Eles sonhavam com um trabalho na Suécia…

Felizmente, eu não sou a única semi-empregada sonhando com um emprego no reino de Carl XVI Gustav. Infelizmente, eu também não sou a única batendo em portas que não estão para mim no momento. Mas, eu já reclamei que chega no post de ontem, aqui eu quero mesmo é deixar um alerta para todo o povo que acha que vir para a Suécia e conseguir um trabalho não deve ser tão difícil assim.

A reportagem abaixo eu tirei do jornal Metro – que convenhamos, não é lá o tal jornal mas traz sempre algumas curiosidades. Hoje eles publicaram um pequeno “report” a respeito dos sem tetos da Suécia que, em sua maioria, são estrangeiros. Pessoas que vieram, principalmente, em busca do sonho do emprego que nunca se concretizou.

Antes de publicar o texto só preciso sublinhar que a reportagem trata exclusivamente dos sem teto que são cidadãos europeus. E como eu já falei aqui cidadãos europeus tem algumas vantagens no que se refere a caça de emprego na Suécia, entre elas o direito de mudar para a Suécia e viver no país por três meses mesmo sem ter emprego. Durante esses três meses eles tem alguns poucos direitos como cidadãos europeus, depois desses três meses se eles ainda não tem emprego passam a ter direito nenhum – uma espécie de convite discreto para que eles voltem para casa. O que nem sempre acontece. Cidadãos brasileiros não tem direito de viverem na Suécia SEM VISTO a não ser como turistas. Ou seja, cidadãos brasileiros tem os mesmos 90 dias que um cidadão europeu, com a diferença que:  não contam com nenhum tipo de direito a não ser os direitos de um turista; se forem pegos trabalhando – por exemplo – sem visto serão mandados embora, ao contrário dos cidadãos europeus que assim que conseguirem um emprego só vão lá e regularizam a situação (e mesmo se não conseguirem nada dentro de três meses nunca podem ser mandados embora – a menos que seja provado que eles estão envolvidos em atividades ilícitas). Se você, como cidadão brasileiro, vier para cá a passeio e “milagrosamente” conseguir um emprego tem que voltar para casa e esperar que o seu visto de trabalho seja aprovado lá no Brasil antes de mudar para cá. Ou seja, blá blá blá, não pense que mudar para a Suécia sem visto seja algum negócio.

Foto: Scanpix. Fonte: metro.se

Foto: Scanpix. Fonte: metro.se

Flyytar till hemlöshet för chans till jobb i Sverige (link para reportagem original)

Vivendo nas ruas por apostar em um emprego na Suécia

Imigrantes da EU são vistos com mais freqüência nas ruas pedindo aos transeuntes algum dinheiro. Pela primeira vez foi feito um levantamento para mostrar que a grande maioria desses migrantes não são sem-teto em seus países de origem – mas eles vêm parar aqui devido a esperança de emprego.

Em 2011 verificou-se que o número de pessoas sem-teto dormindo nas ruas da Suécia havia diminuído, de acordo com uma pesquisa nacional. Mas esta pesquisa não incluía os imigrantes europeus desabrigados; apesar das pessoas que trabalham com sem-teto terem percebido o aumento desse público nos últimos anos. Portanto, o governo deu as entidade de assistência social a missão de complementar a pesquisa nacional por meio da inclusão do número de cidadãos europeus sem-teto na Suécia.

– A razão pela qual isso não havia sido feito antes é porque muitos não têm personnunmmer (número social sueco). Portanto, não é possível afirmar que não tenhamos contado o mesmo cidadão várias vezes, o que pode resultar numa pesquisa sem sentido, diz a coordenadora do projeto de pesquisa Annika Remaeus.

(Parenteses! Há: o sistema de identificação sueco é tão bom que exclui qualquer outra hipótese. Tipo, seria tão difícil assim identificar o cidadão pela data de nascimento? Nesse caso o sem teto nem precisa deixar o nome – alguns tem mania de perseguição, acreditam que realmente tem gente na cola deles e que qualquer informação significaria a morte! E depois, qualquer tipo de pesquisa está sujeita a falhas. Cada desculpa…)

A pesquisa, que é a primeira do gênero na Suécia, identificou 370 cidadãos da EU desabrigados no país, sendo que cerca da metade dormem ao ar livre. Oitenta por cento deles são do sexo masculino e a maioria deles não eram sem-teto quando viajaram para a Suécia. A razão pela qual eles vêm parar aqui é a busca de um emprego, determina o mapeamento.

– Em comparação com, por exemplo, a Espanha, apresentamos maiores possibilidades de emprego. Ao contrário do sem-teto com cidadania sueca (nota minha: em sua maioria dependentes químicos ou doentes mentais) este grupo encontra-se fisicamente num melhor estado de saúde. Poucos são alcoólatras ou viciados em drogas, diz Annika Remaeus.

A razão pela qual nós estamos vendo mais imigrantes nos últimos anos, de acordo com  Annika Remaeus, é a crise econômica que atingiu alguns países da Europa. Desde então, houve um aumento da mobilidade dos cidadãos que saem do seu país de origem e buscam sustento em outros países. É uma tese que é apoiada pela pesquisa que mostra que os migrantes geralmente não estão sem-teto na Suécia há mais de um ano.

– Se eles não conseguem obter qualquer oferta (de emprego) aqui, eles vão continuar a busca em outro lugar.

A edição impressa traz alguns depoimentos:

Meu sonho era mudar para a Suécia desde há muito tempo. Você sabe, a gente ouve dizer que esse é um país lindo e rico. Agora eu estou aqui e eu quase choro.” (Carlos, 33, do Peru/Espanha).

“Eu não posso acreditar que esta é a mesma Suécia sobre a qual eu ouvi no Equador e depois na Espanha. Eu acreditei que havia empregos por todos os lados.” (Roberto, 41 anos, do Equador/Espanha).

“Meus pais me mandaram para cá. Eu preciso arranjar dinheiro para os remédios do meu pai e para pagar a energia elétrica.” (Ernö, 20 anos, eslovaco que estudou apenas 6 anos mas sonha ser médico).

“Eu estou aqui para ajudar os meus pais. Somos seis irmãos e eu sou o mais velho. Minha mãe e meu pai estão velhos e doentes.” (Karl, 21 anos, eslovaco que contou ser maltratado na Suécia. Um casal haveria cuspido nele enquanto declarava que era uma pena que Hitler não havia acabado com todos os ciganos nas câmeras de gás.)

Os depoimentos foram tirados do documento “Hemlösa Kartläggning” (Mapeamento dos Sem Teto) que é o fruto da pesquisa realizada pelo Socialstyrelsen (digamos, o ministério que controla a política de assistência social) sueco. Quem tem curiosidade de acessar o documento original é só clicar aqui – em sueco, claro.

Eu também percebi no meu trabalho que há um grande número de não suecos sem teto na Suécia. Hoje mesmo apareceram alguns me perguntando em espanhol se eu era mexicana, ou de algum lugar da América Latina. E eles contam suas histórias… que no fundo são as mesmas dos depoimentos aí de cima.

Já dizia o velho ditado: nem tudo que reluz é ouro.

Observação: eu não sou tradutora oficial e meu texto provavelmente contém erros. O que eu posso afirmar é que o texto traduzido é fiel a ideia e aos dados apresentados no original.

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O Arbetsförmedlingen e eu

Eu tenho sérios problemas com a agência de empregos sueca.

E não, não sou só eu: somos eu e todos os estrangeiros, somado a todos os suecos desempregados. Atualmente, cerca de 445 mil pessoas (ou 8,7% da população sueca) entre 15 e 74 anos está desempregada, segundo dados do SCB. Segundo “O Globo”, no Brasil a taxa está em 5,8% da população economicamente ativa.

Obviamente, no Brasil de quase 200 milhões de habitantes 5,8% significa que muito mais pessoas estão desempregadas do que os 445mil na Suécia. Mesmo assim, estamos num país de primeiro mundo que tem uma agência de empregos de merda. Se a agência de empregos sueca funcionasse como as demais instituições suecas… o desemprego aqui seria perto de zero. Mas taí o problema né, porque o A não funciona.

Eu to inscrita na agência desde que recebi meu personnummer, em algum dia do passado longíquo de abril de 2011. Desde o primeiro dia que me cadastrei o meu objetivo foi um emprego como assistente social; mesmo quando eu não falava mais do que oi e tchau em sueco, eu expliquei para eles que queria ser assistente social na Suécia. Eles me apresentaram uma série de programas e incentivos que nunca foram usados – comigo – e eu saí de lá achando que teria uma parceria. Que não existe.

É importante deixar um parêntese, apenas para clarear as coisas: eu sou desorganizada sim, em muitos aspectos, e ver uma pilha de roupa para passar ou para guardar me enche de preguiça, mas eu não tô sentada esperando que o A resolva a minha vida para mim não, eu corro atrás do que eu quero: eu trabalho mesmo que não seja o trabalho que eu sonhei. Enquanto estou lá melhoro meu sueco e o mais importante de tudo, adiciono contatos porque aqui na Suécia é super importante ter um QI (quem indica) alto e variado.

Se você quer parceria com o Arbestförmedlingen tem que sentar na porta deles: ligar lá, mandar e-mail ou encher o saco do seu handläggare diariamente. E nisso, há, nisso infelizmente eu sou uma porta. Quer fazer algo por mim?, ótimo, faça. Não quer fazer?, no problems, eu não me importo; sou maior de 18 e consigo me virar muito bem, obrigada. Agora… sério mesmo, se o seu trabalho seria me ajudar… como dizem os suecos: hallllååå? É realmente necessário que eu te lembre disso todos os dias?

Minha primeira handläggare eu vi uma vez e… nunca mais. Nem por telefone, nem por e-mail. Eu sempre recebia uma daquelas mensagens automáticas: fulana não está no escritório hoje, ela volta tal horas. Ela está de férias, volta em agosto. Ela está doente, talvez nunca mais volte. Meus e-mails ficaram no vácuo eterno. Aí trocaram meu contato lá dentro e… ela me tratava como uma débil mental, fa-lan-do co-mi-go pau-sa-da-men-te e (pausa para respirar) sem-pre per-gun-tan-do se eu es-ta-va en-ten-den-do a-pós ca-da sen-ten-ça – hänger du med, eller? Eu nunca entendi. Falar com ela era um tormento pois se eu fizesse qualquer pergunta ela começava uma explicação do tipo: no príncipio, Deus criou o céu e a terra, e viu que era bom. E falando comigo pausadamente. E perguntando se eu estava entendendo, ela explicava toda a história da criação sem nunca responder as minhas perguntas. Adivinha se eu tinha saco para perguntar mais uma vez?

Sem contar que tudo ela precisava perguntar a outra pessoa, porque ela não tinha a informação. Em janeiro decidi deixar meu emprego de 40% – aquele com o Zé, duas vezes na semana – e ficar só com meu viakariat – substituta, pra trabalhar quando há vagas. Informei isso a handläggare e ela começou a discutir comigo as minhas razões. Cara, me deu nos nervos. Me perguntou duzentas vezes porque eu não queria continuar como assistente pessoal. E o fato de eu ter um diploma de assistente social? Esqueça. Para ela, eu tinha um emprego como assistente pessoal e devia ficar feliz.

Gente, eu fui muito feliz no meu emprego de assistente pessoal. Sério. Eu ainda trabalho com isso e mesmo que existam aqueles momentos de limpar a bunda do cliente (é isso mesmo!), é um trabalho legal. Eu sempre pergunto para o pessoal que está mudando para cá e entra em contato comigo para chorar as pitangas porque é difícil arrumar emprego: você gosta de trabalhar com pessoas? Tem saco e estômago para virar quase alguém da família de outro alguém e seguir um monte de regrinhas (que a primeira vista, parecem bem bestas)? Procure um emprego como assistente pessoal (personlig assistent). Ainda mais agora, durante o verão, chovem vagas. Se você não sabe o que é, assista o filme Intouchables (em português, Os intocáveis – trailer aqui). E é sempre bom deixar claro que eu to falando isso para quem mora na Suécia e tem visto, e não para quem está procurando uma forma de mudar para cá.

A questão é que é muito difícil conseguir um emprego de 40h semanais como assistente pessoal. Você pode ter até 80% (32h por semana, mais ou menos) se você tiver sorte, mas é mais provável que você consiga 20h por semana. Nada mal para quem estuda não é? Mas eu já acabei o meu tempo de estudante. Eu até trabalhei com duas pessoas ao mesmo tempo – com o Zé e o Zezinho – com um deles eu tinha 17h por semana e o outro eu tinha cerca de 15h; sendo que eu ainda aparecia todas as vezes que me chamavam extra. Mas sério… funciona por um tempo. Como assistente pessoal você terá que abrir mão das suas noites e dos finais de semana, e como eu afirmo sempre, é ótimo: você consegue contatos (QI) suecos e melhora o sueco, mas não vai funcionar para sempre.

Depois de muito discutir com minha handläggare número 2 ela passou a bola para outra pessoa. Pá, a primeira conversa com a handläggare número 3 me deixou nas nuvens: ela respondeu, não me tratou como uma criança de 4 anos e pasmem, respondeu a todas as minhas perguntas. Me disse que a gente faria um plano para mim conseguir o meu sonhado emprego. Gente, eu fui às nuvens!

Fiquei esperando o contato dela que nunca chegou. Pra piorar, mandei um e-mail para ela com o endereço errado (mea culpa) e ela nunca recebeu. Depois de duas semanas recebo umas cartas atrasadas do A e numa delas havia um horário para entrevista, aquele tal em que a gente faria o plano para alcançar o emprego dos meus sonhos. Liguei e ela não respondeu e lá fui mandar o e-mail… e fui aí que percebi que eu havia escrito o nome dela errado e que ela nunca havia recebido minha mensagem com as informações do meu endereço novo entre outras coisas.

Pedi desculpas e tals e; ela nunca responde e-mails. E nunca está no escritório. É como a handläggare número um. E me manda cartas. Eu não entendo, de verdade, o que ela tem na cabeça. Um e-mail não custa nada e é enviado no mesmo instante. Uma carta custa o papel, a impressão, o envelope e o selo e demora um dia para chegar as minha mãos, no mínimo! É super romântico enviar cartas, eu acho, mas eu não to afim de uma relação íntima com o A. Eu quero algo mais efetivo, e talvez, só talvez, eu tenho uma vaga ideia de que e-mails são mais efetivos, mais baratos e ainda por cima, ajudam a preservar o meio ambiente!

Recebi um pacotão dela pelo correio há, o que, um mês atrás: ela imprimiu todas as vagas disponíveis para o cargo de assistente social na região (sim, todas aquelas que estão no Platsbanken, que por acaso, eu sei acessar) e me enviou. Por correio. Umas 40 páginas. É gente, tem muita vaga para assistente social aberta. Todas aquelas vagas que ela imprimiu e me mandou eu vi. Todas elas eu acessei. E todas que não exigem mais do que Socionomexamen eu já havia buscado, antes mesmo de ela me mandar os impressos. Mas foi legal da parte dela me enviar. Só não foi legal para o meio ambiente, pois no momento em que eu entendi que ela só havia impresso direto da página do A, todas as 40 e poucas folhas foram para o lixo.

Entrei em contato, expliquei que eu me viro bem com internet, que foi super atencioso da parte dela, mas desnecessário, mandar os impressos. Ela não respondeu. Enviei mais dois e-mails e no último, você recebe meus e-mails? E ela: sim, eu entro em contato. Adivinha como?

Recebi mais uma chamada para entrevista, por carta, mais uma que chegou o dia depois que eu deveria ter comparecido a entrevista. Aí recebi essa semana uma cartinha dizendo que se eu não compareço a entrevista, o A não pode me ajudar a procurar emprego. Sério mesmo? Se eu receber a cartinha no meu e-mail, ao invés do correio, antes da data da entrevista, quem sabe eu possa comparecer a ela. Agora eu tenho que mandar um relatório mensal contando cada emprego eu procurei, de que forma, se eu liguei para os empregadores e questionei o sistema de seleção, blá blá blá.

E tem mais: sabem por quê eu sentei aqui e vomitei mais de 1500 palavrinhas? Porque hoje pela manhã me liga um tal de Sr. Empregador dizendo que tinha uma empresa de assistência e que queria marcar uma entrevista comigo porque o A tinha me recomendado. Empresa de assistência? Uipiiiiiiiiii!!! E o A me recomendou!!! Inacreditável!!! Depois de tanta palhaçada não é que de vez em quando eles dão uma dentro??? Fique tão eufórica que esqueci de perguntar o nome. E o cara me dizendo que o número de brukare‘s deles tinham aumentado (brukare=pessoa com deficiência na linguagem das empresas de assistência pessoal) e eu entendi como missbrukare (pessoa com dependência química). Eu já estava preparando o meu discurso do “eu não tenho experiência com dependetes químicos mas eu aprendo rápido” quando eu finalmente entendi que ele não queria uma assistente social, que o que ele quer é uma assistente pessoal.

Murchei. Tipo, murchei muito. Eu tenho um emprego como assistente pessoal, eu não preciso de mais um. Eu tenho dois empregos como vikarie, eu não preciso de mais um. Eu quero ajuda para conseguir uma vaga como socialsekreterare, e não como personlig assistent. Eu tenho um Socionomexamen, será que é tão difícil entender?

E porque eu não mando o A as favas? Porque antes de eu completar três anos na Suécia eles podem pagar até 80% do meu salário, se eu conseguir alguém que queira me dar um emprego – integral ou não – isso pode ser atrativo e quem sabe até decisivo. Mas para ter acesso a essa “facilidade” eu preciso estar inscrita lá, mantendo um relacionamento bem bonito com minha handläggare por meio de cartas. Sério. Acho que vou mandar meus relatórios pelo correio. Mas vou imprimir nos dois lados do papel, assim ajuda um pouquinho na preservação do meio ambiente.

Se o Arbetsförmedlingen não fosse uma instituição de merda, o desemprego na Suécia seria zero.

Socialkärring

Acordei de mau humor, dormi mal por causa de um torcicolo e tenho uma pilha imensa de roupas para passar. Roupa para passar, definitivamente, ninguém merece. Decidi empurrar com a barriga e aqui estou, a reclamar no blog.

Tenho trabalhado entre uma e duas noites por semana no meu emprego de behandlingassistent – que até agora eu não descobri ao certo como se escreve, já vi tudo junto e separado – e estou satisfeita por ter peitado o negócio e continuado. A cada dia trabalhado vou adicionando mais elementos a imagem a respeito do trabalho social na Suécia, em específico a questão de moradia. Eu digo imagem porque, como sou vikarie (substituta) eu sinto que muitas vezes sou deixada de lado no que se refere à informação. Algumas pessoas do grupo são muito ressabiadas e parecem ter se queimado com relação aos substitutos (estou sendo boazinha com eles agora) principalmente no que se refere a questão do sigilo – e vai lá saber que tipo de formação recebe uma assistente social no Brasil? Se eles soubessem que o Serviço Social brasileiro é regulamentado – ao contrário do SS sueco – e que eu posso perder o meu direito de exercer a profissão se der com a língua nos dentes…

Essa semana, assim como quem não quer nada, dei um cutucão no pessoal. Comentei que achava estranho que uma profissão do nível de responsabilidade do Serviço Social, na Suécia, não fosse regulamentada pois até no Brasil – imagine o Brasil, aquele país da “latinamerika“, em desenvolvimento – é. E faz tempo! É certo que precisamos de um sindicato no Brasil, mas no que se refere a fiscalização do exercício profissional estamos relativamente bem – se pensarmos a nível do tamanho do Brasil. Sempre achei um absurdo a taxa que pagávamos anualmente (ainda recebo os boletos, apesar dos inúmeros e-mails que mandei pedindo o cancelamento), mas o pessoal do Núcleo Regional de Serviço Social da minha região promovia até encontros mensais para debater questões relacionadas a profissão.

Fugi do assunto. Em todo o caso, vou ouvindo umas palavras ali e umas histórias aqui e vou formando a minha ideia a respeito do trabalho social em Göteborg, como já disse, no que se refere ao atendimento de pessoas/famílias permanente ou provisoriamente sem teto. E aqui poucas pessoas admiram ou curtem uma assistente social – tanto, que nós, ou melhor, elas recebem um apelido carinhoso: socialkärring. Bem, social todo mundo entende não? E kärring é nada menos do que um palavrão (no pejorativo; cadela ou velha chata, velha bruxa).

Pelo que entendi nas literaturas que andei pesquisando, o Serviço Social europeu passou por uma fase em que foram registrados muitos casos de abuso de poder profissional, principalmente no atendimento a crianças e adolescentes mas não raro também em outras áreas.  Se a gente espremer um pouco o cérebro vai lembrar de filmes em que a assistente social é a vilã da história, é ela que vem e separa a criança dos pais (biológicos ou não) fazendo com que eles tenham que lutar na justiça pelo direito de permanecer com os pequenos. Nesses filmes, a criança sempre vai parar num orfanato ou com pais adotivos esquisitos que fazem ela sofrer bem a estilo Cinderala mas a assistente social não entende isso, não vê ou às vezes é corrupta e quer a criança lá sofrendo, e não no ambiente em que ela tem a chance de ser feliz… drama! O duro é que aconteceu de verdade. Por causa dessas e de decisões pouco convencionais baseadas no “eu sou o profissional aqui e sei o que estou fazendo” onde assistentes sociais trataram de pessoas que não conseguiram levar a vida como o esperado como completos retardados – “você não sabe o que é bom para você/você escolheu até agora e veja no que deu/eu vou tomar as rédeas da situação”; o profissional é visto com certa desconfiança e tem uma fama bastante vulgar.

Já no Brasil, como o Serviço Social demorou mais tempo a se firmar com profissão e como a gente nunca chegou a provar uma política de assistência social mais consistente, permanente e séria antes de… agora (praticamente); a assistente social sempre foi vista como aquela moça boazinha que ajudava as pessoas e dava cesta básica.

É certo que essa é a primeira imagem que os professores tratam de desmanchar quando botamos os pés na universidade. Assistente social não é uma moça boazinha, assistente social é uma profissional que vai fazer valer leis e trabalhar com ética; e isso nem sempre significa “dar” o que as pessoas querem. Apesar das assistentes sociais suecas não contarem com a popularidades que nós, brasileiras, conta(va)mos; eu entendo que é exatamente aí – quando o querer do usuário bate de frente com o meu poder como profissional – que começa a confusão…

Eu acredito que deva ser imensamente difícil para algumas pessoas se dirigirem até um CRAS (no Brasil) ou socialkontor (na Suécia) para declarar a um completo desconhecido que “falharam” economicamente e precisam de ajuda.  Ao menos a primeira vez. E ainda mais numa sociedade como a nossa em que tudo gira ao redor do “ter”, ou seja, se você não pode “ter” as coisas da moda já é difícil (o que? você não tem um iphone? o carro do ano? uma TV 42′?) ; imagine então não “ter” nem o mínimo do mínimo para sobreviver. Isso te faz, seguramente, um fracassado. Agora imagine a dificuldade de assumir isso. E no Brasil, em muitos casos, você não recebe ajuda se “tem” um pouquinho: os recursos são escassos e você só será contemplado se não “tem nada”. É fácil ficar com raiva da assistente social e dizer que “ela” não quer ajudar.

Não tenho certeza absoluta que aconteça o mesmo por aqui e na verdade chuto que os critérios sejam muito diferentes, mas a atuação profissional é seguramente delimitada por questões financeiras – seja na quantidade de recursos destinados à área como expectativa do mercado. Por exemplo: a relação entre oferta e a procura por apartamentos em Göteborg é caótica, há muito mais gente procurando do que lugares disponíveis para morar e o valor do seu salário mensal é um elemento que faz diferença na lógica de “quem tem direito primeiro a esse apartamento”. Obviamente, você está praticamente fora ou o grau de dificuldade só aumenta se você é uma pessoa com problemas financeiros e que precisa de “ajuda do social” para viver. Há casos em que a própria kommuna paga o aluguel para as pessoas com sérios problemas econômicos, mas aí esbarramos no outro limite: a kommuna não disponibiliza recursos suficientes para pagar o aluguel de “todo mundo”. E não é o administrador da kommuna que tem de dizer isso a população sem teto… Infelizmente, nem sempre o assistente social pode ajudar e aí, bom, aí ele passa de socialsekreterare para socialkärring em um piscar de olhos.

Já acontece no Brasil, mas aí somos chamadas de bruxas. Aquela bruxa lá fica com o dinheiro do Bolsa Família todinho para ela! (OmG! Até as assistentes sociais vivem encostadas no governo…). Eu vi o monte de cestas básicas que ela esconde! (Essa é velha). O prefeito me prometeu mas daí aquela bruxa do CRAS disse que não! Hahaha, essa é minha favorita, eu gostaria que fosse sempre assim. Feliz ou infelizmente isso é um bom sinal (ao menos na maioria dos casos): nem sempre somos bem vistas quando fazemos o que devemos fazer e na terra dos jeitinhos seguir as leis é bem complicadinho. Rimou! Queria saber como rola a coisa por aqui…

Enfim, essa semana foi dia da Assistente Social no Brasil (em 15 de maio) e eu gostaria de dar os parabéns a todas as colegas “bruxas” brasileiras que fazem o seu melhor, lutando contra os contra tempos e se dedicando com ética; e que por mais que o povo desacredite às vezes e seja duro, são, lá no fundo, um bando de moças boazinhas querendo ajudar – hahahaha!

Parabéns pelo dia do Assistente Social!

Indiana Joel e Maria Jones em busca do poço perdido

Tantanratammmm! Tantarammm! Tantanrantamm! Tantanrantantam!

Tantanratammmm! Tantarammm! Tantanrantammm-tarantammm-tarantammm- tarantam!

Ok, isso era para ser aquele clássico de John Williams que ficou extremamente famoso como tema do sucesso do cinema Indiana Jones. Quem não lembra da trilha sonora precisa por o vídeo do You Tube abaixo para rodar antes de ler o post. Quem lembra pode cantar usando a letra (super fiel) que eu deixei acima. =)

Lembram que semana passada eu falei sobre os problemas de fungos/mofo que acometem as casa suecas? Muito obrigada a todos os que me mandaram um alô desejando sorte no combate aos fungos, mas graças a Deus esse não é o caso – ou melhor, ainda não. O fato é que como citei naquele post, algumas medidas de prevenção tem que ser tomadas caso alguma fonte de umidade seja detectada, e foi assim que começou a nossa aventura.

Nossa casinha foi construída na década de 70 e na época o plano era construir uma casa de dois pisos. O projeto inicial não foi aprovado e por isso o pessoal encontrou um jeitinho para o problema: construir uma casa com um porão (källare). No terreno há uma grande rocha meio arredondada que foi explodida e trabalhada de modo a formar uma espécie de “caixa” para a casa. Olhando de frente a casa parece ter um piso só, olhando de trás e de lado dá para ver que são dois. A “terra” que circunda a casa é na verdade uma grande rocha.

casinha

Naquela época ainda não era possível acoplar o sistema de abastecimento de água da casa ao sistema de abastecimento de água da kommuna (município). Assim sendo, foi feito um poço (artesiano) e foi instalada uma bomba d’água dentro da casa, no porão.

O tempo passou, o porão foi aos poucos se transformando em um pedaço da moradia e a bomba foi ficando velha. Em março descobriram um vazamento na bomba e isso significa problemas: água=muita umidade e muita umidade pode ser igual a fungos. Teríamos que trocar a bomba d’água, e isso era para ontem.

Contactamos o encanador (cano em sueco é rör [ett rör], e encanador rörmokare) que disse que precisávamos achar o poço (brunn – en brunn) para verificar o sistema de encanamento da casa e instalar uma espécie de bomba d’água mais moderna que fica dentro do poço. Sinceramente, eu sei lá se isso é impressão minha mas acho que no Brasil já se sabia (há 40 anos atrás) que as bombas d’água funcionam melhor dentro do poço. E isso que nem temos problemas com mofo por lá (depois o Brasil que é subdesenvolvido).

Em todo o caso, nada disso seria algum problema se alguém soubesse onde o poço estava… pois o poço em questão estava enterrado, sem nenhum tipo de marcação. Não encontramos nenhuma nota fiscal da empresa que fez o poço e nem um mapa que pudesse indicar onde o poço estava. O ex dono da casa disse que achava que o poço estava em uma das esquinas da casa, próximo a janela da cozinha. Sabíamos – com certeza – apenas que a bomba está (dentro da casa) a uma profundidade de 180 cm abaixo da terra (se pensarmos no lado de fora) e que poderíamos cavar para seguir os canos para descobrir onde o poço estava. Conversamos com alguns vizinhos, nenhum deles sabia dizer onde o poço estava, apenas que normalmente o poço ficava a uns quatro metros de distância da casa. Fazer buracos de 1,8m de profundidade até os canos e depois continuar seguindo por possivelmente quatros metros… nada mal.

Fomos eu e Joel fazer uns buracos no quintal para tentar achar os canos e encontramos… pedras. Muitas pedras. Muitas pedras grandes. Provavelmente foram resultado da explosão da rocha que o pessoal não soube o que fazer e que alguém teve a ideia de jerico de colocar ao redor da casa – assim como quem perfurou o poço e instalou o encanamento teve a ideia de jerico de esconder o poço. Tudo bem, a ideia de seguir os canos não parece viável, afinal.

Alugamos um detector de metal, acreditando que o poço provavelmente teria uma tampa de metal e… nada. O treco “bipou” como louco o quintal inteiro, menos no local em que o ex dono da casa disse que provavelmente encontraríamos o poço. Enquanto isso, a bomba continuava vazando água dentro da casa e era só uma questão de tempo para o problema se tornar um problemão.

Well, grandes problemas exigem grandes intervenções. Alugamos um brinquedinho para acabar com a palhaçada.

Alguém aí acha que o Joel se divertiu?

Alguém aí acha que o Joel se divertiu?

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Só para dar um close no tamanhinho das pedras.

E, voilá! Eis que encontramos o poço!

Que tampa de metal que nada... a mais ou menos um metro embaixo da terra

Que tampa de metal que nada… a mais ou menos um metro embaixo da terra

O rörmokare vem na quarta instalar a bomba nova. Encontramos o poço perdido e estamos livres da ameaça terrível dos fungos! Eeeeee! É certo que também destruímos o quintal, mas tudo porque além de usarmos a máquina para encontrar o poço começamos o trabalho de drenagem. Mas essa já é outra história.

Uma coisa eu tenho certeza: colocarei uma placa bem grande (brunnen ligger här) para que ninguém, no futuro, xingue as pessoas que trabalharam com esse poço como eu xinguei nesse mês de abril e maio. Se o que dizem é verdade – que quando alguém fala mal de nós ficamos de orelhas quentes – algum idoso por aí ficou com as orelhas queimando!

Para finalizar, deixo vocês com um poema:

No meio do caminho

No meio do jardim tinha um poço
tinha um poço no meio do jardim 
tinha um poço
no meio do jardim tinha um poço. 

Nunca me esquecerei desse acontecimento 
na vida de minhas retinas tão fatigadas. 
Nunca me esquecerei que no meio do jardim 
tinha um poço 
tinha um poço no meio do caminho 
no meio do caminho tinha um poço

(Paródia do poema “No meio do Caminho” de Carlos Drummond de Andrade).

Liebster! Olha eu aqui outra vez…

Pela segunda vez eu recebi o Prêmio Liebster Award (destinado a blogs com menos de 200 seguidores) e mais uma vez recebi a indicação da Boneca de Neve Joana. Na verdade recebi o prêmio em março, mas deu para perceber que março e abril foi um período de vacas magras para esse blog então, como estou respondendo com dois meses de atraso vou direto ao assunto:

11 coisas sobre mim…

♦ Posso tomar um porre de vinho e não ter nem um pingo de dor de cabeça o dia depois.

♦ Falando nisso, certa vez tomei tanto chopp que passei um dia sem voz. E sete dias de atestado médico com a pior dor de garganta que já tive em minha vida…

♦ Não sei dançar sozinha, preciso de um par.

♦ Música eletrônica me dá ganas de sair correndo mas eu adoro ouvir rock para fazer faxina.

♦ Tenho medo de morrer afogada.

♦ Spagetti me faz feliz. Com molho de tomate e pesto me faz muito feliz. Já a versão “allioli” me faz felicíssima. Na verdade, apenas pensar em spagetti me faz feliz.

♦ Não acredito no amor romântico – apesar de ser uma romântica incurável.

♦ Deixo as unhas crescerem apenas porque é mais prazeroso roê-las quando estão  compridas.

♦ Adoraria dar uma volta em um balão de ar quente.

♦ Amo dirigir.

♦ Transpiro muito nas mãos e nos pés. No inverno também. E no inverno sueco também.

Na verdade, eu fiquei meio em dúvida se deveria fazer essa lista mas como eu demorei tanto tempo para responder pensei em deixa-la como um plus. Isso posto, a Joana me enviou um questionário:

1. Qual é sua canção preferida?

The Story – Brandi Carlile.

2. Um sonho por realizar?

Justo agora um emprego em tempo integral. E se eu não precisasse trabalhar a noite ou finais de semana então…

3. Você é optimista ou pessimista?

Pessimista, mas engano bem. Pra dar uma dourada na coisa eu diria que eu sou realista, não gosto de colocar expectativas demais nas coisas e entendo isso como um tipo leve de pessimismo. Ademais, eu acho que nada acontece por acaso, dificilmente você vai ganhar alguma coisa do nada, é necessário trabalhar – de alguma forma – para que aquilo que você deseja se torne real. Se eu faço algo bem feito terei confiança de que terei um retorno, mais cedo ou mais tarde. Não sou daquelas que acredita que tudo vai dar certo apesar dos apesares. Acredito que dificilmente as coisas simplesmente vão sair bem se você não se esforça por isso.

4. A viagem de sonho…

Uma viagem para a América Central. Ou Santiago de Compostela. Ou à África.

5. Que qualidades você valoriza mais nas outras pessoas?

Sinceridade, empatia, amizade, força de vontade e capacidade de reconhecer seus próprios erros.

6. Que qualidade você aprecia mais em si mesma?

Paciência – hahahaha! Brincadeira. Ser amigável.

7. Café ou chá?

Chá. Infelizmente quando mudei para a Suécia descobri que passei a vida tomando “chafé” e que meu estômago não aguenta café de verdade.

8. Uma memória de infância.

Meus pais sempre cantavam quando não havia luz. Às vezes (sempre) quando  chovia muito ficávamos sem luz por algum tempo (a noite inteira) e então era a hora de acender velas e todo mundo ficar reunido na sala esperando a “luz voltar”. A gente tinha uma espécie de hinário que continha canções populares no fim, meu pai gostava de canções sertanejas (as verdadeiras) como o “Menino da Porteira” e minha mãe cantava “La verginella”, entre outras. A gente ficava esperando “a luz voltar” enquanto cantava essas e outras canções. A gente também ouvia as canções italianas na casa do nonno depois que o pessoal tinha exagerado no vinho…

9. Em que altura do dia você é mais produtiva?

Depende da motivação, mas a noite é definitivamente difícil. Pensando bem, as manhãs durante o inverno são extremamente difíceis. Mas eu já mudei o foco da questão e estou respondendo quando não sou produtiva. No Brasil sempre foram as manhãs, na Suécia sou mais produtiva nas tardes.

10. Você ganhou 1000000 coroas. O que você compraria com esse dinheiro?

O Volvo que alugamos agora… hahahaha. Brincadeira. Não compraria nada, tenho um certo problema de angústia no que se refere a compras: com exceção de comida, todo o outro tipo de “shopping” me deixa deprimida. Se eu ganhasse um milhão de coroas faria uma longa viagem (com Joel) usando cem mil coroas e dividiria o restante em partes iguais para os meus três irmãos.

11. Ídolo da adolescência.

…difícil. Eu não sou muito ligada em artistas e agora estou espremendo meu cérebro mas não lembro nenhum assim de cara. Sempre fui muito ligada em heróis misteriosos e mascarados – ou não mascarados – de livros.

Isso foi um pouquinho de mim. Agora, para desespero de alguns e felicidade de outros, passo o prêmio adiante… Gente, como a própria Joana comentou, sei lá se vocês gostam dessas brincadeiras, se sim é só responder. Se não é só ignorar. Ou me mandar um alô dizendo que não quer nem saber disso.

Os vencedores de hoje são:

liebster2

Brunainglaterra

Carioca da Clara Suecando

Diário de uma teimosa

Enfim Suécia

Memórias de Mim Mesma

Moda Escandinava

Mulher de Fases

Pacamanca

Sonhos Escandinavos

Uma aventura no gelo

Uma brasileira na Croácia

O prêmio é para blogs com menos de 200 seguidores e eu não descobri quantos seguidores tem Pacamanca e Brunainglaterra mas… vou chutando. Quem tiver interesse de participar da brincadeira não precisa responder as rapidinhas (11 coisas a respeito de mim) e nem copiar as perguntas que a Joana me passou; basta fazer uma lista com 11 das coisas que te tiram definitivamente do sério, ou melhor: 11 coisas que me fazem contar até cem… 

A Joana do Boneca de Neve também está convidada a responder o desafio!

Villa, Volvo, Vuvve

Há um ditado sueco que diz que você se torna oficialmente adulto (vuxen) quando consegue ter os três v’s: morar numa villa, ter um Volvo e um cachorro (vuvve). Coincidentemente ou não, vuxen também começa com v.

Uma villa sueca não é o mesmo que uma vila no Brasil e sim uma casa. A bem da verdade eu não tenho certeza se a villa deve ser um tipo específico de casa, sei apenas que um bairro onde há casas e não prédios de apartamentos é conhecido como villa området; uma casa é en villa (não confundir com o verbo descansaratt vila); ou muitas casas, flera villor. Em todo o caso, eu moro numa villa området em uma pequena villa.

Morar em uma casa nos abriu uma série de oportunidades que eu não havia imaginado. Desde quarta-feira, por exemplo, estamos com o cachorro dos pais do Joel, a Zemta – essa cadela muito simpática que está comigo um tempão na foto do meu profile do blog . Eles foram viajar e não teriam ninguém que pudesse cuidar da vuvve, e nós aproveitamos o fato para dar uma treinada (ando azucrinando o Joel com a ideia de adotar um animal de estimação). É uma coisa maravilhosa! Um cachorro muda todo o astral de uma casa. Já fui dar belas caminhadas com a Zemta, apesar da chuva da quarta e quinta-feira o fato de termos que sair com ela já nos rendeu a descoberta de mais um lago próximo de casa, apenas quinze minutos de distância. Além do quê é imensamente efetivo ter um vuvve para combater o sedentarismo, e essa pessoa que vos escreve aqui tem chumbo na bunda e um imã em sofás, cadeiras e, acima de tudo, na cama.

Então essa semana algumas coisas engraçadas aconteceram… Nosso carro foi riscado (há algum tempo) e o Joel resolveu aproveitar a cobertura do seguro e reparar a obra de arte do sem noção que passou uma chave ou qualquer coisa em quase toda a lateral esquerda. Como o risco cobria as duas portas o reparo demoraria uma semana para ficar pronto mas, nada de pânico, pois a cobertura do  seguro nos dava a possibilidade de alugar um carro por um preço simbólico por dia. O Joel reservou a opção mais barata um veículo do mesmo porte mas quando foi retirar, surpresa! Nenhuma outra opção estava disponível a não ser um Volvo. Como o pessoal da locadora de veículos não tinha a disposição o carro que o Joel havia solicitado ficamos com o Volvo (claro que pagando pelo valor estipulado na reserva) – e eu fiquei muito feliz. Sei lá porque brasileiro é bobo assim com carro, mas o Volvo que nos “emprestaram” ainda cheira a novo…

Pegaram o lance? Somos um casal oficialmente adulto – na definição sueca. Ao menos por uns dias…

A villa e o Volvo!

A villa e o Volvo!

Zemta. Ela é tímida e não gosta de tirar fotografias... é só ter a máquina fotográfica na mão que ela se esconde...

Zemta. Ela é tímida e não gosta de tirar fotografias… é só ter a máquina fotográfica na mão que ela se esconde…

A "dona da villa" e o vuvve.

A “dona da villa” e o vuvve.

Numa pose melhor em outros carnavais...

Numa pose melhor em outros carnavais…

Como validar o diploma

Eu validei o meu diploma o ano passado e depois de dividir essa experiência aqui no blog muitas pessoas me perguntam o que é necessário fazer para validar o diploma – universitário ou do ensino médio – na Suécia. Eu vivi uma história meio confusa e acreditei que só o histórico universitário bastava para o ingresso na universidade mas infelizmente não é bem assim.

E atenção: para validar seu diploma na Suécia é necessário portar um número social, ou seja, esse é um post com dicas para quem tem seu visto de residência e personnummer ou para aquelas que já sabem com certeza que terão – gente que estará mudando para cá com visto de residência por laço familiar (marido, namorado) ou visto de trabalho. Isso não é aplicável para quem está pensando em fazer mestrado na Suécia e quer mudar para o país por meio de visto de estudante.

Eu tive azar (um pouco de cabeça dura também) e vivi uma série de mal entendidos. Primeiro que ouve uma falha de comunicação entre o Vuxenutbildning e eu logo que me mudei para cá. Eu não sei se acontece com todo mundo mas durante a minha primeira visita na Vux eu fui falar com um studievägledare – um profissional qualificado que, em tese, sabe tudo sobre o sistema educacional sueco e que te ajuda a encontrar os melhores caminhos para você chegar lá e durante a conversa fui orientada a procurar pela validação do meu diploma universitário por meio da Högskolverket. Segundo o cara que me atendeu lá atrás isso seria tudo que eu precisaria para entrar na universidade mais conhecimento de sueco a nível de ensino médio (o SAS)- caso fosse necessária alguma complementação do meu curso universitário. Com base naquela conversa eu terminei o SFI* primeiro e só depois é que mandei minha papelada para o Högskolverket.

Nada mal, apenas que há um detalhe: para cada curso universitário existe uma exigência, mas a mais comum é que, além de sueco, você possa provar que tem conhecimentos em matemática, inglês e estudos sociais correspondentes ao nível do ensino médio sueco ou seja, suficientes para ser admitido na universidade. É claro que essa não é uma máxima, você pode conseguir o ingresso também por meio de uma prova – mais ou menos como vestibular onde caem exatamente conhecimentos de sueco, inglês, matemática e estudos sociais – mas o caminho mais curto é realmente a validação do diploma e histórico do segundo grau/ensino médio também (ou ficha 19, como a Rafa me ensinou ontem). O certo é que não sei se qualquer um pode fazer essa prova, enfim, esqueçam a história da prova porque eu apenas sei que ela existe.

Daí que eu marquei bobeira e nunca havia caído a ficha de que eu precisaria do meu histórico escolar do ensino médio mas eu preciso sim e acabei de enviar para a tradução (foi no mês passado, na verdade). E agora quando as pessoas me perguntam se devem trazer o histórico escolar do ensino médio e eu digo sim, traga (não antes, antes eu acreditava piamente que o histórico universitário bastava). Traga o histórico escolar do ensino médio, traduzido ou não, mas traga um original ou segunda via e busque a validação tão logo você colocar o pé no SFI. Se você não tem tempo ou não tem um tradutor juramentado a mão aí na sua cidade traga para a Suécia assim mesmo, aqui você escaneia e manda para o tradutor por e-mail, ele te manda um orçamento, se você concorda com o orçamento é só manda uma resposta dizendo pra ele por a mão na massa juntamente com seu endereço e em alguns dias você recebe por correio a papelada traduzida e o boleto bancário da cobrança. Simples assim, e serve tanto para histórico escolar como universitário (no caso de universidade, é bom se você traduz o diploma também). Aqui nesse link você encontra o endereço de e-mail de todos os quatro tradutores juramentados português-sueco da Suécia, pode entrar em contato e fazer uma pesquisa de preço. Eu traduzi meus docs com essa moça chamada Kerstin Walin.

Eu acho importante mandar o histórico do segundo grau para validação já quando você começa o SFI porque após o SFI você inicia na educação de adultos conhecida como Komvux e é lá que você estuda o SAS, matemática, inglês e estudos sociais; assim como outros cursos. Para o curso em que eu me inscrevi é necessário diploma em Serviço Social, SAS 2 (tem gente que me disse que agora a exigência já é o SAS 3 mas quando me inscrevi para o mestrado ainda era o SAS 2), Engelska A, Matte B e Samhälle kunskap A (toda essa nomenclatura já mudou, mas era isso que estava escrito na página de inscrição). Quando eu cursei o SAS (atualmente existem o SAS Grund, 1, 2 e 3) o curso era de 2h por semana (normalmente é isso mas você pode estudar a distância ou optar por outros pacotes em que o negócio é mais curto, tipo integral por 5 semanas) e eu tinha o resto da semana “de varde”. Eu fico super P da vida quando penso nisso pois não tenho a mínima ideia se o meu diploma de ensino médio será validado ou se eu deveria ter estudado matemática, inglês e estudos sociais (Samhälle kuskap) enquanto eu estudava o SAS – porque não? Quando eu tinha tempo de sobra?

Existem duas formas de validar o diploma do ensino médio, assim com eu fiz, que é inscrever-se para uma graduação (no meu caso foi mestrado) e enviar junto com essa inscrição cópia do histórico escolar do ensino médio – tanto original como traduzido – para o Antagning portal por meio do qual você se candidata a vagas na universidade. Esse é um meio arriscado pois se a sua formação não é suficiente você “perde tempo” e tem que correr atrás do prejuízo os próximos 6 meses, 1 ano. A opção mais segura, no entanto, é entrar nessa página aqui (em sueco) e enviar eletronicamente a sua papelada para o Universitets- och högskolerådet por meio desse formulário aqui – em sueco também. Os documentos necessários são os mesmos**: cópias do histórico escolar e diploma de ensino médio (original e traduzidos) mas também um personbevis – que você baixa pela página do Skattverket. O site informa que o tempo de espera é de cerca de 6 meses, mas dizem as más línguas que quando você busca a validação por meio do Antagning você recebe a resposta mais rápido e que por isso, alguns estrangeiros fazem de conta que querem um curso universitário só para terem o diploma do ensino médio avaliado em menos tempo.

No caso de diploma universitário o responsável pela validação deixou de ser a Högskolverket e passou a ser a Universitets- och högskolerådet, mas as regras continuam as mesmas: algumas profissões são regulamentadas na Suécia e para essas não tem choro nem vela, o diploma estrangeiro tem que ser aceito pela associação da categoria; em caso de profissões não regulamentadas basta enviar a papelada para a instituição acima; professores, apesar de não contarem dentro da categoria de profissões regulamentadas tem um tratamento especial e devem buscar a legitimação (também) na Skolverket. Você pode entender aonde mais ou menos você se encontra por meio dessa página do Arbetsförmedlingen (ache a sua profissão nessa salada e veja o que é necessário para que você possa dizer que essa é a sua profissão ou pergunte ao seu handläggare no A).

A lista das profissões regulamentadas você encontra aqui, assim como ao lado é indicada a organização/associação que você deve contactar para iniciar o processo de validação. Para as profissões não regulamentadas e profissionais da área da educação é só acessar esse formulário PDF, baixar, imprimir e preencher (ou vice e versa); juntar mais cópias do original e tradução do diploma e histórico universitário e enviar para o endereço que aparece no canto superior direito desse formulário.

Agora chega que eu quero aproveitar o sol lindo que está lá fora! É primavera hoje gente!

Ps.: Arrumei o link que não estava funcionando para a lista das profissões regulamentadas. Vale lembrar que caso você não queira estudar na Suécia você pode tentar a validação e procurar um emprego direto; porém nem todos os cursos são aprovados em 100%, você pode ter um percentual do curso aprovado e ter que complementar estudando matérias específicas na universidade. Mas se você tem intenção de trabalhar na área de vendas, por exemplo, uma dica é encher o saco do pessoal do Arbetsförmedlingen e entrar direto no Yrkes Svenska – tipo, ao mesmo tempo em que você estuda o SFI. Se sua educação superior é aprovada em 100% o negócio é correr atrás de emprego ou uma pratik (estágio)!

Nada impede que você busque a validação do histórico escolar do ensino médio ao mesmo tempo em que você busca a validação do diploma e histórico escolar universitário. Se você pode começar a trabalhar de uma vez e não tem tesão de estudar não precisa ficar quebrando a cuca com o SAS e disciplinas repetidas do segundo grau.

Por fim, a tradução dos seus documentos pode ser em inglês ou em sueco. Para o caso de pessoas que tem documentos em espanhol não é necessária a tradução (assim como no caso de norueguês, inglês, alemão e francês – eu acho que dinamarquês também entra na roda, está escrito em algum lugar lá na página que explica o que é necessário para o bedömning [avaliação]). O que sei é que no Brasil não é muito comum existirem tradutores juramentados em todo o canto; eu lembro de que quando traduzi o meu certidão de nascimento fiz em Foz do Iguaçu (cerca de 170km de onde eu morava) e o cara cobrava R$ 50 a mais se fosse para mandar por Correio. A minha sorte é que eu fui para um curso em Foz então não precisei fazer viagem nenhuma, só pedi que a tradução estivesse pronta até o dia tal (mas mandei a papelada com antecedência), ao contrário seria cerca de R$ 35 para pegar a papelada. E praticamente um dia de viagem.

E mais uma coisa (agora é a última mesmo): tem gente que fica fazendo terrorismo dizendo que tem que cadastrar toda a documentação na embaixada antes de embarcar para a Suécia e para mim isso é lorota, só um boato para fazer dinheiro. Não precisa ficar no stress no Brasil procurando chifre em cabeça de cavalo e indo a loucura porque não vai dar tempo de traduzir documentação, o tradutor mora no caixa prego e a embaixada só em Brasília! Será que nos consulados eles fazem o cadastro da documentação? (uma espécie de selo ou sei lá o que que seriam a única garantia de que seus papéis são verdadeiros). Na Suécia não tem dessas frescuras, você não precisa ir para cartório autenticar papéis ou reconhecer firma, qualquer pessoa*** pode assinar o seu “xerox” declarando que ele é igual ao original e ponto. Por isso que eu disse que quem quiser ou por algum motivo não pode traduzir tudo no Brasil não precisa se descabelar. Traga a documentação e depois aqui tudo vai se ajeitando.

*****

Um apanhado geral rápido e rasteiro:

– Para esse processo de validação é necessário personnummer (ou seja, visto de residência aprovado);

– Histórico escolar (do ensino médio ou universitário) traduzido por um tradutor juramentado para o inglês ou sueco;

– Diploma universitário traduzido por um tradutor juramentado para o inglês ou sueco;

– Cópias autenticas dos originais (em português e em inglês ou sueco);

– Formulários que você baixa nos links que deixei acima****;

– Enviar tudo pelo correio.

______________

* O SFI não é suficiente para entrar na universidade.

** Outros documentos podem ser solicitados e ao final da página existe o endereço para o qual você envia, no caso.

*** As cópias tem que ser autenticadas, mas se fizer o “xerox” na biblioteca – por exemplo – é só apresentar o documento original e pedir a atendente para autenticar (vidimera – kan du vidimera de?).

**** O formulário correspondente ao que você quer. Vai validar o diploma universitário, baixe apenas esse formulário. Vai validar o histórico escolar do ensino médio, baixe apenas o outro formulário. Não envie ambas as coisas para o mesmo local, as validações são tratadas por instituições diferentes.