Pequenas Grandes Coisas da Minha Vida Sueca #06

Agora que tenho uma “rotina” eu talvez possa responder a pergunta: você gosta de morar na Suécia? Apesar de ter completado seis meses na terra dos vikings eu, sinceramente, não sei o que pensar. O que está claro é que: minha vida com o Joel é maravilhosa [Ponto]; minha vida escolar se resume a uma noite por semana, 3 horas de exercícios e pequenos textos (estudar por conta não entra aqui nesse contexto); minha vida de Marinete é como a vida de uma Marinete seria – ou como eu imagino que seria; minha vida como assistente pessoal…

A assistência pessoal é um capítulo a parte porque, puxa eu nem imaginava. Antes de partir eu pensava em trabalhar como Marinete, ou como garçonete, ou qualquer tipo de serviço desses para o qual não é preciso muito mais do que a vontade… acho que tive sorte de conhecer uma pessoa que acabou gostando de mim a ponto de aceitar que alguém que fala mal e mal sueco possa ser parte da equipe de assistentes que trabalham com ele. Sim, porque a coisa mais importante nesse tipo de trabalho é que tem que existir uma “química” entre os envolvidos, tem que rolar uma amizade ou o que meio que desde o primeiro minuto.

A Suécia paga para que pessoas idosas, com deficiência, autismo, doenças graves que causem dependência e/ou vítimas de acidentes que levarão traumas que as impossibilitem de alguma forma pelo resto da vida tenham o acompanhamento de um assistente pessoal, às vezes 24 horas por dia, que garanta a elas certa independência. Penso que posso dizer que isso é parte da política de assistência social sueca.

Às vezes o assistente é pago diretamente pelo governo/Estado por trabalhar em uma espécie de programa similar ao “nosso” programa saúde da família: uma equipe vai atender o usuário em casa, fazendo-lhe visitinhas. Essas podem ser de 30 min a 1 hora e tem por objetivo verificar se o cidadão come, está vestido, está bem, está tomando a medicação… enfim, cuidar dele sem estar ao lado monitorando. Essas pessoas fazem também comida, as compras no supermercado e outros, tudo para garantir que o beneficiado, na maioria idosos, possam estar fora de risco. Isso porque na Suécia é extremamente importante respeitar a vontade da pessoa [idosa], e mesmo se ela está doente (como com Alzeheimer em fase inicial, por exemplo) tem o direito de morar sozinha. Mas como assim mesmo eles podem se machucar, o Estado provê essa assistência que pode ser minimizada ou maximizada de acordo com o caso e o tempo.

Pessoas que se machucam em acidentes contam com assistência até a recuperação e/ou pelo resto da vida, e podem escolher se vão ter isso em casa ou em uma clínica. No caso de clínicas, estas servem também para a internação de idosos – desde que o mesmo esteja doente e seja dependente. As clínicas mais parecem um prédio comum: a pessoa vai ter um quarto exclusivo, um tanto quanto espaçoso com banheiro privativo e uma pequena cozinha (que conta com pia e geladeira). As refeições serão servidas em um espaço comunitário, mas no mais a pessoa pode ter coisinhas que são só suas. Eu vi um desses lugares e penso que é muito bom e bonito, tranquilo e com uma equipe completa de profissionais de saúde que estarão trabalhando para cuidar da pessoa doente, em recuperação ou idosa.

O Estado paga também empresas que prestam assistência pessoal aos cidadãos. Elas dispõe de uma lista de assistentes que podem ser solicitados a qualquer hora – chamados substitutos, ou assistentes que já tem uma rotina de trabalho específica com um usuário. Este é o meu caso: eu trabalhei como substituta por dois meses e depois passei a trabalhar dois dias por semana com o Zé [nome fictício do cidadão que eu cuido].

O Zé conta com assistência pessoal 24h, como muitas pessoas com deficiência aqui. Certo dia ele me perguntou como era isso no Brasil, como era para as pessoas com deficiência… e eu fiquei falando da falta de rampas e banheiros adaptados, e de bla bla bla… “Eles podem morar sozinhos? Eles tem assistentes como eu?” e quando eu disse não: “Que chato morar toda a vida com os pais!”.

Eu não sei se o sistema é similar Europa a fora, mas depois do comentário do Zé os meus olhos se abriram para uma série de questões que eu até então não tinha percebido. Agora eu vejo os deficientes físicos (mentais leves e moderados) passeando na cidade, fumando, fazendo compras, comprando bebidas, saindo para baladas. Assim, se por um lado eles tem uma vida marcada pela dependência de outras mãos e braços (a dos assistentes), por outro estão extremamente livres para fazer as próprias escolhas e experimentar muito mais do que um deficiente com o mesmo grau de dependência teria no Brasil. Afinal de contas, qual seria a mãe ou pai que concordaria que o filho deficiente (parcialmente ou totalmente dependente) fumasse ou bebesse? Qual seria o irmão que levaria ele para a balada? É óbvio que o assistente responsável pelo fulano ou ciclano não pode dar a ele/a bebida até o cidadão entrar em coma alcoolico, e que ele não vai poder usar drogas ilegais ou o quê. Mas ele pode decidir, e tentar.

No último post quando falei da clínica de saúde para pessoas idosas eu disse que isso foi estranho para mim. Parece abandono. Mas então a assistência pessoal para pessoas com deficiência também não seria correta, porque é um serviço que igualmente tira a responsabilidade dos ombros da família. E por que a família tem que ser responsável? Se o cidadão paga por isso uma vida inteira, é direito dele desfrutar o serviço. Assim o Estado e a família fazem um trabalho em conjunto: a família cuida de contratar um dos bons serviços que o Estado oferece, e monitora  os resultados. Não é que o idoso será deixado na clínica e ninguém mais vai ir visitá-lo; e não é porque o deficiente tem assistentes que a família vai esquecê-lo.

Abandono e negligência podem estar muito perto. E às vezes, pessoas que moram juntas estão mais longe do que se pode imaginar. Cuidar é muito mais do que estar perto!

PS.: a íntegra da charge que eu não consegui postar da ultima vez!

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2 comentários sobre “Pequenas Grandes Coisas da Minha Vida Sueca #06

  1. OLA CAIPIRA KKK… (VC KI DIZ ISSO!! KK)
    AMEI SEUs COMENTÁRIOS, VC CASOU AI NA SUECIA?
    JOEL É BRASILEIRO?
    ME FALA MAIS DE VC OLHA QUERO KI JESUS TE ABENÇOE E DEUS TE PROTEJA AI E FICA POR AI MESMO AGUENTA O FRIO E A NEVE PORQUE NO BRASIL TA DIFICIL VIU! OS POLITICOS SO ROUBAM ,O SISTEMA SUS PESSIMO MUITA FOME E MUITA GENTE TB SEM TETO .
    BEIJOSSSSS

  2. Olá Maria de Lourdes!

    Bem vinda ao blog!
    Hummm quantas perguntas! Mas então, não sou casada, o Joel não é brasileiro (ele adora quando perguntam se ele é brasileiro… mas ele é sueco), e eu acredito mesmo quando você diz que tá difícil no Brasil. Mas acredite, tá difícil no mundo, e a corrupção começa bem longe do senado no Brasil, começa em casa, é muitas vezes o que os pais ensinam aos filhos (tem que se dar bem em cima dos outros, enganar os trouxas faz parte). Daí o resultado é que somente algumas pessoas se dão bem em vista da maioria, a saúde é ruim, professor não tem salário decente, e ninguém tem casa…
    Mas é o mesmo na Grécia, Itália, Portugal, Espanha…
    Eu vou suportar a neve e o frio, mas só para um tempo… meu sonho é voltar para casa!

    Beijos!

Agora vamos prosear!

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