O grande mundo das… o que?

Hoje eu vi muitas mulheres de burka. Foi uma coisa quase que fascinante quando eu assisti pela manhã a uma verdadeira marcha de famílias islâmicas rumo ao templo, porque é um dia especial relacionado ao Ramadan. Muitas mulheres de famílias islâmicas modernas – que não são obrigadas a usar o véu – o tem na cabeça durante esse período, e do mesmo modo algumas que apenas usam o véu no resto do ano usam a burka agora.

Toda a vez que encontro uma mulher de burka, eu fico me coçando: curiosidade, medo, tristeza, esperança, dúvida; tudo passa na minha cabeça. Eu nunca tinha visto uma mulher de burka antes de mudar para Angered, não ao vivo e a cores – ou melhor, em preto e cinza – e isso somado ao fato de que eu não conheço muito da cultura do islã me causam essa intensa torrente de sentimentos.

A Suécia acolhe a muitos estrangeiros que procuram refúgio em vista de guerras civis, e por isso existe uma grande população de árabes e de países do leste europeu de maioria islâmica que se mudam para cá; tanto que Mohamed é um dos nomes mais populares na Suécia, juntamente com Andersson e Johansson. Aqui em Angered está um núcleo desse tipo de famílias, assim posso ver vez ou outra uma mulher passando quase que como um fantasma, tentando ser discreta com esse traje tão cheio de significados e preconceitos.

Fiquei um longo tempo observando duas delas no trem. Os maridos conversando, e cada uma olhando para fora pela janela. Não sei se elas não devem conversar quando estão em público, se elas tem que parecer invisíveis, se elas não podem olhar para as pessoas, e isso me deixa triste. As duas tinham crianças pequenas, provavelmente em idade semelhante [tipo 2 e 3 anos], pareciam jovens, estavam indo para o templo celebrar o mesmo rito… não seria natural que estivessem trocando figurinhas?

E nem vou adentrar em todo blá blá blá típico da repressão e pau e corda que gira em torno da cultura islâmica e outras que limitam as mulheres. Afinal, comparando com a liberdade das suecas, nós brasileiras usamos véu e/ou burka em muitos aspectos. Mas não é isso que me incomoda…

Quem já leu “Perto do Coração Selvagem” de Clarice Lispector talvez lembre que logo no início do livro a menina olha pela janela as galinhas ciscando o chão e que não sabem que vão morrer, e as minhocas que são comidas pelas galinhas que serão comidas pelas pessoas. E fica esperando alguma coisa acontecer e nada. Tudo é igual. Eu tenho essa sensação quando vejo mulheres de burka: para mim, ela são como as  galinhas que não sabem que vão morrer… fazendo coisas estranhas como comer minhocas. E eu sempre fico imaginando alguma coisa fantástica, como ela tirar a burka e gritar por liberdade, ou simplesmente assistir a duas mulheres de burka agindo de forma “normal”, conversando no trem ou com uma atitude que não aquela de “eu preciso ser quase invisível”.

Será que elas são felizes? Será que pensam em fugir, mudar? Será que podem? Será que elas questionam essa vida, esse padrão?

Provavelmente, tem muito de preconceito nesse meu sentimento. Afinal, o mundo islâmico é muitas vezes exibido como um circo de agressões aos direitos da pessoa humana, onde o comum é aprender a ser terrorista na mais tenra idade e ser mulher é quase que uma praga. Será? Não somos nós brasileiros vistos como índios? Que falam espanhol?

O que me faz ter certeza de que eu sou a menina observando as galinhas? Será que elas [as mulheres de burka], não pensam o mesmo quando olham para mim?

Encostando a testa na vidraça brilhante e fria olhava para o quintal do vizinho, para o grande mundo das galinhas-que-não-sabiam-que-iam-morrer. E podia sentir como se estivesse bem próxima de seu nariz a terra quente, socada, tão cheirosa e seca, onde bem sabia, bem sabia uma ou outra minhoca se espreguiçava antes de ser comida pela galinha que as pessoas iam comer.

Houve um momento grande, parado, sem nada dentro. Dilatou os olhos, esperou. Nada veio. Bran­co. Mas de repente num estremecimento deram cor­da no dia e tudo recomeçou a funcionar, a máqui­na trotando, o cigarro do pai fumegando, o silêncio, as folhinhas, os frangos pelados, a claridade, as coi­sas revivendo cheias de pressa como uma chaleira a ferver. Só faltava o tin-dlen do relógio que enfei­tava tanto. Fechou os olhos, fingiu escutá-lo e ao som da música inexistente e ritmada ergueu-se na ponta dos pés. Deu três passos de dança bem leves, alados.

Então subitamente olhou com desgosto para tudo como se tivesse comido demais daquela mistu­ra. “Oi, oi, oi…”, gemeu baixinho cansada e de­pois pensou: o que vai acontecer agora agora agora? E sempre no pingo de tempo que vinha nada acon­tecia se ela continuava a esperar o que ia acontecer, compreende?

[Perto do Coração Selvagem, CL]

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Decifra-me ou te devoro! [afirmações]

Quem conhece a história de Édipo sabe que ele enfrentou a Esfinge nas portas da cidade de Tebas, que devorava a quem não conseguia desvendar-lhe um enigma. A esfinge é uma figura mitológica imponente com corpo de leão, asas de águia e cabeça de mulher, enviada por Hades para trazer sofrimento aos homens com o seu decifra-me ou te devoro. Eu brinquei muitas vezes com essa frase por aqui porque foi assim que eu realmente me senti com relação ao sueco.

Porque? Todo mundo fala sueco comigo desde o início, para me ajudar. Boommmm. Bra. Menos pelo fato de que muitas vezes não dá para entender e não dá tempo de ficar recebendo explicações. Exemplo: quando alguém conta uma piada. Todo mundo está rindo. Menos eu. Quando tem um grupo de pessoas conversando não dá para usar o Joel como tradutor (ele é mais tagarela do que eu). Então eu me sinto na obrigação de decifrar o enigma, ou serei devorada pela língua.

Eu comecei a me sentir mais confiante depois que estudei o último livro que a Gunnel me emprestou porque ele mostra a ordem das classes de palavras em uma frase. A importância de entender isso é porque o sueco é muitas vezes escrito/falado como que ao contrário do português, a exemplo do inglês e outras línguas não latinas. Para mim isso é uma coisa difícil já que as frases ficam totalmente “erradas” na lógica do português. Eu passei 26 anos falando apenas português, então não tenho o menor problema em admitir isso e estou convencida o suficiente para afirmar que me saio razoavelmente bem, apesar de fazer confusão em alguns casos.

A primeira dica é: verbos sempre ocupam a posição número dois na ordem de palavras em uma frase. Se você começa com o sujeito ou com o tempo (no sentido espaço tempo; ou seja, os dias, meses, semanas, anos) não importa, o verbo vai estar na posição dois.

Ex:

Jag tycker om att titta på filmer. Igår tittade jag på en film hemma.
Han har en motorcykel. Imorgon vill han åka till Norge.

Dica um: sempre use a forma “ontem, blá blá blá eu/nós/eles…” e/ou “amanhã, blá blá blá eu/nós eles…”; sendo que blá blá blá é um verbo, obviamente. É errado dizer “eu/nós/eles blá blá blá ontem” e/ou o mesmo com amanhã? Não. Mas soa muito melhor aos ouvidos de um sueco porque eles usam esse modelo. Não é difícil perceber nos textos em jornais e/ou o quê mais do mesmo. Dica da Gunnel.

Então, voltamos ao exemplo: o verbo (em azul) sempre está na posição dois. Obviamente, essas são frases simples, mas todas as frases são formadas por sentenças com a mesma lógica: sujeito, verbo1, verbo2 (se houver), objeto, lugar. E quando existem dois verbos na frase, o segundo sempre estará no infinitivo, à moda do que acontece no português: eu gosto de assitir filmes/amanhã ele quer ir para a Noruega. No exemplo, o verbo 2 está em vermelho.

A regra é a mesma para quando você utiliza aquilo que os suecos chamam de hjälpverb (mais aqui): posso, quero, vou, devo…: du måste städa ditt rum/jag vill ha te, tack. Hjälpverb em verde! E para o caso de alguém se animar porque a coisa estava ficando fácil, detalhe: se você vai falar de amanhã ou ontem, para soar mais sueco, a frase fica diferente: imorgon måste du städa ditt rum/igår villde jag ha te. Ou seja, as posições devem ser: tempo, verbo 1/hjälpverb, sujeito, verbo 2 [no infinitivo!], objeto, lugar…

Eu demorei muito tempo para começar a entender porque o jornal parecia uma sopa de letrinhas, mas agora eu sei que é tudo culpa dos advérbios. Quando eles entram em cena a salada está completa. Advérbios, para quem fugiu das aulas de gramática, são a classe de palavras que mudam (principalmente) um verbo. O exemplo mais simples é não: eu sei jogar bola/eu não sei jogar bola.

Jag sover alltid efter jobbet. Jab har aldrig sett den här filmen. Jag brukar inte läsa på kvällen.

Os advérbios (em rosa) sempre estarão depois do verbo 1, ou no caso do passado perfeito (oração dois do exemplo acima), entre o conjunto de verbos da expressão do [passado perfeito]: sujeito, verbo1/hjälpverb, advérbio, verbo2, blá, blá… Mas se você quer soar bem sueco, colocando o tempo no início da frase (para o caso de imorgon e igår principalmente, quase que obrigatório!) tudo muda: på kvällen brukar jag inte läsa – tempo, verbo1/hjälpverb, sujeito, adverbio, verbo 2, blá, blá… Lembre-se que apenas também é advérbio, assim como às vezes: jag brukar ibland läsa tidnigen/jag vill bara ha en kop kaffe, tack.

Eu ainda estou aprendendo, e não é difícil confundir. Quem tem mais dicas, à vontade!

Alô! Alô! Terezinha! Quem não se comunica…

… se estrumbica!

Disse Chacrinha na década de 80 e um milhão de filósofos antes dele. Infelizmente, apesar de tanta gente dizer e repetir mais do mesmo, o ser humano é apegado em adivinhação, sobretudo quando tem uma relação especial com alguém – melhor amigo, namorado/marido sofre! – porque esse alguém TEM O DEVER de saber o que você quer. E o que você gosta. Ou ainda, como você se sente. Eu mesmo vivo tropeçando nessa triste mania de pensar que os outros sabem o que eu quero e como, e por causa disso e de coisas que li aqui, aqui e aqui resolvi escrever o post.

Tem um mês que eu to no trabalho e quase que ao mesmo tempo começou também no serviço de limpeza uma moça sueca. Eu tava muito animada com isso, afinal de contas o português rola solto o dia inteiro no trampo e a presença dela obriga todo mundo a arranhar um “suequês”… até que a gente limpou a primeira casa juntas. Caos total! Ela não fazia as coisas certas e a gente tinha que refazer tudo, e no fim quando ela terminava o trabalho “dela” ficava olhando a gente trabalhar.

Primeiro que o povo sueco não tem uma cultura de limpeza, não como no Brasil. Seja por causa do feminismo, ou por causa da escuridão, ou porque os bárbaros não tem medo de bactérias e viking que é viking dormiria no chão, ou porque a terra não é vermelha, ou porque nem tomar banho direito eles tomam, ou porque ninguém quer perder tempo com limpeza, ou… As casas normalmente estão desorganizadas num estilo lagom e tudo o que já foi branco é bege, tem umas poeirinhas pelos cantos e muita sujeira embaixo do tapete. Ninguém dá muita pelota pra isso porque eles priorizam o tempo com lazeres como leitura, música, comer, ou ficar olhando para o próprio umbigo. No verão eu entendo, todo mundo quer um lugar ao sol (quando ele dá os ares da graça). Mas no inverno quando as pessoas estão em casa também não tem dessas de ficar esfregando chão, parede, sei lá. Pensando bem, no inverno eu também não gostaria de fazer limpeza.

Segundo: a gente trabalha normalmente em duas ou três pessoas por casa. Ninguém tem um trabalho específico, mas as tarefas são divididas porque dessa forma ninguém tropeça em ninguém. Então normalmente alguém fica com a cozinha, o segundo com o banheiro e se há um terceiro ele vai com o aspirador de pó pela casa toda, tendo que limpar o chão (att mopa, ou mopar) com aquela vassoura mole e água e sabão com cheiro de nada e que não faz espuma. Mas quem termina vai ajudar os outros, porque cada casa deve estar limpa em um determinado tempo que varia entre 1 e 2 horas.

Eu não sou a rainha da limpeza e já comentei no post passado que sou lenta. Mas eu não fico parada olhando os outros trabalhar e por isso me irritava sobremaneira a guria ficar ali, pensando na morte da bezerra enquanto a gente corria contra o tempo. Que cara de pau!

Mas hoje eu entendi o que acontecia: choque cultural. Desde o primeiro dia que eu comecei, assim que eu terminava a minha tarefa eu ia procurar outra coisa o que fazer – quando eu terminava primeiro, o que demorou bastante e não aconteceu no primeiro dia – e isso significa muitas vezes fazer a mesma coisa que um outro está fazendo. Por exemplo: todas as portas devem ser limpas, todos os móveis e quadros recebem uma visitinha do senhor espanador, e isso duas pessoas podem fazer ao mesmo tempo porque há muitas portas em uma casa, muitos quadros, muitos móveis, muitos… tem o que fazer; enfim. Foi justamente enquanto eu limpava um sofá hoje que ela olhou para mim espantada e disse: você não precisa fazer isso porque outra pessoa está fazendo. Esse foi o momento do insight: ela não faz porque não sabe que deve fazer. Expliquei para ela que todo mundo ajuda, e que assim a gente trabalha melhor, e adivinha? Ela entrou no clima e agora trabalha como nós.

Eu poderia ter criado caso com ela, afinal tudo apontava para a postura típica do ‘eu vou fazer o que me cabe e vocês que se lasquem’. Enfim, nem foi nada disso, foi apenas falha de comunicação: ela já vem de uma cultura em que ninguém se importa com pó, em que todo mundo é muito consciente do “seu papel” e da “sua responsabilidade” – não tem dessa de ficar esperando por outros; e se cada um faz o seu bem feito o resultado final é pró – e a equipe inteira fala português quase que todo o tempo. E eu já tinha apelidado de dois de paus! Aqui no blog mesmo to sempre repetindo que é difícil de ler o que está nas entrelinhas do sueco mas não tinha me dado conta que para ela poderia acontecer o mesmo, porque como todo mundo fala português na equipe tudo estava absolutamente claro para mim. Para mim.

Esse tipo de situação é tão comum: fulano pensa um “isso” e ciclano pensa que sabe o que “isso” é, mas ninguém fala nada e todo mundo fica aguardando a osmose de pensamentos, que na real só acontece em filme. Pois é, filmes nem são reais. O resultado disso é: conflito.

Eu tenho paúra daquele tipo de pessoa que se acha o tal e fica dando “dicas”: quer uma coisa específica, mas nunca fala, e fica na expectativa de que você adivinhe. Sabe o que acontece? Primeiro, nada; depois, briga. E a acusação típica: você não se importa comigo! Não pensa no que é importante para mim! Só que isso não rola! Não entre pessoas saudáveis: de que forma vou viver a minha vida se preciso me colocar o tempo inteiro no lugar de outra pessoa? Eu já tenho bastante o que avaliar – minhas escolhas, sonhos, se vale a pena isso ou aquilo – vou ficar obstruindo a minha mente pensando e planejando a felicidade alheia?! Não.

Eu sei que é fácil cair nessa e to fazendo um exercício de falar o que eu quero. Não fico fazendo suspense dos meus desejos, nem antes do meu aniversário. Sabe aquele tipo: ahh, ninguém lembrou meu aniversário… Eu gosto de encher o saco de todo mundo e já falo bem antes o que eu quero de presente. Falando nisso, ano que vem quero uma semana na praia. No nordeste. Do Brasil. Podem começar a vaquinha – =P.

Acho que o principal responsável por essa mudança positiva na minha vida é/foi o Joel, só e simplesmente porque eu sempre tive que falar muito claro com ele sobre as minhas expectativas, meus desejos, meus sonhos. Ele fala português fluente, mas não é por isso que ele vai entender minha alma. Eu precisei mostrar. E valeu a pena.

Ah mas não tem surpresa assim. Se eu tenho que falar sempre o que quero, pedir tudo… Quem não chora não mama. Eu prefiro ter surpresas boas, e do tipo tranquilas quando eu recebo exatamente aquilo que eu imaginava e falei, do que receber alguma coisa do tipo: putz, não era isso que eu queria… Faça a experiência: fale na lata o que você quer. O resultado pode ser conseguir ou não, mas aposto que é bem mais provável a primeira alternativa. Do contrário… espere até alguém adivinhar. Mas sente confortavelmente. E não adianta ficar bravo.

Alô! Alô! Terezinha! Quem não se comunica…

Eu sou traquinas!

Você já ouviu aquela expressão borboletas no estômago? Essa é  uma sensação bem comum para mim, a diferença é que as borboletas estão no meu cérebro, ou talvez seria melhor dizer vagalumes? A minha mente voa constantemente com idéias, pulando de uma para outra numa volta ao mundo tresloucada num milésimo de segundo rumo ao ponto original. Não raras vezes eu me pego tendo pensamentos absurdos ou realmente sonhando acordada. Eu realmente tenho uma capacidade surpreendente de armazenar informações inúteis [do tipo você sabia que… os vagalumes tem uma substância química chamada luceferina e é ela que quando combinada com oxigênio emite a luz do bichinho?] e lembrar delas em ocasiões inesperadas. E eu não sou TDHA.

O Transtorno do Déficit de Atenção com Hiperatividade (TDAH) é um transtorno neurobiológico, de causas genéticas, que aparece na infância e freqüentemente acompanha o indivíduo por toda a sua vida. Ele se caracteriza por sintomas de desatenção, inquietude e impulsividade. Ele é chamado às vezes de DDA (Distúrbio do Déficit de Atenção). Em inglês, também é chamado de ADD, ADHD ou de AD/HD.

Eu sou traquinas!!

Primeiro: eu não gosto muito dessa moda de que todo mundo se auto intitula alguma coisa que tem um nome mais ou menos esquisito (tipo TDAH) sem antes ter consultado um especialista que disse: você É isso. Segundo, antes de parar na Suécia nunca havia visto uma criança que não fosse traquinas o suficiente para que se desconfiasse que ela estava ligada na tomada. Agora resolveram inventar uma síndrome até para isso, e as mães [leia-se pais também] fazem fila atrás de um diagnóstico de TDAH só para dopar a criança e ter um pouco de sossego. Que coisa feia… se não quer trabalho não tenha filhos!

Entendo que crescer fora dos padrões não é fácil, e esta aí o porquê de rótulos. Mas eu não quero isso para justificar meu comportamento, mesmo porque essa coisa de um turbilhão de idéias é fantástica quando eu preciso desenvolver um trabalho criativo. Mas… no meu trabalho antigo, por exemplo, todo mundo reclamava da minha falta de disciplina com minha mesa e papéis e livros – que na verdade refletia o caos dos meus pensamentos; e eu mesmo me perdi muitas vezes naquilo que estava fazendo. Eu vivia estressada com isso até ler um artigo sobre a “funcionalidade” das pessoas, digamos assim, que eu chuto que foi na [revista] Seleções Reader’s Digest.

Nota: eu tive um ávido hábito de ler. Tudo: revistas, jornais, Sabrina, livros de ficção/romance/didáticos, artigos na internet… infelizmente, muita coisa boa que eu li eu não lembro se era um artigo em uma revista ou na internet, ou num livro, ou num jornal…

O artigo dizia que cada pessoa trabalha de uma forma diferente. Eu não sou organizada e muitas vezes me perdi no trabalho tentando ser organizada só porque todo mundo achava isso o correto. Eu lembro de ficar muito tempo tentando terminar alguma coisa que não fluía só para seguir o padrão de “termine o que você começou antes de começar outra coisa”. Minha vida profissional melhorou muito quando eu aceitei que funciono melhor no modus operandi não linear: fazer duas ou três coisas no mesmo dia, por exemplo, trocando de atividade toda a vez que empacava.

E só para deixar algumas moçoilas com inveja, por exemplo agora eu escrevo enquanto troco uns beijinhos e gosar med Joel [ expressão sueca para chamego, que se lê gussar]. A explicação é só para o caso de alguém com mente poluída ter lido gozar… porque primeiro você gosa, depois você… entendeu?

Faz um mês que eu to trabalhando e essa semana minha patroa me chamou a atenção duas vezes porque eu faço todas as coisas ao mesmo tempo, e a faxina tem que funcionar como num relógio. Concordo, o problema vai ser eu tique-taquear!!! Eu até tentei falar para ela que eu funciono melhor desse jeito, mas ela apenas sorriu…

Felizmente ou infelizmente, não é desculpa!

É claro que disciplina é bom, e usualmente essencial; mas na falta dessa, antes de me rotular como TDAH ou qualquer coisa do gênero, prefiro apelar para o compromisso: eu amo ter a liberdade de ser do  jeito que eu sou e por ela eu me comprometo a fazer as coisas bem feitas, mas no tipo Maria Helena de ser. Infelizmente, já vi que não vai rolar…

Vou me lascar um bom tempo sendo mais ou menos atrapalhada para funcionar no modo suíço em plena Suécia!

Eu tenho medo do escuro

Não há muito tempo li um livro sobre medo, pânico, transtornos obssessivos compulsivos (TOC) e as manias que as pessoas desenvolvem; como a mania por exemplo de transformar qualquer medo em pânico, e qualquer mania em TOC. Brincadeira. Não vou adentrar a questão, mas a título de curiosidade os medos e manias “são” um tipo de ansiedade com as quais você pode lidar no dia à dia. Pânico e TOC são doenças que irracionalizam o indivíduo.

Eu tenho medo do escuro, e medo de alturas. E é só medo, não é pânico. Eu posso ficar num lugar escuro sozinha, me sentindo bastante desconfortável às vezes, e eu posso ficar em lugares altos – sem me debruçar sobre parapeitos ou cuspir para o chão. Vocês já reparam que a maioria das pessoas que sobem em um lugar muito alto vão até a beiradinha apenas para olhar para baixo e cuspir?

Tenho outros medos também, mas os únicos que me limitam são esses. E medo de balanço, por exemplo. Eu não brinco no barco viking ou qualquer coisa semelhante, mas penso que isso é um reflexo do medo de altura – uma vez que você vai cada vez mais alto e pode ver o chão num segundo e o céu em outro, o chão, o céu. Isso me dá nos nervos. Subir escadas e usar o elevador me deixa desconfortável porque eu sei que estou me afastando do chão. Mas avião por exemplo, é só um busão que voa. No problems.

Agora a Suécia está ficando escura. No topo do verão a gente teve apenas alguma hora de escuridão à noite, e para quem já viveu isso sabe que não é escuro de verdade porque o céu fica num azul intermediário. Nas últimas duas semanas a noite está crescendo vertiginosamente. Uau, soa meio terrível isso. Mas o fato é que a cada dia tem menos luz, e isso só vai parar em meados de dezembro quando chega o solstício de inverno.

Por essas alturas vamos ter a situação contrária: luz apenas algumas horas no dia. E essas algumas horas são às vezes um anoitecer, porque chove demasiado o outono e inverno. Já me avisaram que eu vou torcer pela neve assim que ela começar a cair, porque quando o inverno é branco deixa tudo mais claro. Pode uma coisa dessas?

Eu tenho medo do escuro. Mas precisamente, desse escuro. Já pensou acordar as nove da manhã e perceber que ainda não amanheceu? Você pode imaginar voltar para casa do trabalho às 4h da tarde e estar escuro? Caraca, isso é um cenário de desolação. Agora eu fico puta da cara quando chove o mundo e tudo está molhado, imagina quando o dia tiver 18h de escuridão e menos 15 graus C…

Me avisaram das vitaminas que eu vou ter que tomar – a gente vive num país de sol, recebe uma quantidade enorme de vitaminas e o corpo não está preparado para um jejum, ao contrários dos nativos “vikings” que passaram por essa desde o primeiro minuto de vida – e me avisaram para inventar um monte de coisas porque é fácil se deprimir. Nessas horas eu penso: onde fui amarrar o meu burro?

Ok, eu só estou desconfortável frente a uma situação desconhecida. Não pode ser tão ruim porque do contrário todo mundo desceria para o lado mais ensolarado e alegre do mundo.

E não é isso que acontece?

SFI – Capítulo III

Eu falei um pouquinho sobre a minha volta às aulas em um dos posts passados sobre verbos. Mas, só para atualizar, a volta às aulas foi dia 10 de agosto e não foi um dia de aula e sim mais um dia do que eles chamam dia de informação e que eu considero dia de enrolação: apareceu o Sr. Professor que falou praticamente apenas em inglês e nos deu os horários.

Então eu comecei mesmo no dia 15 de agosto. E foi muito legal com uma turma nova de alunos de diversas turmas. Alguns caras da minha velha turma também estavam lá. E o professor – graças a Deus – não era o mesmo cara do dia de informação. O nome dele é Pontus e ele é super dinâmico, explicando tudo o que era possível de cada palavra que alguém dizia não entender. Foi tudo o que eu gostaria que fosse o curso de SFI: a gente recebeu um texto que foi lido, interpretado e discutido; e depois, falamos um bocadinho sobre gramática. Nada de novo, mas foi a primeira vez que o professor usou a frase: agora vamos estudar a gramática do sueco… e ainda nos deu um pequeno resumo com as principais classes gramaticais da língua.

Como eu trabalho pedi para mudar meu curso para a noite, que aqui eles chamam de kväll (entre 17h e 22h). Eu não esperava conseguir uma vaga rápido e para minha surpresa a coisa aconteceu num raio pois, quando cheguei em casa na segunda feira depois da aula, o Joel já tinha recebido um telefonema me avisando que a minha primeira aula a noite seria na terça feira 17h30 numa escola nova – a Odinskolan – no centro da cidade.

Legal, fui para lá na terça e tive um repeteco do dia de informação, com a pequena diferença de ter que fazer uma provinha. Foi bem legal porque reecontrei a primeira professora, aquela Maria que ia para África mas agora vai para a Austrália. Dizem que a primeira professora a gente nunca esquece e bem, essa Maria foi realmente especial, ela foi ótima conosco. Depois da provinha a gente até bateu um papinho – uma coisa bem leve porque meu sueco não é aquele nível.

Em todo caso mudei para nova turma – de novo – num nível intermediário D (um tipo do nível D para quem tem algum ponto forte e outros fracos) com aulas na quartas feiras 17h30min. Esse é o meu horário oficial a partir de agora. Eu tenho que confessar que fiquei um pouco triste com essa de mudar de turma logo quando eu tinha encontrado um professor tão bacana… até conhecer a professora nova.

Ela chama Birgitta – nome típico da Suécia – e tem 60 e alguns anos. E é uma mulher vibrante que nos deu uma aula completa: explicou gramática com história e geografia e cultura e blá blá blá apenas falando da kräftfest. Eu sou a pessoa que fala menos sueco na turma, porque todos os outros alunos estão na Suécia há pelo menos um ano. Muitas das coisas que eles falaram eu boiei. E daí? Adorei. É ótimo estar numa turma onde o pessoal é mais do que você, ao menos a mim me impulsiona a correr atrás.

Fizemos prova de novo e a professora me elogiou dizendo que logo posso fazer a prova nacional de conclusão do SFI. Já? Eu pensei. Pode  parecer falsa modéstia, mas o caso é que apesar de essa não ser a primeira vez que elogiam o meu sueco, eu não penso mesmo que seja bom. Não consigo acompanhar uma conversa sem ficar bastante perdida e usar de adivinhação para ir empurrando com a barriga. Se a pessoa não fala claro e devagar eu não consigo acompanhar, e quando tem um monte de gente falando… eu faço cara de paisagem e fico só escutando, sem tentar entender.

É claro que fiquei feliz, afinal passei três meses lendo sueco. Mas também fiquei um pouco triste porque percebi que SFI é só isso mesmo: um curso para apresentar a língua aos estrangeiros e para prepará-los para dizer e entender só o básico, aquelas coisinhas que todo mundo precisa saber para se virar no dia à dia.

Enfim, eu deixo um recado para quem está vindo ou começando: tente falar. Procure fazer amigos suecos e tente conversar. Converse com seu partner em sueco, ele é a melhor pessoa para ajudar, acreditem ou não. Não fique stressado quando alguém te corrige a pronúncia ou a formação da frase, agradeça. Tem gente que não fala nada e tira sarro da sua cara assim que você virar as costas. Paciência é bom, também, principalmente quando tudo que você quiser for falar outra coisa que não sueco… respire fundo e continue…

Afinal, depois do SFI você pode fazer SAS. Ou universidade…

Göteborg Kulturkalas

Hoje tem início o Festival de Cultura de Gotemburgo (ou melhor, como acima) que é simplesmente uma amostra de cultura com tudo que se pode imaginar: ballet, carnaval, circo, teatro, stand up, dança, música, e todas as mais formas de expressão de arte como desenho, pintura, escultura, poesia… e o melhor de tudo: a entrada é grátis.

O festival teve início nos anos 90 e contou com 925 mil visitantes no ano passado (dados do site oficial, aqui). Praticamente todo o centro é tomado: as atrações estão espalhadas desde  o canal até o Liseberg.

Mapa dos locais das atrações

O festival vai ter amostras da cultura mundial mas eu gostaria muito de ver um pouco mais da cultura sueca. Hummmm eu penso que os suecos são lagom em tudo e por isso mesmo eu gostaria de conferir peças de arte sueca, esculturas de artistas suecos mas, eu não tenho um gosto refinado para as artes e essa coisa de ficar olhando rabiscos ou pedaços retorcidos de alguma coisa… eu não entendo! Acho bem mais interessante adivinhar o desenho das nuvens. Mas enfim, como as entradas são grátis eu tenho uma excelente oportunidade para testar os meus conceitos.

Uma coisa com que sempre sonhei é ver a apresentação de uma orquestra. Ou de um quarteto de cordas. Eu tenho uma sensação maravilhosa toda a vez que escuto um violoncelo. A boa notícia é: tem apresentação da orquestra de Gotemburgo hoje, 18h. Mas a Lei de Murphy impera, e como troquei de turma do SFI, tenho a primeira aula hoje, 17h30. Se eu faltar perco a vaga…

Como as atrações são grátis e tudo o mais existe um programa para ser voluntário no festival. Eu li e reli um cartaz conclamando voluntários um milhão de vezes no trem e cheguei a pensar nisso, afinal eu tava coçando em casa. Felizmente, esse ano não dá porque eu tenho trabalhoooo! Mas ano que vem seria muito interessante tentar viver o festival de dentro, falando sueco! Talvez…

Quem quiser e tiver tempo, da uma espiadinha na programação. É tanta coisa acontecendo ao mesmo tempo e em tantos lugares que não tem como não participar. Mas estou realmente triste por não poder ver a orquestra hoje.

Sorte que o festival vai até domingo! Difícil é entender o cronograma…