Algumas verdades sobre a imigração para a Suécia II

No fim do ano eu percebi um tanto quanto feliz que “algumas verdades sobre a imigração para a Suécia” foi o post mais popular do ano de 2013. Não sei se o pessoal acabou acessando o post porque, afinal, parece que todo mundo vem para cá querendo saber como requerer o visto ou se foi curiosidade mesmo. Em todo o caso, convido os leitores que não visitaram o link do primeiro post no ano passado a fazerem e vou deixar com vocês uma versão número dois para o tema.

A questão dos refugiados na Suécia – assim como na Europa inteira – vem dando o que falar. Com a crise na Síria ano passado estima-se que cerca de um milhão de pessoas deixaram o país. A maioria desses refugiados se volta para a Europa. E a Europa vem se fechando para eles. Na Suíça foi feito há pouco um referendo popular consultando a população a respeito da imigração para o país – não só de refugiados mas também – e a população deixou claro que quer que isso acabe.

Assim como os suíços, há muitos suecos preocupados com a questão do impacto que a chegada dos refugiados “em massa” causa para o país. Essa “massa” não é tão grande quanto as notícias querem fazer acreditar e, na verdade, os gastos com esse pessoal não é tão exorbitante. Na minha opinião o problema não é o governo investir em integração e sim como o governo está investindo.

Em todo o caso, há enormes mau-entendidos ao redor de toda essa situação e também uma forte rede de boatos. E aqui na Suécia também existe esse tipo de gente que fica compartilhando qualquer tipo de notícia (principalmente na internet) antes de saber se é verdade. Mas existe esse outro tipo de gente curiosa (como eu) que vai sempre ficar fuçando atrás de estatísticas e essas outras coisas meio bobas.

E fuçando e fuçando encontrei uma lista no site do Migrationsverket (em sueco) sobre os mitos mais comuns sobre imigração (na Suécia). Cada ponto da lista é enorme por isso escolhi alguns deles para compartilhar hoje. Quem sabe num futuro eu compartilhe mais coisas.

“Nenhum país acolhe tantas crianças e adolescentes refugiados como a Suécia”

Sim, é verdade: a Suécia é a campeã no acolhimento de crianças e adolescentes refugiados. (A palavra em sueco é uma só para designar tanto crianças como adolescentes refugiados: ensamkommande  barn). 

A tabela abaixo mostra os cincos países europeus que acolheram o maior número de crianças/adolescentes refugiados durante os anos de 2010-2012;nos quais a Suécia ocupa o primeiro lugar.

A maioria das crianças/adolescentes que procuraram por asilo na Suécia durante esse períodos vieram do Afeganistão e Somália. 93% dos pedidos de asilo (de crianças e adolescentes) que vieram do Afeganistão e 97% dos pedidos de asilo (de crianças e adolescentes) que vieram da Somália foram aprovados.

No total foram concedidos 1 974 vistos de asilo para crianças e adolescentes refugiados na Suécia em 2012, o que representa um percentual de quase 70% dos pedidos (ou seja, mais de 30% dos pedidos foi negado).

2012 2011 2010
Sverige 3 578 Sverige 2 657 Sverige 2 393
Tyskland 2 096 Storbritannien 1 277 Storbritannien 1 364
Belgien 1 001 Belgien 860 Belgien 1 081
Norge 964 Norge 858 Norge 892
Storbritannien* 728 Tyskland 667 Nederländerna 701
Crianças somalianas refugiadas no Quênia.  Fonte: Terra

Crianças somalianas refugiadas no Quênia.
Fonte: Terra

“As crianças/adolescentes que buscam asilo são na verdade adultos…”

A maioria dos jovens que procuram asilo na Suécia é  composta por meninos entre 15 e 17 anos. Nos últimos oito anos tem crescido o número de crianças/adolescentes que pedem asilo de cerca de 300 para 3 578 (2012). E eles vem principalmente do Afeganistão e Somália.

Independente do refugiado ser um jovem ou adulto eles terão que provar porque precisam de asilo. Se ficar comprovado que uma pessoa precisa de proteção a idade não tem qualquer significado.

Entretanto, a idade faz toda a diferença se uma pessoa será exilada. Para que o departamento de imigração possa emitir uma ordem de saída do país é necessário que exista algum responsável pela criança/adolescente em seu país de origem. Isso significa que, ou os pais, ou um parente ou uma instituição social deve acolher essa criança/adolescente. Se isso não for possível a Suécia é obrigada a acolher esse refugiado por conta da impossibilidade de se encontrar outro responsável por ele/ela.

A idade do solicitante também assume significado no caso dessa pessoa ter um registro por ter viajado/estado ilegalmente na Europa. Uma pessoa adulta irá responder ao acordo de Dublin. Para a criança adolescente isso só será possível se ele/ela já houver procurado por asilo em outro país da Europa (com exceção da Grécia).

A idade tem enorme significado na forma de tratamento que as crianças/adolescentes (que esperam pela aprovação do asilo) tem na Suécia. Criança e adolescentes que vêm sozinhas recebem uma outra espécie de apoio, que inclui tutores, abrigos, e convivência com outros adolescentes/crianças (do mesmo país de origem).

É da responsabilidade do solicitante comprovar que sua identidade é verdadeira. E isto pode ser feito por meio de diversas formas de documentos de identidade. Muitas crianças/adolescentes não possuem um documento de identidade oficial porque em seus países não existe um sistema sério de identificação social. Isso significa que muitos deles passam por grandes problemas caso a imigração sueca questione a veracidade dos documentos apresentados.

O responsável pelo caso no departamento de imigração é quem vai analisar se a idade do requerente é verdadeira. Isto pode ser feito por meio de entrevitas ou, em casos extremos, avaliação médica. Esta última não é obrigatória.

Cerca de 5% dos processos em que a idade do requerente é questionada resultam na correção da idade informada. Essa alteração não é judicial e como tanto, não pode ser contestada.

Eu gostaria de acrescentar uma questão: a grande maioria dos adolescentes que procuram asilo na Suécia não estão apenas fugindo da guerra e sim da família e de uma possível condenação a morte. Em 78 países do mundo, assumir-se gay implica uma série de complicações, porque a homossexualidade é tratada como crime. A Somália é um dos mais duro deles (ao lado da Arábia Saudita e mais três países na África) onde assumir-se homossexual leva a pena de morte. E se no Brasil – onde a homossexualidade “não é crime” – homossexuais são espancados, estuprados e assassinados diariamente, o que não imaginar em um país onde esse tipo de prática não é apenas liberada por lei, mas esperada.  Não é a toa que o maior número de adolescentes que buscam refúgio na Suécia são meninos entre 15 e 17 anos.

A Suécia não é vista apenas como um paraíso de igualdade pelos brasileiros, é visto como um paraíso de igualdade por toda a comunidade homossexual do planeta. Apesar disso, a comunidade HBTQ sueca anda muito desapontada com o departamento de imigração. Uma série de homossexuais (tanto adolescentes, quanto adultos) que solicitaram asilo político no país foram enviados de volta ao seu país de origem. Alguns deles caíram em um limbo pois a família não quer aceitá-los de volta (eles são uma vergonha) mas eles tiveram seu retorno a Suécia negado. Crescem o número de organizações não governamentais que apoiam, abrigam e  escondem esses refugiados enquanto lutam na justiça pelo direito de que mais homossexuais recebam asilo na Suécia.

Mas esse tipo de informação não é tão explorada pela mídia quanto os altos custos da imigração para o país. Uma pena. Em um tempo em que quase tudo pode cruzar as fronteiras de qualquer país de forma rápida e rasteira – é só pensar no dinheiro: quanto tempo demora para que uma quantia de dinheiro seja transferida da China para o Brasil? Segundos? – o ser humano ainda tem que ficar preso as fronteiras imaginárias dos países desse mundo que se intitula uma “aldeia”.

E soa tão falso quanta a propaganda da Tim: Viver sem fronteiras. Quem?

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8 comentários sobre “Algumas verdades sobre a imigração para a Suécia II

  1. Maria Helena, você deve ficar maluca com a quantidade de perguntas que deve receber em off. Fico bobo de ver a facilidade que você tem para informar e se informar das realidades daí. Você faz isso com uma clareza tão grande…só não entende quem não quer.
    Como sempre aprendi muito com a sua postagem.
    Um abraço grandão para vocês e aquele beijo na “barriga” com o endereço do Benjamin,
    Tio Manô

  2. Há sempre uma enorme diferença entre a realidade duma situação, a estatística que ela origina e a interpretação que se faz dela.
    Vivi 25 anos na Suíça. Claro, eu teria preferido outro voto de parte daquele povo que admiro e respeito, mas reconheço o valor do sistema democrático que permite uma decisão direta pela população votante.
    Gostei de saber mais sobre os dados do nosso vizinho do Norte! Muito interessante!
    Até breve!

  3. Maria Helena, admirável a sua gentileza de sempre estar informando. E com um jeito todo especial. Agradeço pela alegria que emana de suas palavras. Que as portas da vida plena estejam sempre abertas para você! Merecidamente!

  4. Maria vc e otima! Adorei essa postagem sobre imigraçao na Suecia tudo muito claro e facil de entender….Abraço Keiliane

  5. Oi Manoel!
    Eu acho super importante abordar essa questão dos refugiados que vem para cá porque muitos brasileiros que moram aqui infelizmente veem nessas pessoas “concorrentes”. Os programas de integração são muito mais detalhados e abrangentes para esse grupo e incluem um leque muito maior de programas de apoio do que para pessoas que chegam aqui com visto por vínculo familiar – como é o meu caso. É importante desmitificar o boato de que eles ganham tudo de mão beijada, sermos mais humanos e entender que mesmo que os governos do mundo inteiro quisessem pagar pela perda e danos que essas pessoas tem sofrido isso não seria possível. Eu compartilho a informação na esperança de que mais pessoas possam se conscientizar a respeito disso.

    ****
    Dulce,
    Eu já te vi por aqui? Seja bem vinda!
    Com certeza o povo suíço está com medo. Isso já é bastante para entender porque eles tomaram essa decisão. É uma pena que eles se sintam assim, mas dá para entender; crescem os movimentos nacionalistas e racistas na Europa. Eles se misturam e, na verdade, não há como saber onde um começa e outro termina…

    *****
    Angela,
    Obrigada moça! Paz e bem para você também!

    ****
    Keliane!
    Bem vinda guria!
    Eu é que agradeço esse carinho!

    Beijos pessoas

  6. Pingback: Enfim, o tão esperado emprego | Uma Caipira na Suécia

  7. Pingback: Vassoura nova varre que é uma beleza! | Uma Caipira na Suécia

  8. Maria Helena eu gostaria de agradecer as informações postadas, vou utilizá-las em uma aula a ser ministrada sobre o marco internacional dos direitos das crianças e adolescentes. Sucesso para você!

Agora vamos prosear!

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