E a manifestação…?

Na semana passada contei a história do meu envolvimento na organização da manifestação ou demonstração que aconteceria em Göteborg em apoio às inúmeras manifestações que estão acontecendo no Brasil. Naquele post também partilhei as minhas dúvidas e neuras com essa coisa toda de protestar e da necessidade ou não de entender pelo quê ou porquê o Brasil está protestando – até mesmo porquê se o objetivo é daqui apoiar o povo de lá… o que justamente queremos reforçar? Em todo o caso, a manifestação saiu ontem/hoje (27 de junho) na praça em frente a prefeitura de Göteborg, ou simplesmente, em um local com muito movimento. Momentos após o fim da demonstração já tinha fotos no portal do GP (Göteborg Posten), o jornal de maior circulação aqui de Göteborg.

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Olha eu lá no meio, ao lado da Priscila.

Apesar de eu ser uma das administradoras da página do evento, fui só mais uma na “multidão” ali; e isso me deixou um pouco mais tranquila. Tenho que confessar que passei a semana inteira com muita preguiça só de pensar que teria a manifestação hoje, e que tentei várias vezes convencer a Sebastiana a cancelar o evento por causa de… sei lá, dessa indecisão toda e falta de noção de algumas das pessoas que queriam dar os contornos da coisa. Eu não acho que seja uma pessoa iluminada – e isso ficou bem claro quando na segunda feira passada, por exemplo, sentamos eu, Sebastiana, o Sebastião e o Tonho para discutir uma possível programação para a manifestação. Cada um ali tinha ideias super diferentes e passamos duas horas somente discutindo as possíveis diferentes causas da “nossa” causa, e apesar de eu não saber bem porquê, me senti bastante burra nesse encontro. Discordamos muito de forma construtiva e o fato de encontrar gente que é mais inteligente do que eu me deu esperança de que a demostração pudesse ter algum sentido especial, ao final.

*Por gente mais inteligente do que eu entendo as pessoas que não desperdiçam o precioso tempo de suas vidas batendo boca com donas de clubes, ops, eu quis dizer associações que não tem a Rainha Sílvia como presidente honorária.

Quando eu fugi da reunião da segunda-feira, cheguei em casa e ainda uma vez disse ao Joel que se eu não tivesse começado toda essa história de demonstração em apoio aos manifestantes no Brasil eu nem iria participar do evento. Todo o gás que adquiri para o meu balão ao trocar ideias com aquele povo interessante da reunião sumiu depois de ver mais atualizações escrotas no facebook e testemunhos de gente que ficou desapontado ao participar de manifestações no Brasil. E porque as pessoas estão tão desapontadas? Porque foi apresentada uma causa geral e óbvia que guia a massa enquanto gente que entende que é ncessário disciplinar mulheres e crianças no tapa marcha ao lado de gente que acredita que a violência em qualquer forma tem que acabar; e gente que tem orgulho de ter uma presidente mulher tem que ouvir gritos de “fora Dilma” porque tem muita gente com raiva do PT; homossexuais marchando ao lado de gente que acha que o Feliciano teve realmente uma inspiração divina ao instituir o projeto da cura gay… Uma confusão só. É claro que somos diferentes, que somos milhões de mundos mas realmente estamos todos juntos contra a corrupção ou somos um bando de “Maria vai com a outras”? Se tem tanta gente assim indignado com a corrupção porque esse projeto aqui ainda não recebeu 1,6 milhões de assinaturas?

Em Göteborg fomos talvez 150 pessoas e não foi diferente, cada um tinha a sua bandeira. E foi sim um pouco esquisito porque cantamos tanto “caminhando e cantando e seguindo a canção” como “eu te amo meu Brasil” durante o evento. Pra quem não entendeu do que eu tô falando eu explico: as duas músicas foram muito famosas no tempo da ditadura, uma por representar os movimentos de resistência ao regime militar e outra por representar o movimento “Brasil, ame-o ou deixe-o” que foi propagado pelos militares. Adivinha qual das duas o povo cantou com mais vontade? Eu podia até dar um desconto porque “eu te amo meu Brasil” é bem mais fácil por se tratar de uma marchinha… mas será que dá?

O princípio democrático seria justamente o ato de aceitar que nem todo mundo pensa como eu, mas por que será que a gente fica com um gosto estranho na boca quando vê gente defendendo merdas por aí? Ou pessoas que se comportam durante uma manifestação exatamente como crianças do fundamental durante um ato cívico da semana da pátria? Eu vou cantar o hino nacional mais alto e mais forte porque eu sei e eu posso, depois eu vou puxar o refrão “eu sou brasileiro com muito orgulho e muito amor” e por fim eu vou embora e já no caminho de casa vou dando uns likes para postagens a favor da redução da maioridade penal, ou pior, vou dar likes para aquela postagem que diz que quem recebe o Bolsa Família deve perder o título de eleitor.

Mas tá valendo, eu to numa foto no jornal e o pessoal da organização (o comitê do povo inteligente – SST) elaborou um discurso muito bom (fiquei realmente orgulhosa). Apesar disso ainda não vi nenhuma das imagens que me mostre feliz por ter estado lá. Eu me senti meio com vergonha, isso sim, e dá para ver na minha cara.

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Clique na imagem para ver a minha cara de quem perdeu o fio da meada. Ah, e tem uma menina fazendo uma das típicas “pose de perfil para o face” bem do lado do cara com o cartaz “Brasil tamo junto”.

Como eu não sou mentirosa vou compartilhar a foto em que estou mais feliz: essa segurando a faixa que pintei com “fora Feliciano” que dividi com a Mineira Abaixo de Zero Priscila. A pose ficou bacana e não é que parecemos irmãs?

Vieram me perguntar o que era estado laico - e não é de estranhar que não saibam, afinal, não existe no Brasil.

Vieram me perguntar o que era estado laico – e não é de estranhar que não saibam, afinal, não existe no Brasil.

PS.: Bem típico de mim, fazer um ps 15 minutos depois de publicar o post. Muitos suecos me perguntam porque tem tanta gente manifestando no Brasil uma vez que o país tem crescido tanto e anda bem na “fita” do mundo econômico. Aí eu digo que bom, tem o Feliciano, o foro priveligiado, o Renan, os gastos exorbitantes com parlamentares numa república em que representantes eleitos conservam os mesmo privilégios oferecidas a nobreza numa monarquia (pensando bem, a nobreza no Brasil – e eu duvido que em qualquer outro lugar do mundo – jamais foi tão rica quanto o são nossos parlamentares…), a má distribuicão do imposto de renda, a precária infraestrutura do país, a escassez de escolas/universidades, o descaso com a saúde, as desigualdades sociais, o não reconhecimento dos direitos das mulheres e dos homossexuais… tudo isso é motivo para sair as ruas. Eu fico imaginando o que outros brasileiros respondem e ah, hoje um sueco me respondeu que a gente devia pensar seriamente em eleger um presidente como Hugo Chavez para o Brasil. Se alguém espalhar mesmo essa ideia entre os manifestantes as manifestacões acabam amanhã porque o Brasil ainda tem medo do fantasma do comunismo e vê o a esquerda como socialista que tem um pacto com o bicho papão. Daí é bom avisar a todos os babas ovos que vivem admirando a Suécia: sabem porque a Suécia é um dos países com melhores níveis de igualdade do mundo? Ela tem um governo de esquerda.

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5 comentários sobre “E a manifestação…?

  1. Má distribuição do imposto de renda… Isso… Essa ai ta sabendo legal.. Rsrs.. Divido c vc esse sentimento de peixe fora d’água… Dpois q comecei a escutar “cade o pagode?”, pensei qual o real motivo de estar ali, ja q estou apoiando as causas serias q assolam o Brasil… Concordo c a democracia, mas achei desrespeitoso, perante ao q os brasileiros estão sofrendo c essas manifestações c a policia… Mas sai do meu conforto, e apoiei uma causa em q acredito, como pude.. A mudança de pensamento do brasileiro e uma reforma política, msm q esteja longe…

  2. Onde é que dá like nesse post? Baba-ovo foi ótimo Maria. E ainda tem aquele like do “Fora Dilma”, como se isso resolvesse o nosso problema. Parabéns pela lúcida reflexão! Abraços,

  3. Caipirinha, compartilho do mesmo sentimento de estranheza em relação as manifestações.Vi pessoas desfilando com a bandeira brasileira em redes sociais e clamando pelos militares no poder.Medoooooooonho!!!
    Acho que em cada manifestação seus organizadores deveriam deixar bem claro a bandeira a qual defendem, assim, quem sabe, ficaria algo mais homogêneo, não?beijoooooooooooooooooo

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