Svenska Kyrkan

No princípio, Deus criou o mundo por meio do big bang. Mas eu não vou meter a minha colher nos detalhes dessa história, ainda mais porque no fim das contas, eu nem sei porquê de tanta discussão em cima disso/dos ditos detalhes. A verdade é que, depois dos homens das cavernas, dos vikings e dos cristãos católicos, eis que a Suécia também chegou a ser um reino que deveria escolher sua igreja.

Pra quem fugia das aulas de história, os cristãos foram uma raça praticamente comunidade homogênea até meados do séc XVI. Todos seguiam o direcionamento da Santa Madre Igreja, sob o comando do papa que já sentava no Vaticano. Mas aí apareceu Lutero escancarando os podres da instituição, o que deixou o papa irritado e gerou uma excomunhão. Mas também não vamos entrar nos méritos dessa outra questão (porque eu acho que foi bem feito para a cara do papa querer empurrar a sujeira embaixo do tapete e não conseguir); basta saber que, a partir de Lutero, o catolicismo já não era o único modo de ser um cristão; e a Reforma se espalhou pela Europa chegando a Suécia.

Em todo o caso, a Igreja Sueca (Svenska Kyrkan) não é bem uma igreja luterana. Como no caso da Inglaterra, a Igreja Sueca também acabou virando uma mistura entre as doutrinas católica e protestante, sofrendo até mesmo influências do calvinismo. A Reforma em terra suecas teve início em meados de 1520 quando o rei Gustav Vasa era o regente sueco. Já ouvi dizer que o rei determinou que a Reforma de Lutero fosse implantada na igreja sueca mas que, por medo de causar um grande esvaziamento nas paróquias, a liturgia continuou sendo praticada conforme o culto católico (na verdade, a liturgia de uma missa na Igreja Sueca é exatamente igual a liturgia do culto católico hoje).

logoÉ por essas e outras que a Svenska Kyrkan, apesar de ser fruto da reforma, não é chamada de igreja luterana, e sim, de Igreja Sueca.

Enfim, no final do séc XVI todos os padres da Igreja Sueca foram obrigados a se converterem pastores luteranos ou deixarem o país, uma espécie de “agora a coisa ficou séria”, um sinal de que todos deveriam ser protestantes. A Svenska Kyrkan seria a partir de então a igreja oficial sueca, mas o culto luterano estava longe de ser uma verdade suprema dentro do país e a partir do século XIX enfrenta a forte concorrência dos metodistas, batistas e pentecostais em geral. Muitos crentes eram obrigados a ser rebatizados na Igreja Sueca e a possibilidade de pertencer a outra congregação que não fosse a “oficial” nasceu apenas em 1858. Mas isto era válido somente para as pessoas que queriam trocar de congregação. A possibilidade de se desvincular da Igreja Sueca sem pertencer a nenhuma outra congregação vem praticamente um século depois, em 1951.

Na minha opinião, a Igreja Sueca sempre foi estatal porque, por exemplo, até 1996 todas as pessoas nascidas na Suécia eram consideradas membros da Svenska Kyrkan indiferentes de terem recebido o batismo ou não (se você não estava registrado como membro em outra congregação). Somente a partir daquele ano é que apenas os batizados são considerados membros. O que eu quero dizer é que, antes disso, sendo seus pais membros da Igreja Sueca, assim que você nascia se tornava um membro, e seria membro até comunicar a igreja oficialmente pedindo sua remissão.

Por causa dessa peculiaridade – da Svenska Kyrkan ser tão estatal – o dízimo não é pago a Igreja e sim em forma de imposto que vem descontado anualmente no salário. Assim, se você é contabilizado entre os membros da igreja até o dia primeiro de novembro pagará o kykoavgift (imposto da igreja ou simplificando, dízimo) num valor de aproximadamente 1% dos seus ganhos no ano seguinte; dependendo da kommuna (município) em que você vive. Pelo que entendi na página da igreja é possível pagar menos se você não tem interesse de ter um enterro na igreja. Ou pagar menos se você mora em um município em que a Igreja Sueca não tem muitos gastos.

Em todo o caso, essa peculiaridade traz algumas consequências: outubro é o mês do ano em que o maior número de pessoas deixam a Svenska Kyrkan. Pelo que parece, cada vez menos gente quer ser enterrado numa igreja (humor negro). E segundo, uma vez que a Igreja Sueca recebe esse tipo de contribuição, o controle a respeito das finanças da igreja é extremamente aberto e os cargos existentes na Igreja – músico, pastor, diáconos – são como que públicos.

Pasmem: não é necessário ter fé em Deus para ser um pastor na Igreja Sueca. Mas é necessário ter formação em filosofia e teologia. É claro que nenhum ateu vai se candidatar a ser pastor, ainda mais dentro de uma igreja, mas não é proibido. Se você quiser ser diácono, por exemplo, deve ter formação em teologia (ou filosofia? Não estou certa…) e também na área social – pode ter completado seus estudos de teologia com algumas disciplinas de Serviço Social ou o contrário. Da mesma forma, se você quer ser o cara que rege o coral e toca o órgão nos finais de semana, basta ter formação em música.

E… a questão do controle dos dinheirinhos que a igreja recebe: as diretrizes das ações da Svenska Kyrkan não são estabelecidas somente pelos membros da igreja ou pelos clérigos. A cada quatro anos é realizada uma votação para estabelecer as diretrizes da Igreja e as eventuais mudanças que são necessárias. E essas propostas são apresentadas por meio  dos… partidos políticos!

No úlitmo domingo 15 de setembro foi o dia da votação na Svenska Kyrkan, ou kyrkovalet. A participação no processo é facultativa, ou seja, o voto não é obrigatório. As propostas que mais receberam votos foram as apresentadas pelo Arbetarpartiet – Socialdemokraterna ou, simplesmente o maior e mais popular partido na Suécia até a agora.

Não estou por dentro das propostas apresentadas por cada partido e não saberia dizer o quanto boa ou má é essa intervenção da sociedade dentro da igreja, mas entendo que esse processo dentro da igreja é muito interessante. Se por um lado há alguns movimentos reclamando que aqueles que estão de fora da Igreja não sabem o que é melhor para ela, não fosse por causa dessa intervenção a Igreja Sueca não seria a favor do casamento de homossexuais: desde 2009, se você é homossexual e quer se casar tem todo o direito de fazê-lo dentro de qualquer igreja que pertença a Svenska Kyrkan. Até mesmo tem direito de ser um/a pastor/a homoafetiva, casadx ou solteirx, não importa.

Certeza que isso não seria bem assim não fosse gente de fora metendo a colher. Ainda há muito conservadorismo, mesmo numa igreja na Suécia. Um exemplo básico: um dos resultados mais preocupantes no kyrkovalet foi que o partido mais racista da Suécia (o Sverigedemokraterna) conseguiu duas vezes mais votos no último pleito do que em 2009. E o que eles querem dentro da igreja? Entre outras coisas, que a Igreja Sueca pare de dar apoio aos imigrantes pobres, e que passe a trabalhar apenas com suecos pobres… tá fácil não?

Agora, falem sério, não é de cair o queixo?

E só para refletir: que diferença hein… no Brasil, a igreja metendo o bico na vida das pessoas e fazendo tudo mais difícil enquanto na Suécia é a sociedade civil usando a Igreja como instrumento de transformação.

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7 comentários sobre “Svenska Kyrkan

  1. Oi Maria tudo bem?
    Cheguei a 1 mes aqui em Gotemburgo e ainda nao me acostumei com tanta coisa que é de longe muito diferente do que tínhamos no Brasil. Achei muito interesante seu post pois ainda nao tive tempo nem interesse em saber como funciona a igreja neste país. Mas apesar de tudo parecer muito organizado e ter a intensao de ajudar as pessoas pobres e tal, ainda soa estranho pra mim, saber que a igreja está misturada com partidos políticos. Pois na minha cabeca, a igreja é um local onde as pessoas buscam paz e espiritualidade. Por outro lado, se é desta forma que eles encontraram pra ajudar os pobres e se funciona, tbm nao é de todo o mal. Bom, mas acho que por enquanto estou muito bem com minha espiritualidade hehehe, Deus está em todos os lugares, nao é mesmo? Parabéns pelo tema escolhido, sempre que eu posso lei seus posts.
    Ah precisamos marcar um fika.
    Bj

  2. Oi Gerusa!
    Temos que marcar o fika sim, me manda um e-mail que a gente já agenda uma data…
    No mais, quando cheguei aqui na Suécia me assustei deveras com a Igreja Sueca. Como católica eu era/sou acostumada com um monte de não pode: não pode ser homossexual, não pode comungar se não for casado, não pode batizar as crianças se não for casado, não pode isso e aquilo se não pagar o dizímo… aí que aqui na Suécia, tirando a questão do dízimo (pois você precisa ser membro e pagar se quiser usar a igreja no caso de casamento ou velório – tipo como um clube) você pode ser o que quiser e será acolhido na igreja. Se você é muçulmano e entrar na igreja ninguém vai te atrapalhar mesmo que você usar aquele espaço só para virar para meca e fazer suas orações.
    Dá o que pensar viu?
    Beijos

  3. Nossa! Quanta informacão que eu não sabia e nunca tinha ido atrás de saber e olha que eu trabalho para a svenska kyrka, viu? Sim, a creche que sou professora faz parte dela.
    Eu tambem fiquei uum pouco chocada quando escutei alguém me dizer que para ser padre/pastor na Igreja sueca não precisava nem acreditar em Deus, enquanto no Brasil ainda vemos isso como um “chamado”, vocacão, aqui não passa de um mero emprego, comum onde se recebe pelas cargas horárias trabalhadas, não é mesmo?

  4. Maria, ADOREI seu texto, eu nunca ia descobrir todos estes detalhes sobre a sociedade sueca por conta própria. Engraçado, tudo que voce colocou sobre o funcionamento da igreja é a cara da Suécia… Vou brigar com o Marco porque ele nunca me passou o link do seu blog antes :-)

  5. ola Maria, nao imaginava que a a Igreja sueca fosse assim, mas da o que pensar em poder ter a sua fe independente da sua condicao sexual! é muita liberdade, nao creio que o Brasil estive preparado para tanta modernidade! pois a liberdade assusta e choca! Adorei o texto. Muitissimo explicativo! Creio ter fugido da aula de historia neste assunto…kk bjo gde e sucesso

  6. Emília!
    Eu não acredito que vocês não eram meus leitores assíduos! Hahahaha! Vou cobrar isso do senhor seu marido… eu recomendo vocês participarem de uma celebração na igreja sueca, aí perto do app de vocês tem uma. Só para ver mesmo como funciona – se bem que já ouvi dizer que no centro a igreja sueca é mais conservadora.

    ****
    Deby,
    Pois é… sempre achei que vocação era muito importante e ainda acho mas, em todo o caso, acho que ser padre e/ou pastor tem um lado que é mesmo de um trabalho. Em qualquer trabalho vale muito a efetividade, racionalidade, então, sei lá, talvez seja muito bom que ter uma educação seja mais importante do que outros requisitos. Ainda assim, não acredito que existam candidatos ateus para o cargo afinal, será que há alguém que trabalharia com a bíblia e com a divulgação de uma fé na qual não acredita?

    ****
    Elisa,
    O Brasil definitivamente não está preparado para tanto mas acho que não é uma questão de modernidade e sim uma questão de lógica e de deixar princípios moralistas de lado… eu sabia que teria alguém que havia fugido das aulas de história lendo o blog, não falei?
    Hahahaha!

    Beijos gurias!

  7. Achei a “votação da igreja” muito interessante. Para mim, é mais um reflexo da cultura democrática da Suécia. Eu não estou muito dentro do assunto, aliás, até há pouco tempo eu não sabia que se votava para a igreja, mas até um certo ponto parece-me benéfico haver essa influência exterior. Beijos

Agora vamos prosear!

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