Uma Caipira em Mallorca

Eu tava pirando com essa coisa de procurar trabalho e ficar no vácuo. Sim, eu acho bem difícil receber um não, mas mais difícil ainda é ser ignorada e não receber resposta alguma. Nessas horas eu me pergunto porque eu não escolhi algo mais fácil para minha vida! Nasci teimosa, agora aguenta. Só sei que daqui alguns dias estarei fazendo companhia para a Vânia no Diário de uma Teimosa…

Enfim, estava ficando muito estressada com toda essa coisa de procurar emprego. Eu não tenho paciência para esperar, me deixa louca alguém dizer que vai entrar em contato e não fazer, aí eu ligo de volta e ninguém atende o telefone. Estou maximizando, eu sei, o problema é que quero tudo para ontem; precisava dar um tempo e como meus tios sempre insistiram para mim ir visitá-los aproveitei para conhecer um dos destinos mais amados pelos suecos no verão: Palma, na ilha de Mallorca, Espanha.

Viajei com a Air Berlin e descobri duas coisas: é impossível entender o que os alemães dizem quando falam inglês e, pessoalmente, foram as comissárias de bordo mais simpáticas que já encontrei nesse pouco tempo em que comecei a explorar o mundo de avião. Quando fomos a Portugal voamos de TAP e eu achei um barato o vídeo sobre segurança que eles rodam nos monitores (aquela coisa de apertar os cintos, o que fazer em caso de turbulência, é proibido fumar, desligue os aparelhos eletrônicos) mas em compensação a tripulação era meio fechada. Já as comissária alemãs (e os comissários também) estavam sempre rindo e sorrindo para nós. Talvez estivessem rindo de nós, mas o que importa? A atmosfera no voo foi muito descontraída e tranquila.

Fiz escalas em Berlin e Barcelona e sinceramente, achei o aeroporto de Barcelona uma merda. Passei muito tempo lá, e na verdade, isso foi bobeira minha pois talvez eu poderia ter saído para espiar a cidade. A verdade é que sou imensamente cagona no que se refere a voar, sempre vou direto para o meu portão de embarque, ou para perto de um daqueles painéis que mostram as chamadas de voos, e fico com um olho no livro e outro no painel/porta de embarque. Passei 6 horas no aeroporto onde não há nada para comer além de sanduíches de pão duro com algumas fatias de salame tão finas que seria possível ver Jesus por meio delas. Além do mais, tanto para comprar o bendito sanduíche como para pedir informação e na hora do embarque fui mal tratada. Ainda bem que Barcelona tem fama, porque se dependesse da simpatia do povo de lá estariam perdidos!

Meus tios foram me buscar no aeroporto em Palma e apesar de estar frio por lá achei tudo muito bonito e muito verde. Já no caminho de casa a minha tia me apontou alguns dos pontos turísticos da ilha, como a Catedral e o castelo do rei da Espanha – que também gosta de gastar as férias na ilha. Nada de movimento na ruas, mas no aeroporto estava uma loucura! Imagino que no verão seja um verdadeiro caos.

Meu guia...

Meu guia… sorte que meu primo é gente boa e teve paciência de me levar passear um pouco.

Catedral... eu já disse que gosto muito de visitar igrejas...

Catedral… eu já disse que gosto muito de visitar igrejas…

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Ao lado da Catedral uma fortaleza. Achei muito lindas as paredes parcialmente cobertas de hera…

Oliveira muitoooo velha...

Oliveira muitoooo velha…

Eu só vi um pedaço da ilha, mas tudo o que vi achei super bonito. O melhor de tudo é que sempre havia um restinho de sol, brincando entre as nuvens, quando não havia muito sol! Foi muito gostoso aproveitar um pouco do calor do sol no rosto e no corpo.

Entendo porque Mallorca é um dos destinos favoritos dos suecos no verão: o mar é muito bonito, há muitas praias e montanhas. Dá para sair para uma longa caminhada no meio da natureza e alcançar outras praias mais lindas ainda (que só vi por fotografia). Fiquei bastante em casa, admirando a vista, conversando com a família. É bom sair um pouco e desligar… Foi gostoso ficar com rostos conhecidos e recarregar a bateria.

Meus tios moram há cerca de 10 anos lá, e agora é hora de voltar para o Brasil. Infelizmente na Espanha a situação econômica é perturbadora… apesar de não ver tanta gente na rua pedindo como em Lisboa, vi uma manifestação no aeroporto: ex-funcionários e funcionários da Ibéria estão diariamente em frente aos guichês da companhia protestando. A situação no aeroporto estava meio tensa e havia um cordão policial de contenção.

Alguns manifestantes que protestavam contra a Ibéria.

Alguns manifestantes que protestavam contra a Ibéria.

Cada um com suas lutas. É hora de retomar as minhas.

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Pequenas Grandes Coisas da Minha Vida Sueca #25

Não consigo mais colocar na cabeça nem uma só palavra do livro do BBiC que estive lendo. Minha mente está louca e meus pensamentos correm feito ninfas as vésperas de um solstício de verão. Nada do que leio fica gravado na cuca… dilemas do mundo moderno? Excesso de informação? Não acredito…

Deixei de trabalhar com o Zé em tempo integral para me dedicar um pouco a caça do trabalho como assistente social e aos preparativos do casamento. Quem acha que isso é meio estranho é porque não casou ainda: passei uns par de dias formulando o convite (que mesmo assim ficou super simples) e mais uns dois, três dias atrás do endereço de todo mundo. Na segunda mandei uma leva dos convites, a segunda leva vai na semana que vem e ainda separamos dos amigos mais chegados que moram em Göteborg para que sejam entregues em mãos.

Recebi o resultado do meu pedido de visto permanente e aquela carteirinha tão fabulosa acaba de chegar na minha porta. Eita coisa besta viu? Mandei a papelada em dezembro e em janeiro recebemos em casa um formulário com 4 perguntas bem idiotas (de assinalar com x) que deveria ser respondido por ambos. Mas as perguntas, no caso, eram direcionadas apenas ao Joel: você realmente conhece a Maria Helena? Você mora com ela? Quer continuar esse relacionamento? e a outra questão eu nem lembro, mas acho que era a única aberta do tipo quais os planos para o futuro? As três primeiras perguntas vinham com a opção “sim” e “não”, e “se não, por quê?”. No fim os dois assinamos a tal entrevista. Menos mal, nem precisei comparecer ao Migrationsverket para aquele outro tipo de entrevista ridícula a qual minha amiga foi submetida (e perguntaram a ela em qual lado da cama ela dormia…oO). O que interessa é que agora tenho meu permanent upphålstillstånd.

Essa semana tive um encontro inspirador com uma studievägledare (orientadora vocacional) a respeito das minhas ambições com relação ao Serviço Social na Suécia. Fiquei feliz e muito puta da cara ao mesmo tempo porque ela me confirmou o que eu já descobri faz um mês: para entrar na universidade na Suécia você precisa que o seu diploma do ensino médio seja válido por aqui e o fato de ter um diploma universitário (válido ou não) não conta muito a menos que você queira se candidatar a vagas abertas em cursos extras da grade do Serviço Social. Quando visitei a Vuxutbildningen para conversar a respeito da minha educação na Suécia eles me disseram que tendo o diploma reconhecido eu poderia entrar na Universidade. Ponto. Mas não é bem assim… para entrar na universidade é necessário Sueco nível 2, Matemática nível 2, Estudos Sociais nível 1 e Inglês nível 1. Eu posso pegar o meu certificado de Ensino Médio e tentar validar meus conhecimentos em matemática e inglês – é muito difícil que não sejam correspondentes – o que infelizmente é muito difícil de acontecer em relação aos Estudos Sociais, uma vez que no Brasil não estudamos a sociedade sueca.

Eu poderia ter estudado Samhällkunskap ao mesmo tempo em que estudava o SAS, afinal eu tinha aula uma vez por semana, não iria doer nem um pouco ter aula duas vezes por semana… mas eu nem sabia que eu precisaria dessa merda disciplina também. O lado positivo é que como estudei muita sociologia na faculdade eu talvez possa compensar daí. Dedinhos cruzados.

E pra quê todo o papo de universidade se eu tô com o diploma na mão? Porque para todos os efeitos por meio da universidade posso estagiar e daí meus problemas com relação a) não tenho experiência na Suécia e b) não conheço o sistema social sueco estariam resolvidos. Fiquei muito feliz porque ela (a orientadora vocacional) mais uma vez afirmou que meu curso foi aprovado em  100% e que não preciso complementar, que esse complementação seria só uma forma mesmo de tornar meu currículo mais atraente. Sinceramente, foi a melhor orientação que já recebi nesses meus quase dois anos de Suécia, ela foi clara, tranquila, me mostrou os caminhos possíveis, questionou minhas ideias formadas, plantou outras, assinalou as dificuldades e também os impossíveis que posso encontrar. Saí de lá de espírito renovado e com o telefone para contato de mais alguns locais de trabalho, como substituta (timvikarie) o que acho que será perfeito para começar – e mais fácil de conseguir.

Fácil e fácil porque para cada 5 anúncios de vagas com trabalho social, 4 pedem carteira de habilitação. Não deu nega, já fiz a inscrição pelo site do körkortportalen (portal da carteira de habilitação) e vou gastar um tanto das minhas economias com isso. Afinal de contas, eu to meio devarde e me dá um nervoso ficar esperando um e-mail ou telefone pra entrevista que nem sei pra que lado que me pego. Liguei e tentar vender meu peixe por telefone, mas ainda é muito desconfortável conversa em sueco pelo telefone, e já cansei de conversar com secretárias eletrônicas.

Essa é mais uma das razões pela qual a minha leitura do BBiC não vai para frente: eu lembro que tenho que entrar em contato com fulano e ligo, mas o fulano saiu e eu me programo para ligar mais tarde. Volto para o texto e já perdi o fio da meada, retomo a leitura de algumas páginas para me achar e quando o negócio engata percebo que meu telefone mudou de cores e já corro para ver se é e-mail… estou neurótica.

Sorte que tenho um super viking me ajudando ♥… Ainda assim, ficarei off por um tempo.

Fettisdagen e alimentação

Falando em dia gordo...

Falando em dia gordo…

Hoje tá todo mundo “curtindo” a ressaca da quarta feira de cinzas no Brasil enquanto os suecos começam a dieta…  ou, assim seria o esperado depois de um “Fettisdagen“.

Esse palavrão é nada mais do que a “terça feira gorda”, e como eu já expliquei aqui ela leva esse nome porque seria o última dia em que eram permitidos regalos na mesa e guloseimas antes da Páscoa. O povo sueco leva muito a sério esse dias de guloseimas – ganhei uma semla enorme ontem no trabalho! – e por isso o dia que conhecemos como o dia de Carnaval no Brasil é, aqui, um dia onde a galera se empanturra de semla (o que é isso? Resposta aqui). Extremamente gordurosa e deliciosa, não há quem resista! Ou sim, já comeu semla Vânia? Depois de ingerir essa bomba calórica, dá até uma dorzinha de consciência… mas nada que uns quilômetros correndo ou uma boa dieta não consertem.

E quando eu digo dieta, bem, nunca ouvi um sueco ou sueca dizendo que está fazendo dieta para emagrecer. Já ouvi alguns dizerem que querem melhorar a alimentação, que estão preocupados com a saúde e por causa disso querem buscar alternativas mais saudáveis para o seu dia a dia e isso inclui, sempre, cortar açucares e gorduras.

Pah, eu não aguento viver de frutas e verduras, eu tenho que ter um bom naco de carne no meu prato. Assunto batido esse, já declarei umas tantas vezes que se já não soubesse que sonharia com um churrasco falando comigo faria a experiência de ser vegetariana por um período. Seria um sacrifício e tanto e por acreditar que a gente já recebe uma certa dose de sofrimento diário gratuito não tenho a mínima intenção de adicionar umas medidas extras a essa dose, obrigada. Já diminui o consumo dessa delícia e muito – no Brasil comia carne todos os dias e no fim de semana era aquele banquete – e até que não preciso me defender muito a respeito disso, mas quando o assunto é açúcar… sempre fiquei indignada por me considerarem uma consumidora compulsiva de açúcar. Sabem aquele história de pré-conceito? Alguns suecos acreditam que brasileiro come açúcar no café da manhã e que não sobrevive sem coisas doces.

Eu conheço muitas formigas e até ontem ficava quase brava quando ouvia coisas do tipo: mas você deve adorar doces porque vocês consomem muito açúcar no Brasil. Não, eu não adoro doces – prefiro salgados, fritos e com carne dentro… ahhhh pastéis de carne… com café! – como quase nada de chocolate e entre aqueles godis suecos os meus preferidos são os lakrits com sal e todas aquelas gomas que são azedas de doer. Mas o triste é que os suecos tem razão e que o que eles falam é que é verdade: consumimos muito açúcar no Brasil (cerca de 51kg por pessoa por ano!) e eu não to me referindo a Cristal ou União, eu to falando daquele açúcar que está escondido nas “fórmulas secretas” de bebidas industrializadas assim como de comida industrializada também. Não sabemos disso quando compramos essas coisas e, principalmente as crianças, estão pagando caro por isso.

Assisti dois documentários nos últimos dias falando sobre a indústria dos alimentos e como eles estão manipulando o mundo e nos vendendo toxinas. Adoramos Coca-Cola porque há um ingrediente viciante em sua formula. E pior: ele não está apenas na Coca-Cola e sim na maioria dos produtos industrializados que consumimos. Tudo que é diet pode e vai danificar o seu cérebro, enquanto você ingere outras coisas ruins – que não são açúcares, mas são piores do que o açúcar – que vão te tornar ainda mais gordo e mais adepto de coisas diet e light.

Eu não tô fazendo propaganda de dieta e nem vou oferecer nada milagroso para te ajudar a perder peso. Pra perder peso e/ou ficar saudável existe apenas um caminho: comer bem e fazer atividade física regular. O que significa comer bem? Comer bem é comer coisas naturais (feito em casa é considerado natural), e comer de tudo mesmo, cereais, carnes, massas, frutas, saladas com moderação e em pequenas quantidades; escolher alimentos orgânicos e deixar de lado tudo o que vem pronto na caixinha e vai direto para o microondas. Ou para o forno. Ou para a barriga. O que é atividade física regular? Se você quer ficar saudável e não sarado, 20 minutos diários de qualquer coisa que te faça suar são suficientes.

Mesmo quem não é cristão ou dá algum sentido especial para a quaresma pode usar esse tempo para repensar seus hábitos alimentares. Para mim é muito óbvio que depois que saí da roça e passei a consumir mais coisas industrializadas meu corpo mudou, e mudou para algo que eu não gosto. Dá mais trabalho ir para a cozinha e preparar uma refeição, mas aí já está um exercício. E nós precisamos nos mover mais nesse mundo em que tudo chega pronto e mastigado.

Falando nisso, chega de discurso. Aqui vão os links dos documentários!

Muito Além do Peso é um documentário sobre crianças brasileiras obesas e seus problemas de saúde – como pressão alta, artrite e diabetes; qual o papel da mídia e sua relação com esse surto de obesidade, qual o papel dos adultos diante desse problema, e a pergunta: porque não nos preocupamos com educação alimentar? Em casa, não apenas na escola. Visite o link abaixo e surpreenda-se!

http://www.muitoalemdopeso.com.br

E aqui fica a íntegra de Hungry for change ou “Famintos por mudança” – mas como o filme está no You Tube apenas desde ontem não sei quanto tempo vai estar lá, então deixo a dica de que há links para o download via Pirate Bay. Hungry for Change tem uma abordagem um pouco diferente a respeito do mesmo tema, agora com o foco não apenas na obesidade infantil mas na obesidade do mundo e o papel das grandes indústrias de alimentos nesse contexto.

A partir dessa quaresma vou cortar o aspartame da minha vida!

Mais sobre o inverno

Faz um tempo que não posto nada da série de dicas de sueco. Na verdade, tenho que voltar a ler esses velhos posts que escrevi quando comecei a estudar e sabia apenas que isso era assim e aquilo assado, porque agora sei que há o frito também e posso acrescentar… pequenos detalhes, grandes diferenças. Estou envolvida com muitas coisas agora e por isso vou deixar apenas algumas palavrinhas sobre o inverno.

Há algum tempo atrás postei as estações do ano, então se alguém se lembra inverno é vinter (en ord, por isso vintern quando definido; e invernos vintrar  – plural definido: vintrarna). O inverno sueco é razoavelmente quente se comparado a de outros países em posição geográfica semelhante no globo terrestre por causa de correntes marítimas quentes vindas do Atlântico que batem aqui no lado oeste do país. Apesar disso, as temperaturas no norte podem atingir os -40 graus C, e todo o país pode ficar branquinho por causa da neve (snö, snön) e geada (frost, frosten).

Eu digo que pode porque aqui, por exemplo, não nevou muito não e sempre que aconteceu foi bem tranquilo (verbo nevar: att snöa. Está nevando = det snöar), nada de um metro de neve nas portas e nada de tempestade de neve com vento. Houve dias muito frios em que as árvores estavam cobertas de uma fina camada e gelo – e isso é lindo, apesar de sinistro. Até choveu agora durante o inverno (eu acho isso chato pacas) porque as temperaturas variaram bastante, tivemos aqueles dias com menos 18 graus mas também há dias com 5. E então chove. A chuva lava a neve, mas como ainda é frio e a temperatura cai muito a noite, tudo vira gelo (is, isen).

O principal problema dessa lambança toda – neva, chove, derrete a neve, cai a temperatura, congela tudo – é que se formam camadas e mais camadas de gelo – por vezes aparentes e por vezes nem tanto – que são um convite e tanto para escorregar. Agora imagine a mesma situação para os motoristas: apesar do sal que é jogado nas principais estradas, em alguns pontos ainda há gelo e é preciso cuidado redobrado nas curvas.

O lado divertido do gelo é poder andar de kälke (mas isso eu fiz apenas em Oslo) , patinar (åka skridskor), esquiar (åka skidår)… Ainda não esquiei e não tenho ideia se vou experimentar. É muito caro: há que se alugar os esquis, viajar para algum lugar ao norte onde há pista, emprestar ou alugar roupas adequadas… e tudo isso para cair na neve e passar frio. Claro que também é muito divertido, mas eu ainda estou aprendendo a perder o medo do frio e do gelo e a viver uma vida normal, apesar disso tudo. Oh, que saudades de por um vestido de algodão e havaianas!

Isso é um spark. Ou, isso sou eu (de vermelho) tentando levar o Joel num spark sobre o Mjörn.

Isso é um spark. Ou, isso sou eu (de vermelho) tentando levar o Joel num spark sobre o Mjörn.

Falando em perder o medo, caminhei de novo no Mjörn – um lago enorme, com 55 km quadrados. Eu tenho muito medo de lagos congelados, eu não posso ver pessoas estúpidas caminhando no gelo recém formado (como a Vânia mostra aqui) ou indo muito longe lago adentro com crianças. Ainda que eu saiba que há uma boa camada de gelo sobre o lago, assim que eu vejo alguém com crianças eu começo a ficar nervosa e uma série de imagens de tragédia vem a minha cabeça. Ridículo, eu sei, mas tem muita gente sem noção que sai com as crianças para o gelo ainda que saibam que não é 100% seguro. Em todo o caso, o Mjörn está (va, talvez seja maior ou menor agora) com uma camada entre 15 e 20 cm de gelo e então a gente saiu para caminhar. Acho que caminhamos algo como 200 ou 300 metros lago adentro. E havia muita gente patinando, muitas pessoas andando de spark e outras pessoas que assim como nós, caminhavam sobre o lago congelado. Alguns cobrem toda a extensão do lago de patins – é um pouco difícil porque o lago não tem uma superfície de gelo regular como nas pistas, e havia uma turma reformando um barco/casa que esta no meio do lago desde 2011 – durante o inverno também, pasmem.

Apesar do inverno mais frio sinto que me adaptei as baixas temperaturas. Ou isso ou aprendi, finalmente, a me vestir… talvez um pouco dos dois. O fato é que no ano passado apesar de não estar tão frio como agora eu usava muito mais roupas – tanto dentro de casa como fora, tinha a constante impressão que um fio de vento safado subia a minha bunda e vinha fazer minha espinha dorsal de parque de diversões. Sempre estava tremendo – apesar de ter minha super jaqueta de inverno… Dica de sueco: use a palavra inverno combinada com as diferentes peças de inverno para se referir a jaquetas e sapatos, assim como use o adjetivo gordo para dizer que é um casaco, meias, jaqueta grossa/o – vinter jacka, vinter skor, vinter byxor, tjock tröja, tjocka strumpor… Jag har en varm och tjock vinter jacka, men inte någon vinter byxor (Eu tenho uma jaqueta de inverno quente e grossa, mas não uma calça de inverno).

No mais, tudo no mesmo… em breve mostro para vocês como ficaram os convites do casamento.

Tchau!

Enquanto isso, no sofá da sala…

fonte: Google

fonte: Google

…ta se criando um buraco. Adquiri o mau hábito de sentar num dos cantos do sofá – aquele em que basta esticar o braço para acender o abajur, ligar o stereo, conectar o note na tomada ou depositar o copo de chá na mesinha – enquanto leio alguma coisa sobre o serviço social sueco, afundada em meio as almofadas e dúvidas.

Comecei bem porque ganhei de presente um livrão com toda a legislação social comentada (atualizado apenas até 2004 e pelo que to sabendo a base legal não mudou depois disso), mas infelizmente percebi que essa linguagem ainda está muito além do meu alcance – eu chuto que seja meio jurídica; entendi muito pouco do que tava lendo… parti para  internet. E para minha felicidade, encontrei na página do Socialstyrelsen uma montanha de PDFs sobre os mais variados assuntos.

Na segunda comecei a estudar o básico a respeito do BBiC (Barn Behov i Centrum – Necessidades das crianças no centro) e fiquei surpresa por perceber que a intervenção do serviço social sueco tem as mesmas preocupações e exigências do serviço social brasileiro no que diz respeito ao atendimento à criança e ao adolescente. Como eu estou afastada do trabalho de assistente social há dois anos – e em dois anos tudo pode mudar – acredito que a principal diferença esteja mesmo na utilização desse sistema que é uma das principais exigências em qualquer anúncio de emprego (conhecimento acerca do BBiC e Trevisa).

O BBiC é tanto um sistema de dados quando um método de intervenção. Depois de ler 40 páginas, vi uma repetição daquilo tudo que já estudei: necessidade de escuta da criança/adolescente, trabalho em prol da emancipação da família/indivíduo, foco na avaliação global de forma a identificar tanto as maiores dificuldades quanto as melhores qualidades pertinentes ao caso; que a leitura do caso deve levar em consideração a criança,  a família e o meio em que a ela vive… que o assistente social não pode brincar de Deus, entre outros.

Fiquei pasma. Triste e feliz. Muito feliz porque eu entendo o que eles querem e tenho experiência com isso. Triste porque ainda tenho uma barreira grande no que se refere a língua – o parágrafo acima, por exemplo, que escrevi em 4 minutos em português levaria meia hora para ser escrito em sueco. E ser assistente social significa sempre ter uma porrada de papel com que trabalhar…

Eu leio, fico mais confiante, mais ansiosa, escrevo para o Joel que eu já sabia disso e daquilo (as orelhas do Joel! hahaha…), que eu consigo entender, que é maravilhoso, abro minha carta de apresentação, mudo três palavras, agora acho que está perfeita, solto o play de novo (sim, eu aprendo mais ouvindo música ao mesmo tempo); leio mais 20 minutos e tudo começa outra vez.

Decidi que não vou mais mexer na minha carta de apresentação. A sorte está lançada e a carta já foi enviada para vagas em aberto. E eu na torcida… ai se eles me chamam para uma entrevista! Já ensaiei comigo mesma duzentas vezes o que vou dizer e ainda assim, nem sei o que faria.

Pronto, foi o suficiente para o break. Agora de volta ao meu cantinho…

Vida dura, corpo mole e pudim

Fonte: Google.

Fonte: Google.

Só uma passada super rápida para reclamar um pouco: peguei uma gripe foda brava e caí na cama todo o fim de semana. Tudo começou com uma dor de garganta que mudou para algum tipo de virose e depois de correr para o banheiro  e deixar tudo o que eu tinha comido – por meio das duas vias possíveis – só me restava me arrastar pela casa.

Falta de vitamina D (comprei na semana passada depois de ficar um mês sem) ou falta de sorte?… ou as duas? A temperatura tem variado muito e fica dançando entre os 5 graus C e menos 5 graus; num dia chove e noutro tem sol e tudo está congelado. Nunca fiquei doente por pegar um vento torto mas parece que para tudo tem primeira vez. Até pode parecer que não tem nada a ver, mas uma pesquisa recente mostra que a vitamina D reforça a imunidade – especialmente contra infecções virais. Pesquisa aqui. Alguém leu isso e colocou no facebook, só pode, porque parou até no jornal a notícia de que o estoque de vitamina D acabou na cidade – justamente quando as minhas acabaram. Depois foi a minha memória que acabou por esquecer que a vitamina D tinha acabado… agora não esqueço mais.

Não me lembro da última vez que fiquei tão mole assim – ou sim, acho que lembro, foi a quando tive uma dor de garganta terrível e fui correndo para casa da minha mãe. Sem chance de correr para casa da mãe – e muito menos para casa de nenhum parente (suecos tem horror a infecção – fique em casa) – nem pude ficar dodói direito – pra ver como a vida no exterior é dura. Fiquei injuriada com meu corpo mole e decidi que ia gastar o resto das minhas forças tentando fazer um pudim. Olha que foi o esforço porque eu tava me arrastando… mas eu queria fazer de conta que estava em casa, e sobremesa de domingo era sempre aquele pudim gostoso que minha mãe faz.

E essa foi a pérola do fim de semana. Fiz um pudim de forno super prático que ficou maravilhoso. Pena que não pude comer quase nada porque nada parava no estômago… o Joel adorou! A receitinha é muito simples: açúcar para a calda, 1 lata de leite condensado, 1 lata e meia de leite, uma colher de maizena, 3 ovos. Derrete-se o açucar direto na forma e depois de carmelizado, junta a massa feita de todos os outros ingredientes bem batidos. Eu deixei no forno por 40 minutos com a temperatura de 180 graus porque apesar da receita que eu copiei indicar 30, depois dos 30 minutos o pudim tava mais mole do que eu. Mas no fim tudo deu certo e no domingo tinha pudim.

E não fiquem com nojo pois fiz o pudim achando que estava cansada e com dor de garganta, só.