Aborto

Já que hoje é dia das bruxas aproveitei para escrever sobre algo que é o próprio demônio para muitas pessoas e provavelmente, no mínimo um bicho papão ou uma besta de sete cabeças para outras. Antes de colocar minha opinião pessoal sobre o tema quero explicar como é que funciona o aborto na Suécia.

Em primeiro lugar,  abort (aborto – en ord) em sueco é um termo usado apenas para quando a mulher decide interromper a gravidez. No caso de aborto espontâneo é usado missfall (ett ord) quando ocorre antes da 22a semana de gravidez; a partir daí a morte da criança já entra em outras estatísticas (morte intra-uterina). Segundo o site 1177.se (um dos maiores portais de saúde da Suecia) cerca de 15% das gestações terminam em abortos espontâneos na Suécia.

Segundo dados do Socialstyrelsen (seria como o Ministério de Desenvolvimento Social sueco), cerca de 110 mil crianças nascem a cada ano na Suécia. Ainda segundo a mesma instituição, a cada ano são realizados entre 35 a 40 mil abortos na Suécia.

O aborto é lei na Suécia desde a década de 30. Em 1938, um mulher que houvesse sido estuprada ou que pudesse provar que corria risco de morte devido a gestação podia abortar. A lei do aborto sofreu pequenas modificações em 1946 e 1964, que incluíam outras causas pelas quais o aborto era permitido. O problema das leis pró aborto na Suécia daquele tempo era que cada caso deveria ser julgado individualmente por uma espécia de comitê; ou seja, em cada um deles a mulher tinha que provar a real necessidade daquele aborto, o que fazia com que a decisão (contra ou a favor) fosse emitida, na maioria dos casos, apenas depois do quinto mês de gestação.

Assim, se uma mulher tinha o direito de abortar mas já estava com a gravidez avançada, ela seria atendida num posto de saúde comum e teria uma espécie de cesariana ou parto induzido, por meio do qual o bebê era forçado a nascer e depois deixado para morrer. Esse tipo de procedimento causou muita contradição principalmente dentro do sistema de saúde sueco. Afinal, a com o avanço tecnológico era possível fazer com que muitas dessas crianças sobrevivessem ao parto prematuro.

Para que essa situação fosse resolvida, em 1974 foi implantada uma nova lei do aborto na Suécia (chamada SFS 1974:595) pela qual todo o processo sofreu uma enorme simplificação: sendo vontade da mulher, e esta expressando a sua decisão antes da 18a semana, todo e qualquer tipo de gestação poderia ser interrompida. A lei de 1974 deixa claro que todas as mulheres suecas tem o direito de realizar um aborto, e em 2008 uma nova redação da lei abriu ainda mais a extensão da lei: todas as mulheres na Suécia, com ou sem cidadania, com ou sem residência fixa ou laços claros com o país tem o direito de abortar.

Após a 18a semana de gestação concluída, se a mulher quiser fazer um aborto deve entrar em contato com autoridades e provar que: foi estuprada; o bebê apresenta uma mal formação; a mulher fez uso de drogas, bebidas e cigarros durante todo o período de gestação e não quer a criança. Ainda assim, o aborto só pode ser concretizado até a 22a semana de gestação porque a partir desse período há evidências de que o feto pode se desenvolver e se transformar em uma criança saudável fora do útero materno. Todo e qualquer caso em que a mulher faça a requisição de aborto após essa data será julgada por um tribunal especial.

Toda mulher que decide pelo aborto na Suécia tem o direito ao anonimato (se é da vontade dela), de atendimento humanizado – ou seja, ninguém trata ela como uma pecadora por decidir abortar – e acompanhamento psicosocial. Nos postos de saúde da mulher há uma espécie de assistente social, chamada de curadora, que vai ser a responsável por acompanhar a mulher durante o processo. A curadora vai conversar com a gestante para que ela possa se sentir segura na sua decisão, tanto antes como depois do ato consumado. O papel da curadora não é incentivar ao aborto e tampouco tentar convencer a mulher a tomar o rumo contrário: a curadora vai apenas escutar, orientar e apoiar a mulher que toma a decisão do aborto. Esse atendimento é opcional.

O tipo mais comum de aborto realizado na Suécia é o aborto medicinal.

Enfim… eu não penso que os suecos sejam tristes ou sei lá o que mais na Suécia porque eles não tem Deus no coração e praticam o aborto. Ainda assim, eu sou contra o aborto. Sou contra o aborto mas não contra uma lei que torne a decisão do aborto pessoal.

Até bem pouco tempo atrás eu era radicalmente contra o aborto. E não, não foi a minha mudança para a Suécia que me fez refletir. Na verdade, foi uma moça lá da cidade em que eu moro: um dia a gente estava praticando argumentação em inglês, lá no curso de conversação (viu só Silvio, fazer inglês com você mudou a minha vida!). Uma das frases era justamente: I think abortion is right/wrong because… Eu olhei para minha parceira e disse que “eu não acho que aborto é errado, porque simplesmente é errado”. Ela olhou para mim e disse que ela achava que havia casos em que o aborto era a coisa certa a fazer. Como a gente estava falando de questões controversas, o negócio pulou do inglês para o português mesmo e a gente começou a debater. Eu não estava sozinha no grupo do “aborto é errado”, ainda assim, eu lembro que nenhum dos argumentos que o povo todo apresentou fez mais sentido do que o quê aquela guria me disse: eu só sei que o mundo não é perfeito, e sei que às vezes há coisas que acontecem que a gente não tem poder de impedir; então eu penso que o aborto não é certo, mas também não é certo julgar quem faz um.

Isso definitivamente me incomodou muito. Foi a primeira vez que eu percebi que na maioria das vezes em que discuti o aborto eu classificava a questão de forma bem simples: as mulheres certas e as mulheres erradas. Só o tipo de mulher “errada” é que faz um aborto, porque é uma pessoa sem coração que está tirando uma vida. Só para constar: eu acredito que a vida começa na concepção, e não estou incentivando ao aborto e sim somente compartilhando a minha experiência. Por muito tempo eu pensei que quem abortasse merecia o inferno. Agora eu já não penso mais assim porque não acredito que nenhuma mulher que tenha sofrido a experiência veja isso com saudade, com nostalgia do tipo: ah, não vejo a hora de fazer de novo! Abortar não é o sonho de ninguém. Já conceber uma criança pode ser.

Seria fantástico que nenhuma mulher precisasse abortar. Num mundo cor de rosa, onde não houvessem estupradores (nem de criancinhas), nem opressão, nem drogas, nem dificuldades financeiras e onde, principalmente, a mulher não fosse vista como porca reprodutora, ninguém precisaria de leis sobre aborto. Ou talvez sim.

Quem sabe né?

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Pequenas Grandes Coisas da Minha Vida Sueca #29

Eu já falei que esse mês completei dois anos e meio de Suécia?

Eu já disse também que parecem mais com duas décadas e meia?

Ok. Ontem voltei a escola e, como eu sempre fiz, quero reclamar. Sim, é da minha natureza ser uma chorona e outra, se eu não reclamar, vão achar que tudo por aqui é muito fácil. E é fácil, se você tem cabelos loiros e olhos azuis e sangue sueco e fala sueco desde o nascimento e… bom, chega de me fazer de coitada.

Tenho que estudar mais sueco e mais inglês para poder entrar na universidade. Por causa de falta de atenção (yes, it was my fault) eu não estudei inglês lado a lado com sueco e acabei por cometer também algum erro em junho (o último junho) por causa do qual minha inscrição para os cursos que eu preciso nunca chegaram ao Vux. 

Mas não há problemas porque sempre há mais cursos começando dentro de um período curto de tempo. Fiz inscrição em agosto e comecei essa semana, tanto SAS 3 como Inglês 6. Além disso, aproveitei o tempo depois do passo em falso para fazer a avaliação do meu nível de inglês e, uau! Quase parei no Inglês 7. Se não fosse o quase nessa nossa vida né?

Enfim, eu acho um saco estudar inglês. E não gosto de falar inglês. Mas eu preciso um pedaço de papel que diga que eu estudei inglês suficiente para entrar na universidade. Já a questão do sueco não é tão difícil: eu gosto de falar sueco, só acho um saco ter que estudar sueco na escola.

Primeiro porque não importa se você já estudou na escola ou não, o primeiro dia de aula será de apenas uma hora e meia de enrolação. Eles vão apresentar a escola, a filosofia da escola, vão explicar porque aquela escola é a melhor de Göteborg (todas as escolas que eu já estudei – e foram três – dizem a mesma coisa) e daí explicam alguma particularidade da metodologia adotada pela escola. Na escola em que estou (ABF Vuxen) eles tem uma plataforma online com uma sala online onde o aluno tem que entregar os trabalhos. Legal né?

Sim, não fosse o caso que o primeiro dia em sala de aula, o professor repete a mesma coisa. Aí eu penso: para quê um dia de introdução sobre a escola, com power point, bla bla bla, alunos (suecos) que explicam porquê a escola é muito boa (para um monte de estrangeiros); se o professor vai repetir tudo de novo? É bom mesmo receber a informação várias vezes. E é bom que isso conta como hora-aula, afinal, estamos aprendendo MUITO com isso.

De verdade, a única coisa que achei importante depois de todo o bla bla bla informativo foi apresentarem pessoas de contato para que os alunos que tem dificuldades ou precisam de apoio extra durante o curso possam receber ajuda, tanto no sentido educacional como social (dificuldade financeira, bullying).

O que mais me incomodou foi o que o professores tocaram o terror geral ontem. Tanto na disciplina de inglês como na de sueco. As duas professoras repetiram veementemente que ninguém consegue terminar o curso em nove semanas (eu me inscrevi para um curso de nove semanas, nos dois casos). Eles dizem que são muito trabalhos (4 no curso de sueco e 7 no curso de inglês, um total de 11) e que é impossível para o aluno concluir isso em dois meses.

Eu fiquei pensando por quê? Eu vou estudar apenas inglês e sueco, nada mais. Tenho 7 dias na semana para fazer isso. O que pode ser tão terrível assim? Eu não olhei nenhum teste antigo do inglês, mas sei que gramática não é meu forte. Eu venho estudando um pouco ali e outro aqui desde que soube que teria que fazer o curso. O que mais preciso melhorar, nos dois casos, é a escrita.

Cada indivíduo tem uma realidade diferente, e eu sei que fica realmente difícil para quem está estudando outras disciplinas do ensino médio ao mesmo tempo. Pessoas com dificuldade de aprendizagem ou gente preguiçosa e que costuma procrastinar (eu por exemplo) tem mais problemas também. Mas… eu vou estudar apenas sueco e inglês. Apenas isso. Do total dos 11 trabalhos que preciso apresentar 3 são orais. Para mim toma o maior tempão escrever, mas no mais…

Eu não entendo. Procurei as duas professoras para conversar e disse que quero tentar terminar o curso em nove semanas. Sabe o que elas me disseram? Você não vai conseguir. Tipo, na lata. A professora de sueco é a mesma do SAS 1 (aquela que eu gostava) mas a do inglês nunca me viu mais gorda. Ela não sabe quem eu sou, o que eu quero, qual a minha motivação. Aliás, nenhuma das duas sabem. Como elas podem dizer já que eu não serei capaz de concluir o curso em nove semanas? Escrevi até um post no facebook ontem dizendo que estava morrendo de saudade do meu último professor de inglês, que sempre dizia que a dedicação pessoal dá o tom do seu estudo. Quando a questão é vocabulário, não há outra forma de aprender a não ser sozinho: lendo, ouvindo música, rádio, assistindo filmes e séries na língua que você quer aprender. Escrever também depende de treino.

Eu não tenho dislexia. Eu gosto de ler. Eu odeio inglês mas preciso aquela porcaria de papel. Eu tenho boa memória. Eu tenho preguiça mas tracei uma meta! E oito semanas (essa a gente já perdeu ouvindo como a escola é boa e como os dois cursos são difíceis) para estudar. Será mesmo tão impossível?

Fiquei muito triste ontem e cansada dessa merda de ser estrangeira. A professora do sueco me disse que mesmo quem é sueco tem dificuldade em terminar o curso com uma boa nota… bem no tom do como é que você, estrangeira, vai conseguir?

Eu me sinto excluída nesse país. As pessoas colocam todos os estrangeiros dentro de um mesmo saco e acham que todo mundo tem o mesmo tipo de dificuldade. Não importa aonde: seja na busca por emprego, no trabalho ou na escola, eu sou tratada como um ser que não entende. Talvez eu não entenda mesmo, mas e daí? Até a minha capacidade de acreditar em mim mesma e tentar querem tirar de mim?

Ainda quero meu certificado em nove semanas. Se o blog ficar em silêncio, vocês já sabem porquê.

 

 

 

E está aberta a temporada de caça…

No dia 14 de outubro foi aberta a temporada de caça aos alces. O alce é símbolo nacional e é tratado como animal selvagem na Suécia – não é permitida a criação de rebanhos de alces; portanto, a única forma de conseguir a carne de alce é por meio da caça. Além disso, a temporada de caça serve para que se faça o controle populacional do bicho que é considerado um verdadeiro pesadelo nas estradas, principalmente durante outuno/inverno quando os dias mais curtos e as longas noites escuras fazem ser quase impossível de o enxergar (mesmo ele sendo tão grande).

Foto: Kent Kristenson. Fonte: Länstyrelsen Västra Götaland

Foto: Kent Kristenson. Fonte: Länstyrelsen Västra Götaland

Bom, estamos no país da organização e mesmo que a caça seja uma prática tão selvagem não escapa de ter uma rigorosa orientação. Além disso, vou deixando claro desde agora que esse post tem como objetivo apenas esclarecer como é que se dá uma coisa que é bastante comum na Suécia: a caça ao alce. Não estou apoiando a causa, defendendo ou tentando fazer uma análise. Vou apenas apresentar os fatos.

Primeiro que para ser um caçador na Suécia é preciso fazer um curso de caça. Após o curso, ser aprovado em uma prova da associação sueca de caça (Jägareförbundet). Sem a licença de caçador (que só vem com o curso e a aprovação na prova) não é possível comprar armas de  caça pois para tanto é imprescindível o porte de uma outra licença expedida pela polícia. Para obter a licença da polícia (só reforçando) é preciso o certificado de participação no curso de caçador e respectiva licença. Não há idade mínima para participar do curso de caça ou para obtenção de licença como caçador, mas a idade mínima para portar espingardas de caça é de 18 anos.

O departamento responsável pela supervisão das temporadas de caça na Suécia é o Länstyrelsen, que podemos porcamente comparar com o nosso governo do estado. Todas as informações que repasso a vocês nessa página retirei da Länstyrelsen Västra Götaland – acredito que as regras sejam as mesmas e tenham uma orientação nacional, sendo que apenas a extensão das florestas, da população e do número de animais que podem ser abatidos por região é que diferem – do fórum da página do Jägareförbundet e da Wikipédia (em sueco).

Primeiro, a temporada de caça tem data para começar e terminar: 14 de outubro de 2013 a 28 de fevereiro de 2014. O Länstyrelsen faz o registro das permissões de caça, do número de alces existentes no território e do número de animais que podem ser abatidos (portanto, cada animal abatido deve ser referenciado a instituição), assim como o controle das áreas onde é permitido a caça. Com a temporada de caça aberta é comum que alces sejam vistos nas cidades e pequenas vilas e é definitivamente proibido atirar em animais que estejam dentro ou próximos de áreas urbanas ou povoações.

Existem cinco tipo diferentes de áreas de caça. A licença a ser requisitada depende do tipo de área em que a pessoa irá caçar. As áreas são rigorosamente controladas e administradas por associações de caçadores, associações de defesa dos alces e outras organizações semelhantes. Ao final de cada período de caça é necessário que seja enviado um relatório formal (por parte do administrador da área) em que conste o número de alces abatidos (com descrição de sexo e tamanho/idade do animal) e quando. Caso os relatórios não sejam enviados, as áreas de caça perdem sua licença e passam a ser chamadas de área de caça tipo K, onde somente é possível abater “novilhos” de alce.

Além da área tipo K, existem as áreas Ä, A, B e E. Uma área Ä conta com uma população de alces que precisa ser controlada, daí a caça (ainda que seguindo o plano de caça) é mais aberta. Já a área tipo A precisa de licença especial, porque conta com um número X de cabeças a serem abatidas (independente da idade/tamanho do bicho). Áreas do tipo B, E e K são áreas em que o número de alces a serem abatidos são estritamente controlados: em áreas tipo B apenas um alce (independente de tamanho/idade) pode ser abatido; nas áreas E somente um novilho de alce pode ser abatido e nas áreas K, como citado acima, somente novilhos de alce.

Os pedidos de licença devem ser enviados até o fim de maio do ano corrente para serem analisados pela Länstyrelsen (to falando do que estava escrito na página da Länstyrelsen da região em que eu moro, Västra Götaland). Cada pedido deve conter o nome do caçador administrador da área (ou presidente da associação de caçadores), o nome dos caçadores que poderão atuar na área, as dimensões da área e o plano de caça para aquele local, aprovado também pela associação de defesa dos alces. Pelo que entendi, o registro das áreas deve ser enviado anualmente para que o Länstyrelsen tenha o controle do nome dos caçadores registrados, do plano de caça e de eventuais mudanças na área (se a população de alces ficou menor ou maior pode mudar de categoria). Além disso, é preciso desembolsar 2300 coroas suecas (ou aproximadamente R$ 800).

Além de pagar pela licença do território o caçador paga ao Länstyrelsen uma taxa por cada cabeça abatida: 100 coroas suecas (cerca de R$ 35) por cada novilho e 850 coroas suecas (cerca de R$300) por cada animal adulto. Pelo que vi em um fórum na internet (um fórum qualquer tipo Yahoo) um animal adulto pode render até 250 kg de carne limpa. Bom, no fim das contas, depois de somar tantas licenças (licença de caçador, licença para arma, licença para caçar naquele território mais a taxa final por cabeça) entendo porque a carne de alce é cara.

Acho interessante mencionar também que é feito um controle do número de fêmeas e machos que são abatidos. A orientação do Länstyrelsen é de que devem ser abatidos a mesma quantidade de machos como de fêmeas e é aprovada apenas uma diferença percentual de 10% – por exemplo, do total de animais abatidos 40% eram fêmeas e 60% eram machos, ou vice e versa. A abertura para essa diferença percentual é possível pois é bom lembrar que há áreas em que é possível abater apenas um animal. Se abateu uma fêmea, essa área vai contribuir para que o percentual de fêmeas abatidas seja maior (e vice versa). É proibido abater uma mamãe alce com filhote, a menos que o mesmo já esteja na categoria de novilho e tenha sido abatido primeiro – o novilho não vai ficar grudado na mãe, aí vai alguém e atira no bicho e depois percebe que a mãe estava ali por perto.

Fonte: Google

Fonte: Google

Conheço pessoalmente apenas uma caçadora (sim, caçadorA). Penso que aqui na região de Göteborg não seja tão comum por causa da densidade populacional. Mas tem gente que vai para o norte, caça em grupos com cães e tudo o mais. Outros ficam na moita em umas casinhas de observação que a gente vê por todo o canto (como essa aí ao lado). Tem gente que curte messssmoooo ficar sozinho.

A população de alces na Suécia está estimada em cerca de 270 mil cabeças (segundo o amigo Wiki). O número de caçadores registrados é maior do que a população do bicho: 300 mil, sendo que apenas 5% deles são mulheres (olha a minha amiga esta poderosa!). De acordo com as estatísticas que encontrei na página do Svenska Jägareförbundet foram abatidos cerca de 96 mil animais durante a temporada de caça 2012-2013; ou 15 mil toneladas de carne. Eu provei carne de alce apenas uma vez e é deliciosa!

Gostaria de ter encontrado mais estatísticas relacionadas a caça, por exemplo, quantos alces são abatidos aqui na minha região. Mas o älgdata – que é um sistema de dados sobre os resultados das temporadas de caça que você encontra no site do Länstyrelsen – é extremamente complicado, e não gera um relatório tipo “geral” mas sim por área de caça. Mó trampo! E o mesmo acontece no site vildata. Peguei esse gráfico aqui do site Jordbruket i Siffror.

Fonte: Jordbruket i Siffror

Fonte: Jordbruket i Siffror

Um aviso aos navegantes: quem gosta de caminhar no mato durante esse período deve usar roupas coloridas pois nem sempre as placas de área de caça estão no começo do bosque (ou não são coloridas e chamativas). Devido a cor da pelagem dos alces (entre marrom e cinza escuro) usar cores semelhantes quando se está no meio da floresta pode ser um tiro no pé.

Ou na cabeça, o que é bem pior.

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Olha o tipo dessa placa!!!? Se você não sabe sueco então, nem vai dar bola para um pedaço desses de papel…

Fonte: Google

Fonte: Google

Placas de área de caça deveriam ser assim (ou parecem mais ou menos como essas):

Fonte: Google

Fonte: Google

Fonte: Google

Fonte: Google

Palavrões suecos – Parte II

Há muito tempo atrás (às vezes eu sinto como se tivesse sido há décadas) falei um pouco das palavras enormes em sueco que são verdadeiros palavrões no sentido literal da palavra. Lembram que eu partilhei no post sobre trava língua suecos umas das maiores que eu consigo dizer? Aí vai:

Hidronevrukusticadiafragamkontravibrationer.

(pausa para respirar…)

Essa belezinha aí em cima nada mais é do que soluço (ou melhor, o termo médico para o soluço). Eu chateei muito o Joel quando ele me disse isso a primeira vez… a cada pessoa que eu apresentava ele, eu dizia: “Cara, sueco é uma língua muito louca! Fala soluço para eles em sueco Joel, fala!”.

Quem perdeu esses primeiros posts do blog (quando eu tinha aquela pretensão besta de ajudar os interessados na língua) e não está entendendo nada, aqui vai uma curta explicação: no sueco, você junta uma palavra com outra e forma uma coisa gigantesca para dar nome à algumas outras coisas. Um exemplo simples: cortar é att klippa e grama é gräs. Advinha como é que fica cortador de grama? Gräsklippare. Essas junções criam palavras enormes que às vezes é difícil pacas de pronunciar. Outros exemplos: Drottningtorget e Kungsportsplatsen: no primeiro Drottning é rainha e torget é praça (Praça da rainha); e no segundo, Kung é rei, sport é esporte e platsen é local, lugar (ou Campo de esportes do Rei).

Agora e os palavrões mesmo? Aqueles que são palavras feias? Como é que o sueco xinga?

A fonte já tá aí na figura...

A fonte já tá aí na figura…

Suecos xingam muito no jeito americano. “What a fuck man?”, “fuck you” e “your ass” são alguns dos que mais ouço, sendo que com certeza o primeiro da lista tá na boca da moçada o tempo todo. Com certeza isso é resultado do fato de os suecos não assistirem nada dublado por aqui uma vez que todas as séries e filmes são apenas legendados (também, dublar em sueco deve ser o ó). E isso pega gente! Eu mesmo vivo falando shit! desde que mudei para cá.

Entre os palavrões em sueco mesmo, acho que o mais popular deles é “fy, fan…” uma espécie de “diabos!”, que eles usam tanto no início da frase como no fim. Se você usa somente o fy fica mais ou menos como o nosso “nossaaa!” e não é considerado palavrão.

Talvez seria um erro afirmar que fy fan é um dos mais utilizados, uma vez que tudo depende do tipo de grupo com o qual você está acostumado e da época não é mesmo? Novos palavrões vão e vem com a moda. Assim que mudei para cá com certeza o que eu mais ouvia é o “jävla”, que pode ser traduzido de diferentes formas, entre eles maldito, maldição ou diabo (quando se usa jävel): aquele condutor maldito! seu idiota maldito! uma impressora dos diabos! No mais, se mandamos alguém à algum lugar é ao inferno (dra åt helvet – vá para o inferno), diferente de no Brasil que mandamos à muitos lugares. Além disso há os tradicionais, como “hora” (puta), “neger” (negro), helvet (inferno) e “kärring” (cadela) ou “gubbe” (velhaco), os dois últimos no pejorativo.

Na Suécia é muito feio utilizar palavrões. Jovens e principalmente adolescentes usam muito isso, mas não é legal soltar palavrões no ambiente de trabalho e você pode levar uma cara muito feia de uma mãe se começa a soltar impropérios em frente a crianças pequenas…

No meu ambiente de trabalho muitas pessoas usam palavrões. Acho que isso se explica devido ao fato de que estou em contato com gente que tem uma história de vida difícil e que não vai se importar em usar um vocabulário apropriado, assim, a gente que trabalha com assistência social fala muito palavrão.

Isso me faz lembrar que há também os palavrões socialmente aceitos, que não significam nada de mal mas realmente soam como algo sinistro, e esses são “sjutton” (dezessete) e “tusan” (mil). “Sjutton gubbar” (dezessete velhacos) aparece até mesmo em livros infantis (lembram do Alfons? Está lá).

Döh… Se alguém perguntar, (för sjutton gubbar!) não fui eu que ensinei ok?

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Döh… eu aprendi a pouco tempo e dizem que é uma forma bem gotemburguesa de chamar a atenção de outrem, que pode ser traduzida como o “Ei você” ou aquele “ô você” ou simplesmente “ô”.

Mão esquerda na Suécia?

Eu estava passeando pelo facebook, quando achei um link super interessante com fotografias e me deparei justamente com essa aí abaixo:

Primeira manhã após a Suécia mudar o lado de dirigir da esquerda para a direita, 1967

Fonte: Pavablog

Fonte: Pavablog

Fiquei de cara!

Mão esquerda na Suécia??!

Sim. Na verdade, desde 1734 a mão nas estradas suecas era a esquerda. Mas com o advento do automóvel e o aumento do tráfego o governo sueco começou, desde o início dos anos 1900, a tentar a implantar a mão direita pensando em acompanhar a tendência internacional. Além disso, as fábricas de automóveis suecas já começaram a fabricar carros com  a direção à esquerda para o tráfego em mão direita; afinal, o mercado então não ficava restrito a Inglaterra, Japão e Austrália.

Em 1927 veio a primeira proposta do governo para que a mão direita fosse implantada no país. A ideia não colou e a proposta foi reapresentada em 1934, 39, 41, 43, 45 e 1953. Em 1953 um comitê para a análise da ideia foi formado. Esse comitê apresentou um estudo sobre o caso que concluía (mais ou menos) que:

–  não era correto dizer que a mão esquerda sueca era mais perigosa do que a mão direita de outros países;

– não era fácil decidir se (com a mão esquerda) seria mais seguro ter o volante à direita ou à esquerda do veículo;

– que condutores estrangeiros, desacostumados a mão esquerda, poderiam ser equiparados à condutores bêbados;

– que não era possível definir se a mão direita era mais segura do que a mão esquerda; e,

– que ter países vizinhos que usam a mão direita era um indicador de que a Suécia também deveria optar pelo mesmo.

Em 54 a proposta foi reapresentada, dessa vez num tom mais ameaçador (do tipo já é hora de a Suécia implantar a mão direita). O comitê de análise da proposta praticamente se dividiu em duas frentes de campanha: kommittén för högertrafikfolket (comitê pelo povo da mão direita) e o vänstertrafikkommittén (comitê pela mão esquerda). O primeiro era formado principalmente por representantes do Högerpartiet e Folkpartiet (Partido da Direita e Partido do Povo) e o segundo pelos Socialdemokraterna e Bondeförbundet (Partido Social Democrata e Associação de Agricultores – o atual Centerpartiet ou Partido do Centro).

O bicho pegou e em 16 de outubro de 1955 foi realizado um referendo popular. O resultado? 82,9% dos suecos votaram pela mão ESQUERDA. Ou seja, ninguém queria a mudança. Aí os projetos do governo forram enterrados por mais 5 anos.

Em 1960 o governo reacendeu o debate e, após uma manobra política que desconsiderou a consulta popular de 1955 e rejeitou a proposta de um novo referendo, o projeto foi posto em votação e foi aprovado em 8 de março de 1963.

Ainda em 1963, mas em 10 de maio, o parlamento sueco decidiu que a mudança definitiva da mão esquerda para mão direita se daria em 1967. Esse tempo era preciso, era claro, para que o país se preparasse. Os custos com a mudança (de placas, da campanha pela conscientização dos motoristas e readaptação das estradas, ruas e rodovias) foi estimado em 600 milhões de koroas na época.

E eis que chega o ano de 1967 e até uma música popular acabou virando o jingle da mudança: Håll dig till höger Svensson, de The Telstars. A canção usa o causo do momento – a implantação da mão direita – para criar uma expressão popular semelhante a nossa “é melhor você andar na linha”. Infelizmente, eu não achei o texto dela, mas o que posso entender da música (não, eu ainda não posso entender músicas em sueco sem ter um texto) é que um cara começa a aprontar e a turma do refrão repete que é melhor ele se manter a direita senão quer estragar tudo.

A mão direita entrou em vigor no dia três de setembro de 1967. Esse dia também foi conhecido como Dia H (direita=Höger em sueco). Pela foto aí de cima deveria ter sido conhecido como o Dia K (de Kaos).

É melhor manter-se à direita, Svensson.

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Fonte: Wikipédia.