Há dias assim

Eu sou uma pessoa muito besta de coração mole. Talvez a afirmação soe um tanto quanto idiota quando em uma grande parte dos posts aqui do blog eu pareço mais uma velha ranzinza e mal humorada. Mas tudo vai da forma como a gente lê… muitas vezes as palavras deitadas “no papel” não podem transmitir aquilo que realmente sentimos, somente uma impressão.

Sim, mas eu tava falando do meu coração mole e do quanto eu sou doce (durante uns milésimos de segundo) e o papo chegou até aqui por causa do meu trabalho: quando eu comecei a trabalhar como assistente pessoal um dos coordenadores perguntou para mim o que eu achava mais difícil e eu respondi muito rápido que era discutir com o sujeito que eu cuido, o Zé. Ele me disse que “assistente pessoal não tem que ser amigo, tem que ser profissional. Nós estamos muito perto do usuário, é uma proximidade que não é habitual (no caso da cultura sueca) e por isso é fácil confundir essa proximidade com uma amizade”.

Tenho que admitir que fiquei um pouco chocada, não pelo que ele tinha dito mas porque eu não queria dar a impressão de que é penoso argumentar com o usuário, ainda que para mim seja, devido a essa questão da “proximidade” no trabalho. O que eu pensava quando tivemos essa conversa era que meu sueco era tão pobre que era difícil argumentar com o cidadão quando eu precisava dizer não diante de uma coisa que ele queria fazer e que seria perigosa para ele; mas a verdade é que existe o outro lado também.

Você está ao lado do usuário – que é também o seu patrão – em situações tão bizarras e íntimas que às vezes nem pessoas que tem uma relação muito próxima – como por exemplo um casamento ou mesmo irmãos – viveram juntos. É simplesmente um desafio gigantesco estar tão perto de alguém – duas, três vezes na semana – e simplesmente ser profissional. Ao menos para mim; eu ainda não aprendi a fazer isso.

Eu penso que essa coisa entre o assistente pessoal e o usuário seja mais ou menos como uma relação entre mãe e filhos, ao menos para as pessoas de coração mole como o meu. Subimos seis lances de escadas carregando o Zé, eu e mais um assistente, para ele descer os tobogãs de um clube. Cada vez que estivemos a caminho eu ficava rezando para Deus mandar um anjo colocar cola na minhas mãos e não deixar o Zé – molhado – escorregar. Depois dos primeiros lances de escada a minha oração já era para a escada se tornasse rolante, e de preferência, com super velocidade para cima, pois os meu braços começavam a tremer… mas assim que sentávamos o cidadão no topo do tobogã e ele começava a gritar de entusiasmo, tudo sumia: a preocupação de ele escorregar das mãos, a sensação de que meus braços iam cair do corpo, a quase irritação por não ter um elevador para o tal tobogã (imagine se tivesse como seria difícil para o pessoal do clube domar a criançada), os seis lances de escada…

Sei lá quantas dez vezes subimos aquelas escadas, às vezes rumo a outro tobogã dois lances de escada acima, com as crianças impacientes querendo passar na frente do tiozinho que tava sendo carregado. Suei, tremi, quase pedi pinico, meus braços tão super cansados hoje mas o que eu sinto é uma imensa satisfação devido aqueles míseros gritos de felicidade que rolavam em alguns segundos.

Não penso que eu e o Zé sejamos amigos, mas o tipo de relação entre assistente pessoal e usuário está – ao menos para mim – bem longe de ser puramente profissional. A pessoa para qual trabalhamos não é apenas um chefe, é especial por motivos além do óbvio da deficiência que carrega. E a proximidade a que o assistente está submetido, o usuário e a família dele também estão. Acabamos por ser mexidos e por mexer, só e simplesmente porque há dias que são assim… daquele jeito que a vida de qualquer um é.

***

Quero deixar como indicação um filme muito interessante que mostra um pouco o que é ser assistente pessoal e que assisti na semana passada. A produção é francesa e é mais ou menos assim o meu trabalho, com exceção que na França só tem assistência pessoal quem pode pagar por ela e que aqui na Suécia ela é para todo cidadão sueco que precise.

Trailer do filme em português aqui.

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4 comentários sobre “Há dias assim

  1. Poxa vida Maria. Me deixou com lágrimas nos olhos. Que video lindo. Pude imaginar a história, as experiências que essas duas pessoas vivem e também pensei em você. Fale mais sobre seu trabalho. É lindo. Beijo

  2. Olá Maria! Na prática este tipo de trabalho parece muito com de enfermeiro particular e até de acompanhante, como chamamos aqui no Brasil. Tenho uma prima que acompanhou durante muitos anos uma senhora (no caso era idosa, mas em outros casos pode ser mais novo com alguma limitação) e dormia na casa dela durante a semana, pois nos finais de semana outra moça ia ficar com ela. Bem, imagino algumas dificuldades, como você mesma relatou de ter que “carregar” o paciente, que pode ser grande e pesado. De qualquer forma, vejo que neste tipo de trabalho, a intimidade do paciente acaba ficando bem exposta, afinal, o profissional será os olhos, braços e pernas dele. De fato é muita proximidade e não ficar mexido deve ser bem difícil.

  3. Oi oi gente!

    Cíntia,
    O filme é muito legal e ele aborda bem mais do que a questão da assistência pessoal. Vale realmente a pena ver, eu me emocionei muito e achei que o ator (Omar Sy) é simplesmente fantástico! Eu não posso falar muito ou contar muito a respeito do que eu faço por causa da questão do sigilo, e aqui na Suécia o pessoal tem uma visão bem diferente do que é privado e público, acho mesmo que muitas coisas que nós consideramos tranquilas de serem públicas eles consideram super privadas. Eu pedi permissão ao Zé para mencionar ele no blog, e eu tenho essa permissão desde que não entre em detalhes. Daí eu comentei algumas coisas gerais, e de vez em quando gosto de expor o que eu sinto diante de situações específicas… mas não posso expor muito mais.

    *****
    Oi Joana!
    Penso que a relação acaba ficando especial por causa da periodicidade com que a gente encontra o usuário. Pra mim é muito importante ter alguém junto para partilhar refeições, por exemplo, comer sozinha é algo que me frustra ao mesmo tempo em que eu apenas dividiria uma mesa com alguém que tem algum significado para mim – e eu como com o Zé duas vezes na semana! Pequenas coisas como essa contribuem para essa sensação de proximidade… não há como ignorar. Gostaria de falar mais, mas eu tenho que respeitar a privacidade do usuário e como eu comentei com a Cíntia, a dimensão do privado para um sueco é muito maior do que a nossa. Só posso compartilhar coisas gerais.

    *****
    Oi Juliana
    É exatamente isso: sou os braços e pernas – em algumas vezes a cabeça também – de alguém! A diferença consiste principalmente que no Brasil não existe uma política pública de assistência e amparo ao idoso ou pessoa com deficiência financiada exclusivamente pelo Estado, como é o caso sueco. No Brasil quem quer um acompanhante tem que pagar por isso.

    Beijos!

Agora vamos prosear!

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