz!

Comecei uma coisa nova essa semana: academia. Eu nem tava afim, eu sou meio pão dura e não queria de forma alguma começar – partindo do princípio que eu não to ajudando com as finanças da casa, não acho muito certo gastar com supérfluo. Mas o Joel insistiu tanto! E no fim, foi só eu tentar uma aula para mudar de opinião e perceber que não é tão supérfluo como eu imaginava.

Eu sempre fui preguiçosa, mas nem sempre fui sedentária e tive alguns períodos de febre por academia. Já a questão de esportes coletivos… bem isso nunca foi meu forte. Tentei karatê por dois meses no Brasil, mas eu não tava tão afim assim e por isso comprar kimono (ou quimono?), fazer inscrição em associação, participar de lutas e torneios não foram coisas que me seduziram; ao contrário, me desestimularam.

Quando eu mudei para cá, comecei a fazer kickboxing. Fiz três aulas, aí tive beltross, parei. Kickboxing é muito legal e eu quero continuar quando eles retornarem das férias. Não é tanto pela luta, e sim pelo treino: ao final você está quase morto. Pensa que pular corda é fácil? Além disso, o treinador é latino, Pablo, uma pessoa muito forte mas muito querida para comigo, assim como a sua mulher – a Ingvild que também pratica. São velhos conhecidos do Joel que me acolheram de braços abertos; aí estou entre amigos.

Queria experimentar coisas diferentes, afinal “to pagaaaannnooo!” e o primeiro dia fui tentar Dance Fusion. Fiquei um pouco frustrada quando cheguei na sala e só havia mais três pessoas – sendo uma a professora. Mas a segunda música, para meu espanto foi a “Dança da Mãozinha”, seguida da “Dança da Manivela”! E a treinadora era boa, sabia rebolar – coisa que é um tanto difícil de ver por aqui. Depois teve mais samba, salsa e manbo, e até o Kuduro e a Magalena Rojão estavam na lista. Voltei para casa felizona! Devia ter começado antes!

Ontem tentei Zumba Dance, e é… a mesma coisa! Com a diferença de uma sala lotada com uma mulherada meio doida obviamente de origem latina se acotevelando e que o treinador era um homem (será por isso da sala lotada?). Teve salsa, samba, merengue e mambo e até um tanto de… sei lá, mas eu arriscaria dizer que é uma coisa meio árabe, parecido com o que vi quando os kurdos se apresentaram no Carnaval.

Duas coisas: primeiro, eu fico um tanto quanto decepcionada quando os suecos tocam música para dançar. Se você tiver sorte rola um hip hop, senão a coisa fica em torno de clássicos dos anos 80 e 90 que eles  adoram – sabe aquele estilo Quen que os músicos de uma banda de repente tiram da manga no meio do baile só para tirar onda? Pois é… isso sempre marcava o momento que todo mundo saía para tomar um ar – pegar – com alguém. Aqui é o hit da festa. Segundo: suecos dançando parecem que não estão se divertindo muito, é uma coisa no meio entre constrangido e “é que eu não sei dançar”. Que saudade dos bailão por aí, com a Lu gritando “tchê tchê tchê”  ou com a Rô falando alto e fazendo algazarra, todo mundo meio bêbado pedindo para o “Nerso” dançar a Dança da bicicletinha… e ele dançava!

A “Dança da Mãozinha” e a “Dança da Manivela” já passaram no Brasil há tempos… até a Dança da Bicicletinha é do ano passado… mas tem uma coisa que não passa não, que é aquela energia gostosa que tem na música brasileira, aquela coisa contagiante que mesmo quando a letra é uma merda, fazer o quê? gruda na cabeça e a gente sai dançando que é para deixar essa vida bem mais leve!

É uma pena ver as suecas dançando de cara fechada, sem sorrir, e dá uma vontade de interagir com o treinador! Tá lá ele motivando, dançando e fazendo huruu!! e todo mundo… quieto! Eu fico imaginando que cara eles iriam fazer se eu começasse a cantar e gritar hurru no meio da aula! Eu lembro da Lu (que é educadora física) dizendo que tinha uma turma difícil em Palotina que não interagia, não sorria, nem gritava, nem gemia… que graça!

Essa muvuca toda mexeu um monte comigo e eu percebi que tenho uma saudade imensa do Brasil, do povo brasileiro, de calor entre as pessoas e de alegria! Coisas que a gente tem todo dia, igual feijão com arroz… É o cúmulo mudar para o outro lado do mundo e ainda achar graça em participar de coisas que eu sempre pude fazer no Brasil?

Feijão com arroz, gente, pode ser simples e barato. Mas é a coisa melhor que tem no mundo!