Decifra-me ou te devoro! [afirmações]

Quem conhece a história de Édipo sabe que ele enfrentou a Esfinge nas portas da cidade de Tebas, que devorava a quem não conseguia desvendar-lhe um enigma. A esfinge é uma figura mitológica imponente com corpo de leão, asas de águia e cabeça de mulher, enviada por Hades para trazer sofrimento aos homens com o seu decifra-me ou te devoro. Eu brinquei muitas vezes com essa frase por aqui porque foi assim que eu realmente me senti com relação ao sueco.

Porque? Todo mundo fala sueco comigo desde o início, para me ajudar. Boommmm. Bra. Menos pelo fato de que muitas vezes não dá para entender e não dá tempo de ficar recebendo explicações. Exemplo: quando alguém conta uma piada. Todo mundo está rindo. Menos eu. Quando tem um grupo de pessoas conversando não dá para usar o Joel como tradutor (ele é mais tagarela do que eu). Então eu me sinto na obrigação de decifrar o enigma, ou serei devorada pela língua.

Eu comecei a me sentir mais confiante depois que estudei o último livro que a Gunnel me emprestou porque ele mostra a ordem das classes de palavras em uma frase. A importância de entender isso é porque o sueco é muitas vezes escrito/falado como que ao contrário do português, a exemplo do inglês e outras línguas não latinas. Para mim isso é uma coisa difícil já que as frases ficam totalmente “erradas” na lógica do português. Eu passei 26 anos falando apenas português, então não tenho o menor problema em admitir isso e estou convencida o suficiente para afirmar que me saio razoavelmente bem, apesar de fazer confusão em alguns casos.

A primeira dica é: verbos sempre ocupam a posição número dois na ordem de palavras em uma frase. Se você começa com o sujeito ou com o tempo (no sentido espaço tempo; ou seja, os dias, meses, semanas, anos) não importa, o verbo vai estar na posição dois.

Ex:

Jag tycker om att titta på filmer. Igår tittade jag på en film hemma.
Han har en motorcykel. Imorgon vill han åka till Norge.

Dica um: sempre use a forma “ontem, blá blá blá eu/nós/eles…” e/ou “amanhã, blá blá blá eu/nós eles…”; sendo que blá blá blá é um verbo, obviamente. É errado dizer “eu/nós/eles blá blá blá ontem” e/ou o mesmo com amanhã? Não. Mas soa muito melhor aos ouvidos de um sueco porque eles usam esse modelo. Não é difícil perceber nos textos em jornais e/ou o quê mais do mesmo. Dica da Gunnel.

Então, voltamos ao exemplo: o verbo (em azul) sempre está na posição dois. Obviamente, essas são frases simples, mas todas as frases são formadas por sentenças com a mesma lógica: sujeito, verbo1, verbo2 (se houver), objeto, lugar. E quando existem dois verbos na frase, o segundo sempre estará no infinitivo, à moda do que acontece no português: eu gosto de assitir filmes/amanhã ele quer ir para a Noruega. No exemplo, o verbo 2 está em vermelho.

A regra é a mesma para quando você utiliza aquilo que os suecos chamam de hjälpverb (mais aqui): posso, quero, vou, devo…: du måste städa ditt rum/jag vill ha te, tack. Hjälpverb em verde! E para o caso de alguém se animar porque a coisa estava ficando fácil, detalhe: se você vai falar de amanhã ou ontem, para soar mais sueco, a frase fica diferente: imorgon måste du städa ditt rum/igår villde jag ha te. Ou seja, as posições devem ser: tempo, verbo 1/hjälpverb, sujeito, verbo 2 [no infinitivo!], objeto, lugar…

Eu demorei muito tempo para começar a entender porque o jornal parecia uma sopa de letrinhas, mas agora eu sei que é tudo culpa dos advérbios. Quando eles entram em cena a salada está completa. Advérbios, para quem fugiu das aulas de gramática, são a classe de palavras que mudam (principalmente) um verbo. O exemplo mais simples é não: eu sei jogar bola/eu não sei jogar bola.

Jag sover alltid efter jobbet. Jab har aldrig sett den här filmen. Jag brukar inte läsa på kvällen.

Os advérbios (em rosa) sempre estarão depois do verbo 1, ou no caso do passado perfeito (oração dois do exemplo acima), entre o conjunto de verbos da expressão do [passado perfeito]: sujeito, verbo1/hjälpverb, advérbio, verbo2, blá, blá… Mas se você quer soar bem sueco, colocando o tempo no início da frase (para o caso de imorgon e igår principalmente, quase que obrigatório!) tudo muda: på kvällen brukar jag inte läsa – tempo, verbo1/hjälpverb, sujeito, adverbio, verbo 2, blá, blá… Lembre-se que apenas também é advérbio, assim como às vezes: jag brukar ibland läsa tidnigen/jag vill bara ha en kop kaffe, tack.

Eu ainda estou aprendendo, e não é difícil confundir. Quem tem mais dicas, à vontade!

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