Pequenas Grandes Coisas da Minha Vida Sueca #04

A Ana sempre me xingou que eu não dava bola para a moda e muitas vezes ela foi curta e grossa afirmando que eu me visto mal. Nunca dei bola. Mas às vezes o que sinto quando saio com o Joel como é que eu vesti alguma coisa errada, primeiro porque às vezes eu passo frio pacas e segundo porque eu sempre pareço o ET da festa.

A moda sueca é meio anos 60. Não, não estou me referindo ao estilo e sim a cor: parece que você tá vendo um filme em preto e branco. Tá bom, pode incluir marrom e todas as cores sóbrias, mas é fato de que ninguém sai muito colorido e que a predominância aqui é o preto. Esses dias eu estava ouvindo um programa chamado “Ring P1” (Ligue para P1) numa rádio popular que deixa um espaço aberto para que as pessoas comentem algo que acreditam ser importante e um cidadão de Stockholm ligou pedindo para que as pessoas parem de usar preto. “É tão formal, como se todos estivessem em um enterro. Podemos ter um inverno mais colorido”, ele falou (ou alguma coisa como isso – foi o que entendi). Blá blá blá, achei super interessante que não são apenas os imigrantes que pensam que é estranho ter um visual negro constantemente.

Enfim, não me animo muito a fazer compras devido a falta de variedade de cores “quentes” e porque eu ainda não aprendi, em 6 meses, a me vestir em “camadas”. Acho essa expressão muito legal e quem usou ela comigo a primeira vez foi a Helena. Eu não entendi o “vestir-se em camadas”, e acho que só vendo mesmo para ter uma ideia, mas o princípio é colocar um monte de roupas no corpo. Primeiro vai um top, daí uma camisetinha mais comprida, daí um casaco tipo mais largo e uma jaqueta ou outro casaco maior ainda. Parece ridícula a descrição não é? Na minha humilde opinião, o resultado é mesmo estranho: calça de moleton vai com jaqueta de couro e bota numa boa, mas usa um vestido colorido e todo mundo te olha como se…

Ainda assim algumas coisas eu não poderia deixar para trás, como o casaco de inverno (que eu ganhei da família do Joel – Tack Per, Florence och Fredy), botas de borracha e uma touca – porque perdi a minha no spårvagn; sorte que a cabeça… Ainda falta a bota  ou sapato de neve, mas como ainda não temos temperaturas negativas (fica nos 10 graus C a média) e neve, vai de boa com tênis mesmo. Comprei um super casaco na sexta, a prova de água, vento, tempestade de neve, incêndio, ataques terroristas, fenômenos sobrenaturais e extra terrestres – mesmo porque agora eu não vou mais parecer tão estranha… Ok, de fato o casaco é a prova d’água do tanto que eu posso rolar na neve e ainda ser feliz e quentinha.

Acho que essa é uma coisa para a qual eu nunca prestei atenção antes e é tão óbvia: manter-se seco é importante para manter-se quente. E chove pacas nessa Suécia de meu Deus, tanto que até com as botas de borracha acabei me molhando esses dias. Eu comprei botas azuis, mas aqui você encontra de todas as cores – e até de flores, aquelas botas de borracha mesmo, no estilo que o colono usa para trabalhar com porcos e galinhas e vacas… – e é caro, porque todo mundo precisa e quer e porque é moda. Sim, é moda ter botas coloridas. Alguém, enfim, ouviu o cara de Stockholm!

O problema maior de todos são as calcinhas suecas. Eu estou sobrevivendo com o que trouxe do Brasil (eu comprei um monte porque sabia que era estranho aqui), mas tem dias que eu fico decepcionada de não poder comprar essa coisinha tão imensamente necessária na vida de uma mulher. Calcinha bonita dá um gás novo na gente, é antidepressiva! Pelo menos para mim. A questão é que gosto de calcinhas confortáveis. E as lojas suecas oferecem duas opções: o modelo fio cheiroso ou a calçola da vovó. Não há – que eu tenha visto – um meio termo. Nem existe aquele fio dental com um pouco de pano, só aquele sem pano nenhum atrás! Certo, mas quem precisa de calcinhas quando tem um casaco grande, novo, vermelho e quente? Brincadeira, eu preciso!

Que venha a neve!!!

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