As loucas aventuras de uma Caipira que só queria ir ao médico

Pra terminar, as boas e velhas histórias de como é fantásticamente maravilhoso viver num país de primeiro mundo.

Ontem liguei para o posto de saúde querendo marcar uma consulta. Já falei por aqui, ou não (não lembro) que posto de saúde na Suécia é como emergência: se você vai parar lá sem febre, muita dor ou desmaiando, você será enviado para casa pela enfermeira. Nas emergências de hospital então, tem que chegar desmaiada, em coma alcoólico, vítima de ataque cardíaco, sangrando ou com fratura exposta. Dadas que as minhas circunstâncias não preenchem nenhum dos quesitos acima (graças a Deus) decidi marcar uma consulta para fazer um check up, afinal, não estou numa situação de sofrimento extremo mas depois que deixei os meus anticoncepcionais o meu mundo está sendo regido pelos meus hormônios.

Eu não me reconheço: não tenho mais dores de cabeça (ótimo, provavelmente não vou morrer por causa de um aneurisma cerebral) mas estou cansada a ponto de dormir o dia inteiro e só levantar porque tenho dores no corpo de tanto ficar deitada. E enjoada. E não, não estou grávida, o que me deixaria feliz por saber exatamente o porquê desses sintomas.

Poderia ser anorexia, não fosse o fato de que comer para mim é quase um esporte. Adoro comer. E muito. Não tenho quilos a menos, nem a mais, provavelmente estou gastando todas as minhas calorias com minha rotina louca. E sim, provavelmente eu estou estressada – e é claro que todo mundo já notou a hipocondria.

Enfim, ligo para o posto de saúde e digo a enfermeira que quero marcar uma consulta. Abaixo segue o diálogo:

Ela: Por que?

Eu: Eu quero fazer um check up.

Ela: De que tipo?

Eu: Sabe, exames de sangue e essas coisas.

Ela: Por que?

Eu: Por que o quê?

Ela: Por que quer fazer exames de sangue?

Eu: Porque penso que posso ter… eu não lembro o nome dessa coisa em sueco… a… anemia?!

Ela: Sim, sim, eu entendo. Anemia. Mas então você pode comprar ferro na farmácia como complemento alimentar.

Eu: Sim, mas eu acho que pode ser anemia. Não sei se é anemia.

Ela: Você tem algum sintoma?

Eu: Sintoma de quê? Febre, dor de cabeça? Não. Não sabia que anemia tem sintomas! Só cansaço.

Ela: Então pode ser apenas que você precise descansar.

Eu: Tenho cansaço e dores no corpo.

Ela: Sim mas as dores no corpo são por causa da sua doença X.

Eu: Doença X???!!! Que doença X? Eu não sabia que vocês já tinham meu diagnóstico!

Ela: Está aqui no seu jornal. Você visitou o dermatologista o ano passado, não visitou?

Eu: Sim.

Ela: E qual o tratamento que você recebeu para a doença X?

Eu: Não tenho nenhuma doença X; tenho melasma e rosácea. Fui ao dermatologista por questões estéticas.

Ela: Mas está aqui no seu histórico de saúde (na Suécia, tudo o que os médicos dizem sobre você fica num histórico o qual as enfermeiras dos postos de saúde tem acesso), que você tem a doença X. Quem tem X sofre muito com cansaço e dores no corpo.

Eu:??? Sei lá do que você está falando. Nunca ouvi falar de X, não sabia que tinha essa doença e nunca fui tratada por causa de X. Eu fui ao dermatologista sim, mas foi por causa de uma mancha no rosto e inflamações na pele, como eu disse, melasma e rosácea. Eu definitivamente não sei do que você está falando!

Ela: Você não a Maria Helena blá blá blá?

Eu: Sim.

Ela: Você não tem uma mancha sobre o nariz?

Eu: Não!!…??

Ela: Você tem certeza de que não foi tratada de X?

Eu: Absoluta.

Ela: Em que partes do corpo você sente as dores?

Eu: (morrendo de vontade de dizer aqui óÓÓó… a consulta agora é pelo telefone???). Nos braços.

Ela: Nos dois?

Eu: Sim. Nos dois braços, no ombro direito, atrás da cabeça. (decidi exagerar, já que o negócio era estar meio morrendo…). E também nas pernas e nas costas. 

Ela: Tem certeza que você não sabe o que é a doença X?

Eu: Eu nunca havia ouvido alguém falar disso antes de conversar com você hoje.

Ela: Então seria melhor você ver um médico.

Eu: Foi exatamente por isso que eu liguei, se você lembra (uá tá faqui mem???).

Ela: Ok. O primeiro horário vago é…

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Isso tudo e eu vou pagar pela consulta. Mas agora estou fazendo uma lista de tudo o que quero falar para o médico. Talvez seja a última vez que consiga marcar uma consulta. Vai que eu peguei a enfermeira mais boazinha do pedaço??

Pensa que é fácil?

Feminismo de meia tigela

Mais uma do facebook: tenho o azar de topar com demagogos o tempo inteiro. Gente que tem o maior discurso para qualquer coisa. E eu entro, fácil fácil. Infelizmente, não para concordar, mas para ser do contra. O Joel diz que nunca conheceu alguém que cai tão fácil nas falácias de propagandas como eu; e é verdade. Por outro lado, nem sempre o discurso massivo me corrompe e eu tenho o azar de, ou melhor, a burrice de me irritar e bater de frente com demagogos facebookianos que encontro por aí. Quando há qualquer idiota discursando sobre o óbvio, lá vou eu bater de frente (sabem, igual aos insetos bestas que ficam batendo de contra luz? Sou eu). Nesse fim de semana descobri, num desses meus rompantes, que não passo de uma analfabeta funcional.

Nem vou entrar no mérito da questão do analfabetismo funcional, eu não teria a audácia de explicar isso e apontar os meus dedos sujos para os demais. Mas, decidi definitivamente que está na hora de eu ser feminista. E como toda boa feminista tem que ser chata, decidi começar a praticar o meu discurso aqui no blog.

Sempre me irrito com gente que fala mal de pobre e mais ainda, gente que fala mal do Bolsa Família. A frase mais repetida do facebook é que os beneficiários do bolsa família são os culpados pela corrupção do Brasil, uma vez que o BF é um programa do PT, e que só no PT é que estão os políticos corruptos do Brasil que usam o programa para continuar no poder – porque afinal, todos os milhões de beneficiários do programa votam no PT. E só no PT.

Obeservação: as colocações do parágrafo acima são um resumo generalizado, é óbvio! Mas o que é um peido para quem tá cagado, não é mesmo?

E o que tem toda essa conversa de Bolsa Família (mais corrupção e PT) a ver com feminismo? Tem a ver que eu acabei de decidir que todo mundo que se diz contra o programa Bolsa Família é MACHISTA.

Porque o programa Bolsa Família é acima de tudo um programa de promoção de mulheres: 90% dos beneficiários do bolsa família são beneficiáriAS, ou seja, mulheres. São as mulheres que são beneficiáriAS do bolsa porque são elas que são os chefes da família depois de serem abandonadas com cinco filhos pelos homens. Assim, não importa muito quem é o homem da casa porque eles vão e vem, mas a mulher sempre fica com as crianças e é por meio dela que o programa atinge a população infato-juvenil miserável do país.

É mais do que certo que o programa tem ajudado a melhorar a qualidade de vida de crianças e adolescentes principalmente porque ele deu aos beneficiados a possibilidade de continuarem na escola. Se a escola tem boa qualidade ou não, essa é uma questão educacional complementar ao programa, uma questão que tem que ser debatida e corrigida por meio das políticas de educação e não por meio da suspensão das políticas de assistência social e transferência de renda.

O livro “Vozes do Bolsa Família” (eu falo sobre ele abaixo) mostra que as beneficiárias sentiram pela primeira vez – por meio do programa – o que significa ter uma fonte de renda regular. Será que eu preciso relembrar que a média do benefício é de R$119 mês por família? Você já se imaginou ficando feliz por causa disso? Pode imaginar qual será que era a situação anterior dessa mulher, qual o grau de miséria, marginalização e submissão ao qual ela vivia para ficar feliz ao receber R$119 mensais? No nordeste – ah, o Nordeste é o prato cheio dos facebookianos preconceituosos, ops! MACHISTAS – o programa tem ajudado a tirar as mulheres da prostituição. Se R$ 119 mensais faz com que as mulheres parem de se prostituir, dá para chegar a conclusão simples de que o que elas ganhavam fazendo programa um mês inteiro era menos do que isso. Sente o drama?

Eu podia encher o meu texto de referências mas é tanta coisa! Ainda assim deixo aqui um texto curto da Carta Capital apenas a modo de tira gosto. Só para ter uma ideia, a cidade de Nova Iorque copiou o modelo do programa. É claro que eles devem ter melhorado a coisa, afinal lá nos EUA tudo é perfeito, mas o meu intuito não é convencer a ninguém de que o programa é perfeito e sim que essa propagação ridícula de preconceito machista no facebook tem que acabar!

E não tem que acabar porque eu quero e sim porque tá na hora de refletir: quando as pessoas compartilham que as beneficiárias do bolsa família são as responsáveis por reeleger candidatos corruptos estão afirmando que mulheres não sabem escolher na hora de votar. Quando o pessoal fica compartilhando que toda beneficiária deveria ter o título de eleitor confiscado está afirmando que as mulheres tem que perder o direito de votar. Quando você fica dando curtir para gente que compartilha que o programa é feito para sustentar vagabundas você está afirmando que mulheres e crianças não precisam ter seus direitos atendidos. Em resumo, você que faz isso é um machista que não quer ver as mulheres independentes e tendo uma vida melhor.

E se você é mulher, vou ser ainda mais cruel e usar todo meu veneno feminista recém adquirido: eu tenho vergonha da sua postura.

Preciso abraçar a minha cunhada por me contaminar com essas ideias feministas.

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Aqui vai uma entrevista com a professora de teoria social da Unicamp, Walquíria Leão Rego que escreveu o livro “Vozes do Bolsa Família”. Note que ela sempre se refere a “elas” e “delas” quando fala do programa, em referência as mulheres que são beneficiárias.

Recomendo também a leitura desse post sobre o livro.

Eu quero muito esse livro.

Facebook

Muita coisa pra falar, pouca organização. Andei fazendo muita coisa… mas precisava usar o espaço para desabafar – como sempre. Então hoje consegui colocar tudo em ordem e lá se vão três posts – não se assuste, isso não vai acontecer sempre.

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Esse mês teve o dia mundial de combate ao suicídio e, como não podia deixar de ser, eu tratei do tema sob o viés da minha opinião furada de analfabeta funcional nesse post aqui. Aliás, recebi um e-mail muito bacana de um Humberto Correia depois de publicar o post, agradecendo o meu empenho da divulgação e discussão do tema (oi?). Claro que me senti mas…

Todo esse papo de depressão, suicídio e doenças psíquicas mexem comigo. Uma, que são do meu interesse afinal, uma vez na minha vida eu já havia sonhado em ser psicóloga. Duas, que eu tive depressão então… né. Enfim, já percebeu o quanto o facebook anda “poluído de gente se sentindo triste”?

Eu fiquei chocada quando o pessoal começou a compartilhar o “humor do dia” por meio daqueles bonequinhos. Tem sempre alguém que aparece no roll da sua página inicial se “sentindo triste”. Uns assim  e outros assim . Sem contar na turma do povo que usa o símbolo para mostrar que está se sentindo desanimado…

E daí né? Não passa de um bando de gente manhosa tentando chamar a atenção. Jura? Bom, pode até ser, no início, porque assim que alguém escreve um “se sentindo triste” ou “desanimado” sempre tem uma Maria curiosa indo lá perguntar: por que fulano? O que aconteceu Zé?

Tá, eu sou daquele tipo que entra no facebook e dá uma rolada na página inicial e depois cai fora. Tenho 300 contatos no facebook – acho que devia ter menos – mas dentro desses 300 contatos percebi que há três pessoas – uma para cada cem – que ao menos uma vez por semana marcam seu status com um “se sentindo triste”. Eu percebo que fica cada vez mais difícil de ver, uma vez que ninguém “curte” um status em que alguém diz que está malecho e menos gente ainda se importa sobre o porquê do cidadão estar fazendo manha – again.

Comentei isso com algumas pessoas e a maioria delas me deu dicas de como excluir o status dos cidadãos tristonhos e desanimados do meu roll da página inicial. Pô, não são meus amigos, afinal, facebook é para você ter contatos e eu entendo que tem gente que usa o “face” só para diversão, então essa coisa do “estar triste” não encaixa bem nos planos. Eu acho que se fossem amigos eu ficaria preocupada, mas como não, eu apenas fico pensativa e com pena, imaginando quantas pessoas eliminaram o sujeito de suas atualizações porque ele sempre está para baixo.

Nem eu gosto de gente que fica o tempo inteiro reclamando, mas mesmo assim não posso deixar de questionar… estou vendo coisas? Vocês também tem contatos gritando no facebook toda semana que estão se sentindo tristes? Quantas dessas pessoas recebem alguma atenção? Quantas delas tem histórico de depressão ou outro transtorno psíquico?