As loucas aventuras de uma Caipira que só queria ir ao médico

Pra terminar, as boas e velhas histórias de como é fantásticamente maravilhoso viver num país de primeiro mundo.

Ontem liguei para o posto de saúde querendo marcar uma consulta. Já falei por aqui, ou não (não lembro) que posto de saúde na Suécia é como emergência: se você vai parar lá sem febre, muita dor ou desmaiando, você será enviado para casa pela enfermeira. Nas emergências de hospital então, tem que chegar desmaiada, em coma alcoólico, vítima de ataque cardíaco, sangrando ou com fratura exposta. Dadas que as minhas circunstâncias não preenchem nenhum dos quesitos acima (graças a Deus) decidi marcar uma consulta para fazer um check up, afinal, não estou numa situação de sofrimento extremo mas depois que deixei os meus anticoncepcionais o meu mundo está sendo regido pelos meus hormônios.

Eu não me reconheço: não tenho mais dores de cabeça (ótimo, provavelmente não vou morrer por causa de um aneurisma cerebral) mas estou cansada a ponto de dormir o dia inteiro e só levantar porque tenho dores no corpo de tanto ficar deitada. E enjoada. E não, não estou grávida, o que me deixaria feliz por saber exatamente o porquê desses sintomas.

Poderia ser anorexia, não fosse o fato de que comer para mim é quase um esporte. Adoro comer. E muito. Não tenho quilos a menos, nem a mais, provavelmente estou gastando todas as minhas calorias com minha rotina louca. E sim, provavelmente eu estou estressada – e é claro que todo mundo já notou a hipocondria.

Enfim, ligo para o posto de saúde e digo a enfermeira que quero marcar uma consulta. Abaixo segue o diálogo:

Ela: Por que?

Eu: Eu quero fazer um check up.

Ela: De que tipo?

Eu: Sabe, exames de sangue e essas coisas.

Ela: Por que?

Eu: Por que o quê?

Ela: Por que quer fazer exames de sangue?

Eu: Porque penso que posso ter… eu não lembro o nome dessa coisa em sueco… a… anemia?!

Ela: Sim, sim, eu entendo. Anemia. Mas então você pode comprar ferro na farmácia como complemento alimentar.

Eu: Sim, mas eu acho que pode ser anemia. Não sei se é anemia.

Ela: Você tem algum sintoma?

Eu: Sintoma de quê? Febre, dor de cabeça? Não. Não sabia que anemia tem sintomas! Só cansaço.

Ela: Então pode ser apenas que você precise descansar.

Eu: Tenho cansaço e dores no corpo.

Ela: Sim mas as dores no corpo são por causa da sua doença X.

Eu: Doença X???!!! Que doença X? Eu não sabia que vocês já tinham meu diagnóstico!

Ela: Está aqui no seu jornal. Você visitou o dermatologista o ano passado, não visitou?

Eu: Sim.

Ela: E qual o tratamento que você recebeu para a doença X?

Eu: Não tenho nenhuma doença X; tenho melasma e rosácea. Fui ao dermatologista por questões estéticas.

Ela: Mas está aqui no seu histórico de saúde (na Suécia, tudo o que os médicos dizem sobre você fica num histórico o qual as enfermeiras dos postos de saúde tem acesso), que você tem a doença X. Quem tem X sofre muito com cansaço e dores no corpo.

Eu:??? Sei lá do que você está falando. Nunca ouvi falar de X, não sabia que tinha essa doença e nunca fui tratada por causa de X. Eu fui ao dermatologista sim, mas foi por causa de uma mancha no rosto e inflamações na pele, como eu disse, melasma e rosácea. Eu definitivamente não sei do que você está falando!

Ela: Você não a Maria Helena blá blá blá?

Eu: Sim.

Ela: Você não tem uma mancha sobre o nariz?

Eu: Não!!…??

Ela: Você tem certeza de que não foi tratada de X?

Eu: Absoluta.

Ela: Em que partes do corpo você sente as dores?

Eu: (morrendo de vontade de dizer aqui óÓÓó… a consulta agora é pelo telefone???). Nos braços.

Ela: Nos dois?

Eu: Sim. Nos dois braços, no ombro direito, atrás da cabeça. (decidi exagerar, já que o negócio era estar meio morrendo…). E também nas pernas e nas costas. 

Ela: Tem certeza que você não sabe o que é a doença X?

Eu: Eu nunca havia ouvido alguém falar disso antes de conversar com você hoje.

Ela: Então seria melhor você ver um médico.

Eu: Foi exatamente por isso que eu liguei, se você lembra (uá tá faqui mem???).

Ela: Ok. O primeiro horário vago é…

descontrole_emo

Isso tudo e eu vou pagar pela consulta. Mas agora estou fazendo uma lista de tudo o que quero falar para o médico. Talvez seja a última vez que consiga marcar uma consulta. Vai que eu peguei a enfermeira mais boazinha do pedaço??

Pensa que é fácil?

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Feminismo de meia tigela

Mais uma do facebook: tenho o azar de topar com demagogos o tempo inteiro. Gente que tem o maior discurso para qualquer coisa. E eu entro, fácil fácil. Infelizmente, não para concordar, mas para ser do contra. O Joel diz que nunca conheceu alguém que cai tão fácil nas falácias de propagandas como eu; e é verdade. Por outro lado, nem sempre o discurso massivo me corrompe e eu tenho o azar de, ou melhor, a burrice de me irritar e bater de frente com demagogos facebookianos que encontro por aí. Quando há qualquer idiota discursando sobre o óbvio, lá vou eu bater de frente (sabem, igual aos insetos bestas que ficam batendo de contra luz? Sou eu). Nesse fim de semana descobri, num desses meus rompantes, que não passo de uma analfabeta funcional.

Nem vou entrar no mérito da questão do analfabetismo funcional, eu não teria a audácia de explicar isso e apontar os meus dedos sujos para os demais. Mas, decidi definitivamente que está na hora de eu ser feminista. E como toda boa feminista tem que ser chata, decidi começar a praticar o meu discurso aqui no blog.

Sempre me irrito com gente que fala mal de pobre e mais ainda, gente que fala mal do Bolsa Família. A frase mais repetida do facebook é que os beneficiários do bolsa família são os culpados pela corrupção do Brasil, uma vez que o BF é um programa do PT, e que só no PT é que estão os políticos corruptos do Brasil que usam o programa para continuar no poder – porque afinal, todos os milhões de beneficiários do programa votam no PT. E só no PT.

Obeservação: as colocações do parágrafo acima são um resumo generalizado, é óbvio! Mas o que é um peido para quem tá cagado, não é mesmo?

E o que tem toda essa conversa de Bolsa Família (mais corrupção e PT) a ver com feminismo? Tem a ver que eu acabei de decidir que todo mundo que se diz contra o programa Bolsa Família é MACHISTA.

Porque o programa Bolsa Família é acima de tudo um programa de promoção de mulheres: 90% dos beneficiários do bolsa família são beneficiáriAS, ou seja, mulheres. São as mulheres que são beneficiáriAS do bolsa porque são elas que são os chefes da família depois de serem abandonadas com cinco filhos pelos homens. Assim, não importa muito quem é o homem da casa porque eles vão e vem, mas a mulher sempre fica com as crianças e é por meio dela que o programa atinge a população infato-juvenil miserável do país.

É mais do que certo que o programa tem ajudado a melhorar a qualidade de vida de crianças e adolescentes principalmente porque ele deu aos beneficiados a possibilidade de continuarem na escola. Se a escola tem boa qualidade ou não, essa é uma questão educacional complementar ao programa, uma questão que tem que ser debatida e corrigida por meio das políticas de educação e não por meio da suspensão das políticas de assistência social e transferência de renda.

O livro “Vozes do Bolsa Família” (eu falo sobre ele abaixo) mostra que as beneficiárias sentiram pela primeira vez – por meio do programa – o que significa ter uma fonte de renda regular. Será que eu preciso relembrar que a média do benefício é de R$119 mês por família? Você já se imaginou ficando feliz por causa disso? Pode imaginar qual será que era a situação anterior dessa mulher, qual o grau de miséria, marginalização e submissão ao qual ela vivia para ficar feliz ao receber R$119 mensais? No nordeste – ah, o Nordeste é o prato cheio dos facebookianos preconceituosos, ops! MACHISTAS – o programa tem ajudado a tirar as mulheres da prostituição. Se R$ 119 mensais faz com que as mulheres parem de se prostituir, dá para chegar a conclusão simples de que o que elas ganhavam fazendo programa um mês inteiro era menos do que isso. Sente o drama?

Eu podia encher o meu texto de referências mas é tanta coisa! Ainda assim deixo aqui um texto curto da Carta Capital apenas a modo de tira gosto. Só para ter uma ideia, a cidade de Nova Iorque copiou o modelo do programa. É claro que eles devem ter melhorado a coisa, afinal lá nos EUA tudo é perfeito, mas o meu intuito não é convencer a ninguém de que o programa é perfeito e sim que essa propagação ridícula de preconceito machista no facebook tem que acabar!

E não tem que acabar porque eu quero e sim porque tá na hora de refletir: quando as pessoas compartilham que as beneficiárias do bolsa família são as responsáveis por reeleger candidatos corruptos estão afirmando que mulheres não sabem escolher na hora de votar. Quando o pessoal fica compartilhando que toda beneficiária deveria ter o título de eleitor confiscado está afirmando que as mulheres tem que perder o direito de votar. Quando você fica dando curtir para gente que compartilha que o programa é feito para sustentar vagabundas você está afirmando que mulheres e crianças não precisam ter seus direitos atendidos. Em resumo, você que faz isso é um machista que não quer ver as mulheres independentes e tendo uma vida melhor.

E se você é mulher, vou ser ainda mais cruel e usar todo meu veneno feminista recém adquirido: eu tenho vergonha da sua postura.

Preciso abraçar a minha cunhada por me contaminar com essas ideias feministas.

****

Aqui vai uma entrevista com a professora de teoria social da Unicamp, Walquíria Leão Rego que escreveu o livro “Vozes do Bolsa Família”. Note que ela sempre se refere a “elas” e “delas” quando fala do programa, em referência as mulheres que são beneficiárias.

Recomendo também a leitura desse post sobre o livro.

Eu quero muito esse livro.

Facebook

Muita coisa pra falar, pouca organização. Andei fazendo muita coisa… mas precisava usar o espaço para desabafar – como sempre. Então hoje consegui colocar tudo em ordem e lá se vão três posts – não se assuste, isso não vai acontecer sempre.

*****

Esse mês teve o dia mundial de combate ao suicídio e, como não podia deixar de ser, eu tratei do tema sob o viés da minha opinião furada de analfabeta funcional nesse post aqui. Aliás, recebi um e-mail muito bacana de um Humberto Correia depois de publicar o post, agradecendo o meu empenho da divulgação e discussão do tema (oi?). Claro que me senti mas…

Todo esse papo de depressão, suicídio e doenças psíquicas mexem comigo. Uma, que são do meu interesse afinal, uma vez na minha vida eu já havia sonhado em ser psicóloga. Duas, que eu tive depressão então… né. Enfim, já percebeu o quanto o facebook anda “poluído de gente se sentindo triste”?

Eu fiquei chocada quando o pessoal começou a compartilhar o “humor do dia” por meio daqueles bonequinhos. Tem sempre alguém que aparece no roll da sua página inicial se “sentindo triste”. Uns assim  e outros assim . Sem contar na turma do povo que usa o símbolo para mostrar que está se sentindo desanimado…

E daí né? Não passa de um bando de gente manhosa tentando chamar a atenção. Jura? Bom, pode até ser, no início, porque assim que alguém escreve um “se sentindo triste” ou “desanimado” sempre tem uma Maria curiosa indo lá perguntar: por que fulano? O que aconteceu Zé?

Tá, eu sou daquele tipo que entra no facebook e dá uma rolada na página inicial e depois cai fora. Tenho 300 contatos no facebook – acho que devia ter menos – mas dentro desses 300 contatos percebi que há três pessoas – uma para cada cem – que ao menos uma vez por semana marcam seu status com um “se sentindo triste”. Eu percebo que fica cada vez mais difícil de ver, uma vez que ninguém “curte” um status em que alguém diz que está malecho e menos gente ainda se importa sobre o porquê do cidadão estar fazendo manha – again.

Comentei isso com algumas pessoas e a maioria delas me deu dicas de como excluir o status dos cidadãos tristonhos e desanimados do meu roll da página inicial. Pô, não são meus amigos, afinal, facebook é para você ter contatos e eu entendo que tem gente que usa o “face” só para diversão, então essa coisa do “estar triste” não encaixa bem nos planos. Eu acho que se fossem amigos eu ficaria preocupada, mas como não, eu apenas fico pensativa e com pena, imaginando quantas pessoas eliminaram o sujeito de suas atualizações porque ele sempre está para baixo.

Nem eu gosto de gente que fica o tempo inteiro reclamando, mas mesmo assim não posso deixar de questionar… estou vendo coisas? Vocês também tem contatos gritando no facebook toda semana que estão se sentindo tristes? Quantas dessas pessoas recebem alguma atenção? Quantas delas tem histórico de depressão ou outro transtorno psíquico?

Svenska Kyrkan

No princípio, Deus criou o mundo por meio do big bang. Mas eu não vou meter a minha colher nos detalhes dessa história, ainda mais porque no fim das contas, eu nem sei porquê de tanta discussão em cima disso/dos ditos detalhes. A verdade é que, depois dos homens das cavernas, dos vikings e dos cristãos católicos, eis que a Suécia também chegou a ser um reino que deveria escolher sua igreja.

Pra quem fugia das aulas de história, os cristãos foram uma raça praticamente comunidade homogênea até meados do séc XVI. Todos seguiam o direcionamento da Santa Madre Igreja, sob o comando do papa que já sentava no Vaticano. Mas aí apareceu Lutero escancarando os podres da instituição, o que deixou o papa irritado e gerou uma excomunhão. Mas também não vamos entrar nos méritos dessa outra questão (porque eu acho que foi bem feito para a cara do papa querer empurrar a sujeira embaixo do tapete e não conseguir); basta saber que, a partir de Lutero, o catolicismo já não era o único modo de ser um cristão; e a Reforma se espalhou pela Europa chegando a Suécia.

Em todo o caso, a Igreja Sueca (Svenska Kyrkan) não é bem uma igreja luterana. Como no caso da Inglaterra, a Igreja Sueca também acabou virando uma mistura entre as doutrinas católica e protestante, sofrendo até mesmo influências do calvinismo. A Reforma em terra suecas teve início em meados de 1520 quando o rei Gustav Vasa era o regente sueco. Já ouvi dizer que o rei determinou que a Reforma de Lutero fosse implantada na igreja sueca mas que, por medo de causar um grande esvaziamento nas paróquias, a liturgia continuou sendo praticada conforme o culto católico (na verdade, a liturgia de uma missa na Igreja Sueca é exatamente igual a liturgia do culto católico hoje).

logoÉ por essas e outras que a Svenska Kyrkan, apesar de ser fruto da reforma, não é chamada de igreja luterana, e sim, de Igreja Sueca.

Enfim, no final do séc XVI todos os padres da Igreja Sueca foram obrigados a se converterem pastores luteranos ou deixarem o país, uma espécie de “agora a coisa ficou séria”, um sinal de que todos deveriam ser protestantes. A Svenska Kyrkan seria a partir de então a igreja oficial sueca, mas o culto luterano estava longe de ser uma verdade suprema dentro do país e a partir do século XIX enfrenta a forte concorrência dos metodistas, batistas e pentecostais em geral. Muitos crentes eram obrigados a ser rebatizados na Igreja Sueca e a possibilidade de pertencer a outra congregação que não fosse a “oficial” nasceu apenas em 1858. Mas isto era válido somente para as pessoas que queriam trocar de congregação. A possibilidade de se desvincular da Igreja Sueca sem pertencer a nenhuma outra congregação vem praticamente um século depois, em 1951.

Na minha opinião, a Igreja Sueca sempre foi estatal porque, por exemplo, até 1996 todas as pessoas nascidas na Suécia eram consideradas membros da Svenska Kyrkan indiferentes de terem recebido o batismo ou não (se você não estava registrado como membro em outra congregação). Somente a partir daquele ano é que apenas os batizados são considerados membros. O que eu quero dizer é que, antes disso, sendo seus pais membros da Igreja Sueca, assim que você nascia se tornava um membro, e seria membro até comunicar a igreja oficialmente pedindo sua remissão.

Por causa dessa peculiaridade – da Svenska Kyrkan ser tão estatal – o dízimo não é pago a Igreja e sim em forma de imposto que vem descontado anualmente no salário. Assim, se você é contabilizado entre os membros da igreja até o dia primeiro de novembro pagará o kykoavgift (imposto da igreja ou simplificando, dízimo) num valor de aproximadamente 1% dos seus ganhos no ano seguinte; dependendo da kommuna (município) em que você vive. Pelo que entendi na página da igreja é possível pagar menos se você não tem interesse de ter um enterro na igreja. Ou pagar menos se você mora em um município em que a Igreja Sueca não tem muitos gastos.

Em todo o caso, essa peculiaridade traz algumas consequências: outubro é o mês do ano em que o maior número de pessoas deixam a Svenska Kyrkan. Pelo que parece, cada vez menos gente quer ser enterrado numa igreja (humor negro). E segundo, uma vez que a Igreja Sueca recebe esse tipo de contribuição, o controle a respeito das finanças da igreja é extremamente aberto e os cargos existentes na Igreja – músico, pastor, diáconos – são como que públicos.

Pasmem: não é necessário ter fé em Deus para ser um pastor na Igreja Sueca. Mas é necessário ter formação em filosofia e teologia. É claro que nenhum ateu vai se candidatar a ser pastor, ainda mais dentro de uma igreja, mas não é proibido. Se você quiser ser diácono, por exemplo, deve ter formação em teologia (ou filosofia? Não estou certa…) e também na área social – pode ter completado seus estudos de teologia com algumas disciplinas de Serviço Social ou o contrário. Da mesma forma, se você quer ser o cara que rege o coral e toca o órgão nos finais de semana, basta ter formação em música.

E… a questão do controle dos dinheirinhos que a igreja recebe: as diretrizes das ações da Svenska Kyrkan não são estabelecidas somente pelos membros da igreja ou pelos clérigos. A cada quatro anos é realizada uma votação para estabelecer as diretrizes da Igreja e as eventuais mudanças que são necessárias. E essas propostas são apresentadas por meio  dos… partidos políticos!

No úlitmo domingo 15 de setembro foi o dia da votação na Svenska Kyrkan, ou kyrkovalet. A participação no processo é facultativa, ou seja, o voto não é obrigatório. As propostas que mais receberam votos foram as apresentadas pelo Arbetarpartiet – Socialdemokraterna ou, simplesmente o maior e mais popular partido na Suécia até a agora.

Não estou por dentro das propostas apresentadas por cada partido e não saberia dizer o quanto boa ou má é essa intervenção da sociedade dentro da igreja, mas entendo que esse processo dentro da igreja é muito interessante. Se por um lado há alguns movimentos reclamando que aqueles que estão de fora da Igreja não sabem o que é melhor para ela, não fosse por causa dessa intervenção a Igreja Sueca não seria a favor do casamento de homossexuais: desde 2009, se você é homossexual e quer se casar tem todo o direito de fazê-lo dentro de qualquer igreja que pertença a Svenska Kyrkan. Até mesmo tem direito de ser um/a pastor/a homoafetiva, casadx ou solteirx, não importa.

Certeza que isso não seria bem assim não fosse gente de fora metendo a colher. Ainda há muito conservadorismo, mesmo numa igreja na Suécia. Um exemplo básico: um dos resultados mais preocupantes no kyrkovalet foi que o partido mais racista da Suécia (o Sverigedemokraterna) conseguiu duas vezes mais votos no último pleito do que em 2009. E o que eles querem dentro da igreja? Entre outras coisas, que a Igreja Sueca pare de dar apoio aos imigrantes pobres, e que passe a trabalhar apenas com suecos pobres… tá fácil não?

Agora, falem sério, não é de cair o queixo?

E só para refletir: que diferença hein… no Brasil, a igreja metendo o bico na vida das pessoas e fazendo tudo mais difícil enquanto na Suécia é a sociedade civil usando a Igreja como instrumento de transformação.

Saudades

Na semana antes do meu casamento a minha sogra avisou que haveriam dois convidados surpresa para a festa. Adivinhem qual foi o meu pensamento?

Sim, a primeira coisa que passou pela minha cabeça é que essa maravilhosa família sueca que me acolheu havia feito uma vaquinha para trazer meus irmãos – a Gio e o Jorge – para o casório. É claro que a minha sogra percebeu de uma vez como as minhas expectativas pararam em um trilhão, então ela mais que rapidamente explicou que era uma surpresa pequena e que os convidados não vinham do exterior.

Ainda assim, eu esperei até o último minuto que – tanto meus irmãos como mais umas pessoas especiais – aparecessem de surpresa. Sei lá, sabe essas coisas bestas de filme? Sim, eu esperei. Esperei ver eles na igreja. Mas eles não estavam lá.

Desde o dia do casamento eu sinto muito mais falta deles do que o normal. Eu tenho cá essa saudade que não passa, e coisas bestas me fazem lembrar de momentos gostosos que passamos juntos, ou, em outros casos, coisas que eu gostaria de fazer com eles.

Passei a viagem toda na Grécia fazendo planos infalíveis.

Mas ainda não posso ir ao Brasil.

Então eu fecho os olhos e vivo na minha cabeça esses momentos que eu sei que foram reais e que agora são lembranças especiais. Eu faço de conta que posso fazer isso amanhã e daí fica um pouco menos pesado. Eu sei que faz quase um ano, a minha vida está se ajeitando e tenho encontrado muita gente legal, mas vocês são insubstituíveis! E estão fazendo falta…

Eu não ficar nominando, não precisa.

Eu tenho saudades…

Dia Mundial de Combate ao Suicídio

suicidioO dia 10 de setembro foi escolhido como Dia Mundial de Combate ao Suicídio. Foi ontem, mas às vezes, mesmo que eu queira, não dá nega e eu não consigo blogar. Enfim, suicídio pode até soar bonitinho em romances do tipo Romeu e Julieta, mas a verdade é que envolve muito sofrimento para todos os envolvidos e um enorme problema de saúde.

To tocando no assunto porque desde que eu mudei para cá tem muita gente que fala disso: a Suécia tem uma das maiores taxas de suicídio do mundo/ não adianta tanta tecnologia e dinheiro se tem um monte de gente que se mata lá/ existem tantas pessoas que se suicidam na Suécia porque ninguém acredita em Deus; blá blá blá…

A gente pode especular e especular a respeito do tema. Na minha opinião, a cultura sueca é um dos fatores que contribui sim para esses números mas, não porque aqui há mais ateus do que crentes ou porque o aborto é permitido (já ouvi cada uma que até parece que os ouvidos viraram pinico!), e sim simplesmente porque os suecos tem essa coisa de se virarem sozinhos, dar conta do recado por si próprios. Sueco “guarda” suas dificuldades para si e compartilha apenas com as pessoas que ele considera próximas. E não é que eu veja isso como um defeito não, pelo contrário: conheço muito gente (inclusive eu) que seria mais feliz se aprendesse a ser mais discreto. Mas essa dificuldade de expor os sentimentos pode virar uma bomba relógio.

E daí que eu sublinhei o pode porque essa não é uma regra. É só um chute baseado em alguns poucos textos que eu li sobre a importância de procurar ajuda quando você está mal.

Lendo algumas coisas ontem sobre o tema eu acabei nesse artigo do Humberto Corrêa que traz alguns dados, como, por exemplo, que cerca de nove milhões de pessoas se suicidam no mundo por ano e que o número de suicídios no Brasil cresceu em 30% nos últimos vinte anos, sobretudo entre homens jovens. O principal ponto do texto do Humberto é a afirmação de que o suicídio seria mais facilmente combatido se a gente deixasse o tabu de lado. Eu concordo.

Tem que se botar para fora o que não sai da cabeça

Tem que se botar para fora o que não sai da cabeça

Concordo porque, indiferente de acontecer no Brasil ou na Suécia, o caso é que ninguém se mata porque está feliz. E, indiferente da cultura sueca ou brasileira, todos nós temos imensa dificuldade de lidar com a tristeza. Na cultura sueca, talvez porque eles sejam fechados e det är inte okej (não é aceitável) pedir pinico para os outros. Na cultura brasileira simplesmente porque a gente é muito feliz para ser triste.

É só para pensar: quantos dos seus amigos estão postando semanalmente no facebook que não veem a hora do final de semana chegar só para entortar o caneco? Quantas dessas pessoas escondem um sentimento enorme de frustração e tristeza por detrás do “soltar a franga”? Por que é que beber para esquecer é aceitável?

E quando o tiro sai pela culatra e, de repente, o cara mais legal da roda se enforca, todo mundo fica surpreso porque ele “sempre” estava feliz.

É claro que eu to tocando em apenas um dos fios de uma meada muito embaralhada: o bullyng mata, a homofobia, o machismo, a marginalização,  o racismo e mais um monte de “ismos”. Eu ficar na “carne” daquela guria até essa gorda se tocar que precisa emagrecer NÃO é uma ajuda; tratar a namorada na coleira porque você é um maníaco carente NÃO vai fazer ela te amar, vai destruir ela (e o contrário também é verdadeiro, só menos frequente porque mulheres nem sempre dispõe do poder para manipular); excluir homossexuais, pobres e negros porque o problema é deles por serem assim NÃO te faz uma pessoa tolerante à diversidade, só serve para mascarar o teu preconceito.

Mesmo os mais fortes e grandes sofrem

Mesmo os mais fortes e grandes sofrem

E que mal há em falar algumas verdades, não é mesmo? Nenhum, não fosse por um detalhe: as pessoas que estão azucrinando as demais, por qualquer motivo que seja, sempre estão tentando esconder algum sentimento de inferioridade ou frustração. Há muitos relatos sobre isso (dá uma lida nos guests posts do blog da Lola): eu tenho medo de virar o objeto do bullyng, então em me junto à rodinha do pessoal que azucrina assim eu fico fora da linha de tiro. Ao menos por enquanto. Pimenta nos olhos dos outros é refresco, e parece que as redes sociais estão aí para isso: a gente fala o que quiser na rede e, na maioria dos casos não é punido. Isso legitima as redes de ódio que já estão pulando da internet para a vida real.

E isso tudo não acontece apenas no Brasil (tem muito aqui também, apesar do pessoal dos direitos humanos estarem em cima o tempo inteiro) mas no Brasil é visto por muito poucos como problema. Eu sobrevivi ao bullyng, alguns dirão, mas quando você estudava já existia facebook? A gente não quer ver, não quer aceitar que há pessoas que sofrem ao nosso lado, e que a tristeza é mais comum do que é socialmente aceitável (no Brasil).

Eu volto a combater a imagem que a gente vende do Brasil: somos um povo alegre e descontraído, com super “força na peruca”; o país do carnaval que chora suas mágoas na avenida do samba e lava a alma nas ondas de Copacabana. O povo mais simpático e forte do mundo, que mesmo com tantas dificuldades sempre aparece na TV com aquele sorrizão na cara, povo de jeito de moleque que encanta no futebol, na música, na dança…

…e não tem absolutamente o direito de ficar triste. E que esconderá a tristeza por detrás do ódio (duvidam que gente que fica xingando pobre na internet é porque tem problema?) ou de festa. Afinal, sempre é bom encontrar um canal por onde a gente vai descarregar as mágoas, e desde eu que faça o bem para mim mesmo, tá valendo.

suicidio 3

Eu não tenho a menor dúvida de que há muita gente feliz no Brasil. Feliz de verdade. Temos uma cultura de festa, dança, música e travessuras e isso ajuda realmente a limpar a alma. Mas quando nem isso ajuda é sinal de que a coisa está realmente feia e a gente deve perder o medo de declarar que está triste e que perdeu o tesão de viver.

É importante começar uma verdadeira conscientização a respeito da natureza da tristeza; da diferenciação entre tristeza e depressão e da necessidade de buscar ajuda profissional quando você percebe que o tesão de viver está morrendo. Afinal, um suicida não é bem uma pessoa que acorda numa manhã de segunda feira e resolve que já deu; muitas vezes a alma dele já morreu há tempos, só falta mesmo é deixar o corpo.

Quem quer se matar não decide de uma hora para outra, o sentimento aparece sorrateiro e vai crescendo e crescendo incentivado pelos transtornos psíquicos que a pessoa sofre. E aí que as vezes compartilhar isso com amigos vira piada e a única maneira seria buscar a um profissional, mas a oferta de ajuda profissional no Brasil ainda é muito precária no que se refere ao atendimento de pessoas com transtornos psíquicos.  A OMS recomenda (segundo esse artigo) um mínimo de 4 leitos psiquiátricos para cada 100 mil pessoas enquanto no Brasil há cerca de 0,4. Só mesmo trazendo a tona a realidade desse problema vai fazer com que sejam tomadas providências a respeito desse déficit.

Quando não há profissionais disponíveis e os amigos levam tudo na flauta a situação se vê desesperadora. Os transtornos psíquicos que levam a morte são um tabu e eu posso afirmar isso: quando eu tive depressão teve muita gente que disse que eu fazia manha, afinal, eu era jovem, talentosa, bonita, inteligente, tinha um bom trabalho, uma família que me amava e… o que mais eu poderia querer?

Mas nada é assim tão simples. Não é apenas uma questão de querer, ainda que esse seja o primeiro e mais importante passo em direção a cura. Sim, porque transtornos psíquicos são doenças, não são manha, faz de conta para chamar a atenção ou fazer piada. E se queremos que as pessoas que estão com problemas sintam-se confiantes para falar disso, temos também de vencer mais esse obstáculo: o de julgar quem está triste como fraco ou como só mais um cheio de mi-mi-mi-mi.

Enfim, se enfrentarmos os tabus que envolvem o suicídio esses números vão diminuir, tanto aqui como em qualquer lugar.

*****

A Suécia dispõe de uma linha de ajuda para pessoas que não se sentem bem: a nationella hjälplinjen.

Telefone: 020 22 00 60

Internet: 1177.se (chat com psicólogos).

Esse atendimento é gratuito.

Pesquisa no blog

Essa semana eu postei mais no blog.

Mas… não respondi a nenhum coments que não fosse uma pergunta e também não respondi aos coments atrasados.

Eu gosto de bater um papo. Gosto muito de comentar os comentários do pessoal que segue. O problema é que como eu escrevo o mesmo tanto que eu falo responder aos comentários leva tanto tempo como escrever um post, ainda mais porque eu sempre tenho alguns coments pra responder em vários posts, e eu nem sempre lembro de tudo o que escrevi.

Eu acho que deveria abrir uma página no facebook para o blog mas, ao mesmo tempo, eu tenho quase absoluta certeza de que isso ia acabar meio abandonado – igualzinha a minha conta no twitter. Daí que o principal meio de comunicação entre nós é aqui mesmo e pelo e-mail…

Pensando nisso resolvi deixar uma enquete e tanto quem comenta como quem nunca comenta pode responder.

Isso parece meio besta mas eu acredito que seja importante porque, por exemplo, eu gosto mais de comentar nos blogs das pessoas que eu sei que me respondem. Tem gente que vem deixar um coments aqui, tem gente que responde no próprio blog e tem aqueles que mandam um recadinho rápido por algum outro meio (no face por exemplo); e isso para mim não faz diferença, eu apenas gosto de iniciar uma conversação e saber que a pessoa não me deixou no vácuo. Ainda assim, tem gente que – eu sei – nunca me responde, e mesmo assim eu deixo lá um coments de vez em quando. Nesse caso é porque eu tenho um carinho pelo blog da pessoa, gosto do que ela escreve e quero só dizer: eu continuo lendo! Não pare. É um motivo puramente egoísta, eu sei. É pra satisfazer o meu ego, com certeza, e sei que é também por isso que eu não me sinto tão motivada assim para deixar o coments nos casos em que eu sei que não terei respostas… é pessoal.

Diante disso eu gostaria de conhecer o perfil dos meus leitores (que chique né?): você é o tipo que quer conversa (assim como eu)? Você só quer passar para mostrar “oi Maria, eu tô lendo!”? Você não se importa com nada disso desde que eu responda as eventuais perguntas que você deixar?

É claro que tudo depende também do conteúdo do post. Se alguém escreve sobre balet, por exemplo, eu não tenho ideia do que comentar. “Ai eu acho balet lindo! ” seria uma alternativa, mas… uma coisa dessas não dá para esperar resposta. Eu gosto de contribuir (quando eu comento) com alguma coisa – importante ou não – bem humorada para o autor (do post ou do coments). Mas agora já fugi do assunto, pra variar.

Eu queria deixar a enquete aqui na barra lateral também mas não encontrei a forma de fazer isso. Sei lá… só não funciona. Se alguém sabe como e quiser me dar um help, manda um alô ou deixa umas instruções nos coments?

Obrigada