Quero trabalhar na Suécia

H_20120921_214919“Oi Maria achei seu blog que é muito legal e queria saber se você pode me ajudar com umas dicas porque quero trabalhar na Suécia…”

Quando o número de acessos ao blog aumenta, aumenta também o número de pessoas que entram em contato pedindo os mais diferentes tipos de informações. As perguntas vão desde o que eu acho do frio, até como é a rotina na Suécia, como fisgar um sueco e a campeã, como arrumar emprego aqui.

É claro que eu escrevo uma página na internet porque eu gosto de escrever. Eu também gosto muito desse contato com os leitores, alguns deles eu já encontrei na vida real e foi muito bacana. Tem gente que realmente não escreve porque tem uma dúvida e sim porque precisa desabafar, trocar umas ideias com alguém. Isso é maravilhoso porque o processo de adaptação não acontece de um dia para o outro e quando eu tenho a oportunidade de conversar com pessoas que querem trocar ideias e que já leram de tudo um pouco na internet sobre o tema, mas ainda tem dúvidas; isso me ajuda a crescer também. Mas há outras pessoas que simplesmente decidiram ontem que vão sair do Brasil e antes de buscar qualquer informação começam a atirar para todos os lados.

Nesse caso eu recebo e-mails e ou mensagens na página do facebook como (mais ou menos) aquilo que escrevi aí em cima. Se eu responder com um “legal, pessoa, qual a sua história? no que você  gostaria de trabalhar?” em 80% dos casos recebo de volta um “em qualquer coisa. Quero sair do Brasil porque aqui é uma merda e eu aceito qualquer coisa”.

Ok. Cada um tem o direito de achar do Brasil o que quiser. Se quiser me escrever e dizer que acha o Brasil uma merda, eu entendo. Meu irmão também acha o Brasil uma merda e eu amo ele de montão. A gente cresceu na mesma família e temos visões completamente diferentes do Brasil. Eu acho que tivemos uma vida boa, de muitos privilégios, e que eu não tenho porque reclamar. Não foi fácil. Mas não foi difícil como é para muita gente. E depois, eu acho que a vida pode ser bem difícil independente do país em que você vive. É só uma questão da situação na qual você vive.

Mas então, a pessoa me responde que quer trabalhar em qualquer coisa aqui na Suécia porque a vida é uma merda no Brasil. Aí eu pergunto: “você fala inglês?” – porque não vou perguntar para um brasileiro se ele fala sueco né? – e a pessoa geralmente responde com um “não, não falo” ou “muito pouco, meu inglês é fraco e acho que seria uma oportunidade boa mudar para a Suécia para melhorar o inglês”.

Daí eu vou ter que dizer: você que quer mudar para a Suécia para melhora o seu inglês, você está fazendo isso errado. Eu não sei se você leu por aí, só por acaso, que o idioma oficial na Suécia é o sueco (e não o alemão). Provavelmente você leu por aí que todo sueco tem inglês como segunda língua, e é verdade, mas essa é a SEGUNDA LÍNGUA deles e não a primeira. Se você vier para cá trabalhar com altos negócios (se você é tipo o Jordan Bellfort do Wolf of All Street) parabéns; o mundo dos negócios respira em dólares e transpira em inglês. Se você lida com TI e sua segunda língua é programação, mas você tem inglês fluente parabéns – a Suécia adora poliglotas em tecnologia e informação. Se você é um engenheiro fodão em busca de experiência no exterior, parabéns; há oportunidades para você aqui também. Agora, se você não sabe o que quer fazer, se você só quer zarpar do Brasil a qualquer custo e nem tem inglês suficiente, desculpe: você mirou no país errado. Nos hotéis eles querem pessoas que falem inglês sim, mas você tem que falar sueco fluente porque seu trabalho não será apenas com os hóspedes (e mesmo os hóspedes de hotéis suecos em sua maioria são o quê? Adivinhe? Suecos). Nos restaurantes eles querem pessoas que falem inglês sim, mas você tem que falar sueco fluente porque seu trabalho não será apenas anotar pedidos. Suecos também vão a restaurantes e eles não tem nenhum problema em usar o inglês deles, só é bom que fique claro que você tem que saber sueco para lidar com seus colegas de trabalho, estejam eles na cozinha ou no caixa.

“Mas eu falei com fulano que mudou para aí e trabalha num restaurante/num hotel/na faxina sem problema”. Verdade. Eu mesmo já fui faxineira. A maioria dos brasileiros (de qualquer imigrante) que venha parar aqui já trabalhou em cozinha/hotel/limpeza. A diferença sutil dessa treta é que eu não vim para aqui com um visto de trabalho para ser faxineira. Eu já falei isso aqui no blog antes mas pelo jeito tenho que repetir: não existe visto de trabalho para a Suécia se você quer ser faxineirx, garçonete/garçom, serviço de quarto. Tem gente de sobra pra fazer esse tipo de trabalho por aqui porque esse é um tipo de coisa que todo mundo procura quando o calo aperta. E acredite: o calo sueco anda apertando.

Se você tem formação acadêmica no Brasil e quer mesmo assim saber como anda o mercado de trabalho para sua profissão aqui na Suécia, leia este post aqui. E saiba que se você não está no ramo de administração/negócios, TI ou engenharias; você precisa dominar o sueco. E só para deixar extremamente claro: você consegue visto de trabalho para a Suécia se estiver mirando em coisas grandes. Negócios. Projetos específicos. Parcerias entre instituições suecas e brasileiras. A gente que veio para cá com visto por vínculo familiar – e não por vínculo de trabalho – pode brigar por um trampo  num hotel/restaurante/na faxina. Esse trampo nem precisa ser integral, pode ser de final de semana, ou em parceria com o Arbetsförmdelingen. Mas se você quer um visto de trabalho na Suécia esse tipo de emprego não vai te dar a estabilidade necessária para que a imigração te carimbe o passaporte.

Em outras palavras: se você não sabe o que quer da vida ainda, não tem inglês mas tá de saco cheio da merda do Brasil, não vai conseguir visto de trabalho para a Suécia. Vá estudar inglês primeiro. Faça uma graduação. Invista na sua carreira profissional que oportunidades aparecerão – talvez nem seja aqui, seja em outro lugar do mundo ou pasme, aí no Brasil mesmo.

Não tô dizendo com isso que seja fácil. Eu bem sei que não é apenas decidir estudar no Brasil e puff! estudei, estou formado e agora eu posso conquistar o mundo. Só que vir para a Suécia sem formação, preparo ou apoio é ainda mais difícil. Nesse caso é bem mais fácil abrir uma conta num bate papo na internet e tentar a sorte por amor.

E não adianta ficar de cara comigo. O fato de eu não dizer: venha! não quer dizer que eu não quero brasileiros na Suécia. Por mim as fronteiras do mundo inteiro deveriam ser abertas. As regras comerciais e trabalhistas deveriam ser iguais em todo o mundo. E as políticas sociais também. Mas enquanto isso não acontece – se é que um dia irá acontecer – a verdade é essa: não tem choro e nem vela, não há espaço para quem quer fugir aqui. E você pode repetir a mesma pergunta para qualquer blogueira que for. Eu recomendo mesmo que vocês questionem a Vânia, do Diário de uma Teimosa, perguntem para ela como é que foi que o marido dela arrumou emprego aqui (se ele decidiu ser faxineiro na Suécia e conseguiu). Ou a Fernanda, do Aprendendo a Viver na Suécia. E a Cíntia, do Minha Aquarela 2 que acabou de mudar para a Noruega (e que apesar do marido trabalhar aqui há cinco anos, nunca conseguiu emprego fixo).

E eu, infelizmente – ou melhor, nós não podemos dar emprego para ninguém. Se eu pudesse, já tinha trazido para cá meu irmão, minhas irmãs e respectivos. Minhas melhores amigas. Até meus primos eu traria. Se fosse tão fácil eu teria trazido desde o primeiro ano os meus próprios pais. Nenhum deles está morando aqui. Por que será?

Porque para eles vale o mesmo que vale para todo mundo, indiferente de eu ter um lugar para morar aqui e um visto. Não me faz especial. Ao contrário: eu sou uma imigrante na Suécia. Eu faço parte da classe mais ou menos aceita porque tem marido sueco. No mais, não tenho nenhum poder especial a não ser o de compartilhar informações. E isso eu já tô fazendo.

Se não era bem o que você queria ter ouvido, paciência. Ainda assim, é a verdade.

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Algumas verdades sobre a imigração para a Suécia II

No fim do ano eu percebi um tanto quanto feliz que “algumas verdades sobre a imigração para a Suécia” foi o post mais popular do ano de 2013. Não sei se o pessoal acabou acessando o post porque, afinal, parece que todo mundo vem para cá querendo saber como requerer o visto ou se foi curiosidade mesmo. Em todo o caso, convido os leitores que não visitaram o link do primeiro post no ano passado a fazerem e vou deixar com vocês uma versão número dois para o tema.

A questão dos refugiados na Suécia – assim como na Europa inteira – vem dando o que falar. Com a crise na Síria ano passado estima-se que cerca de um milhão de pessoas deixaram o país. A maioria desses refugiados se volta para a Europa. E a Europa vem se fechando para eles. Na Suíça foi feito há pouco um referendo popular consultando a população a respeito da imigração para o país – não só de refugiados mas também – e a população deixou claro que quer que isso acabe.

Assim como os suíços, há muitos suecos preocupados com a questão do impacto que a chegada dos refugiados “em massa” causa para o país. Essa “massa” não é tão grande quanto as notícias querem fazer acreditar e, na verdade, os gastos com esse pessoal não é tão exorbitante. Na minha opinião o problema não é o governo investir em integração e sim como o governo está investindo.

Em todo o caso, há enormes mau-entendidos ao redor de toda essa situação e também uma forte rede de boatos. E aqui na Suécia também existe esse tipo de gente que fica compartilhando qualquer tipo de notícia (principalmente na internet) antes de saber se é verdade. Mas existe esse outro tipo de gente curiosa (como eu) que vai sempre ficar fuçando atrás de estatísticas e essas outras coisas meio bobas.

E fuçando e fuçando encontrei uma lista no site do Migrationsverket (em sueco) sobre os mitos mais comuns sobre imigração (na Suécia). Cada ponto da lista é enorme por isso escolhi alguns deles para compartilhar hoje. Quem sabe num futuro eu compartilhe mais coisas.

“Nenhum país acolhe tantas crianças e adolescentes refugiados como a Suécia”

Sim, é verdade: a Suécia é a campeã no acolhimento de crianças e adolescentes refugiados. (A palavra em sueco é uma só para designar tanto crianças como adolescentes refugiados: ensamkommande  barn). 

A tabela abaixo mostra os cincos países europeus que acolheram o maior número de crianças/adolescentes refugiados durante os anos de 2010-2012;nos quais a Suécia ocupa o primeiro lugar.

A maioria das crianças/adolescentes que procuraram por asilo na Suécia durante esse períodos vieram do Afeganistão e Somália. 93% dos pedidos de asilo (de crianças e adolescentes) que vieram do Afeganistão e 97% dos pedidos de asilo (de crianças e adolescentes) que vieram da Somália foram aprovados.

No total foram concedidos 1 974 vistos de asilo para crianças e adolescentes refugiados na Suécia em 2012, o que representa um percentual de quase 70% dos pedidos (ou seja, mais de 30% dos pedidos foi negado).

2012 2011 2010
Sverige 3 578 Sverige 2 657 Sverige 2 393
Tyskland 2 096 Storbritannien 1 277 Storbritannien 1 364
Belgien 1 001 Belgien 860 Belgien 1 081
Norge 964 Norge 858 Norge 892
Storbritannien* 728 Tyskland 667 Nederländerna 701
Crianças somalianas refugiadas no Quênia.  Fonte: Terra

Crianças somalianas refugiadas no Quênia.
Fonte: Terra

“As crianças/adolescentes que buscam asilo são na verdade adultos…”

A maioria dos jovens que procuram asilo na Suécia é  composta por meninos entre 15 e 17 anos. Nos últimos oito anos tem crescido o número de crianças/adolescentes que pedem asilo de cerca de 300 para 3 578 (2012). E eles vem principalmente do Afeganistão e Somália.

Independente do refugiado ser um jovem ou adulto eles terão que provar porque precisam de asilo. Se ficar comprovado que uma pessoa precisa de proteção a idade não tem qualquer significado.

Entretanto, a idade faz toda a diferença se uma pessoa será exilada. Para que o departamento de imigração possa emitir uma ordem de saída do país é necessário que exista algum responsável pela criança/adolescente em seu país de origem. Isso significa que, ou os pais, ou um parente ou uma instituição social deve acolher essa criança/adolescente. Se isso não for possível a Suécia é obrigada a acolher esse refugiado por conta da impossibilidade de se encontrar outro responsável por ele/ela.

A idade do solicitante também assume significado no caso dessa pessoa ter um registro por ter viajado/estado ilegalmente na Europa. Uma pessoa adulta irá responder ao acordo de Dublin. Para a criança adolescente isso só será possível se ele/ela já houver procurado por asilo em outro país da Europa (com exceção da Grécia).

A idade tem enorme significado na forma de tratamento que as crianças/adolescentes (que esperam pela aprovação do asilo) tem na Suécia. Criança e adolescentes que vêm sozinhas recebem uma outra espécie de apoio, que inclui tutores, abrigos, e convivência com outros adolescentes/crianças (do mesmo país de origem).

É da responsabilidade do solicitante comprovar que sua identidade é verdadeira. E isto pode ser feito por meio de diversas formas de documentos de identidade. Muitas crianças/adolescentes não possuem um documento de identidade oficial porque em seus países não existe um sistema sério de identificação social. Isso significa que muitos deles passam por grandes problemas caso a imigração sueca questione a veracidade dos documentos apresentados.

O responsável pelo caso no departamento de imigração é quem vai analisar se a idade do requerente é verdadeira. Isto pode ser feito por meio de entrevitas ou, em casos extremos, avaliação médica. Esta última não é obrigatória.

Cerca de 5% dos processos em que a idade do requerente é questionada resultam na correção da idade informada. Essa alteração não é judicial e como tanto, não pode ser contestada.

Eu gostaria de acrescentar uma questão: a grande maioria dos adolescentes que procuram asilo na Suécia não estão apenas fugindo da guerra e sim da família e de uma possível condenação a morte. Em 78 países do mundo, assumir-se gay implica uma série de complicações, porque a homossexualidade é tratada como crime. A Somália é um dos mais duro deles (ao lado da Arábia Saudita e mais três países na África) onde assumir-se homossexual leva a pena de morte. E se no Brasil – onde a homossexualidade “não é crime” – homossexuais são espancados, estuprados e assassinados diariamente, o que não imaginar em um país onde esse tipo de prática não é apenas liberada por lei, mas esperada.  Não é a toa que o maior número de adolescentes que buscam refúgio na Suécia são meninos entre 15 e 17 anos.

A Suécia não é vista apenas como um paraíso de igualdade pelos brasileiros, é visto como um paraíso de igualdade por toda a comunidade homossexual do planeta. Apesar disso, a comunidade HBTQ sueca anda muito desapontada com o departamento de imigração. Uma série de homossexuais (tanto adolescentes, quanto adultos) que solicitaram asilo político no país foram enviados de volta ao seu país de origem. Alguns deles caíram em um limbo pois a família não quer aceitá-los de volta (eles são uma vergonha) mas eles tiveram seu retorno a Suécia negado. Crescem o número de organizações não governamentais que apoiam, abrigam e  escondem esses refugiados enquanto lutam na justiça pelo direito de que mais homossexuais recebam asilo na Suécia.

Mas esse tipo de informação não é tão explorada pela mídia quanto os altos custos da imigração para o país. Uma pena. Em um tempo em que quase tudo pode cruzar as fronteiras de qualquer país de forma rápida e rasteira – é só pensar no dinheiro: quanto tempo demora para que uma quantia de dinheiro seja transferida da China para o Brasil? Segundos? – o ser humano ainda tem que ficar preso as fronteiras imaginárias dos países desse mundo que se intitula uma “aldeia”.

E soa tão falso quanta a propaganda da Tim: Viver sem fronteiras. Quem?