Na Suécia também tem São Silvestre!

Sim!! É amanhã e acontece aqui em Göteborg! Hahahaha foi tão legal quando eu vi a placa: o trem número dois terá o caminho desviado amanhã entre 12h e 13h30min por causa da corrida de Silvestre (Sylvesterlopet); e eu ãhnn?? Achei até um site com as informações do evento, no qual eu infelizmente não consegui descobrir há quanto tempo acontece e tals.

Essa semana estou mais do que feliz. Só porque a vida é boa. E porque tem promoção na cidade! Hahahaha!! Mulheres… mas aqui realmente vale a pena aproveitar as promoções de mellandags (os dias entre Natal e Ano Novo) e do Midsommar: tudo fica metade do preço – às vezes menos. Comprei um casaqueto mui lindo (para a primavera) por uma pechincha. No mais, é meio louco ir para a cidade nesses dias porque é um verdadeiro formigueiro! Mas é legal, nem que seja só para “olhar o movimento” – coisa de caipira.

Amanhã é dia de festa e vamos virar o ano na casa do Moisés – depois todo mundo sai para algum lugar dançar. Passei no Systembolaget (na Suécia a venda de bebidas é controlada e você não encontra nada no mercado com teor de álcool superior a 3,5%) hoje e enfrentei uma fila quilométrica para garantir o brinde afinal,  amanhã eu trabalho até as  seis… bom também!

Fiz minha retrospectiva 2011 e sinceramente, o ano foi fantástico: janeiro o Joel foi para o Brasil e recebi o visto de residência (= permissão de mudar para a Suécia); em fevereiro fomos para a praia; março foi meu aníver, sempre é especial; abril mudei para as bandas de cá; maio comecei SFI; julho foi aníver do Joel e consegui trabalho; setembro terminei a primeira parte do SFI; e novembro/dezembro… terminei SFI, consegui o bônus, mudei de apartamento, ganhei a viagem para o Brasil e o maior do ano: fiquei noivaaaaaa!

Amadureci muito como pessoa, acredito que sempre aprendemos quando deixamos a zona de conforto, quando tentamos algo novo, quando queremos e aceitamos a mudança… gosto muito de Göteborg e ultimamente me pego pensando em sueco! Allt är ditt fel, Joel!

(Abre parênteses para ser melosa e romântica… esse ano eu tava conversando com um amigo que me disse que a vida é sempre melhor quando encontramos uma pessoa com a qual compartilhar as batalhas, derrotas e vitórias; quando encontramos alguém para somar. Fiquei pensando que sempre que nos apaixonamos por alguém acabamos nos questionando: será essa a pessoa certa? Às vezes, não fica muito claro, mas eu entendi que a melhor forma de descobrir é por meio dessa pergunta: essa pessoa está com você para somar? Eu sou tão feliz, me sinto tão segura e amada ao lado do Joel, e percebo que é simplesmente porque temos isso: nós estamos juntos, NÃO somos um, mas sim dois que se somam, crescem, aprendem um com o outro e tem liberdade, inclusive, para mudar. Amo você Joel…)

Planos para 2012? Ser feliz, cuidar de mim, ser feliz, curtir a vida, ser feliz, valorizar as coisas pequenas, ser feliz, valorizar as coisas simples, ser feliz, estudar, ser feliz, amar, ser feliz, trabalhar, ser feliz… agradecer a Deus!

Feliz ano novo!!!

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Pequenas Grandes Coisas da Minha Vida Sueca #10

No capítulo de hoje…

Comi demais no Natal. Típico de festas de fim de ano, to pensando naquelas colunas de revistas femininas com o título “Como passar o fim de ano sem engordar”, ou qualquer coisa semelhante, que a gente lê mas nunca segue. A ceia de Natal é uma coisa importante na Suécia, tanto que as empresas costumam oferecer uma ceia com todos os pratos suecos típicos de Natal para os funcionários conhecida com Julbordet – ou mesa de Natal.

Infelizmente, eu não sou muito boa com a descrição detalhada das tradições suecas, mas vou dar uma pincelada. Nossa ceia teve almondegas, ovos cozidos com caviar (não é gostoso!), presunto de peru, muito salmão (preparado de 4 formas diferentes), salada e uma torta de batatas com peixe e queijo, mais queijo e pão que sempre estão na mesa em um middag sueco. Para beber julmost – bebida típica de Natal que parece uma daquelas versões de coca-cola do Brasil como baré cola ou outras, que conseguem ser ainda mais doces do que a coca-cola – e svagdricka – uma coisa que lembra cerveja misturada com coca-cola. Não sei se todo mundo tem uma ceia igual, mas antes do Natal eu vi e ouvi uma intensa propaganda a respeito do presunto (de porco ou peru) e da mostarda, então acho que isso mais o salmão são coisas que não podem faltar no Natal sueco.

Aliás, essa coisa de comida de Natal aqui é meio bizarra: tem mostarda especial de Natal, presunto especial de Natal, bolachas especiais de Natal (chamadas de pepparkakar – leia pepacócurrrrr), pão especial de Natal, salmão especial de Natal, salsichas especiais de Natal, queijo especial de Natal, e pasmem, ovos especiais de Natal. Tudo num pacote vermelho ou com um JUL bem grande, sendo que o preço é maior também. Não me pergunte se as galinhas ganham extra por isso…

Ganhei um monte de presentes: a viagem para o Brasil (manhê, to chegando!), um cartão para o cinema, coisinhas para a casa e um creme para o rosto. Todo mundo dá presentes para todo mundo e apesar de ser um stress na hora de comprar é tão gostoso o momento da troca. Além disso, aqui ninguém tem vergonha de declarar abertamente que não gostou do presente que ganhou, e para isso há brincadeiras (fizemos uma que todos deveriam fazer pequenos pacotes de presentes com coisas que ganharam em natais anteriores e que não usam ou queriam e o pai do Joel colocou o quadro que ganhou nesse Natal! Foi hilário…) ou você pode vender na internet, trocar, ou o quê. O importante é ganhar e dar presentes.

E música. Assim como as luzes, que estão na cidade desde meados de novembro, todo mundo ouve música de Natal desde… não sei, mas é louco que todo mundo tem o mesmo cd e escuta a mesma seleção de músicas, que vão desde Happy Xmas de John Lennon até Noite Feliz (Stilla Natt), além de algumas tradicionais (canções de Natal) suecas. Gostei muito de uma delas, acho o texto extremamente simples e gostoso – além da vozes nessa versão que me acostumei a ouvir quase que diariamente; uma coisa que sei lá, dá um tom de esperança, mesmo que às vezes o tempo esteja tão fechado e o dia seja tao escuro…

A letra me lembra da Mari – do Mundo da Mari – e na Anelise, que me disseram: quando estiver escuro, acenda velas Maria!

Tänd ett ljus (Acenda uma vela)

Tänd ett ljus och låt det brinna acenda uma vela e deixe queimar
låt aldrig hoppet försvinna  não deixe a esperança desaparecer
det är mörkt nu agora tá escuro
men det blir ljusare igen mas será claro outra vez
 
Tänd ett ljus för allt du tror på acenda uma vela por tudo que você crê
för den här planeten vi bor på por esse mundo onde vivemos
tänd ett ljus för jordens barn acenda uma vela pelas crianças do mundo

dom dom dom…….

Jag såg en stjärna falla eu vi uma estrela cair
det var inatt när alla sov foi essa noite quando todos dormiam
jag tror jag önskade eu acho que eu desejei 
att du var nära que você estivesse perto

för en minut sen brann den há um minuto ela queimou
för en sekund sen försvann den e há segundo ela desapareceu
det var det bara jag som såg foi apenas eu que vi

på radion sjöng dom om fred på jorden no rádio eles cantam por paz na terra
jag ville tro dom slitna orden eu quis acreditar naquelas belas palavras 

dom dom dom…..

Tänd ett ljus…

dom dom dom….

Jag fick ett kort från Windhem eu recebi uma carta de Windhem
jag visste inte var det låg eu não soube onde estava
jag såg på kartan e olhei no mapa
du är på andra sidan jorden você está no outro lado do mundo

men det är samma himmel mas é o mesmo céu
det är samma hav och stjärnan som jag såg é o mesmo mar e a estrela que eu vi

föll för alltid som vi drömmer caiu para que sempre sonhemos
föll för att vi aldrig glömmer caiu para que nunca esqueçamos

dom dom dom…

Tänd ett ljus…

dom dom dom…

God jul och gott nytt år Feliz Natal e Feliz Ano Novo

lova var rädd om dig själv Prometa que você vai se cuidar
en hälsning du får um cumprimento pra você

Tänd ett ljus…

åååh tänd ett ljus för jordens barn 

tänd ett ljus för jordens barn

Família, amigos e amigas lá do outro lado: Feliz Natal atrasado!

Agora até a Suécia tem baratas

Sempre li nos blogs das pessoas que moram na Suécia (especialmente em um blog muito interessante que já não tem mais postagens recentes, infelizmente) que a Suécia não tem baratas. Ou não tinha, porque ontem escutei de uma sueca que o apê dela tem baratas, e que são dois bairros em Göteborg em que elas apareceram; inclusive em um bairro bem próximo ao meu. Putzz, agora definitivamente volto para o Brasil!

Não há nada mais nojento do que baratas. E eu não consigo matá-las. Não é dó, é nojo. Algumas pessoas podem pensar que Freud explica, mas a questão não é – definitivamente – sexual. (Há. Porque você pensa que eles cantam “que a barata da vizinha tá na minha cama?”) É que quando você esmaga a barata sai uma coisa verde ou amarela ou… argh! Que nojo! Nem posso pensar. Definitivamente, matar barata só com inseticida.

Ok, tudo está bem por enquanto porque elas não estão no meu apartamento. O detalhe é que as baratas apareceram justamente em bairros com grande concentração de estrangeiros, e infelizmente, os bairros de “estrangeiros” em Göteborg é onde você pode ver o lixo nas ruas e/ou fora dos contêiners para lixo. Dizem que há multa para quem não separa o lixo, mas eu não entendo porquê, então, as pessoas continuam a jogar o lixo de qualquer forma. Exatamente em frente ao prédio em que eu morava antes havia uma pequena praça com um campinho de futebol, e justo ali as pessoas costumam deixar camas, sofás, móveis e eletrodomésticos velhos. Há um contêiner uma vez por semana para que a população deposite esse tipo de lixo nesse lugar, e ele é deixado ali por dois dias – mas ninguém espera pelo contêiner – que vem na segunda cedo e vai na quarta cedo. Na quarta à tarde já há mais lixo ali – que fica acumulado até a segunda, quando o contêiner chega e então um funcionário coloca tudo lá dentro.

Por essas e outras há uma grande dificuldade de integração entre os suecos e estrangeiros. Eu também sentiria o mesmo, porque eu lembro que na minha cidade tínhamos problemas grandes de higiene justamente com famílias vindas do Paraguai. Por mais que se trabalhasse a questão, a coisa ficava como eles são assim, o que se pode fazer?

Aqui não é diferente: o lixo está nos bairros onde os estrangeiros moram, assim como as altas taxas de criminalidade e repetência escolar, os droga adictos, alcoolistas e agora, as baratas. Mesmo que a Suécia seja um dos países europeus com a política de imigração mais aberta da Europa, o problema está gritando nas entrelinhas: até refugiados estão sendo enviados de volta para o Irã/Iraque – mesmo que não sem protestos.

A dificuldade de integração não escapa a ninguém, e sinto que a questão é ligeiramente menos ruim para pessoas com um namorado-a/marido-esposa/sambo sueco. Mesmo as pessoas nascidas na Suécia de pais não suecos não são consideradas suecas, como explica o site da embaixada sueca do Brasil: “A cidadania sueca está ligada aos jus sanguini, ou seja está ligada aos pais e não ao local de nascimento. Portanto, indivíduos nascidos na Suécia, filhos de mãe e pai não suecos não podem obter cidadania sueca. Segundo a lei sueca, apenas filhos de pais suecos ou de pai ou mãe com cidadania sueca tem o direito a cidadania.”. E é assim que as pessoas se sentem realmente: pergunte a um rapaz/moça filho/a de refugiados se ele é sueco e ele irá responder sou chileno, ou somali, ou romeno, etc;  apesar de nascido na Suécia; eles falam sueco+o idioma da terra natal e enlouquecem os professores com as conversas paralelas; suas festas tem a música do lado de lá e, muitas vezes, eles odeiam os suecos.

Infelizmente, não há como fazer com que os suecos amem os estrangeiros e vice-versa. Felizmente, mais e mais pessoas estão apontando para a necessidade da implantação de uma real política de integração, e isso significa SFI que funcione, maior agilidade na validação de diplomas estrangeiros – além da aplicação da validação total ao invés validação parcial, que resultaria numa imediata inserção ao mercado de trabalho; enfim, maior apoio a inserção do imigrante ao mercado de trabalho. A Suécia tem uma excelente política de apoio social, o que no caso dos imigrantes aumenta consideravelmente a marginalização – até eu fico puta da cara com o pessoal que tem o bidrag e recebe o “bolsa família sueco”, porque a versão sueca é por tempo indeterminado e resulta em pessoas que nunca aprendem sueco e nunca saem do SFI – mesmo depois de anos.

Cada barata pode conter de 04 a 50 ovos que se desenvolverão em um período de até 5 semanas (dependendo da espécie), levando em média 8 meses para chegar a fase adulta (wikipédia). Não há dúvida que algumas espécies são consideradas uma praga urbana, mas o uso de inseticidas, além de não atingir os objetivos, acaba por tornar a barata muito mais resistente (e eu penso como assim?? se dizem que somente elas sobreviveriam a uma guerra nuclear??). Eu penso que há poucas chances que elas – as baratas – não tenham vindo para ficar… Infelizmente, o preconceito e marginalização – uma praga social bem mais simples de ser combatida – também. E não só na sociedade sueca…

Será que todo mundo se acostuma?

God Jul

Sábado eu tava no telefone com minha irmã mais velha e falamos um pouco sobre Natal. Tá tudo decorado com motivos natalinos desde o início de novembro – o que me deixa bem feliz porque a escuridão quase parece legal – mas para mim não é Natal: tá tão frio e é tão estranho tudo, para todo lado propagandas como “Compre antecipadamente o seu presente de Natal”, ou “Envie um presente de Natal para quem realmente precisa”; “Dê o presente de Natal que você não gostou para alguém que não tem nada”; “Não dê esmolas”; “Diga não à cultura do Papai Noel”… e por aí vai. Tem God Jul para todo lado – Feliz Natal em sueco – que me faz pensar sempre em inverno e Feliz Julho (viva São João!!… não??).

O Marcus e a Emília vieram da Noruega e ficam com a gente até depois do ano novo. Nem isso ajuda. Me sinto em férias escolares de julho – do julho brasileiro. To meio de saco cheio de usar roupas em camadas todo o tempo, ainda que depois que mudamos para o novo apê – que é mais quente – tenho até me surpreendido e andado sem meias pela casa (gente minhas unhas tão que dá dó). Fazia uma cara que não via meus calcanhares e levei até um susto. Precisei comprar uns cremes para amenizar a situação. Vou para o Brasil em duas semanas e ontem falei para o meu pai: “Nem sei se quero levar mala. Quero ficar o mais pelada possível…”. Ok, ok, não é para tanto, mas que dá vontade…

Semana passada a gente foi passear no Liseberg para ver as luzes de Natal, e além disso tinham uma multidão de crianças maravilhadas com porcos, galinhas e coelhos. O Liseberg é o parque de diversões da cidade de Göteborg e, apesar de a maioria dos brinquedos estarem fechados agora, estava cheio de pessoas que vieram apenas caminhar com as crianças, olhar as luzes e os animais e gastar dinheiro com doces. Eu também achei legal ter os animais por lá, porque havia renas também. Primeira vez que vi renas na vida, entendo perfeitamente a fascinação das crianças pelos porcos e galinhas.

O que mais me impressionou foi que há um presépio no Liseberg. Sim, a primeira vez que eu vi um presépio na Suécia foi num parque de diversões em que eu podia esperar um milhão de coisas, menos Jesus. Eu sinto falta de Jesus, pessoas falando do nascimento de Cristo. Parece tão esquisito Natal sem Jesus. É claro que não sou hipócrita e sei que no Brasil não há tanto fervor religioso como todo o mundo pensa. Mas é mais comum ter presépios nas lojas e tal – às vezes pequenos ou escondidos atrás do papai noel, mas tem.

Quase não dá para ver, mas são Jesus, Maria e José!

O melhor de tudo é que não ouvi nenhuma reclamação do tipo que o presépio não devia estar “lá” porque é um desrespeito com a população islâmica, porque é um desrespeito para com a maioria sueca – ateia. Sou super a favor da campanha pela extinção do papai noel como símbolo do Natal, mas acho uma hipocrisia enorme querer extinguir Jesus do Natal. No final das contas eu lembro a letra da música do Padre Zezinho que canta que o povo tem medo de Jesus – só porque ele tinha tanto amor.

Saudade de casa…

Na Suécia também tem gente “sem noção”

Eu tenho uma birra contra transporte coletivo, provavelmente porque essa é a primeira vez na vida que tenho que me stressar com isso. Apesar de eu adorar tomar o spårvagn, tem dias que dá vontade de gritar com uns passageiros sem noção, que na maioria das vezes são os suecos. Não importa se você é idoso, criança, está grávida, é deficiente ou o quê, entrar e sair dos ônibus e spårvagn muitas vezes é uma luta.

Quando eu to trabalhando com o Zé sempre acontece. A gente vai tomar o ônibus ou o spårvagn e eu tenho que ficar falando todo o tempo: “Com licença, por favor, com licença, desculpe, opa! com licença… posso passar?” para que as pessoas permitam que a gente use o coletivo. Todo o ônibus ou spårvagn tem um lugar específico para o cadeirante, e é ali e SÓ ali que o cadeirante pode viajar. Tanto, que eu já vivi situações que já há um cadeirante no transporte e o motorista/condutor diz nos auto falantes: por favor, espere o próximo veículo. Entramos por uma porta que fica bem no meio do ônibus ou spårvagn – normalmente marcada em laranja – e lá tem todo o aparato para subir e descer, inclusive rampa e uns botões que avisam o motorista que tem um cadeirante subindo ou descendo.

Primeiro, que o povo é totalmente sem noção. Ao invés de tentar entrar por outra porta – o spårvagn tem no minímo 4, e o ônibus 2; todo mundo quer entrar por aquela porta em que entra o cadeirante. Só tem uma porta para cadeirante, e é por ali que todo mundo quer entrar. Ou é todo mundo meio debilóide, ou é a coisa com a igualdade que aqui é tomada ao pé da letra. O resultado é um tumulto, pessoas se acotovelando para entrar primeiro no transporte enquanto eu e o Zé assistimos. Eu não ia me stressar nem um pouco com isso se o motorista/condutor esperasse, mas a coisa é que além de ter pouco espaço para manobrar a cadeira, sempre preciso pedir para algum outro deficiente – no caso mental ou visual, que não viu ou não entendeu a placa – sair do lugar específico do cadeirante. Antes de eu travar as rodas da cadeira o transporte já tá em movimento em 50% dos casos e a cadeira vem literalmente para cima de mim, e ai das minhas canelas e dos meus pés.

As únicas pessoas que são tranquilas com essa questão são as mulheres com criança pequena (tem lugar para o carrinho de bebê também dentro dos ônibus e spårvagn). Elas sofrem do mesmo mal e, enfim, sempre me dão a preferência para entrar quando eu to com o Zé. Hoje, por exemplo, eu estava esperando o spårvagn na Brunsparken, e como sempre na hora de entrar foi aquele tumulto. Quando foi a minha vez de embarcar percebi assustada que tinha um pai tentando sair com o carinho de bebê depois que todas as pessoas já haviam desembarcado e quase todas haviam embarcado.

Os motoristas de ônibus e condutores de spårvagn em geral parecem mau humorados e sádicos. As vezes eu tenho a impressão de que eles esperam até que a pessoa que estava correndo loucamente para alcançar o transporte chegue bem perto, às vezes até na frente da porta, para então dar a partida e sair.

Não tenho certeza se eu sou campeã em presenciar momentos bizarros do transporte coletivo sueco – como o dia em que uma mãe esqueceu o bebê dentro do spårvagn – mas na semans passada eu vi uma senhora ser quase arrastada pelo ônibus: (não há respeito com ninguém, imagine para com as pessoas idosas) quando fui descer havia também duas senhoras idosas. A primeira desceu com um andador e já estava voltando para amparar a segunda quando a porta do ônibus fechou. Para se ter uma idéia, foi tão rápido que eu ainda não havia descido do ônibus – e aquele era meu ponto. Eu tentei segurar a porta, o que muitas vezes dá certo, mas não tive êxito e soltei a porta, o que a senhora do lado de fora não fez. Quando a porta fechou, a mão dela estava presa na porta mas o motorista nem; deu a partida com a mulher dependurada do lado de fora. Foi uma gritaria, porque todo mundo viu menos o motorista – apesar de eles terem câmeras em todos os veículos. Ele parou de soco e a senhora que estava do meu lado caiu, batendo a cabeça no chão. Um caos.

O país pode ser de primeiro mundo, mas a educação…

Decifra-me ou te devoro – interrogações

Eu ando meio preguiçosa para escrever dicas de sueco. Talvez seja porque agora eu consigo conversar e perdi aquela necessidade louca de entender. Agora ando numa fase de escutar muito, prestar enorme atenção na forma como as pessoas falam. Mesmo sabendo que estou expandindo o vocabulário e melhorando a pronúncia, sinto como se estivesse estacionada no mesmo lugar.

Falando nisso, duas coisas: primeiro que eu não tenho o costume de ficar utilizando palavras de apoio quando alguém está conversando. Claro que a gente usa muito isso em português, mas eu sempre fui de falar mais do que escutar. Para quem não pegou o fio da meada, as palavras de apoio são aquelas frases curtinhas que usamos para incentivar o cidadão a continuar a fala, além de expressar que estamos entendendo – aquela coisa com humm…, mesmo?, não sabia…, com certeza!, além de outras. Em sueco se usa muito o ja, absolut, precis. Quando digo muito, é muito mesmo. No início, eu nunca utilizei essas palavras de apoio e o que acontecia era a pessoa repetir duas ou três vezes o que estava falando. Eu dizia entendi, mas o povo ficava me olhando com cara de dúvida. Agora eu quase consigo fazer isso – apesar de achar muito estranho – e percebo que a conversa flui mais naturalmente.

Segundo, eu sempre me enrolo na hora de perguntar coisas. Tudo porque na lógica do sueco o verbo vai primeiro nas interrogações, como no inglês. Mas eu nunca fui fluente no inglês, ou melhor, ainda não sou, e também tinha esse problema de me confundir na hora de fazer as perguntas. Coisa bem boba, mas enquanto a gente formula a frase em português e traduz para o sueco acontece bastante. Quando a gente adquire a capacidade de pensar em sueco, daí tudo fica muito mais fácil.

Pra começar, nada melhor do que entender a ordem das palavras em interrogações em sueco. Claro que sei disso e estudei há um tempão, mas só a prática para diminuir a incidência de erros… 8 meses não é lá tanto tempo assim não é? Pra quem tá começando, é interessante saber.

O verbo vem em primeiro nas interrogações, a exceção daquelas palavrinhas utilizadas para mensurar ou definir a questão, por exemplo: como?  o quê? quem? onde? quando? (hur? vad? vem? var? när?). Acho importante sublinhar três deles: hur mycket, hur många e hur länge – quanto/a, quantos/as e quanto tempo. Hur mycket é utilizado para peguntar sobre coisas que “não são possíveis de mensurar” de forma simples, como água, café, leite, neve, areia…; ou seja, que a resposta não pode ser 1, 5, me dá 25 disso, etc. Hur mycket kaffe vill du ha? En halv kopp, tack [quanto café você quer? meio copo, obrigada]. Ou seja, se a pergunta (em português) é no singular (quanto ou quanta), utilize hur mycket. Quando a pergunta é sobre coisas facilmente mensuráveis, utiliza-se hur många: hur många barn har du? Hur många personer kommer till festen? Hur många glas har du? [ Quantas crianças você tem? Quantas pessoas vem para a festa? Quantos copos você tem?]. Para todas essas perguntas, a resposta pode ser um simples 2, 12, 6. Ou seja, se a questão (em português) é no plural (quantos ou quantas), utilize hur många.

Uma das perguntas que mais me fazem é hur länge har du varit i Sverige? que é o equivalente ao nosso há quanto tempo você está na Suécia? em tradução não literal. Apesar de não aparecer na pergunta nenhum “tid”, esse é o significado de hur länge em perguntas como: hur länge har du jobbat som personlig assistent? Hur länge har du läst svenska? Hur länge har ni varit tillsammans? [Há quanto tempo você trabalha como assistente pessoal? Há quanto tempo você estuda sueco? Há quanto tempo vocês estão juntos?].

Ok, agora vamos de esqueminha:

Vad heter du? De forma simples, a ordem das interrogações sempre segue o padrão verbo+sujeito. Lembrando que as palavrinhas de interrogação vem primeiro, mas se elas não são aplicáveis, primeiro vem o verbo. Heter du Maria? Är du svensk? Tycker du om lax? [seu nome é Maria? você é sueca? você gosta de salmão?].

Hur länge har du varit i Sverige? Quando existem dois verbos na pergunta, o sujeito fica entre eles, como no caso acima: verbo 1+sujeito+verbo 2. Aqui o tempo verbal é o passado perfeito, sempre acompanhado de har, mas isso é assunto para outro post. E o resto da questão? Quando, onde e com quem são complementos que sermpre ficam no final da pergunta, nesse caso, a menos que seja exatamente o que você quer saber. A diferença: Vem var med dig igår? Var du med Joel igår? [quem estava com você ontem? você estava com o Joel ontem?]. Outros exemplos (de perguntas com dois verbos): Vill ni ha kaffe? Har du sett The Help? Ska du åka till Brasilien? Tror du att det kommer regn? [vocês querem café? você assistiu The Help? você vai para o Brasil? será que chove?].

Varför tycker du inte om lax? Quando aparecem advérbios nas perguntas – o mais comum deles é o não – sempre ficam atrás do sujeito, na ordem: verbo+sujeito+advérbio(+verbo2, se houver). Varför går vi aldrig på bio? Glömde du igen att stänga av din mobiltelefon? Kan du nån gång komma i tid? [porque nunca vamos ao cinema? você esqueceu de novo de desligar o celular? você consegue chegar em tempo alguma vez?].

É isso. Quem tem mais para acrescentar seja bem vindo!

…e o mundo vai acabar por causa da soja!

A Suécia é um país onde se discute muito a questão de preservação do meio ambiente, da criação de fontes de energia renovável, do combate a emissão de gases e toda essa coisa que envolve a luta pela preservação de espécies animais e vegetais e do combate ao aquecimento global.

Já comentei por aqui que tem uma propaganda grande contra a carne brasileira. Ontem eu vi no jornal – de novo – comentários a respeito da necessidade da diminuição do consumo de carne per capta. Na minha opinião, a carne (bovina, suína e de frango) disponível nos mercados suecos além de ter gosto de papel é extremamente cara, o que em si já é uma enorme contribuição para a redução do consumo. É claro que você consegue comprar carnes saborosas, mas é caro. É muito caro. Um corte especial de carne pode custar mais do que R$50,00 o quilo. Não entendo porque ninguém investe na venda da carne de alces e veados que é muito saborosa. Aliás, eu sei porquê: os ativistas da causa dos animais já ficam loucos por causa do tamanho do rebanho de corte no mundo, imagine só se alguém inventar de confinar os pobres dos veadinhos e alces também.

Brincadeiras a parte, a culpa não é dos vegetarianos ou tampouco dos ativistas pela causa dos animais. Eles sempre estão discutindo a questão, mas ao menos os vegetarianos e ativistas que eu conheço são educados o suficiente para respeitar o apetite sanguinário dos amantes da carne. Sim, sempre há aquele povo sem noção que gosta de discutir por discutir, mas isso não vem ao caso, porque o que eu acho importante sublinhar aqui é que a discussão ao redor do consumo de carne – e especialmente da carne produzida no Brasil – vem ganhando foco cada vez maior por causa da luta contra o aquecimento global.

Segundo o que eu tenho visto, pesquisas recentes (eu não tenho as fontes) apontam que a bosta de vaca contribui mais para a emissão de gases do que uma fábrica. O que alimenta os rebanhos de corte? Principalmente a soja. Então o problema fica mais ou menos assim: agricultores brasileiros são irresponsáveis e gananciosos e insistem na manutenção de um sistema agrícola de degradação do meio ambiente, com queimadas, derrubada de mata, não proteção aos rios, além do uso desenfreado de pesticidas e herbicidas. Some-se a isso o fato de que a Floresta Amazônica  é derrubada por pecuaristas inescrupulosos que tem milhares de cabeças de gado, que comem soja e cagam muito – contribuindo em escala superior a industrial para a emissão de gases no planeta.

(Aposto que o criador dessa teoria é um estadunidense filho da puta que quer tirar o deles da reta. É, porque os EUA são um dos únicos países que se recusa a assinar os tratados de emissão de gases no mundo. Eles também tem muito gado – sim, mas eles não tem nenhuma Floresta Amazônica que tenha de ser preservada – sei lá se eles tem alguma floresta ainda… Por isso mesmo eles, além de tudo, queriam muito cuidar da nossa floresta.)

E o queco? Não vai demorar muito para que os consumidores europeus façam um boicote a compra e consumo de carne e grãos provenientes do Brasil. O movimento vegetariano e ativista da causa dos animais pode ser fraco, mas o movimento “compre comida ecológica e saudável” é muito grande e forte. Até eu compro comida que tem o selinho “I love eco”, que em geral é mais cara, mas muito mais saborosa; e no fundo do fundo, acho isso fantástico.

É por aí mesmo que tem que começar a conscientização, cada consumidor tem que fazer a sua parte. To querendo que os agricultores brasileiros se fodam? Alouuuu, eu sou caipira bem, respirei a vida inteira pesticida e sei como é difícil para os pequenos agricultores viverem da terra hoje em dia. Eu fico triste porque sei que se esse movimento (de boicote aos produtos brasileiros) que eu acredito que não demora muito para se concretizar der mesmo pé, quem vai se dar mal são esse povo miúdo, os pequenos agricultores, os colonos do Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul mais os caipiras do interior de Minas e SP, porque os latifundiários de Mato Grosso e tal vão ficar de boa na lagoa.

Ok, nem todo sulista é bonzinho, e não é o povo do Centro Oeste brasileiro que é mau. Eu lembro inclusive de assistir a uma reportagem sobre a cidade de Lucas do Rio Verde (MT) que estava fazendo um programa de reflorestamento no munícipio para conseguir um selo de “soja verde”, ou “aqui se produz soja com respeito ao meio ambiente” ou o quê, de uma organização  internacional, e que essa seria a primeira cidade brasileira a contar com esse selo. O processo é fácil? Nem de longe…

Quando trabalhei na prefeitura de Maripá lembro bem das reuniões da Itaipu, que todo mundo considerava um saco e que poucos agricultores queriam participar, por causa da conotação ecológica e mais um monte de perequetês. Mas se tem algum outro caipira lendo esse post, gente, acredite: é por aí o caminho para quem quiser sobreviver. Bom que já tem alguém querendo e tentando fazer alguma coisa, mas cada um vai ter que se conscientizar e tentar entrar no ritmo da dança, por mais estranha que seja. Realizar um plano centrado e forte para produção de grãos ecológicos, produtos com menos agrotóxico e mais consideração ao meio ambiente, alguma coisa com um selo de qualidade para mostrar para o mundo que os brasileiros se importam sim em cuidar do planeta. E começar ontem.

É, porque se o mundo não acabar em 2012, a soja e os rebanhos de corte brasileiros serão os responsáveis pelo “próximo” fim do mundo…