Algumas verdades sobre a imigração para a Suécia

Ao longo do tempo escrever no blog tem me ajudado a manter meu português vivo e ainda melhorar a minha relação com o dicionário: só por escrever o título hoje fiquei na dúvida entre emigrar e imigrar… como é que se escreve? Na verdade, os dois termos existem e se você quer descobrir porque usei imigração leia a resposta aqui.

A questão do número de refugiados que chega a Suécia anualmente – dentre outros imigrantes – dá muito pano para manga. No censo comum correm as histórias cabeludas a respeito dos imigrantes que vivem as custas do governo e dos recursos que – não fossem esses famigerados [ironia!] – seriam destinados a aposentadoria dos trabalhadores suecos. No último post até usei uma delas – ironicamente – como exemplo, mas depois fiquei com um peso na consciência porque não sei se todo mundo que lê entende… Não porque os leitores sejam burros mas porque é difícil enxergar os erros naquilo que escrevemos; achei melhor declarar isso abertamente e trazer alguns dados estatísticos.

A Suécia tem uma central de estatísticas tipo como o IBGE no Brasil – com a diferença que a maioria das estatísticas é/são/estão atualizadas. É bom pensar que a população sueca é de pouco menos que 10 milhões de pessoas, e então teoricamente é mais fácil para um país com menos variantes (ou, não sei que palavra usar) manter os dados atualizados. Essa central é muito fácil de acessar e de encontrar o que se procura, até eu que sou meia boca no sueco consigo encontrar o que quero lá. Algumas estatísticas e pesquisas são disponibilizadas também em inglês.

Além disso, no ano passado também foi lançada uma cartilha sobre as expectativas de vida, crescimento da população, morte, nascimento e etc, e que traz alguns dados muito interessantes tanto sobre a emigração sueca quanto da imigração para a Suécia. Com base nos dados dessa cartilha e desse artigo, como de algumas tabelinhas facilmente encontráveis no site da Migrationsverket, deixo algum dados oficiais sobre os imigrantes que tem cara e/ou coragem de se estabelecer por aqui.

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Imigração e emigração 1850-2010 (Cartilha Demográfica 2012)

Um pouco de história: no século 19 a Suécia era tão pobre que todo mundo queria mudar para os EUA. Se der uma olhadinha no gráfico, entre 1880 e 1890  a emigração chegou a registrar cerca de 50 mil saídas por ano. Estima-se que cerca de um milhão de suecos tentaram mudar para os EUA naquela época das vacas magras. Depois da crise lá na terra do Tio Sam (quebra da bolsa em 1929)  os suecos pararam com a peregrinação.Foi em 2011 que o contingente de emigrantes suecos superou, pela primeira vez, a debandada em massa dos séc 19: 51 179 suecos mudaram para outros países em 2011, e esse número foi maior do que no ano de 1887 – ano da maior debandada de suecos até então.

Lá pela década de 40 o maior contingente de imigrantes que se estabeleceram na Suécia era de finlandeses, e nas décadas seguintes os vizinhos escandinavos ainda eram os caras que mais comummente estacionavam por aqui. Essa imigração tinha como principal força motora a indústria sueca, muito forte e especialmente atrativa para quem quisesse trabalhar. A partir do fim da década de 80 e início dos 90 os iranianos começaram a aparecer na fita (Guerra Irã-Iraque), mas não foram eles os primeiros refugiados a adentrar a Suécia, uma vez que muitos latinos (principalmente chilenos, bolivianos e colombianos) haviam se mudado para cá fugindo das ditaduras na década de 70.

Em meados da década de 90 (96 e adiante) começa a imigração de povos do leste europeu para a Suécia. O país – como membro da União Européia – não tem o direito de barrar ou deportar cidadãos de outros países membros da UE – a menos que o pessoal venha para cá e pratique crimes – e os mesmos podem estacionar por aqui e tentar a sorte de um emprego.

O boom da imigração se deu depois de 2006 quando a lei de imigração sueca mudou – e facilitou principalmente os pedidos de asilo – fazendo com que um grande contingente de iraquianos, seguidos de perto dos afegãos e somalianos, desembarcassem no país. Somada a essa mudança a crise européia trouxe muitos mais europeus para a Suécia – e dessa vez eles não vinham apenas do leste.

Pessoalmente, a insatisfação sueca está apontada para o lado errado: iraquianos e afegãos vieram parar aqui por causa da guerra em seus países. Guerra essa em que o maior ator era: EUA. Lembram da caça aos terroristas após a quedas das Torres Gêmeas? Osama Bin Laden era afegão. E a ocupação do Iraque? Sim, Sadam Hussein era um monstro, Bin Laden um louco e os EUA não estavam sozinhos nessa. Mas a crise de 2008 também foi desembocada por causa de grandes empresas e bancos que vivem de especulação e que estavam (e estão) nos EUA, e ainda fazem a mesma coisa. A bolha econômica que estourou em todo o mundo deixou grandes estragos na economia americana, eu sei, mas eles ainda não fizeram – e muito dificilmente vão fazer – alguma coisa para que a história não se repita mais uma vez.

Ok, já declarei que não sou simpatizante do Tio Sam e para ser justa já vou sublinhar também que a Suécia é um dos maiores fabricantes de armas do mundo e que é aí, nesse caroço, que a Somália entra no meio do angu. Para vender armas o país deve assinar uma série de tratados internacionais e uma das regras é: acolher refugiados. Será que pagar um bidrag e apartamento (para alguns milhares) é muito quando o país está diretamente envolvido na destruição da vida de milhões?  Não obstante, essas questões ficam muitas vezes de fora da discussão que abrange o grande problema da não integração de imigrantes – especialmente os refugiados – na Suécia.

Voltando aos dados: em 2011, a cada cinco imigrantes que se estabeleceram na Suécia um era o sueco filho pródigo, aquele tipo que mudou para algum canto do mundo e decidiu voltar (20615 pessoas). Em segundo lugar estavam os iraquianos (4469 pessoas), seguidos de perto dos poloneses (4403 pessoas). Os somalianos – aqueles que o senso comum afirma que servem só para sugar o sistema – vieram com uma pequena caravana de 3082 pessoas, ficando atrás dos dinamarqueses (3196). Sabiam que as regras de imigração para a Dinamarca são tão rígidas que muitos dinamarqueses mudam para a Suécia apenas para conseguir viver com seus parceiros estrangeiros? E tem gente que adoraria que a Suécia adotasse o modelo dinamarquês – sem nem piscar.

A Migrationsverket mostra que, em 2012, 36526 pessoas pediram asilo na Suécia e que, dentre essas, 12576 permissões de residência foram concedidas, enquanto 12991 foram negadas e 105 ainda esperam a decisão (dos que sobraram, 6158 não foram julgados pela Suécia porque concernem ao Regulamento de Dublin e os demais foram cancelados pelo próprio requerente – 4803). No mesmo período foram concedidos 16543 permissões para trabalhar na Suécia – sendo que dentre essas estão incluídas 1203 permissões para estudar, 121 vistos por laços familiares e 188 refugiados, que tiveram pedidos de asilo negado mas obtiveram, por fim, permissão de trabalho.

Se pudéssemos simplificar as contas dessa forma: por ano entram na Suécia 14088 (refugiados, mais estudantes, mais pedidos por laço familiar) pessoas que não trabalham e 15031 pessoas para trabalhar; podemos concluir que para cada estrangeiro que não trabalha há um trabalhando e um plus de 943 pessoas que só contribuem para o estado sueco. Nessa minha conta maluca o estado sueco ainda sai ganhando apesar de pagar as contas de algumas famílias.

Pena que nem tudo é tão simples, que quem vem para ficar nem sempre consegue ser independente antes da média de sete anos de residência; que nem todos que ficam querem aprender a língua; que nem todos conseguem, apesar do esforço, alcançar o trabalho que gostariam; que nem todos que vem para trabalhar vão ficar aqui a vida inteira… Pessoalmente depois de ver todos esses números ficou meio óbvio que toda essa briga por causa de meia dúzia de (milhares de) refugiados é uma bola de neve gerada pelo senso comum e pelo medo daquilo que não conhecemos.

Pois, não fica mais fácil quando temos um bode expiatório? Ainda mais se for alguém mais fraco…

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