Brasil, meu Brasil brasileiro

Tô em casa.

E sim, eu sei que a minha casa fica na Suécia. E que a minha vida é na Suécia agora. Tanto, que já em Paris quando eu estava prestes a embarcar no voo para Sampa senti que tudo estava diferente. E na verdade, senti um pouco horrorizada que a coisa que mais estava diferente era eu mesma.

Suequizei demais os últimos meses. Para meu próprio horror estava me sentindo incomodada com tanta gente falando alto, e falando merda. Esse povo nunca fala com coisa… pensei. E aquela impaciência típica de brasileiro que nunca faz o que está no protocolo: não espera o avião taxiar para começar aquela busca desenfreada pelas malas; não obedece nenhum sinal de apertar os cintos; fica gritando com o conhecido que não sei porquê foi parar cinco filas de banco mais atrás (ô fulano,  você viu a oferta de não sei o quê lá na Duty Free?).

Que merda. Que vergonha. Não dos outros, de mim mesma. Vivo chateada porquê todo mundo fica diminuindo brasileiro o tempo inteiro, por causa da fama de bagunceiro, por causa da fama de preguiçoso, por causa da fama de gente que não quer nada com nada. E lá bem no fundo me senti com a mesma impressão. É tipo um choque cultural ao contrário. Que feio.

Foi só quando desembarquei de verdade é que relaxei. Demorei quase doze horas dentro de um avião e precisei de doses de brasileirice o voo todo para conseguir jogar fora o meu eu sueco. Estava esperando um aeroporto caótico (por causa do carnaval) mas a coisa estava tranquila (e posso dizer isso porque já passei por Guarulhos em um dia 03 de janeiro). E tanta gente feliz! Apesar de estarem trabalhando durante o carnaval. É um contraste absurdo: sair de um inverno cinza na Suécia em que todo mundo anda de cara amarrada e desembarcar num país em que até a polícia federal fica fazendo troça… aff, como é bom!

Fiquei fazendo uma série de comparações. Já trabalhei com suecos em feriados importantes como o Midsommar. Definitivamente, trabalhar em feriado na Suécia é igual a trabalhar com substitutos (quem tem trampo integral cai fora pra aproveitar) ou gente meio de carra amarrada. Quem trabalha feliz nesse dia trabalha feliz só porquê recebe quase o dobro do salário por hora. E mesmo assim, o que acontece é que os suecos que trabalham em feriado falam mais ou menos “que eu não queria trabalhar, mas alguém precisa trabalhar e eu vou receber o bônus”. Sorriso amarelo. Eu fiquei me perguntando se os faxineiros que trabalham no aeroporto em Guarulhos, por exemplo, recebem o dobro do salário por hora por trabalhar em dia de carnaval. Estavam bem felizes, em todo o caso. Vai ver que eles recebem né?

E eu tomo um susto quando a guria do check in da Tam me olha e me diz meio zangada: “senhora? senhora? a senhora está grávida? por favor dirija-se a fila preferencial”. Aí é que eu percebi que o tom de voz dela não era para mim, mas era para lembrar aos outros que eu devia passar primeiro. Passei cinco meses e meio grávida na Suécia e as poucas pessoas “estranhas” que ousaram enxergar a minha barriga foram estrangeiros. Já aqui todo mundo enxerga que eu tô grávida. Gente que eu nunca vi na vida me olha e me sorri, e me deseja felicidade. “Parabéns pelo bebê” é uma constante. No guichê da companhia aérea. Na recepção do hotel. Na fila do mercado. Fui tomar um sorvete e uma mulher ao meu lado me disse que eu estava uma grávida linda. Assim do nada, ela não me perguntou: você está grávida? Ela só disse: você está muito linda grávida… sabe o que é? E eu: um menino (eu não tinha contado ainda Aparecida!). E ela: ahhh parabéns! Eu quero muito ter um menino!

E na minha cidade em que todo mundo sabe da vida de todo mundo parece que o pessoal não tá muito interessado na minha vida não. Hahahaha! Ao menos muita gente não sabia ainda. “Oi Maria! Passeando na casa dos pais! E esperando um suiçinho!!! Parabéns!”. Sim, eles ainda acham que eu moro na Suíça. Mas eu já nem explico mais. Porque se eu explico que eu moro mesmo é na Suécia a pergunta seguinte ainda é se eu já sei falar alemão. Sorriso amarelo. “Quase… tô aprendendo!”.

Nesses dois dias passados em casa já me sinto mais eu mesma. Já fiz papo furado com mais gente do que fiz o inverno inteiro na Suécia. Já falei da Copa do Mundo, do governo e da falta/excesso de chuva. De mudar para fora do país. De como a vida aqui é boa (puxa como é bom encontrar gente satisfeita com a vida que tem!!!). De livros. De poeira. Terra vermelha. Da calma da cidade. Da falta do que fazer. Do excesso do que fazer. De vida nova. De gravidez (com muita gente). De morte. De comida. De energia solar. Piadas (fiquei pensando: nunca ouço piadas na Suécia!).

E lembrei de um texto não sei de onde, que não sei quando li, que falava de como a gente ainda vê o Brasil com um país de selvagens que precisam ser civilizados. Acho que não há forma melhor de definir esse “choque” que eu senti no contato com a minha própria cultura do que esse pensamento. Eu vivo num mundo “civilizado” ao extremo. Politicamente correto – o que é bom. Eu sou a favor do politicamente correto – principalmente o quesito respeito as minorias. Mas não é disso que eu tô falando. O civilizado é o jeito meio robótico que todo mundo vive no lado de lá. As pessoas respeitam a fila. Ninguém fala alto. Os cachorros não ladram. Quase não há lixo pelas ruas (há sempre muito lixo pelas ruas assim que o inverno acaba, mas no geral, as ruas são muito mais limpas do que são as ruas brasileiras). Não há cidades transbordando de gente. E aí o transporte coletivo funciona. E não há engarrafamentos enormes. Ninguém “foge” as suas responsabilidades. Ninguém caga fora do pinico. Tudo funciona com a precisão de um relógio suíço. Mas eu moro na Suécia ok? Só para deixar claro…

Será que quando conseguirmos civilizar os selvagens brasileiros, não vamos sentir falta de toda essa “zona”?

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