Pré Natal na Suécia – I

Fonte: Google

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Desde que mudei para cá sempre ouvi dois extremos a respeito de ter filhos na Suécia: há aquelas pessoas que dizem que não podiam ter imaginado um atendimento melhor, assim como há aquelas que reclamam de tudo (tudo mesmo) relacionado ao acompanhamento da mulher e do bebê, principalmente na hora do parto.

Eu nunca tive filho no Brasil, minha irmã teve crianças a long time ago e eu não acompanhei de perto as gestações das pessoas mais próximas que tiveram bebê nos meus últimos anos no Brasil. Além disso, já fazem quase três anos desde que eu deixei a minha terra e, por todo o tempo em que lá morei, nunca havia ouvido falar em violência obstétrica, por exemplo. Se você quer saber mais sobre esse tipo de violência, pode assistir ao documentário “A dor além do parto” – disponível no You Tube.

Daí que, mudando para a Suécia, me deparo descobrindo essa questão (da violência obstétrica no Brasil) e com ela vem a informação de que a Suécia é um dos países modelos em pré natal e parto humanizado no mundo (leia esse texto aqui). Bom, acho que a maioria das mulheres que participa de comunidades de brasileiros na Suécia não sabe ou não concorda com essa informação e eu, bem, ainda estou bem no início dessa minha jornada como grávida e futura mãe, por isso não sei bem ao certo o que pensar. Em todo o caso, pelo que conheço do sistema no Brasil, o sistema de pré natal é muito diferente aqui na Suécia. Só para deixar claro, a minha intenção não é estabelecer um juízo de valor (quem é melhor, a Suécia ou o Brasil) porque definitivamente, eu não tive filho no Brasil e por isso não posso comparar uma e outra experiência. Além disso, acho que a experiência de ser mãe no Brasil deve ser muito diferente lá no Amazonas do que é em São Paulo, na rede particular ou pública de saúde, com todos os prós e contras com que cada situação envolve.

Aos fatos: a Suécia tem um centro de atendimento de saúde da mulher chamado Mödervårdcentralen. Esses centros contam com uma espécie de enfermeira parteira, que tem o título de barnmorska (eu digo barnmoça por brincadeira, fica bem próximo a pronúncia do nome correto) que faz o acompanhamento de mulheres nos casos de planejamento familiar, exames relacionados a saúde da mulher, pré natal e pós natal (não sei exatamente até quantos meses da vida do bebê). Eu vou chamá-las aqui simplesmente de parteiras, mas é importante lembrar que o conceito de parteira na Suécia não é o mesmo daquele das parteiras das regiões menos favorecidas do Brasil. Não que eu ache que aquelas mulheres parteiras do interior sejam menos do que as parteiras suecas,  só que é importante informar que ser parteira na Suécia é uma profissão que exige formação universitária (enfermagem+especialização).

Quando eu descobri que estava grávida liguei para esse centro de saúde da mulher (vou abreviar para CSM) para marcar um encontro com a parteira. Tive que esperar três semanas porque a primeira “consulta” não é realizada antes que a mulher complete a 8a semana. Eu sou péssima com essa coisa de contar as semanas, até hoje me embanano toda, só sei que eu fiquei super ansiosa. Eu queria encontrar alguém, falar com uma pessoa entendida do assunto, contar a minha felicidade, meus medos, trocar figurinhas sobre qualquer coisa. Me senti super no vácuo. Acho que é esse excitamento de mãe de primeira viagem, mas eu sei lá… nesse momento eu comecei a sentir um choque cultural muito grande porque eu queria muito ir ao médico e tirar essas dúvidas, falar sobre meu bebê e me sentir tranquilizada a respeito de coisas bobas que passam pela cabeça da gente.

É claro que na Suécia também há a opção do atendimento na rede privada de saúde. É um pouco complicado de entender, porque o atendimento público de saúde na Suécia também é privado, ao menos, os postos de saúde normais são: você paga uma taxa para ir ao médico. Não é o valor da consulta integral (que seriam 300 coroas no caso de clínico geral, no mínimo 700 coroas quando um especialista), mas a consulta não é gratuita. No caso dos CSM as consultas são gratuitas e eu não sei explicar se eles são totalmente subvencionados, totalmente públicos, ou se é pelo fato de que os CSM públicos não contam com médicos mas sim uma equipe formada por parteiras, enfermeiras, psicólogas e assistentes sociais. Em todo o caso, há CSM privados. A diferença: você paga, e eles contam com um médico e aparelho de ultrassom.

Conversamos aqui em casa sobre isso, sobre talvez migrar para um CSM privado. Em teoria, é melhor. Mas eu não estou certa, só ouvi uma pessoa falando sobre isso e é claro que ela falou maravilhas; mas não é todo mundo que tem coragem de reconhecer que trocou merda por bosta (ainda mais quando paga). Pra mim, atendimento particular no Brasil nunca foi aquele “ohhh, que maravilha!”. Depois, eu acho errado pagar por um serviço que deve ser gratuito afinal, eu pago impostos nesse país, não vou pagar duplamente por algo que eu considero já ter pago. Assim fica meio fácil o governo recolher impostos mas oferecer um serviço meia boca, já que ninguém usa. Eu acho melhor usar e ajudar a fortalecer e melhorar o sistema que é para todos.

Mas voltando a questão do ultrassom… por meio dos CSM públicos você tem direito a apenas um ultrassom durante a gravidez, na 18a semana. A não ser que a mulher apresente algum tipo de complicação, dor ou suspeita com relação a gestação, não serão feitos outros exames de ultrassom durante a gravidez. Nem mesmo próximo ao parto, se a parteira tiver certeza que a criança está de ponta cabeça e encaixada eles não fazem ultrassom. Já nas clínicas particulares é diferente: a mãe pode pedir ultrassom sempre que estiver preocupada e quiser checar o bebê (e mais uma vez, você paga por isso).

Quando a minha parteira me informou essa questão do ultrassom eu fiquei meio preocupada. Não sou a favor de ultrassom em 3D, e penso mesmo que ficar espiando a criança o tempo inteiro é uma coisa desnecessária, mas tanto no início da gravidez quanto no término acho que não seria demais não. Além disso, a parteira me disse que o ultrassom faz mal a criança e eu fui pesquisar na internet mas não achei nada. É claro que eu não estou dizendo que ela – que estudou quase cinco anos para chegar onde chegou – está de conversa mole comigo, mas eu se for comparar com o caso do meu anticoncepcional então, o que é que é para mim pensar? Tipo, eu estava tomando um anticoncepcional recomendado pela parteira que é potencialmente perigoso (tá até no google). Todo medicamento é, mas ela não me disse que eu podia ter os efeitos colaterais que eu tive. E então ela me diz que ultrassom faz mal a criança, e o único estudo que comprova que ultrassom tem efeito colateral foi realizado na Inglaterra e mostra que criança expostas longamente ao ultrassom tendem a nascer canhotas. Algum problema em ser canhoto? Países como Alemanha (que também são primeiro mundo) oferecem mais de um ultrassom durante a gestação.

Eu acabei por fazer um ultrassom porque tive aquela crise renal. Foi um bônus, e eu tenho que admitir que fiquei muito mais tranquila depois de ver o meu bebê lá, mesmo que por poucos segundos, e ouvir a médica dizer que meu útero estava bonitinho e que não havia nada de errado – pelo menos não até aquele momento. O fato de o ultrassom ser realizado durante a 18a semana de gestação tem um propósito bem claro: o médico vai checar a fundo o desenvolvimento da criança, tanto o interno, quanto o externo. Nessa altura da gestação a maioria dos órgãos já está formada e só falta mesmo se fortalecer, como é o caso dos pulmões. O coração já bate desde a segunda/terceira semana de vida. Nessa fase é possível identificar algum tipo de má formação dos órgãos, ossos, coluna, etc.

Algumas pessoas entendem que esse ultrassom é um fator decisivo para o interrompimento da gestação, afinal, a mãe pode solicitar a permissão para abortar depois da 18a semana se identificar alguma má formação no feto. Nessa mesma semana, mães com mais de 35 anos podem realizar gratuitamente testes cromossômicos no bebê, do tipo que apresentam a possibilidade da criança ter Síndrome de Down por exemplo. Eu recebi um panfleto explicativo durante a minha primeira conversa com a barnmorska com informações sobre o procedimento, sobre o significado dos resultados e com alguns links para que os pais pudessem ler mais sobre “o que significa ter uma criança deficiente”. Apesar de não ter 35 anos eu posso realizar os mesmos exames mediante o pagamento de uma taxa de 1500 coroas, mas eu decidi deixar para lá. Depois de trabalhar por quase dois anos com uma criança deficiente eu sei muito bem o que isso significa, e também sei que não seria motivo suficiente para que eu decidisse abortar. No fim, essa é uma informação que não me interessa; e eu vou fazer apenas o ultrassom mesmo, lá na 18a semana.

Até lá, fico aqui ainda meio que roendo as unhas. Não por falta de ultrassom, mas porque acho que falta apoio mesmo.

Tenho mais o que falar sobre o pré natal na Suécia, apenas decidi dividir a informação em vários  posts porque afinal, é tanto!