Riskutbildning

Riskutbildning é o nome dos cursos obrigatórios que você tem de frequentar antes de fazer a prova teórica e prática para tirar carteira de habilitação sueca. Eu falei um pouco de como é que o processo funciona (e quanto custa) no post dirigir na Suécia. Mas vamos de um resuminho: pra quem já sabe dirigir ou quer regularizar sua carteira na Suécia há alguns passos obrigatórios, sendo eles a solicitação do körkortstillstånde, a participação nos cursos sobre riskutbildning 1 e 2, aprovação na prova teórica, e finalmente, a aprovação na prova prática.

Eu solicitei o meu körkorttillstånde (permissão para a carteira de habilitação) no fim de março com o intuito de ter a carteira de habilitação em mãos no mais tardar em maio. Haha. Enrolada como sou, participei do riskutibildning 1 e depois… aff! Mudamos, eu comecei a trabalhar a noite, e eu não conseguia arrumar o livro para ler a teoria… desculpas e mais desculpas, acabei fazendo o risk tvån ou halkbanan somente hoje.

O riskutbildning 1 (que pode ser traduzido de forma livre como “curso de direção defensiva”ou risk= risco, utbildning= educação, curso) é principalmente sobre a importância de ser um motorista consciente. Na Suécia a educação no trânsito é bastante dura contra os motoristas e as pessoas aprendem desde crianças que ter um carro não significa ser o dono da rua e que normas de trânsito devem ser respeitadas. Na Suécia não há estradas onde a velocidade dos carros é livre, como na Alemanha. As maiores rodovias suecas tem velocidade controlada, e a máxima permitida é 120km.

(Volvo e SAAB – indústrias de carros originalmente suecas – são conhecidas como as marcas de carros mais seguras do mundo. Além disso, o cinto de segurança de três pontas foi desenvolvido aqui).

No risk 1 ouvi muito a respeito de como evitar situações de risco ao volante, sendo que é bastante frisada a importância de realizar manutenção constante no veículo, a importância de respeitar a velocidade máxima permitida em cada local, a importância de dirigir sóbrio e descansado, entre outras. Eu lembro de que quando fiz o curso teórico para minha habilitação no Brasil falamos um pouco sobre direção defensiva. Mas no Brasil ainda impera aquela cultura de que “os outros nunca sabem dirigir, só eu é que sei” – totalmente o inverso da cultura pregada aqui na Suécia. Durante o curso do risk 1 a instrutora de trânsito repetiu insistentemente que o melhor motorista é aquele que reconhece que não sabe dirigir e por isso mantêm-se constantemente alerta ao veículo, ao que acontece ao ser redor e as leis de trânsito.

Algumas curiosidades (dados estatísticos aquiaqui):

–  na Suécia o próprio governo verifica os carros dos cidadãos a cada dois anos. Se seu carro tem problemas você é proibido de usá-lo até que o mesmo seja reparado e passe por novo controle. Esse controle é chamado de bilbesiktning;

– 0,0002% é a quantidade máxima de álcool no sangue permitida para que o motorista não perca a carteira e receba uma multa enorme. Em sueco, diz-se 0.2 promille. Um promille é igual a uma milésima parte. Pelo que vi no Brasil há uma lei em andamento (ou a lei já foi aprovada?) para que seja exigido do motorista 0% de álcool no sangue. Seria bom pois a legislação de trânsito atual (?) permite 6 decigramas – o que seriam 0.6 promille.

– se os suecos saem de carro para festar normalmente rola um sorteio a respeito de quem é que vai ficar sem beber. Ainda assim, muitos acidentes acontecem por causa do álcool e o fim de semana mais perigoso do ano no quesito álcool+direção é o feriado do midsommar.

– um terço dos motoristas que são pegos bêbados ao volante tem entre 18 e 24 anos; 30% das mortes provocadas por acidentes de trânsito envolvem um motorista alcoolizado e estima-se que, na Suécia, cerca de 525 pessoas dirijam bêbadas por hora.

– em 2012, 286 pessoas morreram em acidentes de trânsito na Suécia – isso mesmo: duzentos e oitenta e seis – e 2976 pessoas sofreram ferimentos graves. A Suécia tem 9 milhões de habitantes, lembram?

Enfim, acho que uma das coisas que ajudam o motorista sueco a ser mais consciente é o curso que participei hoje, também conhecido como halkbana – pista de escorregar. Adivinhem? É muito legal! Apesar de ter carteira desde os meus 20 anos (Jesus, eu tenho carteira há quase 10 anos!) eu nunca tive a oportunidade de aprender, na prática, o que acontece com um carro se frearmos de soco ou se encontramos uma pista molhada. Também não gostaria de ter passado por uma experiência dessas, afinal, se não passamos por isso em condições controladas deve ser traumático.

Na auto escola recebemos uma introdução sobre as atividades do dia e uma reforçada nas questões de segurança. O curso não é avaliativo, mas se você se comportar como um idiota eles te mandam embora e você só pode participar outra vez desembolsando mais 1900sek (cerca de R$600). A introdução é muito interessante, e eu aprendi por exemplo que a nossa cabeça pesa – em mádia – 4kg e que em um acidente a 50km por hora o impacto faz com que ela tenha um peso de 160kg. Dá para entender porque gente morre quebrando o pescoço quando estava a “apenas” 50km/h. Se você passou por uma situação como essa e continua caminhando e respirando, ou você é um sujeito de extrema sorte ou um cabeça oca! :P

Entrei no carro com um friozinho na barriga, confesso. A gente fica sozinho no veículo e vamos sendo orientados por rádio. São cinco pistas diferentes – quatro no “molhado” e uma no seco – e em cada uma delas fazemos um tipo de experiência. A ordem do dia era: acelerar até a velocidade orientada (máx. de 70 por hora) e frear de soco.

Das cinco pistas, em 4 delas simulamos situações de: apareceu um alce no meio da pista com gelo ou molhada, então o que acontece se eu frear de soco?; há uma fila de carros, pista com gelo/molhada, o que acontece; um ônibus parou a minha frente – blábláblá, ou simplesmente, freie para ver quantos metros depois de frear você finalmente para numa pista seca. Em uma das simulações entramos num “redondo” molhado, lá a velocidade é livre para você entender o que acontece se você dirige muito rápido em uma curva escorregadia ou em dia de chuva.

Halkbana é mais ou menos assim (fonte: Auto Escola Gävleborgs)

Halkbana é mais ou menos assim (fonte: Auto Escola Gävleborgs)

Bom, eu me sai bem e me diverti para caramba. A primeira vez em cada pista sempre somos orientados a alcançar a velocidade máxima de 35km/h e então frear – há cones demonstrando onde devemos meter o pé no freio. E não é para ser carinhoso não, é pra sentar o pé no assoalho do carro, de modo que você sinta todo o carro tremendo e o abs comendo nas rodas. A 35km/h é fixinha e o carro obedece pianinho, mas a 60km/h e 70km/h… rodei na pista três vezes, em uma delas o carro deu duas voltas antes de eu conseguir parar – nem dá para pensar em “retomar o controle”. Se fosse na realidade, teria batido na fila de carros, na bunda do ônibus e atropelado o alce. O foda é que, em caso de atropelar o bicho, você tem que ligar para a polícia que vem sacrificar o animal e sabem do quê? Você nem tem direito a levar um pedaço da “delícia” para fazer um churrascão… eu sei que soa sinistro, mas carnívora que sou não pude deixar de perguntar – o que fez todo mundo rir do meu desapontamento, obviamente.

Depois de girar e escorregar valendo na pista molhada é bem esquisito frear o carro na pista seca – a diferença é brutal. Na pista molhada e com uma velocidade de 40km/h paramos o carro somente cerca de 40 metros depois de começar a frear. Em uma pista seca essa distância não chega a 10 metros. Quando dirigi a 70km por hora o carro parou a quase 90 metros depois de eu começar a frear, sendo que em pista seca essa distância foi de aproximadamente 20m. No redondo, eu só não girei o carro quando estava a menos de 30km/h – e nem venha me chamar de barbeira, porque o instrutor me elogiou e disse que tenho bom senso de manobra.

Algumas dicas valiosas:

– no caso de um alce aparecer no meio de seu caminho, mire na bunda do animal e suas chances de sobreviver são maiores.

– no caso de atropelar porcos selvagens não abandone o veículo porque eles se tornam agressivos.

– não desvie de veados, raposas e animais pequenos. Infelizmente, tentar não atropelá-los é mais perigoso do que simplesmente prosseguir.

– ligue para a polícia se você atropelou um animal que não morreu e permaneça no local. Como eu falei, nada de churrasco de alce ou guisado de veado, mas se você simplesmente vai embora pode perder a carteira de habilitação. Fique onde o acidente aconteceu e diga para a polícia para que lado da estrada o bicho foi. Só depois vá embora.

Por fim, na Suécia o motorista nunca tem razão. E isso seria bom que todos nós pudéssemos aprender.

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