O ateísmo na Suécia

Desde que eu mudei para a Suécia muito eu tenho visto e ouvido sobre a massa ateia dominante no país. Como eu comentei com o Lucian no coments do post passado a porcentagem varia entre quase 90% e menos de 60%; e a explicação para isto é muito simples: de acordo como a pergunta é formulada o número de respostas positivas e/ou negativas para a questão pode indicar uma porcentagem maior ou menor daquilo que será interpretado pelo leitor como “ateu” na Suécia.

Se, por exemplo, alguma instituição realizar uma pesquisa na Suécia com a pergunta: Você é Cristão? alguns dos entrevistados podem responder “não” mesmo não sendo ateu. Primeiro porque  o cristianismo não é a única religião que tem um Deus; segundo poque ser ou não ser cristão na Suécia não traz nenhum tipo de status (não sei se traz ainda em algum lugar do mundo  – com exceção das pequenas cidades, óbvio) e terceiro porque alguns cristãos tem maior ou menor facilidade para protestar a fé.

Eu já encontrei com pessoas para as quais “ser cristão” está relacionado ao fato de participar de uma igreja pentecostal. Se apenas forem contados os cristãos pentecostais de um país (da Suécia, por exemplo) o número de crentes será menor. Isso não seria muito estranho… afinal, cada qual tem seu jeito de pensar. Alguém aí assistiu  “Machine Gun Preacher” (Redenção – no título em português)? O filme conta a história de um missionário estadunidense que resolve se meter no meio da guerrilha no Sudão para resgatar crianças órfãs. O Sudão fica na África, em uma das regiões dominadas por guerrilhas. Eu não diria que Redenção é um filmão, mas encaixa aqui no que eu to tentando explicar.

 

Aqui vai um resumo do filme (quem tá afim de assistir pule o próximo parágrafo):

O protagonista é Gerard Butler (o rei espartano de “300”), um cara viciado em heroína e bandido que se converte ao cristianismo após ter quase matado um índio. Ele tem uma filha e uma mulher, e a família passa por seus “apertos” depois de ele largar a “vida fácil” (clichê). Tudo muda depois que a cidade em que ele mora é arrasada por um tornado e ele decide abrir uma empresa no ramo da construção civil. Vida melhorando e tals, ele ouve um missionário falar dos problemas das guerra civis na África e voa para lá para ajudar. Quando ele volta aos EUA está muito mudado, meio transtornado e numa noite ouve Deus pedir para que ele construa uma igreja nos EUA e um orfanato no sul do Sudão. Apesar de alguma dificuldade ele compra terras no meio da zona de conflito, constrói o orfanato e começa a acolher crianças. Como muitas crianças chegam até o orfanato moribundas, muito doentes e outras aos pedaços ele decide sair numa caçada por essas crianças que estão no poder do LRA (Lords Resistence Army, grupo de guerrilheiros do Sudão que saqueiam aldeias e matam todos os adultos para capturar crianças e fazê-las soldados ou prostitutas) apoiado por um grupo de guerrilheiros que já lutava contra o LRA. Ele tem muitos problemas financeiros para continuar com esse projeto louco, vende a empresa, passa por uma crise familiar, uma crise de fé e por fim, quando achei que ele ia morrer numa emboscada – só para ficar mais dramático – o filme se encerra mostrando quem é o verdadeiro missionário – que continua na África como um “Rambo pelas crianças” – com a pergunta: “Se alguém sequestrasse uma pessoa querida para você e eu prometesse que posso trazê-la de volta, importaria de que forma eu iria fazer isso?”

O líder do LRA é Joseph Kony e ele tem uma legião de seguidores que acreditam que ele seja o escolhido pelos espíritos para liderar o povo e  implantar um novo regime de governo na Uganda. A LRA age, além do Sudão e Uganda, no Congo e acredita-se que seja responsável pelo rapto de cerca de 66 mil crianças. A questão “Kony” está em bastante evidência depois que um vídeo foi publicado no início de março no You Tube por Jason Russel com o título “Invisible Children”. Há muita polêmica ao redor do envolvimento dos EUA na captura de Kony uma vez que circula o boato de que isso seria apenas uma desculpa (de novo) para que os americanos pudessem entrar em mais um território africano rico em petróleo.

 

Disputas econômicas a parte (eu muitas vezes odeio os EUA, não vou deixar meu preconceito ganhar asas com mais uma das boas intenções das forças armadas mais competentes e equipadas do planeta) e voltando a questão do “ser cristão”, quando estive em Borlänge uma guria me perguntou se a maioria dos brasileiros é católica; ao que eu respondi um não sei, há algum tempo o Brasil era considerado o maior país católico do mundo mas agora eu acho que ele é um dos maiores países cristãos do mundo. Sabe o que ela entendeu? Que todos os brasileiros haviam se tornado evangélicos pentecostais. Alguns cristãos suecos acreditam que católico não pode ser considerado cristão porque a Igreja Católica é muito rica e “não tem” um monte de missões espalhadas pelo mundo. Missões que levam Jesus e melhoram a vida das pessoas. Além disso, a América Latina tem um monte de problemas sociais e para eles (aqui) cristãos são aqueles que lutam contra os problemas sociais – como o missionário Rambo dos EUA que foi para o Sudão caçar o LRA e libertar as crianças. Quem é cristão muda o mundo.

Bom, acho que não preciso explicar que não estou criticando a posição de nenhum pentecostal, não é? Até mesmo porque penso que um evangélico pentecostal tem maior facilidade de professar a fé do que um católico, por exemplo. Eu mesmo muitas vezes respondo a pergunta: Você é cristão? com um: Eu sou católica. Atualmente eu não pratico o catolicismo, não por falta de uma igreja católica por aqui mas porque vou me casar luterana e quero participar desta congregação, aprender seus valores e tals. Pessoalmente sinto que as únicas diferenças estão na questão da Virgem Maria e dos santos, mas eu já to fugindo dessa conversa porque não to afim de discutir quem nasceu primeiro (o ovo ou a galinha?).

Com todo esse bla bla bla acho que ficou claro né? Se alguma instituição realizar uma pesquisa com a seguinte pergunta: Você acredita em Deus? outras respostas e outros resultados aparecerão, e se a questão for mais aberta ainda – do tipo: Você acredita na existência de um ser superior? – as respostas trarão os mais diferentes resultados.

Por fim, há sempre o detalhe da interpretação de quem está lendo a pesquisa, não é mesmo? Se você encontra uma reportagem com o seguinte título “Apenas 12% dos suecos se declaram cristãos” isso não  significa que os outros 88% sejam ateus. Há, no mínimo, a mesma porcentagem de islâmicos (eles acreditam em um deus, ainda que ele não seja o Deus da Santíssima Trindade venerado pelos cristãos) e os agnósticos.

Sabe o mais engraçado de tudo? A maioria dos suecos que eu conheço acreditam em Deus!

 

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