Mudanças

Tudo muda todo o tempo.

Sei lá quem foi que me disse isso, se foi a Angela – provável, ela é uma das pessoas mais sensatas que já encontrei nessa vida e muito da minha paciência foi por meio da amizade dela que conquistei… falando nisso, eu sei que você me lê, e eu tenho saudades! – em todo o caso, tudo muda todo o tempo. Mas a gente esquece disso. Ou melhor, eu esqueço.

Essa semana fiquei pensando no quanto já me acostumei com essa vida. Fazem apenas dois anos que eu moro na Suécia mas a cada vez que eu desço as escadas rolantes em direção a plataforma de embarque dos spårvagn eu sinto como se eu jamais houvesse feito diferente na minha vida. Não, eu não esqueci que a minha vida não foi assim, é que a gente se acostuma.

Eu acostumei a ir para o mercado e usar o auto scanner para fazer as compras. Acostumei a usar transporte público, e agora a maioria das vezes eu tenho um livro na bolsa para ler enquanto eu viajo no trem ou ônibus. Falando nisso, “antigamente” eu não podia ler no ônibus porque ficava enjoada de uma vez só; agora ler eu posso, mas é só sentir o cheiro de café que meu estômago quer parar na garganta. Tudo muda, meu estômago também… acho até mesmo que estou com intolerância a lactose porque leite me dá uma dor de estômago… ou é a idade, afinal, tenho uns cabelos brancos brincando de luzes na minha franja. E agora eu entendo sueco! Cara, dá para imaginar isso? Eu tenho uma família sueca e um trabalho sueco. Eu falo sueco na rua e quando chego em casa quase deixo o Joel surdo de tanto gastar meu português… é, nem tudo muda, mas o que não muda a gente se acostuma. Eu me acostumei com minha vida sueca.

E não é que eu encare isso de forma negativa. É terrível o período de adaptação, é uma merda quando a gente não se sente parte do meio. O que não quer dizer que eu já me sinta sueca (nunca vou me sentir sueca), eu não me sinto uma pedacinho da sociedade, eu não tô 100% integrada. Mas já passou aquela fase pesada em que tudo era difícil. Como eu falei, tudo muda, e a gente acostuma.

Há dois anos atrás eu estava contando os dias para mudar, super empolgada com a perspectiva de mudança porque eu estava cansada da minha rotina. Atualmente eu tenho tudo por aqui, menos uma rotina, e tudo o que eu quero é um emprego em tempo normal para poder estabelecer uma rotina. Tudo muda, todo o tempo…

Apesar de quase pirar de vez em quando – quando me estresso com alguma coisa, me estresso com vontade – sinto que a mudança me fez bem. E nesse ponto eu me refiro a mudança de país: apesar da enorme saudades de amigos e família essa mudança está me mudando, acredito, para melhor. Ainda assim mudança me dá angústia e só de pensar que tudo muda o tempo tudo me dá um nó no estômago… de novo o estômago.

Tô com aquela sensação de que a vida é tão efêmera que eu deveria beijar e abraçar todo mundo com quem me importo. Me importo com uma porrada de pessoas e não sei se eu teria coragem de abraçar todo mundo. E depois tem aquele preconceito de que suecos não gostam de proximidade… tudo muda, todo tempo; mas algumas coisas ainda não mudaram – e me refiro tanto ao meu preconceito quanto ao fato de que a maioria dos suecos não gostam mesmo de muita intimidade.

Mas vai mudar. Tudo muda.

*****

Há dois anos atrás eu não imaginava que meu blog se tornaria alguma coisa importante. E é. Tem sido, e tem ficado ainda mais importante depois que conheci outras pessoas por trás de outros blogs. Blogueiras queridas, vocês estão no meu coração. Quem quiser conferir um pouco da bagunça pode dar uma olhada nesse link aqui, do blog da Joana – a “Boneca de Neve” – e nesse outro aqui, da Priscila – uma “Mineira abaixo de zero” há pouco mais de um mês.

*****

Eu vou mudar de endereço. Hahaha! Tudo muda…

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5 comentários sobre “Mudanças

  1. Ownnn… Fiquei até emocionada com as palavras finais.
    É verdade caipira… Tudo muda e de fato mudamos também o tempo todo. A rotina as vezes pode chatear, o acostumar-se com as coisas também pode ser tedioso, mas faz parte da vida e das fases dela.
    Mas o futuro dá medo? Pq mulher??? Você é tão brilhante, esforcada? Nem deveria sentir-se intimidada. Pq vão vir muitas batalhas nessa vida, mas em cada uma delas saimos mais maduras e preparadas, certo? Então abrace essas mudancas de uma forma positiva, nem que algumas delas te trouxeram experiências negativas.

    Um beijo grande. Espero te ver em Maio ou no prox encontro ou na sua Märripa.

  2. OI Deby!
    Demorei e demorei mas cheguei… talvez foi a doença do meu tio, ou sei lá se foi o meu aniversário, mas isso me deu uma angústia. Não, definitivamente foi a coisa com meu tio. Me dá muito medo pensar que somos tão finitos, tão efêmeros, que tudo pode mudar e acabar tão de repente. Que amanhã pode ser muito tarde. Sei lá, temos que fazer nosso melhor hoje né?
    Carpe diem!
    Obrigada guria, suas palavras me confortaram bastante. Você é muito doce! Obrigada!
    Beijos

  3. Gostei da reflexão. Mudar de país não é implica apenas uma viagem física mas também uma viagem interior. Passamos por muitos desafios que nunca teríamos que enfrentar se tivéssemos ficado no conforto do nosso lar. Até hoje eu não encontrei uma forma de descrever certas coisas por que eu passo, por um lado eu acho que não teria capacidade para escolher as palavras certas, por outro lado eu acho que as pessoas lá em casa não entenderiam. É também por este motivo que me faz tão bem (a mim e a muitas outras pessoas) acompanhar as andanças de quem sabe aquilo por que passamos.

    Não tenha medo de abraçar, Maria, não ampute seus instintos para se adaptar a esta cultura. Além disso tenho a certeza que há muita gente que gostaria de um abraço seu!

    Beijos!

  4. Mariiaaaaa espero demais poder um dia encontrar com voces.
    Abri um sorriso enorme feito uma boba quando vi as fotos do encontro de voces.
    Espero um dia participar desses encontros, tenho certeza que deve ser mega divertido de causar dores no rosto de tanto rir rs.
    Puss puss*

  5. Oi Joana,
    Pois é, acho que no fim a gente acaba se amputando um pouco sem querer. Eu fico sempre meio desconfiada quando estou com suecos, eu não posso manter a mesma naturalidade de quando estou no meio de iguais. A cultura é muito diferente e a língua ainda é uma barreira, morro de medo de ler os sinais de forma errada! Mas quem sabe passa… tenha certeza que sempre vou abraça-la quando nos encontrarmos!

    *****
    Rubia,
    Acho que rimos muito sim e nos divertimos a valer. Você será bem vinda!

    Beijinhos flores!

Agora vamos prosear!

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