LSS ou, simplesmente, qualidade de vida

Tem muita gente que fala da alta qualidade de vida da Suécia e cada um ressalta diferentes aspectos: a baixa taxa de criminalidade, os altos salários, a educação, o transporte público, entre outras coisas. Na minha opinião pessoal, qualidade de vida é aquilo que salta ao comum e, bem, não que todas essas coisas que citei antes não representem qualidade de vida mas, sinceramente, isso deveria (e eu sei que não é) ser padrão. Daí que para mim qualidade de vida de verdade é aquele tipo de serviço que eleva a condição de uma classe ou grupo de pessoas desfavorecidas ao mesmo nível de acessibilidade à serviços e políticas voltadas para as pessoas “comuns”.

Nesse sentido, um dos indicadores mais consistentes da qualidade de vida sueca é a LSS – ou Lag om stöd och service (lei de apoio e serviço) – para pessoas com deficiência física ou mental. Primeiro, faz tanto tempo que eu não lido com esses termos que eu peço perdão se estou usando a nominação errada. Segundo, a LSS não é uma lei em si e sim uma normativa, ou seja, ela regula um direito garantido por outra lei sueca, a SoL (Socialtjänst Lag – ou lei da política de assistência social).

O texto diz "uma vida com direitos" mas também "uma vida direita" - ou seja, a vida como ela deveria ser. Fonte: Nordassistans

O texto diz “uma vida com direitos” mas também “uma vida direita” – ou seja, a vida como ela deveria ser. Fonte: Nordassistans

A LSS é para pessoas com deficiência (retardo) mental, autismo e similares; assim como para pessoas com deficiência física congênita ou adquirida e também pessoas que – apesar de não se enquadrarem nas categorias acima – precisam de apoio/orientação para viver uma vida normal. Isso significa por exemplo que pessoas que nasceram com algum tipo de deficiência devido a paralisia cerebral ou pessoas que sofreram um acidente e após isso se tornaram deficientes tem os mesmos direitos. Mesmo pessoas com um histórico de graves doenças mentais ou dependência química – que acabam por desenvolver algum tipo de retardo mental ou psíquico – tem direito ao apoio oferecido pela lei.

A LSS estabelece como direito para esse grupo dez tipos diferentes de auxílio. Aqui eu vou apresentar uma versão bem simplificada deles:

Orientação e apoio – Pessoas com deficiência tem direito a consultas gratuitas com psicólogos, terapeutas, curadores, fisioterapeutas, nutricionistas, fonoaudiólogos, enfim; profissionais que possam contribuir para a melhoria da qualidade de vida desses cidadãos tanto por meio de orientação verbal como indicação de diversas terapias e equipamentos que possam fazer a vida mais simples.

Assistência Pessoal – Bom, vocês já leram muitas histórias aqui das minhas aventuras como assistente pessoal. O assistente pessoal é as mãos, os pés e às vezes até a cabeça do deficiente: lavamos, passamos, limpamos, fazemos comida; mas também auxiliamos com todas as necessidades primárias (dar de comer, dar banho, levar ao banheiro, limpar a bunda) e com a diversão. Muitas vezes eu apenas sentei ao lado do Zé e assiste filmes com ele, ou li histórias para o Zezinho, brinquei de desenhar; saímos para passear… enfim. O direito a assistência pessoal é sempre avaliado por outra instituição sueca chamada Försäkringskassan (equivalente ao INSS) e é um serviço gratuito ao deficiente e pago pelas komunas, governos. Em outras palavras, a assistência pessoal tem o objetivo de fazer com que uma pessoa com deficiência possa desenrolar uma rotina diária sozinha e isso significa que a assistência está condicionada ao grau de dependência do indivíduo: se ele não pode fazer absolutamente nada sozinho, ele terá direito a assistência 24h por dia; ou enquanto ele está acordado, ou quando ele não está na escola, ou para fazer compras e sair para o mundo… sim, também é um direito do cidadão com deficiência sair para dançar, por exemplo, ou para nadar; se ele precisa de assistência pessoal para esses momentos, ele pode ter o direito até mesmo de ser acompanhado por dois assistentes (o que se chama de dubbelassistans – dupla assistência). Mas é claro que essa questão tem de ser aprovada primeiro pelo Försäkringskassan.

Reportagem do DN que diz: ela é minhas mãos. Fonte aqui.

Reportagem do DN que diz: ela é as minhas mãos e os meus pés. Fonte aqui.

Acompanhante – talvez a pessoa em questão se vire muito bem com os desafios do dia a dia, mas precise de acompanhamento especial em determinadas situações. Quando o INSS sueco avalia que o indivíduo não tem direito a assistência pessoal ainda assim é possível obter o direito de ter um acompanhante para situações específicas.

Relações públicas” –  Essa foi a tradução livre que eu decidi empregar para o que o LSS chama de kontaktpersonen, uma pessoa que ajudará o deficiente a ter uma vida social mais animada, por meio de dicas, orientação e apoio sobre atividades para preencher o tempo livre. Esse “relações públicas”pode ser uma família, e nesse caso será chamada de stödfamilj – família de apoio.

Assistência 24h em casa – esse é um tipo de serviço que garante ao deficiente que ele será atendido caso algum dos equipamentos que ele usa no dia a dia estraguem. Por exemplo: a roda da cadeira de rodas trava; os freios da cadeira de rodas estouram (super importante ter os freios em pleno funcionamento quando a pessoa sai de ônibus, trem, carro), o cão guia ficou doente, o auxiliar de fala parou de funcionar… e agora? Quem poderá nos salvar? A assistência 24h.

“Férias de casa” – Mesmo que a maioria dos deficientes possam se integrar nas atividades sociais comuns (com alguma adaptação e ajuda), existem aqueles que, por motivo de doença ou extrema limitação, tem a atividades sociais muito delimitadas. O autismo pode ser um desses casos: pessoas autistas podem facilmente entrar em pânico na companhia de muitas pessoas. Cinema, danceterias, shows, e tudo o que implica a concentração de muita gente é terrível para alguns deles. Nesse caso, existe a possibilidade de ter “férias de casa” uma ou duas vezes por mês: o deficiente sai para um local que é adaptado para as necessidades dele, e aproveita para encontrar outras pessoas (sempre um número reduzido) como ele.

Korttidstillsyn för skolungdom över 12 år – Eu não sei exatamente como traduzir isso, mas explico: korttidsstillsyn é como um serviço em que alguém vai ficar com o adolescente (maior de 12 anos) um pequeno período antes ou depois da escola, ou ainda durante as férias escolares. A ideia é parecida com a de uma creche para crianças crescidas, que ainda precisam de acompanhamento mas não tem direito, por exemplo, a assistência pessoal; mas que enquanto os pais estão fora de casa (no trabalho) não podem ficar sozinhas.

Casa abrigo ou família adotiva para crianças e adolescentes – Toda criança e ou adolescente que não pode continuar a conviver com os pais biológicos tem direito a esse atendimento na Suécia e, no caso de crianças/adolescentes deficientes, a família adotiva e/ou casa abrigo deve ser um ambiente adaptado para as necessidades específicas daquela criança/adolescente.

Casa abrigo para adultos – quando a pessoa deficiente se torna adulta normalmente quer sair da casa dos pais (ou os pais fazem uma tentativa de tornar o filho/filha mais independente) e uma opção é mudar para uma casa abrigo para adultos. Nesses locais a pessoa vai ter o auxílio de uma equipe (não terá assistentes pessoais) e o seu próprio quarto, mas vai dividir a “casa” com outras pessoas deficientes. Assim quando ele/ela precisar de ajuda com alguma coisa em especial, alguém da equipe irá ajudá-lo. Em alguns casos há apartamentos especiais para pessoas adultas com deficiência onde não há uma equipe de apoio disponível – nesse caso cada morador deve ter o seu assistente (quando necessário) ou orientador.

Oficinas de atividades diárias – Por fim, para os deficiente que não podem ingressar no mercado formal de trabalho, há oficinas de atividades diárias (como as APAEs do Brasil) em que os deficiente podem se ocupar de atividades tanto que habilitem para a vida profissional como outras que funcionem como uma espécie de hobbie. Enquanto assistente pessoal eu fui várias vezes para uma dessas oficinas e aquela em que eu frequentei o pessoal que trabalhava lá fazia tudo bastante sério: havia a hora do início das atividades e cada um podia tomar café ou falar um pouco do seu dia anterior; depois cada qual ia para o seu “trabalho” (havia marcenaria, atividades de pintura, estúdio de música, de costura, atividades manuais, etc); ao meio dia era o lanche e siesta; 13h30 voltavam ao “trabalho” e às 15h o dia se encerrava. Em alguns dias da semana havia atividades diversificadas na cozinha, alongamento, hora para treinar e até para jogar video game (muitos deficientes podem jogar WII melhor do que eu – shame on me).

O post já está gigante mas eu gostaria de acrescentar três coisas. Primeiro, cada deficiente deverá ter um plano de desenvolvimento individual, que é um trabalho feito em conjunto por toda aquela porrada de profissionais que citei lá em cima, mas que deve ser aprovado pelo deficiente (no caso de ele não ter capacidade de decidir por si mesmo, pelo “padrinho” ou família). Esse plano tem como objetivo sempre buscar novas formas de terapia, equipamentos de apoio e atividades que irão melhorar a vida do cidadão. Segundo, tudo é gratuito a não ser que o deficiente receba uma espécie de pensão do Försäkringskassan pois, nesse último caso, alguns serviço serão cobrados (a assistência pessoal é sempre gratuita). Terceiro (mas não menos importante), existe uma lei de proteção ao deficiente chamada Lex Sarah. No caso de alguém ver, por exemplo, um assistente pessoal maltratando um deficiente, ou uma instituição maltratando um deficiente, ou a família, ou mesmo o Estado (negando um direito), pode fazer a denúncia e acionar a Lex Sarah.

Bom, se alguém quiser saber mais, deixe perguntas nos coments. Seria joia ter uma lei dessas no Brasil não seria? Que tal você que está lendo isso aqui, dar a ideia para um vereador bacana (e honesto) na sua cidade?

Dizem que trair e coçar, é só começar… eu acredito que mudar o mundo também.

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Fonte: Socialstyrelsen.

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A Suécia não tem barata mas…

O primeiro blog que eu li a respeito da Suécia foi o super divertido Na Suécia não tem barata. Infelizmente, a autora deixou de escrever nesse endereço ali e passou para esse outro aqui (o que eu fui descobrir apenas recentemente – sim, chamem-me de retardada). Minha tag favorita no blog dela foi “a Suécia não tem barata mas…” porque, além dos posts serem super engraçados, acho que ela fala bem dos outros tipos de situações que nos deixam tão sem reação quanto aquele momento em que você descobre que uma barata está dividindo o chuveiro com você. Só que, obviamente, na Suécia.

Dias desses compartilhei uma informação no Facebook dizendo que cerca de 385 mil crianças suecas, ou melhor, residentes na Suécia sofrem com o comportamento abusivo e constrangedor de pais alcoólatras. Uma fã da página comentou que estava assustada com essa informação. Eu sei que ela, que é uma pessoa que já morou fora do Brasil e que não é deslumbrada pela Europa, não estava dizendo com isso que nunca imaginou que na Suécia há pessoas alcoólatras. Mas tem gente que acha mesmo incrível que haja dependentes químicos na Suécia (ou não, mas daí é culpa de falta de Deus no coração), violência, crianças fora da escola e essas coisas. Nem mesmo racismo existe na Suécia.

Por causa disso fiz uma lista do tipo “na Suécia não tem barata mas”:

– também tem alcoolismo. Cerca de 13% da população sueca tem problemas com álcool (mais ou menos um milhão de pessoas) – dados de 2011. Segundo o estudo do SCB, esse número representa o percentual de suecos que apresentam um comportamento de risco em relação ao consumo de álcool – uma vez que é difícil obter uma resposta a partir da pergunta: você é alcoólatra? A pesquisa em questão considera como comportamento de risco quando um homem ingere cerca de 14 copos (ou latas) de bebida alcoólica por semana (ou 4,62 litros) e a mulher nove (2,97 litros). E eu achava que era cachaceira… Segundo dados do Socialstyrelsen, 80 mil pessoas que sofriam de alcoolismo profundo foram tratadas pela instituição em 2008. Isso significa que essa população já estava (ou ainda está) num estágio tão avançado da doença que não consegue mais gerir a própria vida. De acordo com a instituição, a maior fatia do orçamento da assistência social nas kommuner (municípios) é destinado ao tratamento e recuperação de dependentes químicos, inclusive álcool.  (fonte aqui, em sueco).

– há aproximadamente cerca de 16 mil crianças vivendo em famílias adotivas ou casas abrigo na Suécia. As crianças são separadas dos pais biológicos quando esses não podem mais cuidar do bem estar deles, e entre os motivos mais comuns estão o uso de drogas (álcool também é uma droga) ou doenças mentais* (fonte aqui, também em sueco).

– cerca de 28 mil e 400 casos de violência contra a mulher (maiores de 18 anos) foram registrados em 2012. Segunda as agências de dados (socialstyrelsen, entre elas) esse número é subestimado uma vez que o maior número dos casos de agressão parte do parceiro (em 85% dos casos o agressor é um homem) e isso faz com que a mulher não tenha coragem de delatar. Ou seja, esses são apenas os números oficiais. Quem frequenta o blog há algum tempo já leu por aqui que suecos mantem uma vida bastante fechada, e eles tem uma visão muito mais abrangente do termo privacidade do que nós. Essa cultura também contribui para ocultar os números reais da violência contra a mulher. Quem conhece a Trilogia Millenium sabe que não foi por acaso que Stieg Larsson escreveu Os homens que odiavam as mulheres (sim, essa é que é a tradução correta do título do primeiro livro Män som hatar kvinnor). As mães solteiras são um dos grupos mais expostos a violência (fonte aqui… em sueco).

– no mesmo período foram denunciados 16 mil e 900 casos de estupro. Segundo as estatísticas da página, 10% dos casos representam o estupro de meninos. Sim, a Suécia não tem baratas mas tem violadores de crianças, vulgo pedófilos e por aqui o grupo mais exposto a esses doentes são os meninos. Segundo a página, apesar da nova lei sobre estupro (de 2005) ser ainda mais severa contra o agressor e mais protetora para com a vítima, a estimativa é de que apenas cerca de 23% dos casos são denunciados a polícia. 2% dos molestadores são mulheres (idem).

– a Suécia é considerada o país menos descriminatório do mundo. Entre 2005 e 2012 houve uma queda de 32% nas denúncias sobre discriminação devido a orientação sexual (a união civil entre homossexuais é legal na Suécia desde 1995, passando a ser incorporada definitivamente na legislação sueca em 2009); mas o número de denúncias de cunho racista vem crescendo. Ano passado houve um grande escândalo envolvendo a polícia no país quando veio a tona que a corporação mantinha um registro dos “ciganos” residentes no país, principalmente do sexo masculino, desde o nascimento. Os números oficiais são de 5520 registros de discriminação, enquanto os números extra oficiais apontam para a ocorrência de cerca de 86 mil casos (números de 2012). Essa pesquisa englobou pela primeira vez dados vindos de escolas, o que reforçou que adolescentes são o grupo mais exposto a discriminação, que muitas vezes vem em dobro (religiosa e racial). E a fonte aqui, para quem quer conferir.

Considerando os números, a Suécia está muito a frente do Brasil nessas questões. Mas é importante pontuar que estamos falando de países com dimensões extremamente diferentes: cerca de 10 milhões de habitantes aqui, contra quase 200 milhões lá. E faz diferença, porque é muito mais fácil fazer que um grupo pequeno de pessoas siga um mesmo ideal. Além do mais a herança cultural e a história  também fazem diferença. Mas essa é uma história muito mais longa e complexa.

Qualquer hora dessas eu trago mais dados. Mas não é uma promessa…

Pré Natal na Suécia – II

Como eu citei no início do post anterior, segundo o pessoal dos movimentos pelo parto humanizado no Brasil (favor não confundir parto humanizado com parto em casa), a Suécia é um dos países modelo número um em parto humanizado no mundo, justamente por causa da questão das enfermeiras parteiras.

Acho que uma das vantagens de fazer o pré natal com uma parteira é que a gente se sente a vontade. A parteira que  está fazendo meu acompanhamento é muito simpática e tranquila e não foi a mesma que me receitou aquele anticoncepcional ruim e isso foi muito importante para mim. O que eu acho que foi mais negativo é o fato de que há um protocolo meio rígido a ser seguido, fazendo com que as consultas de uma hora pareçam ter apenas cinco minutos. Eu nunca tive oportunidade de ter aquela conversa que eu achava que teria com a parteira, na qual eu poderia botar para fora as minhas dúvidas – que eram muitas.

Mas eu não acho que seja uma falha pessoal da parteira e sim da forma como o sistema de saúde na Suécia é construído. A Su comentou por aqui uma vez que o sistema na Suécia não trabalha a medicina preventiva, e simplesmente isso faz uma enorme diferença.

Além disso, não sei porquê achei que a questão seria mais específica, como quando vamos à ginecologista no Brasil mesmo ou como aconteceu no dia do ultrassom bônus, no qual a médica me examinou para ver se tudo estava bem. É importante ressaltar também que as parteiras não tem essa formação ginecológica; quem faz isso por aqui continua sendo o médico. Por isso eu senti que a minha primeira consulta era mais para preencher uma ficha de cadastro: nome completo, peso, altura, data da última menstruação, falar um pouco sobre a dieta recomendada, coleta de sangue para exames, informação sobre o exame de urina, sobre o ultrassom (que só acontece cerca de dez semanas depois), mais info sobre diversos exames que o casal tem acesso (pagando ou gratuitamente) durante a gestação, info sobre possíveis sintomas de aborto espontâneo, info diversas e vixx Maria, nosso tempo está acabando… você tem alguma dúvida? E eu né… tenho muitas! Ao que ela me respondeu que era natural, que eu devia procurar alguns fóruns de mães ou que eu deveria ligar para o serviço de saúde 24h (1177) se eu me sentisse mal.

Sinceramente, alguém pode me dizer o que acontece na primeira consulta pré natal no Brasil?

Em todo o caso, saí do primeiro encontro frustrada. Troquei umas figurinhas com as amigas, desabafei, liguei para minha mãe e perguntei para ela como eram os acompanhamentos pré natal na década de 70, quando ela engravidou pela primeira vez. Parece exagero, mas é assim que eu me senti, mandada direto no túnel do tempo para um lugar onde você não tem os recursos que existem no mundo inteiro – apesar de viver em um país de primeiro mundo.

Eu tenho plena consciência de que o sistema não é ruim – não estou sendo irônica – basta analisar os indicadores de qualidade. Mesmo no Brasil, entre 1990 e 2010 a mortalidade materna caiu 51% e é claro que este é um reflexo da implantação do SUS, mas também do trabalho da Pastoral da Criança. A maioria das mulheres que trabalham na Pastoral são pessoas tão simples quanto aquelas que são atendidas mas esse é um trabalho que dá tão bons resultados que foi “exportado” para mais 19 países no mundo. Ainda assim, 56 mulheres de cada 100 mil morrem anualmente no Brasil em decorrência da gravidez/parto contra apenas 4 mortes a cada 100 mil na Suécia (dados da ONU 2010).

Não há como discutir com números. Mas há como reclamar da falta de calor daqui – e por isso é que já comentei no primeiro post que eu encaro como mais uma questão de choque cultural. Além disso, devido ao meu azar em topar com enfermeiras mais do que ranzinzas eu não me sinto bem vinda nos postos de saúde ou emergências. Sim, eu estou levando isso para o lado pessoal mas já comentei por aqui que o entendimento geral – na sociedade – é de que os árabes e somalianos estragam o sistema porque eles vivem correndo para lá sem motivos – o que irrita o pessoal. Ora bolas, eu sou brasileira, mas já me perguntaram se eu sou curda, ou iraniana (será o nariz? hahaha) e provavelmente o pessoal do sistema de saúde não pensa que são somente os árabes e somalianos que estragam as coisas, para eles qualquer estrangeiro está lá porque não entende seu papel na sociedade e não sabe que posto de saúde e emergência não é local para se passear. Eu já ouvi outros brasileiros criticarem “esses refugiados” e eu quero fazer um apelo: acorda gente! Vocês só estão fazendo a coisa pior para nós mesmos! Ou vocês acham que o pessoal vai perguntar a nacionalidade no atendimento da emergência?

Conheço duas mulheres que tiveram complicações durante a gravidez e foram tratadas com descaso pelos profissionais de saúde daqui. Uma delas perdeu o bebê e uma das trompas por causa de uma gravidez que se desenvolvia fora da útero e foi duramente criticada (até chamada de mentirosa) por enfermeiras que disseram na cara dela que estava exagerando, não era nada – enquanto ela tinha dor e sangramento constante. Outra quase morreu no parto porque, apesar de apresentar todos os sintomas de pré eclâmpsia, o pessoal ficou com cara de paisagem e não deu importância porque ela estava fazendo drama – foi necessária a intervenção de uma terceira pessoa para que ela não se transformasse em um número de estatística. Elas não são suecas e sofreram as consequências de um sistema que parte do princípio que todo estrangeiro faz fita e exagera demais. Se não bastasse isso, nós mesmos ajudamos a fortificar o preconceito falando que é tudo culpa dos refugiados. Mais uma vez: quem é que acha que o pessoal vai perguntar a nacionalidade em uma emergência ou no posto de saúde?

Fechando a sessão desabafo, acho importante reforçar a questão do choque cultural. Pra quem achou que isso era uma coisa que vinha de uma vez só, tá super enganado. Eu me sinto super perdida, no meio de estranhos que não comemoram o fato de uma vida estar surgindo e cercada de enfermeiras ranzinzas que acham que estou de fita. E ainda carrego aquela falsa sensação de que talvez no Brasil seria melhor, simplesmente porque o pré natal é com o médico. Incrível como a gente continua endeusando os nossos “doutores”.

Eu não dei trégua para minha parteira, liguei para ela, dei um jeito de conversar um pouco e no nosso segundo encontro já me sentia mais tranquila. Mas eu também segui os conselhos dela e gastei muito tempo dividindo minhas dúvidas com amigas, tanto as que não são mães ainda – obrigada por me emprestarem seus ouvidos; assim como caí na carne da Cíntia, do blog Minha Aquarela. Nada melhor do que encontrar alguém que curte falar sobre suas experiências na montanha russa da vida materna para poder fazer um longo papo furado. Além disso, a Cíntia me indicou uma porrada de blogs maternos – eis aí o porque de eu não comentar mais ninguém, estou consumindo tudo que posso a respeito de gravidez e mães de primeira viagem. E mais uma vez, eu amo o cara que inventou o skype!

São realizados dois controles pela parteira antes do ultrassom, ou seja, antes da 18a semana. Como eu descobri minha gravidez cedo, esses dois encontros já se foram há tempos. Enquanto meu ultrassom não chega, também não vou ver a parteira – a menos que eu apresente algum sinal estranho. E isso é bárbaro demais: como é que eu vou saber? Para mim tudo é novo e estranho agora. É lindo, mas super estranho. Mulheres grávidas não estão doentes (é bom ser relembrada Manoel) mas eu fui contaminada pelo medo absurdo que as pessoas tem aqui de que a gravidez talvez não vai vingar, que a primeira gestação é comum acabar em aborto. E se eu precisar de atendimento de emergência não vai ser minha parteira legal me esperando com sua simpatia e tranquilidade, e sim qualquer outra enfermeira bruxa pronta para me acusar de que estou exagerando, devia ter tomado alvedon e ficado em casa.

Fiquei mais aliviada quando completei a 12a semana mas ainda assim, eu queria muito estar “em casa” agora e me sentir mais envolvida por um clima mais leve e de felicidade em torno da gestação. Definitivamente, quando se trata de saúde, eu não me sinto bem vinda aqui.

Só por Deus mesmo.

Pré Natal na Suécia – I

Fonte: Google

Fonte: Google

Desde que mudei para cá sempre ouvi dois extremos a respeito de ter filhos na Suécia: há aquelas pessoas que dizem que não podiam ter imaginado um atendimento melhor, assim como há aquelas que reclamam de tudo (tudo mesmo) relacionado ao acompanhamento da mulher e do bebê, principalmente na hora do parto.

Eu nunca tive filho no Brasil, minha irmã teve crianças a long time ago e eu não acompanhei de perto as gestações das pessoas mais próximas que tiveram bebê nos meus últimos anos no Brasil. Além disso, já fazem quase três anos desde que eu deixei a minha terra e, por todo o tempo em que lá morei, nunca havia ouvido falar em violência obstétrica, por exemplo. Se você quer saber mais sobre esse tipo de violência, pode assistir ao documentário “A dor além do parto” – disponível no You Tube.

Daí que, mudando para a Suécia, me deparo descobrindo essa questão (da violência obstétrica no Brasil) e com ela vem a informação de que a Suécia é um dos países modelos em pré natal e parto humanizado no mundo (leia esse texto aqui). Bom, acho que a maioria das mulheres que participa de comunidades de brasileiros na Suécia não sabe ou não concorda com essa informação e eu, bem, ainda estou bem no início dessa minha jornada como grávida e futura mãe, por isso não sei bem ao certo o que pensar. Em todo o caso, pelo que conheço do sistema no Brasil, o sistema de pré natal é muito diferente aqui na Suécia. Só para deixar claro, a minha intenção não é estabelecer um juízo de valor (quem é melhor, a Suécia ou o Brasil) porque definitivamente, eu não tive filho no Brasil e por isso não posso comparar uma e outra experiência. Além disso, acho que a experiência de ser mãe no Brasil deve ser muito diferente lá no Amazonas do que é em São Paulo, na rede particular ou pública de saúde, com todos os prós e contras com que cada situação envolve.

Aos fatos: a Suécia tem um centro de atendimento de saúde da mulher chamado Mödervårdcentralen. Esses centros contam com uma espécie de enfermeira parteira, que tem o título de barnmorska (eu digo barnmoça por brincadeira, fica bem próximo a pronúncia do nome correto) que faz o acompanhamento de mulheres nos casos de planejamento familiar, exames relacionados a saúde da mulher, pré natal e pós natal (não sei exatamente até quantos meses da vida do bebê). Eu vou chamá-las aqui simplesmente de parteiras, mas é importante lembrar que o conceito de parteira na Suécia não é o mesmo daquele das parteiras das regiões menos favorecidas do Brasil. Não que eu ache que aquelas mulheres parteiras do interior sejam menos do que as parteiras suecas,  só que é importante informar que ser parteira na Suécia é uma profissão que exige formação universitária (enfermagem+especialização).

Quando eu descobri que estava grávida liguei para esse centro de saúde da mulher (vou abreviar para CSM) para marcar um encontro com a parteira. Tive que esperar três semanas porque a primeira “consulta” não é realizada antes que a mulher complete a 8a semana. Eu sou péssima com essa coisa de contar as semanas, até hoje me embanano toda, só sei que eu fiquei super ansiosa. Eu queria encontrar alguém, falar com uma pessoa entendida do assunto, contar a minha felicidade, meus medos, trocar figurinhas sobre qualquer coisa. Me senti super no vácuo. Acho que é esse excitamento de mãe de primeira viagem, mas eu sei lá… nesse momento eu comecei a sentir um choque cultural muito grande porque eu queria muito ir ao médico e tirar essas dúvidas, falar sobre meu bebê e me sentir tranquilizada a respeito de coisas bobas que passam pela cabeça da gente.

É claro que na Suécia também há a opção do atendimento na rede privada de saúde. É um pouco complicado de entender, porque o atendimento público de saúde na Suécia também é privado, ao menos, os postos de saúde normais são: você paga uma taxa para ir ao médico. Não é o valor da consulta integral (que seriam 300 coroas no caso de clínico geral, no mínimo 700 coroas quando um especialista), mas a consulta não é gratuita. No caso dos CSM as consultas são gratuitas e eu não sei explicar se eles são totalmente subvencionados, totalmente públicos, ou se é pelo fato de que os CSM públicos não contam com médicos mas sim uma equipe formada por parteiras, enfermeiras, psicólogas e assistentes sociais. Em todo o caso, há CSM privados. A diferença: você paga, e eles contam com um médico e aparelho de ultrassom.

Conversamos aqui em casa sobre isso, sobre talvez migrar para um CSM privado. Em teoria, é melhor. Mas eu não estou certa, só ouvi uma pessoa falando sobre isso e é claro que ela falou maravilhas; mas não é todo mundo que tem coragem de reconhecer que trocou merda por bosta (ainda mais quando paga). Pra mim, atendimento particular no Brasil nunca foi aquele “ohhh, que maravilha!”. Depois, eu acho errado pagar por um serviço que deve ser gratuito afinal, eu pago impostos nesse país, não vou pagar duplamente por algo que eu considero já ter pago. Assim fica meio fácil o governo recolher impostos mas oferecer um serviço meia boca, já que ninguém usa. Eu acho melhor usar e ajudar a fortalecer e melhorar o sistema que é para todos.

Mas voltando a questão do ultrassom… por meio dos CSM públicos você tem direito a apenas um ultrassom durante a gravidez, na 18a semana. A não ser que a mulher apresente algum tipo de complicação, dor ou suspeita com relação a gestação, não serão feitos outros exames de ultrassom durante a gravidez. Nem mesmo próximo ao parto, se a parteira tiver certeza que a criança está de ponta cabeça e encaixada eles não fazem ultrassom. Já nas clínicas particulares é diferente: a mãe pode pedir ultrassom sempre que estiver preocupada e quiser checar o bebê (e mais uma vez, você paga por isso).

Quando a minha parteira me informou essa questão do ultrassom eu fiquei meio preocupada. Não sou a favor de ultrassom em 3D, e penso mesmo que ficar espiando a criança o tempo inteiro é uma coisa desnecessária, mas tanto no início da gravidez quanto no término acho que não seria demais não. Além disso, a parteira me disse que o ultrassom faz mal a criança e eu fui pesquisar na internet mas não achei nada. É claro que eu não estou dizendo que ela – que estudou quase cinco anos para chegar onde chegou – está de conversa mole comigo, mas eu se for comparar com o caso do meu anticoncepcional então, o que é que é para mim pensar? Tipo, eu estava tomando um anticoncepcional recomendado pela parteira que é potencialmente perigoso (tá até no google). Todo medicamento é, mas ela não me disse que eu podia ter os efeitos colaterais que eu tive. E então ela me diz que ultrassom faz mal a criança, e o único estudo que comprova que ultrassom tem efeito colateral foi realizado na Inglaterra e mostra que criança expostas longamente ao ultrassom tendem a nascer canhotas. Algum problema em ser canhoto? Países como Alemanha (que também são primeiro mundo) oferecem mais de um ultrassom durante a gestação.

Eu acabei por fazer um ultrassom porque tive aquela crise renal. Foi um bônus, e eu tenho que admitir que fiquei muito mais tranquila depois de ver o meu bebê lá, mesmo que por poucos segundos, e ouvir a médica dizer que meu útero estava bonitinho e que não havia nada de errado – pelo menos não até aquele momento. O fato de o ultrassom ser realizado durante a 18a semana de gestação tem um propósito bem claro: o médico vai checar a fundo o desenvolvimento da criança, tanto o interno, quanto o externo. Nessa altura da gestação a maioria dos órgãos já está formada e só falta mesmo se fortalecer, como é o caso dos pulmões. O coração já bate desde a segunda/terceira semana de vida. Nessa fase é possível identificar algum tipo de má formação dos órgãos, ossos, coluna, etc.

Algumas pessoas entendem que esse ultrassom é um fator decisivo para o interrompimento da gestação, afinal, a mãe pode solicitar a permissão para abortar depois da 18a semana se identificar alguma má formação no feto. Nessa mesma semana, mães com mais de 35 anos podem realizar gratuitamente testes cromossômicos no bebê, do tipo que apresentam a possibilidade da criança ter Síndrome de Down por exemplo. Eu recebi um panfleto explicativo durante a minha primeira conversa com a barnmorska com informações sobre o procedimento, sobre o significado dos resultados e com alguns links para que os pais pudessem ler mais sobre “o que significa ter uma criança deficiente”. Apesar de não ter 35 anos eu posso realizar os mesmos exames mediante o pagamento de uma taxa de 1500 coroas, mas eu decidi deixar para lá. Depois de trabalhar por quase dois anos com uma criança deficiente eu sei muito bem o que isso significa, e também sei que não seria motivo suficiente para que eu decidisse abortar. No fim, essa é uma informação que não me interessa; e eu vou fazer apenas o ultrassom mesmo, lá na 18a semana.

Até lá, fico aqui ainda meio que roendo as unhas. Não por falta de ultrassom, mas porque acho que falta apoio mesmo.

Tenho mais o que falar sobre o pré natal na Suécia, apenas decidi dividir a informação em vários  posts porque afinal, é tanto!