Brasil x Suécia

Tem dias que eu odeio a Suécia.

Não exatamente o Reino da Suécia em si, no fundo, no fundo; eu curto muito esse país e realmente me sinto em casa. O problema são as coisas que têm no Brasil que não têm aqui. E eu não estou falando das enchentes, corrupção, políticas públicas deficientes, inflação e todas as coisas que nós brasileiros costumamos pensar em primeira instância como sendo Brasil. Também não me refiro a samba, carnaval, capoeira, feijoada, Michel Teló, praias e índios. Tô pensando na minha família, amigos, cerveja gelada e em churrasco.

Racionalmente, sei que me sinto assim porque estava no Brasil com todo mundo até bem pouco. Emocionalmente, é bem mais difícil conter a vontade de só e simplesmente caminhar até aqui e ali, tomar tererê, jogar conversa fora, fazer churrasco e  passar o tempo numa boa. É claro que tenho plena consciência que eu to romantizando e que férias sempre deixam a gente com um gostinho de quero mais, mas eu me dou o direito de pensar que tenho mesmo tudo do bom e do melhor no Brasil e que nem todas as férias do mundo seriam suficientes para aproveitar isso.

Não que o Brasil seja melhor do que a Suécia, ou vice e versa. É só que em alguns momentos quando eu to caminhando no meio do gelo penso tanto no sol e calor do Brasil que me dá uma deprê… Quando to no meio do Nordstan e sei que ninguém me conhece e que eu não conheço ninguém no meio daquele povão, me sinto imensamente sozinha e me dá uma deprê… Eu posso entender todo mundo e me fazer entender no sueco, mas em alguns momentos perco o timing e sou a ultima a rir da piada. Isso também me dá uma deprê… Ninguém me mandou embora do Brasil, e eu vim parar aqui porque quis. E isso também me deprime!

Eu já passei por aquela de “odiar” de verdade tudo que a Suécia representava para mim: salmão, batatas, vegetarianos, frio e neve; e por isso mesmo sei que esse sentimento agora, esse saudosismo não tem nada a ver com isso. Eu tenho uma vida aqui tão boa quanto a que eu tinha no Brasil – poderia até sublinhar que em algumas questões é até melhor, como a questão do trabalho: eu gostei muito de estar assistente social no Brasil, ser funcionária pública e trabalhar em uma prefeitura; mas agora eu tenho desafios grandes no meu trabalho – seja por causa da língua, seja por causa do trato pessoal; uma coisa com a qual estava sonhando antes.

Racionalmente, eu sei que não é culpa da Suécia. Somente porque eu moro na Suécia posso comemorar uma série de coisas que, se não são realmente fantásticas são, ao menos, peculiares: a neve deixa tudo mesmo lindo (estou apaixonada!); eu tenho família em dois lugares extraordinários do globo, e; eu to falando sueco! Hahá, apenas cerca de 9 milhões de pessoas no mundo podem dizer isso!

To numa situação tipo elástico: fico pensando que seria maravilhoso ter todo mundo de “lá” aqui, ou pegar todo mundo “daqui” e levar para lá… simplesmente impossível. Dai que o impasse continua…

Por isso tem dias que eu odeio a Suécia… mas em todos os outros, eu amo de paixão!!

Anúncios

Uma Caipira na Suécia #02

Eu não sei ao certo se o Brasil está há doze ou treze mil quilômetros daqui – ou melhor, o pedaço de Brasil que eu chamo de meu; mas fiquei surpresa com uma coisa: to me sentindo em casa.

Não que as férias não estivessem boas. Foram demais. Infelizmente, precisaria de mais três ou quatro ou infinitas férias para mim fazer tudo o que eu queria, como poder gastar toda a conversa acumulada, e visitar meus irmãos, e tomar tererê e cerveja com as amigas, e ir para baile sertanejo… Me fez uma falta danada ficar mais ao sol, mas eu to com uma manchinha suspeita e tive recomendações expressas de me conter. Fora disso, tudo 10.

Nos últimos dias antes de sair fiquei martelando todos os “se”s da minha existência. Eu realmente queria ficar mais, nem consegui dar um abraço no Silvio! , mas ao final percebi que todo mundo tem saudades de alguma coisa que já teve: da infância, da juventude, de um grupo de amigos, de alguém que não pode mais voltar… e eu não sou exceção. Vou sempre ter um buraco no peito lembrando que eu tenho mais, e não menos, do que eu acho que tenho.

Mais amigos, e mais histórias para contar. Me surpreendi com o tanto de pessoas que mandaram uma mensagem ou um alô para dizer que estavam felizes com a minha volta – o pessoal aqui tem consciência de que o Brasil é um páreo e tanto para a Suécia. Mas o importante é que parece que to aprendendo a ler os suecos, e finalmente, fazendo amigos!

Hoje volto ao trabalho e terça-feira começa a escola. Ainda sonho com o Brasil, mas no fim das contas, minha vida está aqui…

SOPA de letrinhas

Minhas férias ainda não acabaram, mas resolvi postar alguma coisa antes que os projetos SOPA e PIPA tornem a internet um lugar tãooo chato que ninguém mais vai perder tempo por aqui. Pra variar, os EUA só querem mostrar que continuam os donos do mundo apesar da economia decadente. Uma merda não?

Agora mesmo estava olhando na tv o Obama dando a notícia de que os EUA finalmente começaram a facilitar a entrada de brasileiros nas terras do Tio Sam. Não pela nossa simpatia, mas porque as pesquisas apontam que a classe média brasileira costuma deixar – em média – U$5 mil durante as visitinhas ao “States”. Diante da crise, a idéia é transformar os Estados Unidos em um país turístico, o que ampliaria muito os postos de trabalho. Indiferente disto, estava mais do que na hora dessa palhaçada com visto para os lados de lá acabar, porque chega as beiras da humilhação tudo que um simples mortal precisa apresentar ao consulado americano quando da solicitação do visto para os EUA.

Tudo bem, eu não sou fã. Sempre torci a beça para que todos os brasileiros se decepcionassem tanto com os EUA a ponto de desistirem de tentar qualquer coisa lá, mesmo que fosse passear. Eu queria que todo mundo viajasse para Inglaterra ou Austrália para melhorar o inglês, que todo mundo fosse para a Disneylândia européia – que dizem não é tão glamourosa mas enfim; que ninguém quisesse estudar ou morar nessa merda de país prepotente… Qual é? Eu fiz faculdade de Serviço Social em uma universidade pública, e explica bastante se eu disser apenas que Marx era rei e o capitalismo, o diabo. Graças a Deus, por mais forte que fosse o meu desejo super preconceituoso nunca se concretizou.

Simplesmente um dia a gente aprende que nem tudo é preto no branco, ou 8, ou 80 – que digam os suecos com seu lagom. Apesar de os EUA continuarem acoplados – na minha cabeça – as palavras dominação, preconceito, exclusão, discriminação e filhos da puta, eu já cresci o suficiente para entender que o problema é e ou está – mais do que no governo americano – nas grandes empresas. As grandes empresas dominam o governo americano, isso não há dúvida, e daí todo o mundo fica… em maus lençóis por causa da influência do Tio Sam. E quando digo todo mundo, me refiro a todos os países do planeta Terra.

Recentemente, passei por um período no qual odiei com muita força as grandes empresas multinacionais porque estava lendo o livro “Eu não existo sem você” (Melissa Fay Greene) e porque eu e Joel assistimos o documentário “Inside Job“. No livro, a jornalista norte-americana mostra como as grandes indústrias famacêuticas MATARAM milhões de pessoas (principalmente na África) porque conseguiram, junto ao governo dos EUA, o direito de que as patentes dos medicamentos de combate aos vírus da AIDS fosse protegido por 20 anos. Isso significou que até meados de 2000, o custo do coquetel era, por pessoa, no mínimo 10 vezes maior do que hoje e que governos de países pobres – todos os países da África se encaixam nesse perfil – jamais poderiam disponibilizar o tratamento a população. Pra reforçar, aquele documentário mostra que o governo americano é um simples fantoche na mão do pessoal da Wall Street: eles ganham bilhões, enquanto o povo estadunidense paga a conta. No final de tudo, a grande vilã da história é a mesma de sempre, a Dona Corrupção, aquela que nós, brazucas, conhecemos muito bem.

Brasil e Índia enfrentaram as multinacionais farmacêuticas e produziram os primeiros genéricos anti-AIDS no mundo. Uma vitória pequena, mas extremamente significativa, que demorou… Pergunta: quem vai enfrentar Holywood e as grandes gravadoras que querem extinguir a liberdade na internet? Se eles não tiverem dificuldade alguma de restringir medicamentos a pessoas morrendo, se não tem dificuldade nenhuma em ferrar a própria nação, será mesmo que o Congresso Americano vai recuar diante dos protestos dos internautas e algumas empresas?

Está na hora de o capitalismo mudar, de o capitalismo desencanar da forma “modo de produção turbo” para “modo de produção alguma coisa-que-não-lasque-tanto-assim-a-vida-dos outros”. Sei lá se rola, não sei se isso existe, se seria possível e tals, mas enquanto o capitalismo continuar selvagem, sem regulação, vamos continuar vivendo a montanha russa do desenvolvimento: ora com liberdade, ora sem; ora com acesso a saúde, ora sem; ora com acesso ao trabalho, ora sem; ora com acesso a lazer, ora sem; e mais todas as coisiquinhas que você mesmo pode incluir nessa lista.

Dizem que acreditar no impossível é o primeiro passo para tornar algo difícil real…

Lar doce lar #02

Uma semana de Brasil e ainda to felizona com o sol, o calor e os mosquitos. Tudo bem, talvez nem tão feliz assim com o calor afinal, pois ontem cortei o cabelo e hidratei, fiquei lindona mas nem durou já que a noite rolei pra caramba na cama. Mas como a culpa é do Joel também (amorrrr, que saudade d’ocê!!!), e como brasileiro adora tomar banho e agora eu posso fazer isso mais de uma vez por dia, continuo satisfeita.

Eu tenho um lado bem… sei lá, to com dó do povo que vive da roça e perdeu tudo. Todo mundo espera a chuva só para tentar plantar alguma coisa outra vez, porque tudo que está na lavoura morreu. Em contrapartida, depois da visitinha ao salão meu cabelo – que estava meio morto apesar da intensa chuva de Göteborg – reviveu.

Aliás, eu amo ir ao salão. Só porque aquele é um momento pra mim mesma, porque tem alguém que vai lavar e massagear e hidratar o meu cabelo, e porque sempre me sinto uma princesa depois disso – ainda que vista shorts, regata e havaianas. E quando a gente tem uma profissional de beleza que é nota 10 – Isa, to falando de você – melhor ainda.

Acho que essa é uma das coisas que mais me faz falta na Suécia. Mas aqui no Brasil também sinto falta de coisas que eu tenho lá em Göteborg – mercado aberto até as 22h no domingo também, por exemplo – ou seja, coisas de cidade grande. Pagar com cartão em qualquer boteco também.

Falando nisso, esqueci de levar o cartão no mercado (C-Vale) hoje pela manhã e passei raiva. A compra deu R$27,97 e quando eu pedi o meu troco de R$0,03 centavos, a caixa me olhou com bico. Primeiro, que acho o cúmulo caixa de supermercado trabalhar emburrado. Segundo, se em um só dia 100 pessoas deixam R$0,03 centavos para trás, o dono do mercado, claro, ganha R$30,00. Assim, sem fazer nada – e isso que to falando de Maripá – Paraná, 3 mil habitantes; imagina nos grandes centros. Claro que se for alguém bem intencionado, vai orientar os funcionários a fazerem a coisa certa, afinal, de três em três centavos o cidadão pode perder muito mais do que imagina em um ano. Não me intimidei com o bico não, e fiquei lá esperando até me darem os três centavos.

Coisa de gente chata? Pode ser, mas ninguém vai me dar três centavos de graça. Aliás, tá muito mais fácil perder os três centavos, ou com o caixa do supermercado, ou na compra do pão, ou naquelas compras que dão pá pá pá e 99, e você nunca ganha o centavo de volta. Talvez uma bala. E se a pessoa é diabética, de que serve?

Outra coisa ridícula desse Brasil é patrão que paga funcionário com cheque de terceiros. Ao invés do cidadão receber o salário no fim do mês recebe um pepino: vai da sorte conseguir trocar o cheque em algum lugar, se não tiver de depositar e esperar mais sei lá quantos dias o dinheiro entrar na conta.

Por essas e outras me irrita o discurso sobre a corrupção. Que o Brasil é um país corrupto, infelizmente, não posso contestar. Afinal, nem receber o troco certo em mercado eu posso. E se faltar três centavos para pagar a conta, será que eu posso levar os produtos? Na minha opinião, consumidor não pode deixar passar os centavinhos não: paga-se um monte em impostos, tá todo mundo se lascando por causa da inflação e reclamando do governo (com razão); mas façam as contas dos centavinhos que se perdem na padaria, mercado, e todas as compras de ,99… ficou surpreso?

Economia não é apenas guardar dinheiro: é cuidar do dinheiro também…

 

Que ideia genial!!! Mas na Suécia eu não ganho balinha no troco…

Lar doce lar

A lei de Murph impera: to gripada. No mais, tudo vai de vento em popa no Brasil. Na real, não com muito vento não, tá super abafado e seco, não tem chovido por essas bandas e a previsão do tempo na televisão só mostra mais e mais chuva para o povo que já tá debaixo dágua, lá em Minas e no Rio.

Apesar do quadro de desoloção – a soja tá morta e o milho não produziu nada – to bem feliz e não me importo um tiquinho com a falta de chuva. To suando e feliz. Tem um solaço que me queimou o nariz no primeiro dia e eu nem; até fiquei com aquela marca horrível de regata só de sair para comprar calcinhas. Mas nada diminui meu entusiasmo: to usando chapéu e ou guarda chuva quando to na rua (não estou branca, estou quase transparente), além de quilos de protetor solar. Me sinto apenas um tiquinho egoísta, mas é mesmo apenas um tiquinho.

Tem uma coisa que tira meu entusiamo: televisão. Céus, sorte que consegui instalar a internet aqui em casa porque BBB (como eles chegaram a décima segunda edição dessa merda?) é para dar náuses em Gandhi.

Com exceção dessa grande merda, ah! como a vida é boa. Amigos e família perto. Calor. A caipirada saindo na rua com carro velho e som ligado no último volume. Cerveja gelada – gelada mesmo, de trincar os dentes. E churrasco… céus, como é bom comer carne…

To feliz até com os pernilongos… será que dura três semanas?

Brasilll!!!!

Cheguei na terça ao entardecer e senti o  sol, calor, mosquitos, mas também muito barulho e o trânsito louco, respirei fundo e pensei: adoro o Brasil mas odeio São Paulo. Ainda assim: ahhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhh!!! Que maravilha!

O coração disparava e eu fiquei toda arrepiada para cada abraço. É tão gostoso ouvir português em toda a parte e entender TUDO que as pessoas falam ao meu redor…

Queria poder ter o melhor dos dois mundos, juntos num só lugar…