Essa tal adaptação…

Esse fim de semana fiquei folgada em casa. Deixei um tempo para mim, resolvi me curtir acima de tudo. Eu li esse post aqui da Wilqui Dias e comecei a refletir um pouco sobre a minha própria situação… em resumo: será que eu vivo mais no virtual do que no real?

Fato é que é muito, mas muito mais legal ficar por aqui (blog, facebook, e-mail), falando com gente como a gente (estou sendo bem caipira agora, ok?) do que encarar algumas atividades do mundo real. Por exemplo: sexta a noite fomos dançar salsa com mais dois casais amigos e… eu me sinto um peixe fora d’água, eu sou a pessoa estranha do grupo. Não porque alguém me trate diretamente assim, mas porquê eu não to seguindo a conversa, porquê eu me sinto feia para caralho em roupas suecas (e quando uso roupas que trouxe do Brasil não ajuda muito também), porquê tá todo mundo falando de um assunto que eu não posso acompanhar (não tenho nada o que acrescentar) e porque de repente eu sinto que meu cérebro parou de trabalhar em sueco e volta para o português.

Eu não tenho o mesmo problema quando estou no meio de brazucas: não importa como estou vestida, não importa do que estamos falando (a Vânia bem sabe que o mais difícil então é me fazer ficar de boca fechada!), só e simplesmente não importa o exterior porque eu me sinto tranquila, bem, confortável – estou em casa, digamos assim. Sábado fui testar capoeira com um grupo de brazucas daqui e puxa, me senti tão bem, dei muita risada, fiquei feliz. A noite veio um povo (sueco) assistir filme em casa com a gente e eu… sei lá, parece que tenho que colocar o modo “lagom” em on e dai… lacou-se: não fale alto demais, não ria alto demais, não seja intrometida, não seja machista, não seja amante de carnes e açúcar, não goste de massa branca…

Tenho problemas com essa questão do politicamente correto sueco. Encontrei tanta feminista chata logo que mudei que cheguei a conclusão de que era machista. Sofri um monte porque me descobri uma mulher machista na Suécia e no fundo no fundo, também sou feminista; a diferença é que não sou chata nunca tive problemas com meu pai e não sou ativista. Sou a favor dos direitos das mulheres, da igualdade entre os gêneros, ao respeito ao corpo da mulher, do combate a violência contra a mulher mas não fico pregando isso e apontando o dedo na cara de outras pessoas e avaliando o quanto feministas elas são ou não devido ao tipo de sociedade em que foram criadas. Além dessa questão, não raro escuto piadinhas do tipo: a Maria é contra os vegetarianos porque ela adora carne. Sim, eu amo um bom pedaço de bife, mas não tenho nada contra vegetarianos e veganos, tanto que, se eu tivesse um pouco de disciplina entraria numa vibe dessas pelo menos por um ano só para reeducar minha alimentação. Convidei uma amiga vegano para um fika aqui em casa e fiz um bolo de chocolate sem leite e sem manteiga para a gente, e foi gostoso. Sem falar que os próprios vegetarianos/veganos nunca ficam me azucrinando por gostar de comer carne.

Ainda assim eu me sinto um elemento errado no meio de um cultura perfeita… Daí eu fico pensando no post da Wilqui, ainda, e me pergunto: será que se eu não tivesse tantos contatos brasileiros, o blog, um mundo virtual “mais interessante”, seria melhor? Seria mais fácil? É a questão da língua que me deixa a margem do grupo? Meu não ativismo social (pela paz do mundo, o direito das mulheres, a conservação do meio ambiente, o direito dos animais)? Minha falta de conhecimento sobre política sueca? É porque eu gosto de carne vermelha mais do que de peixe? É porque gosto de de gordura e de açúcar? E ainda por cima não pratico um exercício físico regularmente!

Afinal, eu tenho que deixar tudo isso para me adaptar? Eu tenho que “virar” politicamente correta para ser aceita por aqui? E/ou, até que ponto eu estou me excluindo porque gosto mais do meu outro mundo?

Isso tudo e eu nem estou com TPM.

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11 comentários sobre “Essa tal adaptação…

  1. HAhahahah…. Maria, eu adoraria ser sua terapeuta e te ajudar. Ia te dar conselhos do tipo: “Dane-se!” heheheheheh…. Sabe o que eu acho? Que uma visitinha ao Brasil ia te fazer bem… No início, até a adaptação acontecer mesmo, costuma dar certo prá algumas pessoas…. Um pé cá outro cá e vai se adaptando…

    Acho super natural isso que você escreve Maria. Pode acreditar que você não é a única. Cada uma passa pelo mesmo, em doses e situações diversas. Porém, não somos suecas… nem nunca seremos.

    beijos

  2. Isso mesmo. E nem precisamos ser. Somos brasileiras morando na Suécia. Então é tudo uma questão de equilíbrio. Teremos sim aprender coisas novas e nos permitirmos mudar se quisermos morar aqui por muitos anos, mas a mudança tem que ser benéfica. Algo que não nos machuque ou nos faça sentir que estamos deixando de ser quem somos. Porque não há motivo para mudarmos tudo sobre nós. Temos sim que nos adaptar ao idioma e ao clima, mas o resto pode ser feito sem que nossa identidade seja dilacerada. O que não podemos esperar é que a Suécia mude para que nossa adaptação seja mais fácil, afinal fomos nós que viemos.

  3. Que bom que vocês gostou de Capoeira! Ontem ensinei alguns movimentos de capoeira para uma galerinha aqui.
    Gostei muito desse post porque me identifiquei muito com ele. E sei muito bem como funciona aquele coisa do cérebro parar de funcionar em sueco, isso acontece comigo toda vez que o papo pra mim ficou chato aí eu perco totalmente o interesse e torço para ninguém perguntar a minha opinião no final, pois quando acontece eu faço aquele cara de paisagem e fico sem saber se digo não entendi ou diga se não estava prestando atenção muito mesmo.
    Existem imigrantes que contam a maior vantagem por terem sei lá quantos amigos suecos. Só sei que me divirto muito mais quando estou com a minha turma que normalmente é aquela mistura gostosa de casais sendo um imigrante e o outro sueco, ou alguns conhecidos do SFI, onde todo mundo consegue interagir na conversa e se sente bem vindo nela também,porque nós sabemos como “colocar” todo mundo na conversa, podemos agir com espontaneidade,ou sem medo de cometer uma gafe no idioma. Os amigos do Johan são até um pouco mais falantes e brincalhões que o normal , mas ainda falta um tempero, sempre fico insegurança se devo ou não dizer, justamente pelo politicamente correto.
    Eu até que pensava que isso fosse algo latino, mas minhas colegas de classe italiana,espanhola,romena,russa e húngara, acham a mesma coisa!

  4. Como disse Nicole: Equilibrio eh tudo. Mas percebo que rola uma certa confusão nas coisas. Primeiro não temos que mudar pra nos adaptar, no caso o maximo que aconteceria seria um mudar pra agradar, agradar essas pessoas com quem você teve contato e que näo representam todos os suecos, porque conheco os que se acabam numa carne vermelha, ja vi muitas suecas bem gordas, o que me leva a crer que passam longe de uma alimentacão mega saudavel e da academia, nem todas as suecas são feministas ativistas, ou ate mesmo feministas… Enfim, você encontrou uma galera chata que gosta de pentelhar, mas o mundo eh diverso e a Suecia tambem, vai ser bom quando você encontrar sua turma, ou ate mesmo se nem encontrar, porque não ha uma obrigatoriedade, ne?!
    Outra coisa eh isso de se adaptar. O que eh essa tal adaptacão? Eu acho importante aprender a lingua, por uma questão de trabalho, afinal a gente precisa de grana pra viver, e pra dar uma variada na sociabilizacäo e para entender o que acontece no local. Mas acho que o legal eh nos darmos o tempo que precisamos, sem muita pressão, tudo acontece mais cedo ou mais tarde. Eu achei chatissimo o curso de norueguës no comeco, então fiquei dois anos em casa jiboiando e depois voltei e encarei numa boa, faria tudo igualzinho de novo.
    Assim como você eu boio em muitas conversas por total falta de interesse, então meus pensamentos voam pra longe e em português, mas isso tem rolado não so quando estou em grupos de noruegueses, mas de brasileiros ou outros estrangeiros tambem. Eh normal fugir no pensamento quando a conversa não nos pertence ou interessa ou agrada, porque não?!
    Estou escrevendo uma carta, ne?!
    Ja o lance do virtual e real… Eu acho que deve haver um equilibrio enorme nesse ponto. Passar o dia em frente a tela de um computador lendo blogs ou em redes sociais nem sempre eh produtivo e saudavel, digo pra nossa vida pessoal mesmo. O que acontece eh que acabamos captando muita coisa inutil, recebendo muita informacão que so vai cansar nosso cerebro (e nem sabemos ainda o que sera gerado no futuro com isso, digo a nivel cerebral), pode se transformar em um vicio e pode vir a tirar o prazer das coisas reais, por exemplo, tem gente que tudo que faz ja pensa em postar, seja em blog ou nas redes sociais e nem aproveita o momento, acaba sendo doentio. E fisicamente ficar sentada o dia todo não eh bom, a gente sabe, enfim, temos que dosar isso de mundo virtual. Não acredito que você exagere tanto no virtual, mas não sei, mas a partir do momento que a gente sente a necessidade de postar tudo, de contar muito sobre a nossa vida, de fotografar com o intuito de jogar no virtual (blog ou redes sociais), de ler todos os posts dos outros blogs e comentar, de mostrar o que pensamos, de comentar com o intuito de se fazer presente e captar comentarios pro proprio blog… se for o caso, a coisa não esta bem. Da mesma forma na vida real, se sentimos a necessidade de nos jogarmos em tudo com um medo de estarmos perdendo algo, transformando em obrigacão o que deveria ser prazer, ou nos sobrecarregarmos de atividades o tempo todo e a toda hora, não eh la muito saudavel, o corpo e a mente não aguenta.
    Bom, fui longe demais no comentario, mas eh isso que eu tenho refletido esses dias, não so por mim, mas vendo em outras pessoas e no meu blog tem um post antigo que nem eh escrito por mim, mas eh um trecho de um livro, e eh sobre a Sindrome do pensamento acelerado e esse post eh um dos mais pesquisados no blog, ou o mais, e hoje recebi um comentario la e me fez pensar tudo isso de novo e casou com seu post aqui. Eh comentario carta, mas espero somente poder ajudar de alguma forma. Enfim, viva e se deixe viver.
    Beijo

  5. Maria, eu vinha preparada para dar um monte de conselhos bem intencionados mas eu vi que a Cíntia, a Nicole, a Joseane e a Luciana já tocaram nos pontos essenciais! Queria apenas reenforçar duas coisas:

    1. Você fez MUITOOO bem em tirar esta semana para si mesma e relaxar. Como já comentei anteriormente, eu tive que reduzir o meu tempo de trabalho para 85% porque não me sentia bem comigo mesma nem com a minha vida… Trabalhar menos não resolveu os meus problemas, mas deu-me tempo para entendê-los e começar a tratar deles…

    2. Todas passamos por isso. Todas mesmo. Eu tenho o “privilégio” de ser portuguesa e de, por isso, estar mais perto de casa do que você mas ainda assim as diferenças culturais Portugal/Suécia são grandes e, para ser sincera, eu ainda não sei bem como fazer amigas suecas. Sinto pura e simplesmente que somos de planetas diferentes… Mas há que lutar e ter fé! :)

    Beijos!

  6. Eita lindona… Eu sei bem como são esses conflitos. A diferenca é que depois de 4 anos aqui, mesmo continuando sentir-me um peixe fora d´´agua, não ter muito assunto com a maioria dos suecos ou estrangeiros, também me ahando feia ou tentando manter um equilibrio entre o machismo e o feminismo, eu simplesmente me acostumei. Sim, me acostumei e pra falar a verdade me acomodei e já nem tento mais ser do grupo. Eu sou a estranha.

    Obrigada pelo convite no face!!! Juro que assim que arrumar um tempinho amanhã eu respondo, tá??

    Bjo

  7. Oi povo!

    Cíntia,
    Pode deixar que a próxima vez que sair com suecos vou lembrar das palavras da minha terapeuta e ligar o “foda-se” ao invés do “lagom”!!! hehehe

    *****
    Nicole,
    Verdade que sempre serei brasileira, mas me dá… sei lá! Talvez seja muito cedo para começar a reclamar, afinal, cheguei aqui ontem… e como você disse: nós é que viemos parar aqui, então é melhor trabalhar um pouco para ser feliz!

    *****
    Josy,
    Achei capoeira super legal porque não parece nada sério, parece brincadeira o tempo inteiro. Hoje é que acordei sem dores musculares (na hora estava bem feliz, depois nem podia sentar para mijar… sedentarismo é o ó) mas vou de novo na quinta. Acho que é mais fácil sair com suecos que tem parceirxs não suecos, como você mesmo disse, eles são diferentes!

    Beijokas!

  8. Meninas!

    Luciane,
    Obrigada pela Bíblia, a gente sempre precisa uma dessas não? Não me sinto uma pessoa grudada na internet, também não vejo motivos para partilhar tudo o que faço – na verdade escrevo muita abobrinha. É super importante para mim o contato com meus amigos do Brasil por meio da internet, então a maior parte do tempo que passo por aqui é num modo de espera… De certa forma, ainda é ok, mas to me policiando.

    *****
    Joana,
    Acho que são os suecos que são de outro mundo e nós é que somos do mundo mais legal, não acha? Hehehe… Que bom fosse tudo mais fácil! Mas você tem razão no que diz que é melhor quando temos a família mais perto, acho que diminui o sentimento de ser o único estranho do ninho!

    *****
    Debora,
    Obrigada pelo lindona, fiquei me achando super linda mesmo! Eu penso que a gente teria muito assunto para falar com eles (olha só o quanto falamos pelos nossos blogs e no grupo de amigos brazucas), o problema é que “nós” e “eles” não nos interessamos pelas mesmas coisas…

    Beijokas!

  9. Sabe não faz muita diferença o lugar é que as vezes as situações fazem vc se sentir um peixe fora dàgua… è natural que vc se sinta a vontade com tudo aquilo que conhece e que de certa forma domina; porém como vc mesmo tntas vezes escreveu por ser uma criatura inquieta e questionadora vc sempre procurou ” novas ” situações. Se bem me lembro e te reconheço vc é acima de tudo uma pessoa que considera o ser humano, e não os clichês que rodam por aí. è irmã as vezes ser a gte mesma é muito mais difícil do que poder criar um personagem e fazer parte; verdadeira é isso que tu és… te amo.

  10. Também achava muito chato essa perseguição com “carne” e “açúcar”.
    E alguns amigos, suecos, do meu namorado foram dizer a ele que eu não era muito de conversar … eu não tenho muito a acrescentar em uma conversa sobre a cultura sueca ou o histórico do midsummer, alôooo, eu sou brasileira, tenha santa paciência!

Agora vamos prosear!

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