A Caipira e a Suécia

O primeiro e maior motivo que me levou a escrever o blog foi o que eu queria partilhar a minha experiência de/do mudar de país com outras pessoas, principalmente pessoas que tivessem o interesse de mudar para o mesmo país para o qual eu mudei. Depois eu percebi que escrever o blog era também uma forma de contar para todo mundo com quem eu tinha contato como é que vai a minha vida, o que deixa bem satisfeitas as fofoqueiras de plantão.

Fiquei bastante surpresa quando descobri que meu público não é somente formado pelo pessoal do Paraná e tampouco só de gente que quer mudar para a Suécia: tem gente que lê o blog porque acha engraçado, tem quem leia porque gosta de torcer pelo povo que mora fora do Brasil e tem que leia para descobrir como se “fisga” um sueco.

Como tenho recebido alguns e-mails decidi comentar três coisas que sempre aparecem no contexto/texto da mensagem. A primeira delas é como você foi parar na Suécia?

Eu me pergunto a mesma coisa. Sério: há três anos atrás eu estava preocupadíssima em comprar uma bota de cowgirl para mim – tava mais ou menos na moda, mas aconteceu mais porque eu tinha assumido meu lado sertanejo (tudo culpa de João Carreiro e Capataz). Se me perguntassem alguma coisa sobre a Suécia eu diria: fica na Europa e é a terra dos vikings –  provavelmente eu achava que aqui se falava alemão… Quando conheci o Joel não tinha nenhum plano mirabolante de mudar para a Europa, tanto que o pessoal tirava uma da minha cara (to sabendo que você vai mudar para a Suécia) e eu saía fora (somos só amigos).

Quando tudo mudou de figura – depois que decidimos namorar e com isso eu mudaria para a Suécia – não estava pensando uau! vou morar na Europa! Eu nunca tive um sonho de morar na Europa, sair do Brasil e experimentar a vida lá (aqui) fora. Eu queria viajar, ir para a Itália (ainda quero… uma vila com vinhedos, cidade bem pequena… pegar um carro e sair num passeio no campo para admirar parreirais e  parreirais de uva, quem sabe parar para um prova de vinhos e comprar um vinho bem gostoso. Me empaturrar de pasta em um restaurante onde todo mundo grita… ai ai) e visitar uma amiga em Portugal.

De repente eu estava de partida, mas meu objetivo com a mudança foi começar uma vida a dois, e dentro dessa perspectiva não há diferença com um casal de namorados de qualquer lugar do mundo. Muitas vezes quem me manda um e-mail diz: meu sonho é morar na Europa, como é a vida ai? Não sei se o povo não fica meio frustrado com a minha resposta, porque para mim a vida aqui não é diferente da vida que eu tinha no Brasil.

Vou explicar melhor: minha vida no Brasil era muito boa, e minha vida aqui é muito boa. Eu tinha família por perto, bons amigos, um bom emprego; não tinha stress com trânsito/transporte coletivo ou com segurança, e quando não tinha nada o que fazer pipoca e tererê resolviam todos os meus problemas. Aqui eu tenho a família por perto (do Joel que é minha também), alguns amigos e um bom emprego; tive que aprender a me virar com o trânsito e a tomar transporte público todo dia, não há grandes grilos com segurança. Comecei coisas novas – to estudando, falo sueco.

Existem diferenças gritantes: se eu morasse em uma cidade com 500 mil habitantes no Brasil não poderia viver sossegada como vivo aqui, e se eu trabalhasse menos de 40 horas por semana no Brasil também  não poderia pagar todas as contas. Mas isso é meio que óbvio, esperado; seu eu comparar o Brasil com a Suécia ele vai ganhar em uns pontos e perder em outros. O que eu quero deixar bem claro é que meu foco não é esse: eu não mudei para a Suécia porque minha vida no Brasil era ruim, não mudei para a Suécia porque eu queria ganhar dinheiro (se esse fosse o caso, eu diria que viver na Suécia é muito melhor do que viver no Brasil), não mudei porque eu quisesse experimentar o primeiro mundo, porque eu tivesse um sonho com expectativas de uma vida melhor… Eu tenho um sonho, mas é o de construir uma vida com uma pessoa especial – e isso vai bem, vamos casar, tô feliz; então morar na Suécia é bom.

Já escrevi isso em outros posts, mas não acho demais repetir: a vida é feita de coisas boas e ruins, alguns momentos difíceis e outros maravilhosos, e do meu ponto de vista isso não depende muito do endereço, depende da cabeça de cada um. Se eu quiser posso desfiar um rosário de dificuldades que eu passo por aqui – coisas que nunca nem imaginei na minha vida, e choramingar que tudo é tão difícil que não sei porque mudei… tô longe de casa e muitas vezes nem tenho colo para chorar… tadinha d’eu né? Ridículo gente. Da mesma forma acho que não preciso ficar dizendo que aqui é um mar de rosas, que tudo é lindo, que acordo pensando uau! que feliz! eu moro na Europa!

Não quero dizer com isso que to respondendo antecipadamente todo mundo que me faz, de uma forma ou outra, as mesmas perguntas. Até mesmo porque tem muita gente que comenta: fiquei muito tempo pensando em escrever, se você iria responder, blá blá blá… Nem sempre consigo escrever tudo o que quero no blog, e às vezes o que eu quero e penso que é importante não é exatamente aquilo que o fulano ou ciclano queriam saber. Então primeiro que deixei meu contato para que quem tem vontade escreva mesmo, e segundo, eu não sou nenhuma estrela, vou responder – às vezes com uma semana de atraso porque eu sou desleixada… mas eu vou responder!

Da mesma forma quem quer deixar coments deve deixar, sem se stressar muito. Conheci muita gente legal por meio do blog: gente que mandou e-mails e gente que deixou o contato em um coments. Isso foi muito interessante e me sinto animada quando posso ajudar alguém que estava com dúvidas – afinal eu tive muitas dúvidas e muitas pessoas me ouviram quando eu estava no status “mudando”. Agora é minha vez – uma coisa meio que corrente do bem, que dá realmente certo.

Enfim… é legal morar em Göteborg, é legal experimentar uma coisa inesperada, é muito interessante perceber que aterrissei em outro universo ainda que no mesmo planeta… por isso escrevo, deixo aqui minha impressões, mas não sou ou estou para exaltar o modo de vida européia.

Talvez eu devesse… mas ainda acho que meu vizinho parece bem humano, uma pessoa normal. Já o cachorro dele…

Anúncios