Verbos pra que te quero! Parte II

No primeiro post falei um pouquinho sobre o infinitivo e presente, e agora vamos falar sobre os verbos no futuro e aquilo que são os “hjälpverb”, que eu não consegui adequar a alguma classe da gramática portuguesa. Se alguém diplomada em letras (Anelise!) está lendo o post, pode deixar um coments para explicar a classe gramatical – =P.

Os verbos suecos no modo presente podem ser utilizados para indicar um futuro (framtid) bem próximo como o que vai acontecer a noite ou no fim de semana, por exemplo: Kommer du hit i kväll? Nej, jag reser till Malmö med tåget imorgon. Jag ringer dig nästa vecka. Apesar de todos os verbos estarem no tempo presente – kommer, reser, ringer [chego, viajo, ligo]; é possível entender que essas são coisas que vão acontecer por causa das palavras à noite (i kväll), amanhã (imorgon) e semana que vem (nästa vecka). Sendo assim, você pode construir frases para o tempo futuro (não mais distante do que a próxima semana) utilizando verbos do presente mais palavras indicativas de um futuro próximo, como as do exemplo acima.

Para indicar um futuro longíquo e/ou aquilo que está sendo planejado/decidido, a forma da frase será o ska+verbo no infinitivo, sem o uso do att. Exemplo: Vad ska vi göra i juli (o que vamos fazer em julho)? Vi ska till stranden (vamos para a praia)! A Helena me disse várias vezes que o SKA só deve ser utilizado quando você tem certeza que aquela coisa é o que você quer e que você decidiu fazer, porque pronunciar um jag ska… (eu vou…) para um sueco é semelhante a uma promessa. Para indicar o futuro das coisas que não se tem certeza usa-se o kommer att+verbo no infinitivo, exemplo: Maria kommer att få jobb om hon pratar bra svenska (A Maria vai conseguir um trabalho se ela fala bom sueco). Nem é bom meu sueco e eu trabalho!

Existem coisas que podem acontecer no futuro que não dependem da nossa decisão e que não podemos mesmo exercer controle, como por exemplo chover. Sabe aquela velha será que chove? E é sempcre bom aprender sobre o tempo porque os suecos adoram falar sobre isso. Para essas coisas você usa blir, que é uma espécie de verbo para o ser ou estar. Então: Det blir regn i kväll (vai chover à noite). Det blir kallt nästa vecka (vai estar frio semana que vem). Ou para uma pergunta do tipo será que vai ter festa fim de semana? Blir det någon fest på helgen?

Por fim, o hjälpverb  ou aqueles verbos que aparecem em uma frase para complementar o sentido da afirmação, negação ou interrogação, como kan, måste, ska, vill, bör, brukar (posso, devo, vou, quero, deveria, costumo); e outros que não costumam ser hjälpverb mas que aparecem vez ou outra em uma frase com esse papel como tänker, får, behöver, börjar, slutar, försoker (penso, posso – me é permitido, preciso, começo, termino, tento). Acredite, você vai utilizar muito! E a fórmula é hjälpverb+infinitivo. Exemplos:

Jag behöver lära mig svenska.
Jag kan tala portugisiska.
Jag måste läsa till provet imorgon.
Vi börjar jobba klockan nio varje dag.
Vi brukar  på bio på helgen.
Hon tänker resa till Italien.
De ska vara hemma i kväll.
 

Procure lembrar sempre de colocar o verbo prinicipal no infinitivo quando usa um hjälpverb na frase, porque do contrário a pronúncia e construção da frase fica totalmente errada, é só comparar em português como seria: Jag kan forstår svenska – eu posso entendo sueco, está errado e soa mal.

Mais importante do que falar muito, é falar bonito. Coisas de Suécia!

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Desventuras em Série

By Benett!

Eu adoro caminhar… Mas não quando preciso fazer isso porque esqueci alguma coisa e, infelizmente acontece com frequência: esqueço de colocar o celular na bolsa, ou o cartão do trem, ou comida para o dia, ou…  Já dizia a minha mãe “quem não tem cabeça tem pernas”.

Enquanto eu não estava trabalhando estava levando a coisa em uma média em que eu conseguia não me atrasar demais. Não é lagom estar atrasado e mais do que isso, eu me stresso sem medida com essa coisa de não poder ir a pé para o trabalho. Sério! Eu adoro ir de spårvagn para todo o lado, mas não quando ele para no meio do caminho por motivos de manutenção, ou quando o condutor fala alguma coisa em sueco – que obviamente eu não consigo entender, ou quando uma mãe desnaturada esquece o bebê dentro do trem.

Abre parenteses para comentar a respeito dos bebês suecos: sabe aquelas propagandas em que as crianças parecem anjos? É exatamente assim que as crianças suecas parecem. Estou me referindo a bebês e/ou crianças pequenas de até 3 anos. Primeiro: eles são lindos, muito branquinhos com olhos grandes e azuis, bochechas gordas e vermellhas, aquele cabelo que você já imaginou… e quietos. Ou educados? Eu não vi NENHUMA criança sueca chorando desesperadamente dentro do carrinho de bebê; ou tentando fugir do carrinho; ou pulando em pé no carrinho; ou tentando perigosamente jogar-se do colo da mãe ou pai para baixo – sim porque aqui você vê os pais passeando sozinhos com as crianças gente!; ou gritando deitados no chão do mercado alguma coisa do tipo eu quero! eu quero!; enfim, não vi nenhum pai ou mãe passando vergonha com seus anjinhos. E olha que eu não gostaria de ser um bebê sueco em dia de chuva, porque as mães saem com a criança dentro do carrinho, e no carrinho vai uma capa de chuva que faz o “trem” parecer um grande bolha plástica com rodas. Me espanta sobremaneira porque isso não é impressão: eu já fiquei 30 minutos no trem próximo a uma mãe sueca só para ver quando o bebê ia começar a chorar, resmungar, ou tentar pular fora do carrinho e adivinhe?

Nota: crianças negras são lindas, amarelas também, indígenas, enfim, todas parecem anjos – principalmente quando estão no colo dos outros. Mas eu vi apenas crianças suecas se comportando como anjos. Isso não se aplica a filhos de árabes e os latinos então… bem, eles fazem a gritaria a que estamos acostumados.

Voltemos a mãe desnaturada que esqueceu o bebê dentro do spårvagn: a duas estações de casa o trem parou e o senhor condutor avisou que precisaríamos fazer uma pausa por motivo de [eu não entendi], e que isso demoraria apenas alguns minutos. Já havia um trem parado na estação então o condutor parou de forma que foi possível desembarcar apenas por uma das portas. Ficamos lá cerca de 10 minutos e então o primeiro trem partiu depois que já mais dois trens estavam parados atrás de nós. Eu estava xingando em pensamente e caralho por que justo em uma estação antes da minha?, e torcendo vai logo! vai logo! e as portas fecharam e o trem partiu. Eu não havia dado conta de que um bebê estava sozinho algumas poltronas a minha frente, sentado placidamente em seu carrinho, sem piscar, sem chupeta, só e simplesmente esperando a mãe, que não sei porque cargas d’água desceu na estação sem a criança. Ela bateu na porta, correu e gritou o que fez com que algumas mulheres começassem também a gritar até saírem correndo falar com o condutor, abandonando completamente a criança que – pasmem – apesar do auê e gritaria, continuou calma com cara de quem tá curtindo a viagem.

É claro que o condutor não parou. Iria fazer o que? Ele já estava há quase metade do caminho da próxima estação. Uma das mulheres voltou e ficou ao lado do bebê (talvez de um ano) que nem estranhou; desceu com ele na estação seguinte – ainda uma antes minha – e lá todo mundo se encontrou com a mãe que chegou no trem seguinte. Final feliz – menos para a mãe que obviamente levou uma bronca, e para gente como eu que só queria chegar em casa, comer e tomar banho; pois tivemos que esperar mais 10 minutos porque o condutor precisava ter certeza que a criança estaria a salvo com a mãe (será?).

Tem duas estações “perto” de casa, coisa de 5 minutos de caminhada. São 3 trens que vão para a cidade, obviamente para diferentes lugares. Então quando eu esqueço alguma coisa, tenho que voltar correndo para casa e com certeza perdi “o trem”, o que me obriga a pegar um outro e ficar pulando de trem em trem para tentar chegar no horário ou esperar cerca de 15 minutos. Na primeira semana eu sabiamente saí de casa cerca de meia hora antes do que seria necessário. Mas eu sou brasileira né? Vendo que tinha chegado cedo demais todo dia, eu comecei a ficar mais tempo na cama. Me fudi. Infelizmente, eu simplesmente não posso porque isso é igual a chegar atrasada.

O sistema de transporte na cidade é muito bom e realmente não tem porque reclamar: os carros são novos ou em boas condições para o uso, 95% do tempo são pontuais, não degradam o meio ambiente, dão aos usuários uma gama bem variada de opções de rota afinal, tem trem ou ônibus para qualquer canto da cidade. Além disso você pode fazer consultas na internet por meio do Västtrafik (para a cidade de Göteborg) e eles apontam como chegar em qualquer lugar. A coisa é que eu sempre estive apenas a 5 ou 10 minutos a pé de qualquer coisa e quando mais do que isso eu usava bicicleta, dai meu stress de sentar num trem ou ônibus por 1h ou 2h por dia.

No último sábado quando eu trabalhei com o X – que é o rapaz que eu cuido – nós saímos para a cidade e precisávamos tomar o ônibus 75 e depois o spårvagn 8 para chegar ao destino. Como foi a primeira vez que eu sai com um cadeirante estava perdendo feio para a cadeira de rodas mas graças a Deus apareceram uns caras legais que me ajudaram a subir e descer do ônibus. Eu não entendi o que aconteceu pois a maioria dos ônibus suecos tem um sistema de suspensão a ar que desce e sobe o carro para facilitar o embarque e desembarque de idosos e cadeirantes e, ou o motorista não viu o que, mas o degrau tava grandão. Bom que no spårvagn é tranquilo quando ele para na estação. Detalhe que o condutor do trem falou em sueco que o trem iria fazer um desvio. Advinha? Eu não entendi, óbvio, e quando eu vi o trem pegando outra direção eu rapidamente desci – fora da estação com um degrau grandão – e lá foi a Maria empurrando X para pular para outro spårvagn. Quando entramos no spårvagn vi o outro (8) voltando para pegar a direção correta! Chegamos 20 minutos atrasados…

Parece brincadeira né? Mas é só a língua gritando para mim: decifra-me ou te devoro!

Verbos pra que te quero! Parte I

Voltei para o SFI hoje, e a primeira impressão é de: fuja garota! Corraaa!!!!!! Minha professora Maria foi para a Gambia (ou algum país da África) participar de um projeto de pesquisa e o novo professor fala mais inglês do que sueco. Fiquei frustrada, mas ainda não perdi a esperança já que tudo começa para valer apenas na segunda, se Deus quiser!

Mesmo que a Gunnel acabou por me dar férias forçadas – não sem antes me emprestar um ótimo livro – aprendi algumas coisas sobre verbos. Os verbos são uma coisa maravilhosa na língua sueca, é a parte que eu mais gosto, e a mais descomplicada. Nem por isso é pouca coisa para aprender, por isso vou escrever apenas sobre o infinitivo e o presente.

O infinitivo – verbo sem nenhuma conjugação – ou verbo base é bem tranquilo e parecido com a gramática do português. Exemplo: quando eu digo eu sou, estou conjugando o verbo ser no tempo presente. É a mesma coisa no sueco, sendo que o verbo no infinitivo normalmente terminam em ‘a’ (a grande maioria deles) e pode estar acompanhado de att.  Exemplos:

→ att vara – att prata – att ha – att vilja – att åka (ser/estar, falar, ter, querer, ir – de ônibus ou trem ou carro ou moto).
→ att hoppas, att bli, att finnas, att dö, att gå (esperar – de esperança, ser/estar, existir, morrer, ir – a pé). 

Já o verbo no tempo presente é terminado em r ou s, dai que sabendo o verbo no infinitivo não é muito complicado acertar o verbo no presente. O verbo do presente terminados em r são a maioria, e essa terminação pode significar um ar, er ou simplesmente r. Exemplo:

→ final ar: att titta, att jobba, att prata – tittar, jobbar, pratar (assistir, trabalhar, falar – assisto, trabalho, falo).
→ final er: att komma, att ringa, att läsa – kommer, ringer, läser (chegar, ligar, ler – chego, ligo, leio).
→ final r: att gå, att ha, att förstå – går, har, forstår (ir, ter, entender – vou, tenho, entendo).
 
 

É claro que os verbos no presente ficam mais claros quando conjugados, e penso que conjugar os verbos suecos é muito simples pois eles não mudam de pessoa para pessoa. As “pessoas” da gramática sueca são eu, nós, ela, ele, eles/elas, você, vocês: jag, vi, hon, han, de/dem, du, ni. Uma pequena observação: você escreve de ou dem para eles/elas, mas a pronúncia é dom. Hummm e não tem nenhuma relação de gênero do tipo de é para eles e dem é para elas, ok? De significa eles ou elas, e o mesmo dem. Então lá vão exemplos com att förstå (entender) no tempo presente:

Jag förstår (eu entendo). 
Vi förstår (nós entendemos).
Hon förstår (ela entende).
Han förstår (ele entende).
De förstår (eles/elas entendem).
Du förstår (você entende).
Ni förstår (vocês entendem).
 

O sueco não tem ando, endo, indo;  de trabalhando, comendo, dormindo; por exemplo. Se alguém te pergunta: vad gör du (o que você tá fazendo)? A resposta é  somente eu “isso”: jag jobbar, jag äter, jag sover (eu trabalho, eu como, eu durmo), por exemplo. Em português a gente está acostumado a dizer o “eu estou trabalhando” e você pode fazer a tradução das frases dessa forma,  mas em sueco o verbo ser/estar (att vara) não serve para indicar um presente contínuo e sim para expressar estado de espírito como por exemplo eu sou feliz (jag är glad), ou sensações como frio, calor (jag är kalt, jag är varm); se está doente ( jag är sjuk)… então não use nunca, jamais  use para o “eu estou [ação]”.

E apenas como introdução – porque eu já estou escrevendo um post sobre como se constroem frases em sueco – o sueco é escrito ao contrário do português nas negativas. Então quando você quer indicar que você não faz determinada coisa, o verbo vem antes do não exato como em inglês: jag pratar inte svenska (eu não falo sueco), por exemplo.

A título de curiosidade, gostar em sueco é att gilla, mas não é utilizado para fazer perguntas do tipo você gosta de música? Ao invés disso você usa att tycka: tycker du om musik? Ja, det tycker om jag. E o pulo do gato é que att tycka é na verdade pensar, e por isso você precisa usar o om (que pode ser traduzido como se ou sobre), senão o verbo indica o que você pensa: jag tycker att [eu penso que]ou jag tror att [eu acho que]… Enfim, att tycka é para certezas e opiniões, e att tro é para achismos. Só relembrando, não esqueça do om para saber dos gostos suecos!

Tycker du om lära sig svenska?

* Um abraço especial a Helena Ingelsson que me ajudou a escrever o post! Tack så mycket Helena!

Pra não dizer que não falei de flores

Julho é um tempo lindo onde as rosas estão maravilhosas nos jardins de toda a Gotemburgo e ainda em agosto algumas plantas apresentam cachos lindos. Mas o post não é sobre rosas, apesar do título e introdução, é sobre morte e vida.

A farmor do Joel morreu há 15 dias, mas o funeral foi só hoje. Eu estava em dúvida se escreveria alguma coisa a respeito principalmente porque não é lagom expor certas questões familiares. Apesar de eu não ser sueca me preocupa a questão de ser lagom  ou não pelo fato de que eu amo e respeito muito a família do Joel. Pra não correr o risco de magoar ninguém, eu vou falar de algumas impressões sem entrar em detalhes.

A farmor tinha quase 82 anos, e teve um AVC. Foi um dia triste, longo e tenso pois a família foi avisada que ela teria somente algumas horas de vida. E eu estava esperando o velório, que ocorre quase de imediato em todo o Brasil (assim que o corpo é liberado do IML). Então teria velório e choradeira e tudo o mais. Mas não. E não sei o porque.

Foi bonito, muito bonito hoje na igreja. Uma coisa simples, discreta, com apenas alguns amigos e parentes próximos. Eu deixei uma rosa no caixão, e essa foi a minha participação. Depois da cerimonia não teve sepultamento e sim uma recepção para celebrar a vida dela.

Foi bem estranho para mim essa coisa de não ver o corpo – uma vez que o caixão está fechado. Mas eu achei bem interessante essa coisa pequena na Igreja, onde apenas amigos e familiares estão ali realmente porque gostavam aquela pessoa muito. É feio demais no Brasil aquelas pessoas que vão no velório de alguém para comentar se o indivíduo tava quebrado demais ou de menos em vista do acidente, ou se ele parecia “tranquilo”.

Pra mim a morte não é uma coisa tranquila. Talvez seja coisa de “gente jovem”, que acha que a morte não está para “nós”, ou algo de todo ser humano que não consegue aceitar o mistério de ser finito… Apesar disso, não tenho medo de morrer, seja lá o que isso signifique.

Medo mesmo me dá de ser como muita gente, morta em vida: sem sonhos, sem esperança, e às vezes sem ninguém para lembrar da sua existência…

To me guardando para quando o Carnaval chegar

Quem me vê sempre parado,
Distante garante que eu não sei sambar…
Tô me guardando pra quando o carnaval chegar

Essa é uma música de Chico Buarque que eu curto muito na versão do Engenheiros do Hawaii em que ele (Humberto Gessinger) canta essas palavras: to me guardando para quando o Carnaval chegar. Eu acho que eu to vivendo um tempo semelhante a isso que ele descreve, como se eu estivesse esperando uma coisa grande que vai acontecer e dai…

E daí o que? Não sei. Não tenho a mínima ideia do dai que vai ser. Não sei se isso começa com o processo do visto (quem passa por isso sabe que a vida fica meio que em suspenso) ou se é simplesmente a minha impaciência com relação a língua. Afinal, eu vivo uma coisa meio louca agora em que eu entendo mais ou menos o contexto das conversas, mas ainda não estou preparada para falar porque quando eu consigo juntar as palavrinhas para um comentário, o assunto já passou.

Eu tô só vendo, sabendo,
Sentindo, escutando e não posso falar…
Tô me guardando pra quando o carnaval chegar

Meu trampo com faxina é com uma equipe de latinos: somos brasileiros e uma dominicana. Mesmo assim eu passo mais tempo do que o meu normal quieta. Eu sempre fui uma tagarela, nunca tive problemas para emendar conversas ou inventar conversas, falar em público ou o que, sempre falei, falei, falei e falei. E nessa nova fase da minha vida eu calei. Não penso que isso seja um exercício ruim porque aprender a escutar é um dos melhores e mais importantes exercícios a que uma pessoa pode se dedicar.

Mas mesmo que eu tenha essa pretensão tão comummente humana de “crescer e aparecer”, eu fiquei um pouco preocupada ao perceber que eu to mudando, uma vez que me sinto mais reflexiva, mais introspectiva e madura. Sei lá se isso é realmente do tamanho que eu imagino ou se é uma impressão, mas a coisa é que passei a questionar a minha identidade.

É fato que a gente sempre guarda uma auto imagem que pode estar a quilômetros do eu real, mas será que eu não sou mesmo aquela guria tão animada e barulhenta que eu sempre pensei que fosse? Será que eu sou mais responsável e do tipo “mãe” do que eu jamais soube?

E no fim, como sempre, isso me dá saudades enormes do Brasil. Do Brasil ou de saber quem eu sou e o que devo fazer? Não sei. É fato que eu sabia o que ser e o que fazer no Brasil e isso me faz uma falta danada agora – saber o que ser e o que fazer na Suécia – mas eu penso mesmo que eu gostaria de viver um pouco da leveza e simplicidade da minha vidinha caipira do Brasil.

Saudades de colo de mãe, de pão de mãe e de ver futebol com meu pai. De brigar com a Ana porque ela me faz esperar 30 minutos para ir ao mercado porque ela precisava arrumar o cabelo. Segurar o bebê do meu irmão. Olhar para meus sobrinhos mais velhos e pensar que engraçado é ser uma tia pequena! Comer um churrasquinho feito com sobra de fogo de melado com meu cunhado e irmã mais velha. Ver a Bah rindo das idéias malucas do meu irmão – e eu também das tentativas de ele ouvir musica alta na casa da minha mãe… tomar cerveja com Angela e Lu. Vixe! Quanta coisa né?

Eu penso que eu tenho um bocado de medo de virar uma daquelas pessoas que tem estranheza do Brasil quando voltam para lá. Será que eu consigo ser caipira ainda numa cidade grande européia?

Será que voltar para o Brasil é o Carnaval que eu to esperando?

Eu vejo a barra do dia surgindo,
Pedindo pra gente cantar…
Tô me guardando pra quando o carnaval chegar

Eu tenho tanta alegria, adiada,
Abafada, quem dera gritar…
Tô me guardando pra quando o carnaval chegar

Tô me guardando pra quando o carnaval chegar
Tô me guardando pra quando o carnaval chegar
Tô me guardando pra quando o carnaval chegar…

Trabalhoooo!!!!

Dai que quase não apareço por aqui por que finalmente, EU TENHO TRABALHO! E a coisa foi tão louca que consegui dois trabalhos em uma mesma semana!

Há cerca dois meses eu conheci a Vera que tem um café aqui em Göteborg. Ela é brasileira e começou o negócio agora, então não tinha um trabalho para mim mas disse que conhecia outras pessoas, inclusive gente com empresas de limpeza. Deixei meu currículo com ela e fiquei esperando. Mas eu já tinha até me esquecido disso… felizmente quem recebeu meu currículo não me esqueceu e na semana passada eu fiz uma experiência que deu certo. Agora eu faço parte de uma equipe que trabalha com limpeza de casas para particulares, eu sou Marinete na Suécia gente!

O Joel também conseguiu uma entrevista para mim na empresa de assistência pessoal que ele trabalha e apesar de o meu sueco não estar pró ainda, eu pude começar a trabalhar com isso porque eu conheço o X, que é o rapaz deficiente com quem o Joel trabalha que simpatizou comigo. Como a questão de o cliente ter que simpatizar com o assistente é muito importante, eles me deram uma chance e eu fiz um teste no sábado. Ele é dependente em todos os sentidos e fica em uma cadeira de rodas, mas ele não tem retardo mental, e o trabalho consiste em dar comida, bebida, ajudar com higiene pessoal, colocar filmes e ajudar ele navegar na internet, sair para passear e tudo o mais.

Foi muito bom voltar a ativa depois de três meses de férias. Eu to muito animada e acho que talvez vou conseguir conciliar o trabalho de limpeza – que é mais frequente em segundas, quintas e sextas feiras – com o SFI. Como assistente pessoal eu vou ter trabalho eventualmente, como por exemplo uma noite no fim de semana ou quem sabe um dia de sábado ou domingo.

Sendo que eu já tinha conseguido o trabalho com limpeza parece quase estranho que eu buscasse mais um. É uma coisa nova para mim, eu nunca tive dois empregos antes, mas é que trabalhar como assistente pessoal pode me abrir mais rapidamente as portas para um futuro como assistente social…

Mas para isso não posso esquecer do sueco!!