Papai Noel sueco

Depois que eu mudei para a Suécia descobri que o Papai Noel europeu tradicionalmente vestia verde e que foi a Coca-Cola que mudou a cor da roupa do bom velhinho. Acho que nem preciso acrescentar que fiquei decepcionada… mas é: fiquei muito decepcionada. Não que verde seja lá muito melhor do que vermelho mas, que sem graça né? Nada a ver tipo, uma grande empresa só vai lá e dá outra cor para as roupas de alguém e todo o mundo segue isso.

Manipulações midiáticas a parte, quando estive de visita na casa de uma família brasileira que recentemente mudou para Göteborg é que prestei atenção no quanto é que as culturas do Papai Noel da Suécia e do Brasil são diferentes. Mesmo porque aqui tem neve e é escuro… O Joel me contou que quando era pequeno viu o “Papai Noel” passar perto de casa com um saco nas costas e uma luz. Coitado do Papai Noel sueco… as renas nem deixam ele em cima do telhado para que ele apenas desça o chaminé! Além disso a Emília e o Marco Aurélio me contaram que na escolinha do filho deles as professoras partilharam que aqui o Papai Noel toca a campainha para distribuir os presentes. Coisas de primeiro mundo! Ou porque dava muito trabalho tirar a fuligem das roupas…?

Nunca vi o “Papai Noel” quando criança, a não ser aquelas coisas horríveis mascaradas que o pessoal fazia na escola ou o Papai Noel que passava jogando doces para as crianças de cima de uma F1000 (muito magro o coitado, e bem ranzinza porque sempre tinha uma vara na mão para “controlar” os mais avançadinhos). E o Papai Noel da Igreja, aquele a gente sempre sabia quem era por trás da máscara e barba falsa… O meu presente era deixado na árvore a noite e o Papai Noel saía de fininho…

Depois a gente cresce e lê a história de Santo Nicolau e acha tudo muito esquisito. Aquele calor de 38-40 graus C e um infeliz dentro de uma roupa de mangas compridas vermelha, com touca, botas, barba e barriga falsa. Nada a ver Papai Noel no Brasil! Devia ser baiano o Papai Noel brasileiro – já que trabalha só uma vez por ano… Brincadeira gente! Adoro o povo baiano. Mas seria legal né, um Papai Noel brasileiro preto, de short e chinelo havaiana, bem tranquilo e de fala mansa como os baianos. Vestido de branco para simbolizar a paz e não a Coca-Cola. Devaneios…

Decidi partilhar com vocês a história do Papai Noel sueco antes da coca-cola e até mesmo antes do Papai Noel perfil Santo Nicolau chegar por aqui. O Jultomte  (Jul=natal+tomte=gnomo, duende) ou atual Papai Noel sueco foi precedido pelo Julbock (bock=bode; bode de Natal), uma tradição muito antiga que pode estar relacionada as figuras da mitologia nórdica.

bode 2De acordo com a Wikipédia, o Julbock pode estar associado a figura de Tor porque o filho de Odin tinha um carro de bodes cujos nomes eram Tanngnjóst e Tanngrisnir. E é isso aí… a ligação não é clara e pode ser que a tradição do Julbock tenha tido início simplesmente porque durante o período de Natal era comum ter/comprar/ conseguir um bode (para a ceia talvez? Também não está claro…). Assim, na véspera de Natal os jovens tinham o costume de sair de casa em casa promovendo pequenas peças de teatros e/ou cantando canções que fossem alusivas a figura do bode. Alguns usavam máscaras ou roupas para se fazer lembrar/passar por um bode. Também fazia parte da tradição de Natal bodedeixar um bode de madeira na porta de casa do vizinho; o desafio consistia em devolver o bode sem ser visto.

Com a introdução da figura de Santo Nicolau o Julbock passou a distribuir presentes ao mesmo tempo em que a figura do Jultomte foi formada. Acredita-se que mesmo em meados do século XX o Julbock tenha continuado a ser celebrado nas terras escandinavas (dai veio a coco-cola e deu merda). Eu sempre via os bodes de palha espalhados pela cidade e nunca havia entendido. Penso que a tradição do Julbock deveria ser preservada!

Para entender o Jultomte acho que é legal explicar um pouquinho sobre a cultura do tomte. O tomte é uma figura do folclore sueco meio parecida com a do nosso Saci mas a história é a seguinte: em cada sítio (chácara, pequena fazenda) morava um tomte. Os antigos acreditavam que o tomte era a alma do primeiro dono daquela terra que eternamente precisava ficar de olho naquilo que um dia ele havia começado para que tudo continuasse em ordem.

tomte 1O tomte parece um homem velho de barbas longas e brancas que veste roupas cinza e um enorme chapéu. Como eu comentei ali atrás, segundo o folclore sueco o humor do tomte é bem parecido com o do Saci: ele ajudaria o atual dono das terras em troca de comida, roupas e respeito. Se alguém destratasse o tomte ele bagunçaria toda a chácara e assustaria os animais. Se alguém destratasse os animais o tomte assustaria as pessoas da casa. Mas também não se deveria dar muitas roupas e comida ao tomte pois dessa forma ele se tornava muito preguiçoso e de nenhuma ajuda.

Com o advento da figura de Santo Nicolau os suecos também atribuíram ao tomte a função da distribuição de presentes na véspera de Natal e assim ele passou a ser conhecido como Jultomte; a roupa mudou de cinza para verde (infelizmente não encontrei nenhuma imagem de um tomte verde) e ele passou aos poucos a substituir definitivamente a tradição do Julbock.

É muito gostoso dar e receber presentes no dia de Natal, mas se depender de mim a cultura do Papai Noel não sobreviverá pois há muito tempo ele já não representa nada além do que comprar, comprar e comprar. Além disso para mim Natal é principalmente o dia em que lembramos o nascimento de Cristo e é isso que deve estar em primeiro plano e não está mais, tanto que é impossível encontrar um presépio a venda nessa cidade.

(Não acredito que todos devam pensar como eu mas, se devo respeitar os ateus e não cristãos seria interessante que eles também me respeitassem e que a tradição do Natal de Cristo não precisasse ser suprimida!)

Se é possível conciliar as duas coisas? Acredito que sim. Afinal o primeiro Papai Noel não foi Santo Nicolau? Só que teríamos de tirar o vermelho do Papai Noel primeiro…

Imagens fonte: Google.

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Glögg!

glöggEssa não é a onomatopeia sueca para engolir, o nosso glug! glug! ou glup! glup!. Glögg é uma espécie de quentão sueco tradicionalmente consumido no período do Natal. Essa bebida não é feita apenas a base de vinho – na Suécia o “quentão” pode ser feito a base de cachaça (leia-se vodka – hahahaha. Brincadeira, na verdade eles usam brännvin, um tipo de graspa) ou svagdricka (um tipo de cerveja ruim), vinho fraco ou um tipo de saft; assim como também existe o glögg sem álcool.

Ontem fomos a casa de amigos que promoveram uma brincadeira: uma prova de glöggs acompanhado de um quiz. Assim fiquei por dentro tanto da história do glögg (que a partir de agora chamarei de quentão sueco) como de algumas curiosidades.

Os inventores do quentão foram os gregos e eu nem entendi direito essa afinal, na minha ideia na Grécia só existe verão (e depois eu reclamo quando me perguntam se fui eu que ensinei o Joel a falar espanhol…). As primeiras receitas de quentão continham basicamente vinho e temperos (canela, gengibre, cravo, mel…).  O termo glögg foi utilizado na Suécia pela primeira vez em 1609 e foi originado a partir de um verbo antigo att glögda (esquentar) porque o pessoal esquentava o vinho.

Atualmente bebem-se cerca de 5 milhões de litros de quentão sueco no período do Natal mas, diferentemente de nós, os suecos compram o seu quentão diretamente no Sytembolaget (a loja de bebidas alcoólicas). Os amigos que nos convidaram para o glöggprov fizeram seu próprio quentão em casa de forma artesanal, usando alguns temperos, svagdricka e beterraba. O resultado ficou interessante mas pessoalmente, ainda prefiro o quentão brasileiro – não que seja muito melhor, mas é que já estou acostumada.

Beber quentão sueco faz parte das tradições de Natal. A primeira vez que experimentei o pessoal esquentou o quentão e depois adicionaram uvas passas e nozes. O quentão sueco é tão doce quanto o nosso – menos o caseiro dos nossos amigos que estava bem forte – e eu acho engraçado que o quentão é servido acompanhado das guloseimas doces de Natal como as famosas pepparkakor. (Nunca viu uma pepparkaka? Imagem aqui). Doce com doce…

Falando em “doce que te quero doce” experimentamos um quentão de lakrits – aquele doce feito de anis que às vezes leva sal e é uma das manias nacionais – e eu curti bastante; apesar de parecer super forte, alcoolicamente falandoNa Suécia o quentão é temperado de várias formas e a cada ano é lançado um “sabor do ano”. 2012 foi o ano de uma frutinha japonesa, o yuzu, que é uma espécie de “bär” (aqueles frutinhas azedas que dão no “mato” como framboesa) realmente azeda. O sabor do ano do quentão sueco ano passado foi café (???) e em 2010, açafrão.

O quentão é realmente popular nos países europeus e pode ser encontrado em praticamente todos os países; mas claro que a receita tem, apesar de contar com o mesmo princípio, características especiais de cada localidade – como o caso do glögg. Então, algumas curiosidades: na Alemanha o quentão é chamado de glüwein; nos países ingleses mulled wine; na França e Suiça vin chaud; na Itália vin brulé; na Romênia vin fiert; na Sérbia kuvano vino; Eslovênia kuhano vino; Polônia, grzane wino; Eslováquia varené vino; na Rússia: глинтвейн (a pronúncia é muito simples: se lê exatamente como se escreve); República Tcheca svařené víno; e por fim, forralt bor na Ungria (fonte: Wikipédia).

Decorou? Qual é o quentão que você já provou? Preferidos?

Hahahaha… Quem tiver uma receita secreta e quiser partilhar seja bem vindo. Acho que ano que vem também vou entrar nessa de tentar fazer meu glögg caseiro… ou não!

Leia antes de perguntar!

downloadCriei uma página nova para o blog por causa dos e-mails que tenho recebido com pedidos de informação. Essa seção tem uma chamada meio mal educada, mas eu queria prender a atenção. Meu objetivo ao criar o blog foi de auxiliar pessoas que como eu estivessem passando pela experiência de mudar de país e por conta própria eu sei que, quando estamos mergulhados nessa hora H da vida queremos informação para ontem – ao menos eu era assim.

Naquela época escrevi para muitas pessoas e fiquei no vácuo, no super vácuo, daqueles de nunca obter resposta ou um “não sei”, “não tenho tempo”, “não posso ajudar”; mesmo quando me reportei a blogs nos quais o autor deixava o e-mail para contato. Isso é chato, porque eu tinha pressa.

Na seção eu explico que quando criei o blog decidi por deixar o meu e-mail para contato e tem muita gente que escreve, que eu gosto realmente disso mas apenas aviso: podem me escrever se tiverem paciência para esperar e persistência para enviar um segundo e-mail – caso eu não tenha dado nenhum feedback. Também é bom deixar um coments no últimos post (do tipo: Oi Maria Helena, queria conversar, mandei um e-mail) porque meu spam joga gente nova no lixo – e eu nem sempre lembro de olhar a seção do spam antes de deletar todas aquelas maravilhosas propagandas de cartão de crédito, alongador de pinto e cartas de princesas africanas precisando de ajuda que recebo diariamente. Não fico procurando por gente que tenha me mandado e-mail. Assim, provavelmente algumas pessoas que me escreveram também ficarão no vácuo eterno.

Juntei algumas das perguntas mais frequentes que os sortudos que alcançam minha caixa de entrada de e-mails me dirigem e com elas montei um guia de orientações gerais. Dê uma passadinha por lá antes de me enviar um e-mail, não porque eu não queria ajudar, mas porque suas ansiedade pode ser aliviada muito mais rapidamente por lá.

Se esse não for o caso, deixe um coments!

Ps.: Só depois de publicar é que lembrei de explicar que a página fica logo acima do logo/nome do blog, ao lado de Eu, eu mesma e Maria. É um pouquinho clara a letra do enunciado mas não é muito difícil de achar. Até!

Tradições natalinas

Depois de ler essa história no blog da Joana eu fiquei encucada a respeito do uso dos adjetivos natalinos – ou natalícios? (E se nós, falantes da língua portuguesa, temos dúvidas a respeito da língua materna, o que não dizer a respeito da segunda e terceira línguas?). Fui lá consultar o pai dos burros e, segundo o dicionário online Presbiram, natalino e natalício são sinônimos.

Tudo isso para compartilhar um pouquinho a respeito das tradições natalícias suecas (e tem gente que pensa que ter um blog não dá trabalho!). O Natal é um tempo muito especial para os suecos, não tanto pela cultura do papai noel e muito menos pelo nascimento do menino Jesus, mas porque é considerada uma festa de luz. O período do advento na Suécia é um período em que os dias passam a ser ainda mais escuros e curtos, e eu chuto que talvez seja por causa dessa questão que o dia 25 de dezembro tenha sido escolhido como dia da celebração do nascimento de Jesus Cristo (o Filho de Deus é a luz da humanidade). Não que isso tenha acontecido na Suécia,  mas o calendário cristão foi instituído na Europa e…

Vamos voltar para a história das luzes, que é melhor. Uma das coisas que mais me marca é que muitas casas tem a estrela de Davi como uma lâmpada pendurada na janela ou um conjunto de velas/luzes para lembrar as luzes do Advento (aquelas quatro que tradicionalmente vão sendo acesas a cada semana), também nas janelas e particularmente acho isso muito charmoso, muito mais do que os pisca-piscas que são comuns no Brasil. Aqui os pisca-piscas são daqueles que não piscam (hahaha). Há milhares espalhados pela cidade e pelo Lieseberg.

Falando ainda de luz, no dia 13 de dezembro todos comemoram o dia de Santa Luzia. Para resumir, Luzia era uma jovem italiana rica que viveu durante o séc III e rebelou-se contra a decisão de sua mãe de casá-la com um jovem também rico, mas pagão. Luzia era cristã e queria viver a castidade, por causa disso vendeu todos os bens da família procurando afastar o noivo; só que ele ficou tão irado que acabou por denunciá-la as autoridades que a condenaram a morte (cada coisa que as mulheres já passaram nesta vida: ser morta por vender os próprios bens!). No fim das contas Luzia conseguiu o que queria (viver toda a vida em castidade) e por causa de seu ato de bravura cristã começou a ser invocada como a Santa da Luz e até hoje é conhecida como a Padroeira dos Olhos. No dia de Santa Lucia as crianças se vestem com mantos/vestidos brancos e realizam pequenas procissões com velas cantando uma/a canção da santa. Em Göteborg é até mesmo formado um coro especial com jovens cantoras (escolhidas pelo público por meio de uma competição) que apresentarão a Santa Luzia oficial da cidade. E os cidadãos suecos, que gostam tanto de segurança, fazem provavelmente a única coisa legal e moralmente aceita socialmente que é extremamente perigosa ao permitir que uma pessoa use uma coroa de flores com velas acesas na cabeça. Achei um pequeno vídeo com uma amostra da procissão (não é aquela oficial):

Além disso, os suecos costumam valorizar muito os pequenos momentos com quem se gosta. Convenhamos que, quando está -10 graus C do lado de fora, não há coisa melhor do que ficar no aconchego do lar e curtir os aquecedores. Para não cair na mesmice recorrem a tradição de fazer bolos e bolachas de Natal, além dos adereços para a casa ou o pinheirinho. Tudo isso se engloba na filosofia de “mysa e a gente vê muito por aí “julmys i Göteborg“. Também não faltam declarações do tipo “Pynt och mys med fulana/ciclano/beltrano” no facebook. Att pynta é o verbo utilizado para a confecção dos adereços de Natal (e também da Páscoa): meias de feltro para colocar os cartões, estrelas de Davi, corações, cacarecos para o pinheiro, decorar o pinheirinho, confecção daqueles trols/gnomos/tomte chapeludos, espalhar velas pelas janelas, enfim.

Olha aí os gnomos/trolls sei lá como se chamam...

Olha aí os gnomos/trolls sei lá como se chamam…

Quem não entra nessa de jeito nenhum é o Joel. Quando a neve começou a cair eu me animei com essa e pensei em bolar alguma coisa bem “julmys” pra gente fazer aqui em casa, como julbaka (pepparkakor, por exemplo) ou pyntar. Antes de terminar a frase ele já tinha sumido. Depois eu recebi como resposta um “eu ajudo a comer o bolo” (sim, também existe o bolo com sabor de pepparkaka). Queria saber quem é que traumatizou o menino desse jeito…

E vocês, como estão preparando o Natal? Muito “mys” e muito “pynt” por aí?

Eu não nasci para hemmafru

É sempre bom começar um post falando do tempo, já que esse é um dos assuntos mais badalados do momento depois que as tempestades de neve sacudiram o leste sueco – Stockholm fica no leste, por exemplo. Para ver fotos lindas da cara do inverno sueco dos lados de lá clique aqui e aqui ou, essa é a cara da minha vizinhança (aqui não há 15 cm de neve acumulada, apesar de tudo estar branco).

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Acho muito lindo tudo branco. Mas no centro não é mais assim. Hoje fizeram cerca de -15 C durante o dia e não nevou (a previsão era de -18 C). Por causa do sal deixado no asfalto a neve derrete e vira uma lama de gelo triturado cinza. Um treco meio nojento, que gruda nos sapatos dos transeuntes e vai tornando o branco cinza em toda a parte. E a neve derrete, a temperatura cai, tudo vira gelo e todo mundo vai rebolando pelas ruas, numa dança nada sensual pelo equilíbrio. Não sei como é que esse povo não aprende a dançar!

E o trânsito parou em todo o centro hoje…

Mas eu não vou reclamar do frio e da neve. Tô achando até bonitinho – vamos ver por quanto tempo dura a animação pois como disse a Nara, o inverno é longo… e eu dentro de casa sou feliz!

Como tenho uns horários de trabalho meio doidos tenho tempo para fuçar na internet e também para me incomodar com as teias de aranha da casa. Isso mesmo, na Suécia também existem aquelas aranhas de pernas compridas e finas que fazem teias enormes pelos cantos. Quando eu vejo isso (às vezes) eu me transformo na poderosa hemmafru (dona de casa, em sueco) e decido que é hora da faxina. A animação persiste até eu entrar na cozinha: minha cozinha de seis metros é muito pequena para o tanto de refeições que eu quero fazer, e o resultado é sempre meleca.

Outra, que eu sou do tipo que começa a fazer uma coisa e lembra de fazer outra no meio, larga o que estava fazendo para não esquecer o que lembrou; começa o que lembrou, termina ou não, porque se eu lembrar que preciso daquilo também ou eu anoto ou eu faço, e às vezes eu pego um papel para anotar mas depois esqueço de ler o que anotei ou lembro de alguma coisa que deveria fazer e largo o papel… acho que já ficou confuso. Vamos ao exemplo prático.

Limpei (todo) o banheiro e peguei o aspirador de pó. Decidi tirar o pó primeiro e então achei bananas meio velhas, decidi fazer um bolo de banana. Levei as bananas para cozinha, organizei algumas coisas na cozinha, voltei para o aspirador. Achei roupas que ainda não guardei desde a última visita a lavanderia (que eu não vou contar quando foi). Guardei (algumas). Percebi que não havia tirado todo o pó. Voltei ao aspirador, e assim que tudo estava pronto comecei a calda para o bolo, descasquei e cortei as bananas e daí… não tem ovos.

Eu poderia fazer o bolo sem ovos, afinal, eu já fiz e não é o fim do mundo. Mas sei lá porquê, eu fiquei encucada. Se o vizinho estivesse em casa eu bateria lá e pediria “ovos emprestados”… coisa de cidade pequena, eu acho. A gente tem um vizinho super gente boa (amigo de infância do Joel) que até me deu uma colher de chá quando esqueci minhas chaves não sei onde e fiquei trancada fora do apartamento por quase 6 horas. Se fosse no Brasil eu não hesitaria em sair rumo ao vizinho mais próximo (mesmo que fosse desconhecido) e toc toc: “Oi vizinhx, é que eu comecei a fazer um bolo e percebi que não tenho ovos, será que eu poderia emprestar dois ovos?”. Mas e se o vizinho não tá em casa, e só a irmã dele abre a porta eu ia morrer de vergonha. Lá estão as bananas no caramelo, a massa pela metade, o forno pré aquecendo. Desligo tudo, visto a roupa de blindagem contra o frio e vou até o “torget” (uma pracinha com comércio) que fica a 10 minutos de casa comprar ovos.

Faço o bolo e começo a preparar uma comidinha. O Joel chega e o pessoal do Arbetsfömedlingen me liga para um “bate papo rápido”. Fico animada porque eu estou procurando ajuda para conseguir o trabalho como assistente social, mas logo de cara ela já avisa que não pode me ajudar nem com isso e menos ainda com aquilo e fica se desculpando e descrevendo todas as coisas que ela não pode fazer por 20 minutos. Eu me irrito, não entendo bem o que a mulher tá querendo lá do outro lado do telefone, repetindo palavras que eu não sei o significado, tudo lá na cozinha pela metade e eu com fome, com raiva e quase chorando. Pergunto para ela porque eu não posso ter uma entrevista com ela para a gente tratar de todos os detalhes frente a frente – para mim é bem mais fácil entender sueco olhando na cara da pessoa – e ela me responde que não trabalha em tempo integral e tem mais de 400 pessoas – como eu – para gerenciar. Que compromisso dessa instituição não? Eu fico puta, falo para ela que não “tô entendendo meu”, será que não podemos mesmo marcar uma entrevista?, sim claro mas só no final de janeiro – fazer o quê? – a conversa acaba e nada mudou; a receita pela metade já esfriou, tudo tem que ser recomeçado e eu sem tesão nenhum.

O Joel fez o que podia para ajudar mas no fim, a receita ficou um lixo e a cozinha tá uma meleca, e depois da conversa com o A fiquei sem nenhum tesão de arrumar. Toda a confusão faz parecer que não adianta nada eu limpara a casa… sem falar que eu esqueci de tirar as teias de aranha.

Eu não nasci para ser hemmafru

Gregos e troianos

Neva em Göteborg, finalmente! Está frio pacas mas eu me junto ao coro de alguns milhões de suecos que amam a neve porque, graças a ela, tudo fica mais claro, mas bonito, mais branco, mais gostoso. No dezembro passado choveu, choveu e choveu apenas e o resultado foi que tivemos dias interminavelmente escuros e cinzas, dá uma depressão que vou lhes contar!

Mas como não há jeito de agradar a gregos e troianos nem bem o primeiro dia de neve teve fim iniciaram-se os rosários de reclamações: é caos no trânsito, caos nos hospitais, caos, caos, caos nas manchetes do jornais… Se o mundo não acabar em 21 de dezembro (e sabemos que não vai), as previsões indicam que morreremos de frio – é, depois de dois dias nevando o frio já passa a ser tenebroso e a neve nunca acabará! Os ônibus atrasam, os spårvagns (abrasileirei o termo) param, ninguém mais vai andar de bicicleta (todo mundo vai usar os ônibus e spårvagns que atrasam e por isso ficam ainda mais cheios); é difícil pacas empurrar a cadeira de rodas do Zé…

Tudo começou com uma virada do tempo na sexta (já estava nevando em outras partes da Suécia desde a semana passada), quando as temperaturas ficaram abaixo de zero a primeira vez neste outono; despencando para -10 graus C no domingo. Nevou ontem, nevou hoje e espero que neve amanhã – eu ainda acho lindo. E se daqui a uma semana eu estiver reclamando do frio isso não importa porque agora mesmo estou feliz e satisfeita!

E está oficialmente aberta a temporada do ano em que todo mundo esquece luvas, toucas e cachecóis dentro do spårvagan/ônibus/perde por aí, que passamos calor dentro das lojas, que escorregamos por todos os lados em que pisamos e que o número de fraturas em idosos, crianças e desavisados cresce tanto que tem apenas o céu como limite! Escorreguei hoje e quase caí (me segurei na cadeira do Zé) e ontem quase que congelei meus dedinhos pois acreditei ter esquecido minhas luvas no spårvagn!

Parece bobo isso mas pense na maratona: primeiro você coloca um enorme cachecol ao redor do pescoço, uma touca (do tipo justinha para segurar as orelhas – sim, se você não usa touca as orelhas podem congelar e cair e você nem vai perceber) e luvas para que os dedos não congelem; fecha o casaco até em cima e sai de casa. Chega no ônibus/spårvagn e é quente e sufocante ficar com tudo (5 minutos são suficientes); você tira a touca e as luvas e enfia dentro da bolsa enquanto abre o casaco e desata um pouco o cachecol. Um ponto antes do destino refaz a operação veste tudo mais uma vez. Ou seja, isso nunca funciona porque ninguém faz isso um ponto antes daquele em que vai descer!

Eu ia deixar umas fotos, mas… não consigo editar de um jeito que me deixe feliz… e a ferramenta de inserção de mídia no blog já mudou de novo – justo quando eu tinha aprendido!

Fica para a próxima!