Dias de … na Suécia

No Brasil todo mundo sabe de cor os dias do “comércio”- como eu chamo: dias das mães, dos pais, das crianças, dos namorados… tudo para dar uma animada nas vendas, e fazer o povo comprar um monte de coisas desnecessárias.

Na Suécia, o comércio também faz essas promoções, mas eu acho que a coisa não é tão grande como no Brasil. Na liquidação de verão – que acontece lá pelos dias do midsommar (24 de junho) – as ruas do centro estavam lotadas de pessoas, todo mundo comprando, uma verdadeira loucura! Os mercados então, bem mais apertados do que mercearia de cidade pequena no dia do cheque do leite. E dizem que o mesmo acontece na liquidação de Natal. Mas hoje, por exemplo, o comércio estava bem tranquilo apesar de o dia dos pais acontecer no próximo domingo.

O dia das mães sueco é em maio, mas é comemorado no último domingo de. O dia dos namorados é comemorado no dia de São Valentim – eu li a história do tal Valentim e ainda não entendi porque ele foi considerado santo, e nem porque ele é o santo dos namorados… se bem que, por que é que Santo Antônio é o santo casamenteiro mesmo? – ou seja, em 14 de fevereiro e por aqui tem o nome do “Dia de todos os corações”. Bonitinho não?

Não tem um dia das crianças, mas tem Halloween. Sim, daquele tipo que as crianças batem na porta das casas e pedem: gostosuras ou travessuras? Ou melhor: bus eller godis?, em sueco. No dia 29 de outubro terminou o horário de “verão” sueco, então no dia 30 e 31 eu estava bem perdida, achando super estranho que a noite começava às 17h. Justo no dia 31 eu voltei para casa tarde – depois das 17h, e tava pensando na morte da bezerra quando me deparo com um grupo de crianças vestidas de monstrinho na porta de casa. O apê onde eu moro fica no primeiro andar então eu subo as escadas, e mal e mal eu pisei no último degrau todas aquelas crianças (uma multidão de… cinco) viraram para mim: de preto, eu nem ia reparar que era uma fantasia não fosse a maquiagem de sangue e os dentes de vampiro. “É você que mora aqui?” “Sim” “Bus eller godis?” em coro. Eu só ãhnnnnn… e o Joel abriu a porta e me salvou. Sei lá, acho que ele deu um pacote de bolacha para as crianças.

Em contrapartida, o espírito natalino aqui começa cedo. Cedo, quero dizer porque em meados de outubro já tinham propagandas de shows do Natal espalhados pela cidade. Agora, já é possível ver muitos motivos natalinos nas casas, e nas lojas (que vendem esse tipo de artigos). E o rei da festa não é o Papai Noel. Isso é bem engraçado porque a Suécia não é um país cristão (64% dos suecos se declaram ateus, e pensando que 13% da população sueca é imigrante e que dentre esses imigrantes a fatia maior é islâmica…) as pessoas se preparam para uma festa de paz – com muitas velas vermelhas e luz.

Faz sentido… muita luz para iluminar esses dias escuros!

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We Can Do It

Falar das mulheres suecas é muitas vezes falar de feminismo, principalmente do ponto de vista de pessoas como nós (latinos), que vivemos em um mundo de longe machista. Pra falar bem a verdade, acho ridiculamente chata essa discussão e só vou me dar o trabalho de escrever algumas linhas porque eu tenho ouvido e lido tanto ultimamente sobre igualdade de gêneros que chega a ser dolorido.

Pra mim, há muito mais perdas do que ganhos em ambos os sentidos. Não estamos em uma guerra contra os homens a favor dos direitos das mulheres, ou o que quer que seja. Anatonicamente homens e mulheres são muito diferentes. Psicologicamente, podem ser muito diferentes ou não – independente do sexo. Mas é a definição cultural que demarca o quanto machista ou feminista é uma sociedade. E é isso que os suecos já entenderam: os pais (pai e mãe juntos) educam o filho/a de forma igual.

Meninos aprendem obrigações domésticas e meninas vão trabalhar no quintal. Blá blá blá, blá blá blá, mas na verdade quem fala disso é quem está de fora, quem chega como eu. Suecos já esgotaram essa discussão há muito tempo e se alguns leitores bem lembram, para a sociedade sueca o importante é ser lagom  (você pode ser o que quiser, desde que esteja na medida sueca de ser). E para mim isso é mais importante.

Eu acho tão exaustivamente chato quando alguém decide defender ardentemente o feminismo, o machismo, ou qualquer “ismo” que seja. As pessoas gostam tanto de criticar a religião (leia-se o catolicismo) por causa do discurso salvação versus  condenação, mas não percebem que estão atirando pedras em telhados de vidro: seja feminista ou você será sempre burra e retardada, seja machista ou as mulheres dominarão o mundo, seja racista ou negros e pobres conquistarão espaço na sociedade… e por aí vai. Eu sou bem mais o lagom, seja o que quiser, desde que essa seja a sua decisão.

E é assim que funciona para mim. Eu acredito na frase (We can do it!) mas simplesmente tem dias que eu não quero. Porque eu to cansada, porque eu gosto de ser uma donzela, porque eu penso que a arma maior de uma mulher é a doçura, porque eu acho bonitinho ser protegida por alguém que quer me cuidar (sim, eu sou a mocinha que será salva pelo herói!) e só e simplesmente porque eu quero e acho legal. As mulheres podem tudo, e penso que é maravilhoso viver em um tempo e numa sociedade em que as pessoas concordam com isso, mas isso não significa que eu tenho que querer fazer tudo o que posso sozinha.

Caraca que pensamentinho pequeno não? Quem pensa dessa forma será facilmente dominada por um homem. Por que? Eu sou brasileira, graças a Deus, mas não é por isso que sou menos feminista. Só que minha cultura é diferente, não posso negar. E mudar a raiz cultural de um povo é um processo longo e demorado, que não vai ganhar em nada se eu começar a gritar o meu “ismo”a todos pulmões. Essa etapa já passou e o segredo da transformação está nas mãos de quem educa as crianças. Se são só as mulheres que fazem isso no Brasil, porque ainda somos uma sociedade em que o homem pode mais?

Quem educa os meninos a pensarem assim? Os pais que não acompanham o crescimento deles, ou as mães que fingem que o fazem?

Pequenas Grandes Coisas da Minha Vida Sueca #06

Agora que tenho uma “rotina” eu talvez possa responder a pergunta: você gosta de morar na Suécia? Apesar de ter completado seis meses na terra dos vikings eu, sinceramente, não sei o que pensar. O que está claro é que: minha vida com o Joel é maravilhosa [Ponto]; minha vida escolar se resume a uma noite por semana, 3 horas de exercícios e pequenos textos (estudar por conta não entra aqui nesse contexto); minha vida de Marinete é como a vida de uma Marinete seria – ou como eu imagino que seria; minha vida como assistente pessoal…

A assistência pessoal é um capítulo a parte porque, puxa eu nem imaginava. Antes de partir eu pensava em trabalhar como Marinete, ou como garçonete, ou qualquer tipo de serviço desses para o qual não é preciso muito mais do que a vontade… acho que tive sorte de conhecer uma pessoa que acabou gostando de mim a ponto de aceitar que alguém que fala mal e mal sueco possa ser parte da equipe de assistentes que trabalham com ele. Sim, porque a coisa mais importante nesse tipo de trabalho é que tem que existir uma “química” entre os envolvidos, tem que rolar uma amizade ou o que meio que desde o primeiro minuto.

A Suécia paga para que pessoas idosas, com deficiência, autismo, doenças graves que causem dependência e/ou vítimas de acidentes que levarão traumas que as impossibilitem de alguma forma pelo resto da vida tenham o acompanhamento de um assistente pessoal, às vezes 24 horas por dia, que garanta a elas certa independência. Penso que posso dizer que isso é parte da política de assistência social sueca.

Às vezes o assistente é pago diretamente pelo governo/Estado por trabalhar em uma espécie de programa similar ao “nosso” programa saúde da família: uma equipe vai atender o usuário em casa, fazendo-lhe visitinhas. Essas podem ser de 30 min a 1 hora e tem por objetivo verificar se o cidadão come, está vestido, está bem, está tomando a medicação… enfim, cuidar dele sem estar ao lado monitorando. Essas pessoas fazem também comida, as compras no supermercado e outros, tudo para garantir que o beneficiado, na maioria idosos, possam estar fora de risco. Isso porque na Suécia é extremamente importante respeitar a vontade da pessoa [idosa], e mesmo se ela está doente (como com Alzeheimer em fase inicial, por exemplo) tem o direito de morar sozinha. Mas como assim mesmo eles podem se machucar, o Estado provê essa assistência que pode ser minimizada ou maximizada de acordo com o caso e o tempo.

Pessoas que se machucam em acidentes contam com assistência até a recuperação e/ou pelo resto da vida, e podem escolher se vão ter isso em casa ou em uma clínica. No caso de clínicas, estas servem também para a internação de idosos – desde que o mesmo esteja doente e seja dependente. As clínicas mais parecem um prédio comum: a pessoa vai ter um quarto exclusivo, um tanto quanto espaçoso com banheiro privativo e uma pequena cozinha (que conta com pia e geladeira). As refeições serão servidas em um espaço comunitário, mas no mais a pessoa pode ter coisinhas que são só suas. Eu vi um desses lugares e penso que é muito bom e bonito, tranquilo e com uma equipe completa de profissionais de saúde que estarão trabalhando para cuidar da pessoa doente, em recuperação ou idosa.

O Estado paga também empresas que prestam assistência pessoal aos cidadãos. Elas dispõe de uma lista de assistentes que podem ser solicitados a qualquer hora – chamados substitutos, ou assistentes que já tem uma rotina de trabalho específica com um usuário. Este é o meu caso: eu trabalhei como substituta por dois meses e depois passei a trabalhar dois dias por semana com o Zé [nome fictício do cidadão que eu cuido].

O Zé conta com assistência pessoal 24h, como muitas pessoas com deficiência aqui. Certo dia ele me perguntou como era isso no Brasil, como era para as pessoas com deficiência… e eu fiquei falando da falta de rampas e banheiros adaptados, e de bla bla bla… “Eles podem morar sozinhos? Eles tem assistentes como eu?” e quando eu disse não: “Que chato morar toda a vida com os pais!”.

Eu não sei se o sistema é similar Europa a fora, mas depois do comentário do Zé os meus olhos se abriram para uma série de questões que eu até então não tinha percebido. Agora eu vejo os deficientes físicos (mentais leves e moderados) passeando na cidade, fumando, fazendo compras, comprando bebidas, saindo para baladas. Assim, se por um lado eles tem uma vida marcada pela dependência de outras mãos e braços (a dos assistentes), por outro estão extremamente livres para fazer as próprias escolhas e experimentar muito mais do que um deficiente com o mesmo grau de dependência teria no Brasil. Afinal de contas, qual seria a mãe ou pai que concordaria que o filho deficiente (parcialmente ou totalmente dependente) fumasse ou bebesse? Qual seria o irmão que levaria ele para a balada? É óbvio que o assistente responsável pelo fulano ou ciclano não pode dar a ele/a bebida até o cidadão entrar em coma alcoolico, e que ele não vai poder usar drogas ilegais ou o quê. Mas ele pode decidir, e tentar.

No último post quando falei da clínica de saúde para pessoas idosas eu disse que isso foi estranho para mim. Parece abandono. Mas então a assistência pessoal para pessoas com deficiência também não seria correta, porque é um serviço que igualmente tira a responsabilidade dos ombros da família. E por que a família tem que ser responsável? Se o cidadão paga por isso uma vida inteira, é direito dele desfrutar o serviço. Assim o Estado e a família fazem um trabalho em conjunto: a família cuida de contratar um dos bons serviços que o Estado oferece, e monitora  os resultados. Não é que o idoso será deixado na clínica e ninguém mais vai ir visitá-lo; e não é porque o deficiente tem assistentes que a família vai esquecê-lo.

Abandono e negligência podem estar muito perto. E às vezes, pessoas que moram juntas estão mais longe do que se pode imaginar. Cuidar é muito mais do que estar perto!

PS.: a íntegra da charge que eu não consegui postar da ultima vez!