Racismo na Suécia

Quarta feira é sempre dia de publicar alguma coisa para chorar as pitangas com o curso de sueco mas hoje passei mal e dormi das 13h até as 17h, perdendo a prova de argumentação. Fui até a escola e falei com a professora, estava com tanta dor de cabeça que não conseguia explicar que tinha dor de cabeça. Agora to nova de novo e por isso retomei um post que ando escrevendo há alguns dias… mas primeiro, tem mais uma blogueira morando na Suécia: a Jozy, uma mineira que veio morar numa cidade de Dalarna, lá no norte. Link ao lado, na categoria dos ‘cumpadis e cumadis’.

Hoje quando fui ler o blog da Somnia fiquei por dentro da polêmica do bolo “negro” que foi cortado e comido em Stockholm há dois dias – para ler o texto clique aqui; polêmica essa que cresceu “graças” ao facebook. A história é a seguinte: o artista africano Makode Aj Lind fez um bolo em forma de uma mulher negra e pediu a ministra da cultura sueca que cortasse o bolo; enquanto ela cortava ele gritava. Alguém tirou uma foto do ocorrido, escreveu 5 linhas sobre o fato de que todos riam ao “devorar” um bolo em forma de negra na Suécia e colocou no facebook; todo mundo que leu as 5 linhas acreditou que isso havia sido uma demonstração clara de racismo e compartilhou, e a coisa cresceu e cresceu… Felizmente tem gente com um pouco de sensatez para não se prender a 5 linhas escritas embaixo de uma foto – ou a sua imagem, que por certo é chocante – e que questiona, busca informações a respeito.

A foto da polêmica.
Fonte: Borboleta Pequenina Somniando na Suécia

Desde que eu fui para Borlänge to tentando terminar um post sobre racismo na Suécia. A questão do racismo na Suécia é delicada. Historicamente a Suécia não tem lá boas referências: havia grupos nazistas muito fortes e organizados e durante a década de noventa uma série de novos grupos que não se identificavam com o nazismo mas ainda pregavam a superioridade da raça branca – que usavam principalmente do rock para difundir seus ideias – se formaram para defender a raça nórdica. Mas segundo a Säpo e EXPO (uma organização contra o preconceito racial) esses movimentos diminuíram e quase estagnaram. De acordo com a reportagem do Göteborgs Posten de 05 de março, a maioria desses grupos de desestabilizou porque não soube, por exemplo, como trabalhar com o advento das mídias sociais – ninguém vai curtir uma página de racismo no face, não é mesmo? No facebook ninguém é racista ou homofóbico, machista ou corrupto – claro que existem algumas exceções… Em contra partida, alguns grupos estão tentando racionalinazar a discussão, se mostrando como “nacionalistas” ao invés de racistas e investindo pesado na política.

O Nationaldemokraterna é um desses partidos mais radicais, mas também há o Sverigedemokraterna – um tanto quanto mais sutil, mas nem tanto – que conquistou cadeiras no Parlamento Sueco nas últimas eleições. Durante a campanha eles tentaram mostrar e provar de todas as maneiras possíveis o quanto estrangeiros – principalmente refugiados – são um peso aos cofres públicos.

Apesar desses grupos contarem com um número pequeno de seguidores, chamam a atenção e utilizam de qualquer brecha possível para demonstrar que os suecos correm perigo na mãos dos “invasores”. Há algumas semanas um caso de um idoso que foi espancado em Kortedala por um grupo de rapazes “estrangeiros” – filhos de estrangeiros na verdade – foi o gancho para que Nationaldemokraterna organizasse uma demonstração em prol do povo sueco. A demonstração contou com a participação de 30 pessoas. Para o mesmo dia e mesma hora, 500 pessoas se mobilizaram para uma contra-demonstração: uma demonstração contra o racismo.

O povo sueco quer banir o racismo do seu país e esse esforço obtêm bons resultados. Aparentemente, apesar dos grandes problemas de integração, o preconceito entre suecos e africanos/árabes é muito maior devido a religião – a  maioria dos africanos e árabes que moram na Suécia praticam o Islã – do que por questões de raça/cor. Pessoalmente, a impressão é que há maior preconceito contra leste europeus do que contra “pessoas de cor”.

Poloneses, romenos e balcãs são tidos como fracassados fugindo de seus países falidos. Por terem passaporte europeu eles migram para os países do oeste europeu – melhor desenvolvidos na Europa – em busca de uma vida melhor, e na maioria das vezes o que encontram é uma vida muito dura. O setor da construção civil, por exemplo, está cheio de “polacos”. Já ouvi expressões do tipo “é só para isso que eles servem”.

E quem não serve “nem para isso” são os ciganos. Desde que mudei para Görteborg há duas ciganas pedindo nas portas do Nordstan: elas passam o dia inteiro ajoelhadas em posição de súplica – com o rosto voltado para o chão – esperando por moedas.  Recentemente uma delas levantou e veio direto para mim pedir esmolas. Fiquei passada: há ajuda em dinheiro do “social” sueco para todos – inclusive alguns brasileiros vivem do social por aqui – por que essas pessoas ficam pedindo esmolas? Em casa conversando com o Joel ele me contou que há muito os ciganos são tido como um povo que não tem lugar na Suécia – e nem na Europa, e que houve um tempo em que a Igreja Sueca foi responsável por castrar todos os meninos ciganos, numa tentativa maluca de conter o crescimento populacional. O principal problema com os ciganos é que eles são um povo sem país: alguns vem da Romênia, mas há ciganos da Índia, da América, de todo o lugar. Agora a Europa inteira está lutando pelos direitos desse povo sem nação, mas nem todo mundo entrou no clima: o presidente Sarcozy, da França, deportou ciganos de volta para a Romênia no ano de 2010.

A Somnia deixou um questionamento no post dela que achei bem pertinente:

Sim, porque a Suécia onde eu vivi, apesar de não ser perfeita, não combina com aquelas imagens. A Ministra da Cultura numa declaração aberta assim de racismo? Não. Mesmo uma ministra de partido moderado. Simplesmente não tem nada a ver com a maior parte das pessoas suecas que conheci e o como grande parte daquele povo luta para tentar ver todos os povos como iguais, ainda que diferentes. Ou será?

Racismo e racismos, as pessoas sempre tem seus preconceitos, mas compartilho da mesma impressão que a Somnia: o povo sueco (a maioria dele) trabalha muito a questão da igualdade, seja ela de gênero, de cor, de opção sexual, de religião, dos deficientes, seja do que for. Há problemas de integração, obviamente, mas isso é uma questão de choque cultural também.

E mais do que isso: as pessoas na internet precisam parar de se deixar levar por uma imagem seguida de 5 linhas… vamos praticar a inteligência pesquisando e nos aprofundando em algum tema antes de compartilhar. Nem tudo o que eu escrevo, por exemplo, é certo e justo!

Só 99% das coisas… =P

PS.: A respeito do trabalho do artista e da forma como escolheu tratar do tema da mutilação de mulheres na África ainda não formei opinião e penso que cada um é livre para não gostar e/ou gostar da “obra” ou da ideia do artista. Só não acho válido repassar a informação aos pedaços, como se fosse uma fatia de bolo. Não me aprofundei no tema do “bolo” porque obviamente esse foi o gancho do texto.