Profissão: Assistente Social

Tem algumas coisas que a gente passa como estrangeiro que, simplesmente, não tem noção: ontem tava no trabalho com o Zé (tipo uma escola, uma APAE) e ele queria uma imagem da internet; fui perguntar para o pessoal qual computador a gente poderia utilizar para isto e a Sra. Monitora veio com essa “Você sabe lidar com computadores?”! Na hora me senti uma pimenta mas respirei fundo e deu um simples sim com um sorriso – meu sorriso anda tão falso que eu poderia trabalhar para uma agiota – mas no fundo a idéia seria gritar.

Eu ando meio sensível com essa questão das minhas habilidades “profissionais”. Eu sou assistente social e trabalhei com isso por cinco anos, mas quando o gato come a “língua da gente” simplesmente não dá para mostrar o que você é e sabe com tanta facilidade como quando temos a língua no lugar. Então chega uma Sra. Monitora e faz uma pergunta simples (mas ridícula ao mesmo tempo) e eu entro direto no modo “combate”. Agora eu penso que ela poderia ter perguntado isso simplesmente porque ela não poderia encontrar uma imagem na internet, redimensionar, recortar – se preciso e imprimir; mas na hora me deu uma “reiva danada” e tudo o que eu queria era gritar: “hallå! Estrangeiro não é sinônimo para “retardado”!” Não que eu pense que pessoas que não podem entender computadores sejam retardadas, mas qual é o indivíduo com menos de 30 – 35 anos que não pode mexer com esse trem?????

Por um tempo em que trabalhei na Prefeitura em Maripá tive uma máquina muito velha com XP instalado. Isso significa um computador muito lento, que travava muito e que sumia com meu trabalho volta e meia, quando não cortava os downloads e uploads que eu tinha de enviar pela internet. Eu sempre tinha de fazer as coisas duas vezes e meia para conseguir algum resultado. Durante esse tempo falei com a minha chefe sobre isso – porque os computadores seriam trocados, mas processos de licitação duram séculos – e só informei que tentaria melhorar a máquina. Sei muito pouco sobre software e hadware, mas entrei para o Clube do Hardware  e comecei a mudar uma série de configurações do sistema: bons resultados, ótimo; mau resultado, desfazia o processo ou esperava… enfim “eu” iria ganhar um computador novo em alguns (muitos) meses.

Quando sai do meu trabalho sai apenas porque iria mudar. Eu tinha uma vida muito simples e tranquila e no meu mundo trabalhar na prefeitura era algo muito bom: sábado e domingo livres, ficava por dentro de praticamente tudo que era novo dentro da área do Serviço Social – Serviço Social no Brasil ainda é do governo – de graça e sem esforço, salário bom (para quem é sozinho)… O maiores entraves sempre foram a falta de recursos e picuinhas políticas: quando o Lula se tornou presidente conseguiram aprovar o Sistema Único de Assistência Social (política que estava sendo cozinhada há algum tempo, para variar) e isso vinha – acredito que ainda vem – ajudando a tornar o papel do assistente social mais claro e definido dentro das partições públicas.

Hoje li no Facebook que aprovaram uma lei para que as escolas públicas contem com uma comissão formada por assistente sociais e psicólogos. Que lindo… não há nem professores suficientes nas escolas, agora vão colocar um assistente social e um psicologo para resolver os problemas – que na maioria das vezes são administrativos ou familiares – dentro da escola. Bom para nós assistentes sociais que “conquistamos” mais um campo de trabalho de graça; ruim para nós assistentes sociais que vivemos para descascar o abacaxi dos outros.

Talvez seja importante, mas não agora. Não temos assistentes sociais trabalhando nos juizados de menores, na verdade não há assistentes sociais trabalhando no judiciário brasileiro – eu e mais outras muitas assistentes sociais fomos forçadas a trabalhar de graça para a Comarca de Palotina, e isso não acontece apenas na Comarca de Palotina – Paraná – Brasil… Nem um juiz sabe qual o papel de uma assistente social, o que esperar do restante da população? Assistente social não é para resolver problema de pobre, assistente social não é para dar o bolsa família ou cesta básica, assistente social não é definitivamente para dar qualquer coisa para gente miserável: assistente social é para fazer valer o direito de qualquer cidadão, seja ele pobre ou não – o caso é que no Brasil o foco está somente nessa área da população.

Aqui na Suécia assistente social atende criança, adolescente, homem, mulher, velho, homossexual, dependente químico e estrangeiro, indiferente de “classe social”. E não é porque é Suécia, porque é Europa, ou porque é primeiro mundo: é porque aqui se tem respeito para com o profissional assistente social, e está muito claro o que é da alçada dele ou não. Não existem assistentes sociais que trabalham de graça para o judiciário sueco aqui não.

No mesmo setor que eu trabalhava havia outra assistente social chamada Angela e ela sempre repetia que “quando alguém não sabe o que fazer com determinada situação, empurra para o Serviço Social”. No caso das escolas, é isso que está acontecendo: cada vez mais as crianças são agrupadas dentro de “sintomas” – esse é hiperativo, esse é disléxico, vamos ver… esse é um pouco avoado, mas vamos colocar ele no grupo “dificuldade de aprendizado”…; resultado de traumas de “famílias desestruturadas”. Vamos tomar vergonha na cara meu povo, desde quando mãe e pai com preguiça de educar o filho é família desestruturada? Ou pior, desde quando somente as famílias pobres é que são famílias desestruturadas?

Exatamente isso, só as famílias pobres tem problemas, e são para os pobres que nós, assistentes sociais, trabalhamos e continuaremos trabalhando. Ou tem algum filho de deputado/senador estudando em escola municipal/colégio estadual? Se ter uma equipe “multidisciplinar nas escolas”, formada por assistente social + psicólogo, é assim tão bom por que as escolas privadas brasileiras não precisam de uma equipe dessas? Por que a lei será aplicada para as escolas públicas? E por qual salário, minhas colegas de profissão, seremos submetidas a isto? E vamos trabalhar as 30h da lei que foi aprovada/reprovada…? E nas escolas que funcionam 60h por semana, quantas equipes existirão? Por quantos alunos cada assistente social e psicóloga será responsável?

Tem gente comemorando no Brasil, e eu não entendi porquê.

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4 comentários sobre “Profissão: Assistente Social

  1. Maria, eu acabo de saber que sou completamente ignorante, pois com meus anos de professora em escolas públicas de Brasília, sempre achei necessário a presença de assistentes sociais e psicólogos nas escolas, além de psiquiatras, pediatras, dentistas e enfermeiros. Não apenas em escolas públicas, mas nas privadas também,
    Olha, várias questões sociais estão mais resolvidas na Europa. Penso que o Brasil há uma demanda muito grande de profissionais para trabalharem com populações carentes, desestruturadas ( infelizmente, Maria, percebo que as classes sociais desfavorecidas economicamente estão mais vulneráveis , atingindo principalmente as crianças e adolescentes). Como professora, eu sei que sozinha não dou conta dos graves problemas que há nas escolas. A gente não é preparado para lidar com a complexidade disto tudo. Eu não estou dizendo que os profissionais que citei acima, estejam super preparados ( quem está??), mas uma organização de vários profissionais, sem dúvida, seria mais construtivo, mais positivo todo esse processo.
    A escola abarca todos os problemas sociais que há em nossa sociedade, Maria. É um universo muito diversificado e, portanto, complexo.
    Uma vez tivemos uma professora que o cursou assistente social na sua segunda faculdade. Ela e a psicopedagoga fizeram um trabalho maravilhoso na escola. Eu fui uma das professoras que votei para ela não ficar em sala de aula. Ela tocou o projeto de um jeito fantástico! Sua habilidade, seu conhecimento e experiência, fizeram um diferencial naquele ano. No ano seguinte ela assumiu um cargo em um concurso na área de assistente social.
    Enfim, eu ainda penso que países como o Brasil, precisam da união de vários profissionais para tentar “organizar” melhor nossa sociedade, sabe. Acredito na somatória. A Suécia, com toda certeza, para chegar neste nível de organização, lá atrás, teve a força de vários profissionais trabalhando na base. Afinal, uma base mal feita, não há casa que permaneça em pé por muito tempo, não é mesmo?
    Bjs, querida!

  2. Oi!
    É maravilhoso que você tenha colocado a respeito dessa sua colega assistente social que mudou a cara de um ambiente escolar. Não acho que você deva se considerar ignorante, afinal como eu to expressando a minha opinião e a minha visão do interior, cidade pequena, etc. Nunca trabalhei numa escola, mas acredito piamente nas suas palavras: a escola é realmente um mundo, e parece que tudo acontece ai. E acontece mesmo. Entendo que contar com uma equipe multi disciplinar para lidar com alguns dos conflitos desse universo é fundamental, so nao entendo porque a escola e na escola é que todos os problemas sociais tem de ser resolvidos…
    Sabe R e A, eu torço muito para estar errada, e que a contratação dessa equipe seja realmente a melhor solução para os problemas que existem na escola. Infelizmente, o que eu penso é que a questão social que se estende para dentro da escola não pode ser resolvida por meio da escola e que definitivamente não é papel da escola tomar parte na resolução da questão social, esse papel cabe ao Estado e o Estado tem todos os instrumentos para a realização disso. Esses instrumentos não funcionam bem, por exemplo, devido a falta de trabalho em conjunto com o judiciário e conselho tutelar (no caso específica da criança e adolescente) por parte do executivo local e regional.
    Por fim, indiferente da Suécia ser primeiro mundo e de ser Suécia (tudo aqui é super organizado) as escolas também tem enormes problemas. No bairro em que eu moro (de maioria estrangeira) desde o ano passado forma “fechadas” praticamente duas escolas e mais de 70 professores estão sendo retirados da área por causa dos problemas sociais que arruínam a vida escolar (repetência, uso de drogas, vandalismo e violência).
    Beijos!

  3. Eu gostaria muito de saber mais sobre o assistente social na Suécia,tô me formando e eu sonho em exercer minha profissão em outro país de preferência na Suécia, o Brasil não valoriza nossa profissão como gostaríamos é é uma pena meu a email .neuracy00@gmail.com

Agora vamos prosear!

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