Tradições natalinas

Depois de ler essa história no blog da Joana eu fiquei encucada a respeito do uso dos adjetivos natalinos – ou natalícios? (E se nós, falantes da língua portuguesa, temos dúvidas a respeito da língua materna, o que não dizer a respeito da segunda e terceira línguas?). Fui lá consultar o pai dos burros e, segundo o dicionário online Presbiram, natalino e natalício são sinônimos.

Tudo isso para compartilhar um pouquinho a respeito das tradições natalícias suecas (e tem gente que pensa que ter um blog não dá trabalho!). O Natal é um tempo muito especial para os suecos, não tanto pela cultura do papai noel e muito menos pelo nascimento do menino Jesus, mas porque é considerada uma festa de luz. O período do advento na Suécia é um período em que os dias passam a ser ainda mais escuros e curtos, e eu chuto que talvez seja por causa dessa questão que o dia 25 de dezembro tenha sido escolhido como dia da celebração do nascimento de Jesus Cristo (o Filho de Deus é a luz da humanidade). Não que isso tenha acontecido na Suécia,  mas o calendário cristão foi instituído na Europa e…

Vamos voltar para a história das luzes, que é melhor. Uma das coisas que mais me marca é que muitas casas tem a estrela de Davi como uma lâmpada pendurada na janela ou um conjunto de velas/luzes para lembrar as luzes do Advento (aquelas quatro que tradicionalmente vão sendo acesas a cada semana), também nas janelas e particularmente acho isso muito charmoso, muito mais do que os pisca-piscas que são comuns no Brasil. Aqui os pisca-piscas são daqueles que não piscam (hahaha). Há milhares espalhados pela cidade e pelo Lieseberg.

Falando ainda de luz, no dia 13 de dezembro todos comemoram o dia de Santa Luzia. Para resumir, Luzia era uma jovem italiana rica que viveu durante o séc III e rebelou-se contra a decisão de sua mãe de casá-la com um jovem também rico, mas pagão. Luzia era cristã e queria viver a castidade, por causa disso vendeu todos os bens da família procurando afastar o noivo; só que ele ficou tão irado que acabou por denunciá-la as autoridades que a condenaram a morte (cada coisa que as mulheres já passaram nesta vida: ser morta por vender os próprios bens!). No fim das contas Luzia conseguiu o que queria (viver toda a vida em castidade) e por causa de seu ato de bravura cristã começou a ser invocada como a Santa da Luz e até hoje é conhecida como a Padroeira dos Olhos. No dia de Santa Lucia as crianças se vestem com mantos/vestidos brancos e realizam pequenas procissões com velas cantando uma/a canção da santa. Em Göteborg é até mesmo formado um coro especial com jovens cantoras (escolhidas pelo público por meio de uma competição) que apresentarão a Santa Luzia oficial da cidade. E os cidadãos suecos, que gostam tanto de segurança, fazem provavelmente a única coisa legal e moralmente aceita socialmente que é extremamente perigosa ao permitir que uma pessoa use uma coroa de flores com velas acesas na cabeça. Achei um pequeno vídeo com uma amostra da procissão (não é aquela oficial):

Além disso, os suecos costumam valorizar muito os pequenos momentos com quem se gosta. Convenhamos que, quando está -10 graus C do lado de fora, não há coisa melhor do que ficar no aconchego do lar e curtir os aquecedores. Para não cair na mesmice recorrem a tradição de fazer bolos e bolachas de Natal, além dos adereços para a casa ou o pinheirinho. Tudo isso se engloba na filosofia de “mysa e a gente vê muito por aí “julmys i Göteborg“. Também não faltam declarações do tipo “Pynt och mys med fulana/ciclano/beltrano” no facebook. Att pynta é o verbo utilizado para a confecção dos adereços de Natal (e também da Páscoa): meias de feltro para colocar os cartões, estrelas de Davi, corações, cacarecos para o pinheiro, decorar o pinheirinho, confecção daqueles trols/gnomos/tomte chapeludos, espalhar velas pelas janelas, enfim.

Olha aí os gnomos/trolls sei lá como se chamam...

Olha aí os gnomos/trolls sei lá como se chamam…

Quem não entra nessa de jeito nenhum é o Joel. Quando a neve começou a cair eu me animei com essa e pensei em bolar alguma coisa bem “julmys” pra gente fazer aqui em casa, como julbaka (pepparkakor, por exemplo) ou pyntar. Antes de terminar a frase ele já tinha sumido. Depois eu recebi como resposta um “eu ajudo a comer o bolo” (sim, também existe o bolo com sabor de pepparkaka). Queria saber quem é que traumatizou o menino desse jeito…

E vocês, como estão preparando o Natal? Muito “mys” e muito “pynt” por aí?