Aborto

Já que hoje é dia das bruxas aproveitei para escrever sobre algo que é o próprio demônio para muitas pessoas e provavelmente, no mínimo um bicho papão ou uma besta de sete cabeças para outras. Antes de colocar minha opinião pessoal sobre o tema quero explicar como é que funciona o aborto na Suécia.

Em primeiro lugar,  abort (aborto – en ord) em sueco é um termo usado apenas para quando a mulher decide interromper a gravidez. No caso de aborto espontâneo é usado missfall (ett ord) quando ocorre antes da 22a semana de gravidez; a partir daí a morte da criança já entra em outras estatísticas (morte intra-uterina). Segundo o site 1177.se (um dos maiores portais de saúde da Suecia) cerca de 15% das gestações terminam em abortos espontâneos na Suécia.

Segundo dados do Socialstyrelsen (seria como o Ministério de Desenvolvimento Social sueco), cerca de 110 mil crianças nascem a cada ano na Suécia. Ainda segundo a mesma instituição, a cada ano são realizados entre 35 a 40 mil abortos na Suécia.

O aborto é lei na Suécia desde a década de 30. Em 1938, um mulher que houvesse sido estuprada ou que pudesse provar que corria risco de morte devido a gestação podia abortar. A lei do aborto sofreu pequenas modificações em 1946 e 1964, que incluíam outras causas pelas quais o aborto era permitido. O problema das leis pró aborto na Suécia daquele tempo era que cada caso deveria ser julgado individualmente por uma espécia de comitê; ou seja, em cada um deles a mulher tinha que provar a real necessidade daquele aborto, o que fazia com que a decisão (contra ou a favor) fosse emitida, na maioria dos casos, apenas depois do quinto mês de gestação.

Assim, se uma mulher tinha o direito de abortar mas já estava com a gravidez avançada, ela seria atendida num posto de saúde comum e teria uma espécie de cesariana ou parto induzido, por meio do qual o bebê era forçado a nascer e depois deixado para morrer. Esse tipo de procedimento causou muita contradição principalmente dentro do sistema de saúde sueco. Afinal, a com o avanço tecnológico era possível fazer com que muitas dessas crianças sobrevivessem ao parto prematuro.

Para que essa situação fosse resolvida, em 1974 foi implantada uma nova lei do aborto na Suécia (chamada SFS 1974:595) pela qual todo o processo sofreu uma enorme simplificação: sendo vontade da mulher, e esta expressando a sua decisão antes da 18a semana, todo e qualquer tipo de gestação poderia ser interrompida. A lei de 1974 deixa claro que todas as mulheres suecas tem o direito de realizar um aborto, e em 2008 uma nova redação da lei abriu ainda mais a extensão da lei: todas as mulheres na Suécia, com ou sem cidadania, com ou sem residência fixa ou laços claros com o país tem o direito de abortar.

Após a 18a semana de gestação concluída, se a mulher quiser fazer um aborto deve entrar em contato com autoridades e provar que: foi estuprada; o bebê apresenta uma mal formação; a mulher fez uso de drogas, bebidas e cigarros durante todo o período de gestação e não quer a criança. Ainda assim, o aborto só pode ser concretizado até a 22a semana de gestação porque a partir desse período há evidências de que o feto pode se desenvolver e se transformar em uma criança saudável fora do útero materno. Todo e qualquer caso em que a mulher faça a requisição de aborto após essa data será julgada por um tribunal especial.

Toda mulher que decide pelo aborto na Suécia tem o direito ao anonimato (se é da vontade dela), de atendimento humanizado – ou seja, ninguém trata ela como uma pecadora por decidir abortar – e acompanhamento psicosocial. Nos postos de saúde da mulher há uma espécie de assistente social, chamada de curadora, que vai ser a responsável por acompanhar a mulher durante o processo. A curadora vai conversar com a gestante para que ela possa se sentir segura na sua decisão, tanto antes como depois do ato consumado. O papel da curadora não é incentivar ao aborto e tampouco tentar convencer a mulher a tomar o rumo contrário: a curadora vai apenas escutar, orientar e apoiar a mulher que toma a decisão do aborto. Esse atendimento é opcional.

O tipo mais comum de aborto realizado na Suécia é o aborto medicinal.

Enfim… eu não penso que os suecos sejam tristes ou sei lá o que mais na Suécia porque eles não tem Deus no coração e praticam o aborto. Ainda assim, eu sou contra o aborto. Sou contra o aborto mas não contra uma lei que torne a decisão do aborto pessoal.

Até bem pouco tempo atrás eu era radicalmente contra o aborto. E não, não foi a minha mudança para a Suécia que me fez refletir. Na verdade, foi uma moça lá da cidade em que eu moro: um dia a gente estava praticando argumentação em inglês, lá no curso de conversação (viu só Silvio, fazer inglês com você mudou a minha vida!). Uma das frases era justamente: I think abortion is right/wrong because… Eu olhei para minha parceira e disse que “eu não acho que aborto é errado, porque simplesmente é errado”. Ela olhou para mim e disse que ela achava que havia casos em que o aborto era a coisa certa a fazer. Como a gente estava falando de questões controversas, o negócio pulou do inglês para o português mesmo e a gente começou a debater. Eu não estava sozinha no grupo do “aborto é errado”, ainda assim, eu lembro que nenhum dos argumentos que o povo todo apresentou fez mais sentido do que o quê aquela guria me disse: eu só sei que o mundo não é perfeito, e sei que às vezes há coisas que acontecem que a gente não tem poder de impedir; então eu penso que o aborto não é certo, mas também não é certo julgar quem faz um.

Isso definitivamente me incomodou muito. Foi a primeira vez que eu percebi que na maioria das vezes em que discuti o aborto eu classificava a questão de forma bem simples: as mulheres certas e as mulheres erradas. Só o tipo de mulher “errada” é que faz um aborto, porque é uma pessoa sem coração que está tirando uma vida. Só para constar: eu acredito que a vida começa na concepção, e não estou incentivando ao aborto e sim somente compartilhando a minha experiência. Por muito tempo eu pensei que quem abortasse merecia o inferno. Agora eu já não penso mais assim porque não acredito que nenhuma mulher que tenha sofrido a experiência veja isso com saudade, com nostalgia do tipo: ah, não vejo a hora de fazer de novo! Abortar não é o sonho de ninguém. Já conceber uma criança pode ser.

Seria fantástico que nenhuma mulher precisasse abortar. Num mundo cor de rosa, onde não houvessem estupradores (nem de criancinhas), nem opressão, nem drogas, nem dificuldades financeiras e onde, principalmente, a mulher não fosse vista como porca reprodutora, ninguém precisaria de leis sobre aborto. Ou talvez sim.

Quem sabe né?

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13 comentários sobre “Aborto

  1. Maria Helena, gostei muito do seu post, achei muito interessante saber como é o aborto na Suécia. Eu sou a favor da descriminalização do aborto no Brasil, mas eu não sei se teria vontade/coragem de fazer um, até porque meu sonho é ter filhos. Mas cada caso é um caso, né. Seria muito importante se tivéssemos leis assim no Brasil, porque sendo proibido ou não, mulheres continuam abortando, só que quando fazem aborto ilegal, as chances de morrerem são muito maiores, né? Eu sou a favor da escolha, e se a mulher quiser fazer um aborto, que faça. É a vida dela, ela tem o direito de escolher o que quer. Como sua amiga disse, só porque talvez eu não faria, não quer dizer que outra pessoa não possa fazer. Também acho melhor uma mulher optar por um aborto do que ter um filho não desejado, pois fala sério, quantos pais existem por aí que não queriam ser pais? Vejo tantos maus tratos aqui nas ruas de BH, que às vezes me pego pensando se não seria melhor eles nem terem tido filhos. Os pais não sofrerão com uma criança que eles não quiseram ter, e a criança não sofrerá uma vida inteira por se sentir ignorada pelos pais.

    beijos

  2. Difícil julgar uma situação pela qual nao se tem “experiência”, ou melhor dizendo vivência.
    Mas o seu texto diz tudo, seria fantástico se nenhuma mulher precisasse abortar.
    Me fez refletir bastante e até mudar alguns conceito

  3. Maria,

    a minha mae engravidou de mim com 14 anos do meu pai que era 13 anos mais velho que ela e que forçou muito a barra pra eles trasarem. So depois de muitos anos que nos entendemos que foi sim um estupro. Eles foram um casal por muito pouco tempo e a minha mae escondeu a gravidez da familia. Ela nao tinha barriga e era aquela epoca anos 1980 onde as pessoas usavam aqueles camisetoes. Entao ela passou a gravidez inteira sozinha, sem ir ao medico, sem poder dividir a angustia com ninguem. Eu nasci e acabei sendo criada pela minha avo enquanto minha mae continuou os estudos e mudou pra uma cidade maior. Tinha o detalhe de que a gente era de uma cidade pequena e conservadora e as pessoas julgaram muito a minha mae. A minha familia era aquela familia classe media, funcionarios publicos, tudo certinho, contas em dia e de repente aquela bomba.

    Eu durante a adolescencia ja era a favor do aborto mas as vezes tinha uma crises emocionais sobre ser a favor sendo que eu mesma talvez nao tivesse nascido se minha mae tivesse tido essa escolha. Mas com os anos eu fui entendendo que eu nao tenho que tomar a minha historia pessoal como base pra pensar uma lei que poderia existir pra proteger tantas outras mulheres.

    A minha relacao com a minha foi muito dificil ate dois anos atras. E ate hoje e bastante complexa, mas a gente trabalhou muito pra tentar se entender e se perdoar. Porque uma culpou a outra durante tantos anos! A minha vo e incrivel e minha familia tinha condicoes financeiras pra me dar uma boa educacao, saude, etc. Mas quantas outras mulheres na mesma situacao da minha mae nao teriam tido o mesmo?

    Eu acho que dar a mulher o direito de escolha e uma forma madura de mostrar os direitos da mulher concretizados. E um direito ao seu corpo e so paises onde o feminismo tem mais forca que a religiao que conseguem passar essa lei sem tantos dramas.

    Espero que nos tenhamos a lei como na Suecia, acho muito serio e humilhante o papel da mulher na sociedade brasileira.

    Obrigada pelo texto informativo, gosto muito quando voce faz isso.

    Um abraco,

    Paula

  4. Lola,
    O importante é isso, refletir sobre o tema. Infelizmente no Brasil a coisa toda é colocada como um tabu enorme, você não pode se declarar a favor da lei do aborto sem ser chamado de assassino. Infelizmente, como diz a Marcela, mulheres estão morrendo enquanto isso… e não somente no sentido literal, mas emocional também. Eu sei que a sociedade faz pressão, muita pressão, para que a mulher se encaixe em diferentes padrões. Se o aborto fosse descriminalizado, quantas mulheres poderiam conversar sobre isso e superar seus traumas, medos e mágoas? Medo por ser coagidas a tomar uma decisão rápida, trauma por ter sido abandonada, mágoa da família que virou as costas num momento como esse.

    *****
    Marcela,
    Essa é a tarefa mais difícil, na minha opinião, que a gente tem que aprender: respeitar a decisão e pensamento do outro. Falamos tanto em diversidade, pluraridade; mas na hora de aprovar uma lei que vai contra nossos princípios mas não exatamente contra os princípios de outros cidadãos não queremos mais saber disso. Esqueçamos do discurso de como é bom sermos todos diferentes. As pessoas também esquecem que se o aborto for descriminalizado no Brasil ele será apenas uma possibilidade, e não uma obrigação. Eu não preciso realizar um aborto, se isso é contra meus princípios, só porque existe uma lei que diz que é possível fazer um.

    *****
    Paula,
    Pois é…
    A nossa vida seria diferente – e muito – não fosse pelos “se”: “se” seu pai não houvesse forçado a barra, “se” sua mãe não tivesse levado a gravidez adiante, “se” a sua família não fosse de posses (não rica, mas tampouco pobre). Mas a sua mãe fez uma escolha sabe, e eu acho que é isso que conta ao final. A gente só gostaria que as escolhas de cada um pudessem ser respeitadas. E como eu comentei com a Marcela, pra isso precisamos aprender que minhas escolhas não tem que ser para todo mundo. Eu acho que tive uma vida abençoada, em muitos sentidos, e por isso nunca sequer precisei pensar em uma razão pela qual eu deveria fazer um aborto. Mas nem todo mundo vive num mar de rosas – e isso eu tive que aprender. Acho que você não precisa se sentir culpada por defender o direito de que os outros possam decidir sozinhos seus destinos.

    Beijos!

  5. Que pena que você não publicou minha opinião. Apenas opinei. Não agredí e não fui indelicado nem mal educado. Pensei que seu objetivo fosse ter diversas opiniões para que possamos fortificar a nossa, como foi o caso da amiga Lola que até mudou um pouco os seus conceitos. Meu objetivo era também aprender com as diversas opiniões.
    Sei que você não fez isso por mal.
    Um abraço e um bom domingo para vocês aí,
    Manoel – Blog do Óbvio

  6. Olá Manoel!
    Acho que houve algum mal entendido. O único comentário que você fez nesse post foi o que você deixou agora. Eu faço a moderação dos comentários apenas a primeira vez que a pessoa comenta, depois está liberado. E também olhei o spam e a lixeira, seu coments não foi parar lá. Eu tenho alguns leitores que reclamam que é difícil comentar aqui. Em todo o caso, não fui eu que rejeitei coments. Não há problema em discordar quando as pessoas são educadas. Sinta-se bem vindo a deixar o coments de novo se quiser. Abraços!

  7. Maria, muito obrigado por sua atenção. Pode ser que na hora de salvar o comentário eu tenha sido solicitado mais de uma vez para publicar o assunto e então perdí o comentário. Com certeza foi isso!
    Mas, resumindo, o comentário fala sobre independente de termos ou não a lei, cada um tem seu pensamento formado para isso. Muitas vezes a gente quer resolver o problema com muita rapidez e acaba ficando mal resolvido ou influenciado por muitas vertentes da sociedade. Até pelos políticos. Com a correria ficamos com a impressão que o mundo inteiro está abortando (ou não) e temos que orientá-los rapidamente. Não é bem por aí, né Maria, kkk! Acredito que cada um saiba o que é melhor para sí mesmo.
    Um abraço para vocês aí e muito obrigado pelo carinho da atenção,
    Manoel

  8. Concordo com tudo que você disse, Maria Helena! Também não sou a favor do aborto (e acho que jamais faria um – como médica), mas não julgo as mulheres que decidiram fazer. Afinal, quem sou eu, né?
    Agora, pelo menos por aqui, quando digo isso, parece que sou o próprio Lúcifer!

  9. Que o tema é polêmico já sabemos, mas penso que vai além de respeitar as decisões de cada mulher. Exagerando… penso que dá até para enlouquecer em caso de estupro e tomar essa decisão. Mas por falta de grana, namorado que deixou, não estou preparada para ter filhos agora… faça-me o favor. Não quer engravidar, não transe. Se quer, se cuide. Não que quem foi estuprada pode e que não foi não pode. Toda mulher que conheço que fez, hoje carrega um peso na alma e imagino que as que não conheço também carregam. Triste é ouvir estórias de gente que pelos motivos mais fúteis, recorre aos meios clandestinos e perigosos para matar um ser vivo, porque sim, isso é matar alguém. Ainda que a causa seja justa, nobre, sei lá o quê, se é que isso é possível. Enfim, esse argumento de ter que respeitar as escolhas de cada mulher, não me convencem neste caso.

  10. Adorei seu post! Eu penso assim… Para estupro, existe pílula do dia seguinte (a menos que você seja sequestrada e fique em cativeiro), Em outras palavras… Tem como evitar ficar grávida, é só prestar atenção no que faz.
    Já cheguei a virar as costas para uma amiga, pois ela cometeu 2 abortos em menos de 6 meses, um do outro, e eu a questionei… – Quantos mais você matará, para aprender a viver? Quanto tempo mais, você fará isso?
    Hoje em dia ela teve uma menina, com outro namorado, leva uma vida regrada, comparando com antes.
    Eu percebi que mesmo depois da minha visita, ela ainda ficou magoada comigo, mas não me importo, o que me importa é saber que ela tomou rumo na vida, e que eu faria tudo novamente, para que ela fosse uma pessoa melhor… Pois infelizmente, enquanto todos nós passavamos a mão na cabeça dela, ela não tomava vergonha na cara… Abusava da boa vontade dos outros.
    A mãe dela era quem incentivava, então o que eu disse para ela, eu falei para a mãe dela, e disse que sentia muito o fato dela agir daquela maneira.
    Não tenho ódio de quem faz isso, eu simplesmente lamento, eu fui severa com ela, para que ela tivesse limites, afinal, não são apenas assassinatos, mas também auto-flagelo.
    Ela cometia os atos sem pensar… antes dela abortar os filhos do ex- namorado, eu tinha dito à ela para separar dele, já que não estava bom.
    Penso que seria melhor terem mais psicólogos para tratar as pessoas, antes que esse tipo de coisas acontecessem.
    Bjão, povo!

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