Licença parental

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Essa barriga não é minha. Tirei ela daqui

Essa barriga não é minha. Tirei ela daqui

Chega de mimimi nesse blog e vamos partir para algo mais sério: a licença parental sueca, o chamado föräldraledighet (föraldrar= pais, ledighet=folga e aqui no caso, licença) por meio do qual os pais do bebê (recém nascidos ou quando de uma adoção) recebem o salário parental (=föräldrapenning).

A licença parental sueca tem uma série de fatores bem únicos e é a mais longa (do mundo) atualmente. Eu estou meio avoada e está difícil organizar o pensamento, então decidi colocar a informação por meio de pontos:

* Na Europa, a licença maternidade deve ter no mínimo 14 semanas. Na Suécia, os pais da criança tem o direito de curtir 480 dias de licença. Não, você não está vendo coisas: os pais residentes em solo sueco tem direito a tirar 480 dias de licença parental.

* O direito aos 480 dias de licença não significam que os pais devem tirar a mesma desde o nascimento da criança até que ela complete seu 480° dia de vida. De modo geral os pais suecos costumam ficar em casa com o filhote até que este completa um ano – idade na qual eles podem ingressar no dagis ou förskola (são a mesma coisa, com a diferença de que dagis é o termo antigo utilizado para Centro de Educação Infantil, ou seja, as förskolor; como é o caso de creche em português).

* Os dias de licença que não forem gastos de uma cara com a criança podem ser “guardados” até que a mesma complete 8 anos de idade ou a primeira série do ensino fundamental. Se a criança chegou aos 8 anos e os pais não retiraram toda a licença, azar o deles.

* O salário parental sueco é um direito mesmo que você esteja desempregado ou seja um estudante. De forma geral, o salário parental pago é de, no mínimo, 6750 sek por mês (menos impostos) e máximo de 28320 sek (menos impostos).

* Os seis primeiros meses da licença são calculados tendo como base o salário da pessoa da mesma forma como se calcula um auxílio doença. Ou seja, a pessoa receberá durante os primeiros meses um valor correspondente a 80% do seu salário.

* Nos últimos 90 dias da licença os pais tem um salário parental menor, baseado no pagamento de 180 sek por dia (de licença).

* No caso de pessoas que não tem emprego fixo (eu, por exemplo) o cálculo se dá com base na média dos últimos 6 salários que a pessoa recebeu.

* Se você estava trabalhando (mesmo que com bicos) e ficou desempregado corra para o Arbetsförmedlingen (no mesmo dia se possível!) e faça um registro de desempregado. Esse ato fará com que você tenha direito (no caso de uma gravidez e da chegada de uma criança) a um salário parental baseado na sua contribuição pré desemprego.

* Caso não faça isso ou nunca tenha trabalhado, a pessoa recebe o valor mínimo de salário parental.

* E atenção: se você trabalha mas vai estudar, tem que trabalhar até o dia anterior ao ingresso ao seu curso para ter direito a um salário parental baseado no salário (enquanto empregado). Caso perdeu o emprego (como citei acima) vá imediatamente ao A fazer o registro de desempregado. Esperar (mesmo que seja um dia) pode significar a perda ao direito de receber um salário parental baseado em seu salário (e contribuições) anteriores.

* Mesmo quem gere seu próprio negócio tem direito a licença parental.

*Outro fator decisivamente sueco dessa licença é que o pai tem tanto direito de tirá-la quanto a mãe. Na cartilha, os dois tem direito a um número igual de dias de licença (240 cada) mas na prática são os pais que decidem quem vai ficar com o filho e por quanto tempo. Por exemplo: se a mãe quer tirar 6 meses de licença, e após esse período o pai quer tirar 6 meses de licença, basta informar o acordo ao Försäkringskassan (INSS sueco). Se a mãe decidir que não quer amamentar e que vai continuar trabalhando, tem direito a dois meses de salário parental (como um auxílio doença mesmo, considerando o pós parto). Depois o pai pode assumir por quanto tempo quiser. Do mesmo modo, se a mãe quer assumir toda a licença sozinha, o pai tem direito (obrigação) de tirar no mínimo dois meses.

* Os pais podem optar por tirar a licença juntos por um período de até três meses. Nesse caso, a mãe fica com o bebê metade do tempo (50%) e o pai a outra metade (50%). O único período em que os pais podem ficar 100% ao lado bebê ao mesmo tempo é durante o pós parto, ou no caso de férias (contribuição da leitora Ilka).

* De modo a incentivar que um maior número de pais opte pela licença existe até mesmo um bônus que a família recebe quando o pai assume seus 240 dias de direito.

* Ainda assim, o pai tem direito a permanecer 10 dias em companhia da família após o parto da criança independente da licença parental (ou seja, o pai, na verdade, tem direito a 250 dias de licença).

* Tanto o pai ou a mãe assalariado deve informar (com no mínimo 2 meses de antecedência) aos empregadores por quanto tempo deseja estar de licença parental.

* É proibido por lei que os empregadores neguem ou dificultem o direito de saída de qualquer pai ou mãe.

A licença parental é compartilhada na Suécia desde 1974. Antes disso, apenas a mãe tinha direito a seis meses de licença maternidade. Segundo o SCB, quando da implantação da nova lei a participação dos pais era de simplesmente 0%, passando para 5% em 1980, 10% em 1990 e 12% em 2000. No ano de 2011, 24% dos pais assumiram a parte que lhes cabe da licença parental.

Aqui em casa já decidimos que vamos dividir a licença. Mas conversando com outras mulheres, percebi que não é tão simples assim. Em primeiro lugar, de modo geral, os homens tem um salário maior do que as mulheres. Sendo assim, quando a família decide que o pai vai tirar a licença, as entradas da família diminuem muito mais do que no caso em que uma mulher tira a licença. De acordo com as estatísticas de emprego, mesmo no país feminista Suécia as mulheres ganham menos e trabalham em empregos sem estabilidade com mais frequência do que os homens.

Em segundo lugar, há o nosso caso. Sim, estou falando das estrangeiras. Nós demoramos a entrar no mercado de trabalho e às vezes, nem entramos. E não me refiro apenas as mulheres que vieram a reboque de um amor, me refiro também as famílias que mudaram para cá já com um trampo em vista. A maioria esmagadora muda porque o homi da casa arrumou um trampo aqui, e não vice versa. Sendo assim, no caso da chegada de um pimpolho, mesmo que a mulher não tenho tido salário nenhum o fato de ela assumir sozinha a licença parental representa um ganho (material) muito maior para a família.

Terceiro, passadas essas questões, existem homens das cavernas na Suécia também. Eu sei que às vezes parece que não, afinal, todos são ricos, lindos, loiros de olhos azuis que salvaram suas princesas da pobreza (latino americana ou tailandesa ou filipina ou onde você quer que possa imaginar). E esse é um perigo, porque quando o cara é realmente assim ele não passa de um príncipe machista mesmo com ideais de brucutu que quer uma dona de casa e não uma companheira. O fato de que apenas 24% dos homens na Suécia retiram sua parte da licença parental está sim vinculada ao pensamento conservador de que educar as crianças é coisa de mulher. E antes que alguém observe nos comentários que no Brasil é pior, eu quero deixar claro que não estou estabelecendo uma comparação. Primeiro, porque no Brasil nem há a possibilidade de que o pai tire a licença. Segundo, no Brasil até as mães tem suas licenças postas a risco devido a insegurança financeira.

Por fim, deixo para vocês os links utilizados para escrever os dados (os pontinhos e as estatísticas) desse post: forsäkringskassan e SCB. Deixo também um aviso aos navegantes: eu não vou responder a questões relacionadas a “como é que eu faço para dar entrada na minha licença Maria? Porque eu sou nova na Suécia, estou grávida e blá blá blá…”. Desculpe meninas, mas isso é bem importante e eu não posso ajudar agora. Primeiro, porque estou vivendo meu próprio período de cuidar da minha gravidez. Segundo, vocês não fizeram essas crianças sozinhas e acredito que o pai saiba sueco (ou no mínimo inglês, se está aqui a trabalho) e para ele vai ser bem mais fácil ler e entender tudo sobre a licença parental (basta escrever “föraldrapenning försäkringskassan” no google e clicar em pesquisar). Terceiro, esse processo é complicado e exige uma série de ligações, contato constante com o Försäkringskassan, envio de documentos e tudo o mais. Qualquer falta de informação ou mesmo desentendidos vão fazer uma grande diferença. Eu não posso assumir a responsabilidade de mastigar tudo e depois ainda escutar que passei a info errada. Infelizmente, é assim mesmo que tem sido ultimamente e por isso mesmo já deixo claro aqui que não vou dar orientações a respeito do tema.

Se ao contrário, você estiver a fim de conversar e desabafar porque assim como eu também não entende bulhufas desse sistema: seja bem vindx! Tanto aqui como na página da internet podemos trocar figurinhas.

Se ainda não curtiu a página no face, clique aqui.

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Pequenas Grandes Coisas #31

Preciso responder aos coments dos posts anteriores mas… organização não é o meu forte e como tenho algumas coisas para contar decidi deixar umas novas antes de desistir por completo.

Estou avaliando seriamente se vou ou não a missa da Paixão. Como no caso não iria a uma igreja católica, não tenho ideia de como seria o ritual. Isso me dá um pingo de curiosidade mas também muita preguiça. Além disso tenho outras ideias na cabeça e não estou pensando em Jesus. Não é que eu tenha abandonado a fé ou etc, apenas não estou praticando e acho um pouco hipócrita sair de casa na sexta feira santa esquentar o banco de uma igreja quando eu sei que vou ficar pensando nas coisas que eu gostaria de fazer em casa…

Tenho me envolvido bastante com a reforma da sala de estar – e tudo o que isso significa. Reforma significa, além de tudo, que sua casa estará uma constante baderna e sujeira. Eu vou juntando um pouco ali, varrendo um pouco lá, mas depois de lixar as paredes… pá, não teve jeito. Tudo está meio branco e esquisito, meio grudando. Hoje quero fazer os últimos detalhes da pintura na parede (se as roupas do Benjamin já secaram) e costurar algumas coisinhas…

Eu me dei uma máquina de costura no Natal. Uma coisa bem simples. Eu não sou boa costureira não – não tenho paciência para os detalhes, vou cortando, emendando e metendo a costura reta (coff, coff) como dá. Se um lado ficou mais curto que outro… eu posso desmanchar uma vez. Mas não estou confeccionando roupas, porque eu tenho simancol. Mas fiz um boneco para o Ben quando estive no Brasil! Eu fiquei impressionada de que tenha ficado bom. Modéstia a parte. Tem gente que acha feio demais porque é preto, que é racista porque tem aqueles traços exagerados negros que um saci tem, e que vai assustar o menino – porque é um saci e porque tem uma perna só. E porque o Saci é mau (veja que mãe desnaturada: não vai a missa da paixão e ainda por cima confecciona um Saci para o menino!). Mas eu não estou querendo provocar ou ofender pessoas negras, só quero que meu filho tenha contato com o folclore brasileiro. E o Saci no folclore brasileiro é assim: um menino preto de uma perna só. Acho que o boneco vai servir também para ensinar o Benjamin sobre diferenças e sobre respeitar elas – tanto porque o saci é preto, tanto porque ele tem uma perna só. Há criança deficientes, pessoas deficientes no mundo; e já que é muito bom ensinar o menino a brincar de boneca e já que é muito fácil comprar bonecas “lindas” branquinhas e de olhos azuis (ironia viu gente)… meu trabalho tinha que valer a pena uai! E como eu disse, acho que meu saci ficou muito lindo. Não vai assustar o moleque não.

Saci

A foto – para variar – não é boa, mas sacaram que eu fiz dedos no pé?

Falando nisso, acho que é a primeira vez que escrevo o nome do guri no blog. Eu ainda não decidi o que vou escrever a respeito dele. Acho um barato mães que compartilham as aventuras dos filhos – esses blogs tem me salvo quando acordo de madrugada e não posso retornar ao meu sono de beleza e reparação. Mas eu tenho a impressão de que este blog não se transformará num blog materno. Eu escrevo só o que me vai na telha, sem um foco muito certo ainda… Em todo o caso, Benjamin foi uma escolha antiga. Sempre achei o nome lindo, o som, o significado. Convencer o Joel não foi um trabalho difícil, uma vez que ele tinha várias sugestões para nomes de menino mas sabia o nome que queria no caso de uma menina. Já meu caso era o contrário: tinha várias sugestões para nome de menina, mas sabia o que eu queria se fosse um menino… Decidimos que, fosse uma menina o pai escolheria o nome, fosse menino era minha vez. Há, ganhei!

Minha barriga está uma bolotinha, todo mundo diz que eu não engordei (eles não veem meu músculo do tchau, como ficou gordinho) e que estou só a  pança mesmo. Não vou postar fotos aqui, não enquanto minha irmã não me mandar algumas fotos que tiramos quando estive no Brasil. Ela tem muito talento e fez um trabalho muito bonito. Então eu não vou tirar uma foto meia boca com meu celular, o que eu costumo fazer sempre, só para ter qualquer imagem aqui. No mais, eu me sinto bem grávida. Me sinto bonita e ainda um tanto especial. É só não sair na rua… porque daí me bate aquela deprê da invisibilidade. No mais, o guri gosta de brincar com a minha bexiga: eu imagino desde o sapateado, até treino de MMA a um batuque cadenciado num surdo. Dias mais, dias menos. Agora começou aquela fase chata em que eu tenho que procurar uma posição confortável para dormir e eita! Que tarefa viu? De um jeito dorme a perna, de outro me dá cãimbras, de outro não pode porque tranca a circulação… Aí o menino já enfia o pé embaixo da costela e as ancas decidem começar a doer a uma hora da madruga. Mas por incrível que pareça… o que mais me incomoda são pesadelos – sempre acordo por causa de sonhos ruins – e uma ardência na pele, seguida de fortes dores no meu umbigo (dizem que é normal, só a pele se esticando mas eu tenho que confessar: morro de medo de ver a barriga se abrindo bem no meu umbigo e de perder a criança no chão! Em meio a tripas e muito sangue… lol). Não tenho estrias ainda – elas podem aparecer a qualquer momento. Dizem que é hereditário – minha mãe não tem muitas, nem minha irmã mais velha – e eu acredito que a alimentação é que faça uma incrível diferença nesse sentido. Bom, eu como frutas e verduras todos os dias – ainda que elas tenham gosto de nada. E passo óleo e creme em tudo, vivo bezuntada. Mas se vier, vieram e não há o que fazer…

Tem bastante gente curiosa a respeito do meu emprego. Como é que se resolveu? Porque vocês lembram que eu não havia dito nada no dia da entrevista não é? Pois… eu mandei um e-mail (pedi ajuda ao marido para redigir de forma que ficasse super objetiva, bem humilde) contando da gravidez e da data prevista para o parto. A primeira resposta veio rápida e rasteira, nem cinco minutos depois e extremamente enxuta: temos que conversar a respeito assim que você voltar para a Suécia. É, eu estava no Brasil. Respondi normalmente que claro que sim, que estava a disposição blá blá blá, mas já me deu aquele medinho de sofrer um bullying no trampo por causa da minha travessura. Trocamos mais alguns e-mails, todos assim bastante secos e objetivos: quanto tempo eu desejava de licença maternidade (essa história explico melhor depois), quando eu queria sair, se eu queria começar mesmo – uma vez que vou trabalhar entre um mês e um mês e meio… poderia tentar um espécie de auxílio gravidez e etc e tal. Mas no final das contas, assim que cheguei na Suécia recebo um telefonema da minha chefe desejando-me os parabéns pela minha gravidez. Isso me deu uma confiança e um alívio enorme!! Minha chefe parece ser uma pessoa bastante prática, e já organizamos tudo o que vai acontecer desde o dia em que começo (oficialmente 5 de maio) até o dia em que vou sair (mistério…).

Definitivamente, esse emprego afastou muitas nuvens negras do meu horizonte. Sempre tenho a impressão de que a minha falta de amor pelo solo sueco é devido a falta de segurança financeira e ao excesso de horas livres que eu tenho. Todo mundo tem uma vida e eu preciso imensamente de contato com outras pessoas – já confessei no post passado o quão carente sou – e não dá para ficar encontrando gente no meio da semana para um almoço, um fika, uma escapadinha; afinal, os outros tem o que fazer, sou eu que estou aqui de varde. No fim das contas, cai tudo nas costas do Joel e como eu quero preservar o meu relacionamento, eu tento maneirar e não grudar nele assim que ele passa pelo umbral da porta. Ainda estou naquela vibe de saudades intensas do Brasil, simplesmente porque lá nunca estou sozinha.

Aqui, morando no campo e numa casa, posso curtir a paz e o sossego até enjoar. E eu enjoo rápido. Tenho ouvido muita música enquanto estava lixando paredes e pintando. E não é perigoso para o bebê? Não, eu uso máscara e não estou me matando de trabalhar. Fiz uma porrada de pausas enquanto lixava – meu músculo do tchau gordinho é pesado, eu não posso trabalhar um tempão com ele dependurado no meu antebraço – para comer, tomar água, ligar para outras pessoas, tirar uma soneca ou só ficar de bobeira na internet – tem muito blog materno para ler e, graças a Deus, uma comunidade grande de mães para trocar figurinhas.

Fui trabalhar duas vezes. Uma vez como assistente pessoal, outra num trampo que arrumei em fevereiro para fazer uns bicos, que é uma mistura de assistente pessoal e behandlingsassistent. Como assistente pessoal trabalhei algumas vezes com uma moça, e foi uma experiência muito boa. Já no outro trampo… a equipe de trabalho não é unida e bom, é difícil trabalhar quando um fala mal do outro o tempo inteiro. Mas,  como diria minha amiga Angela, eu não estou dando bicudas em notas de cem e quando eles me ligam, eu vou. Só que é realmente um alívio olhar para o relógio e perceber que só falta uma hora para sair. Sério… nunca me senti assim nem quando trabalhava como faxineira na Suécia! Esse é, de longe, o pior trampo que já tive na vida.

Por essas e outras é bom e mau ficar em casa. Bom porque eu acabo descobrindo algumas coisas bestas – tipo Bezerra da Silva! – que são maravilhosas e mau porque eu não tô fazendo nenhum dinheirim. Já não fiz dinheirim nenhum mês passado, só curtindo a vida boa no Brasil…

Ainda assim, tô animada. Vou aproveitar esse mês para deixar as coisas do piá engatilhadas – quarto pronto, se Deus quiser – que mês que vem eu já tenho uma agenda de trabalho… e em junho tem o chá de bebê sueco!

Então é Páscoa e eu não comprei nada de chocolates. Eles me dão uma sensação super estranha e no dia seguinte eu tenho tipo… ressaca. E eu tô fazendo um curso de parto natural. E descobri umas manchas brancas na minha bochecha. E sardas na testa! Também decidi que vou fazer um quadro usando uma janela velha como moldura… só não decidi que fotos vou colocar ainda. E quero costurar os lençóis para a cama do guri… e uma cobra de tecido… e comprar uma máquina fotográfica…

Eu já disse que estamos reformando o banheiro?

Assentando a poeira

Depois das férias no Brasil, volto para a casa com aquele sentimento de perdi alguma coisa e não sei o quê.

Me irrito fácil com as pessoas daqui. Primeiro, que tô cansada de ouvir outros brasileiros repetirem para mim que o Brasil é ótimo para passar as férias. Sério, vou ser mau educada agora: engulam suas palavras. Eu gosto realmente do Brasil como país, não estou de boa largada na praia curtindo água de coco (adivinhem se eu não tive que consultar o pai dos burros para ver como é que se escreve coco – do coqueiro?) para dar um tempo da minha vida badalada na Europa. Vou para casa curtir minha família, meus amigos e todos os eventuais problemas que isso represente. É certo que não estou trabalhando, não estou estudando e não estou sendo cobrada de nenhuma responsabilidade. Mas todo o mundo ao meu redor está. Ou vocês acham que eu passo um mês no Brasil e enquanto isso todo mundo está de férias comigo? É certo que vou para uma cidade pequena, mas ninguém faz uma parada e é decretado ponto facultativo porque a Maria Helena chegou não. A vida continua, e eu vou acompanhando do jeito que dá aqueles que eu amo. Acho um saco gente que fica me tratando como se eu fosse alienada só porque eu moro no interior – tão bonitinha ela, tão ingênua… – porque eu tô feliz de ter ficado na roça, no Brasil – o pior país do mundo segundo os brasileiros. E antes que algum leitor fique achando que é indireta, eu explico: meus queridos leitores, eu não vos conheço, e vocês não me conhecem. Se alguém achar que eu sou uma alienada, está ok porque eu só estou escrevendo sobre uma parte de mim aqui.

Falando nisso, eu acho que quero morar no Brasil se algum dia eu ficar grávida de novo. Em duas semanas já me tornei o barrigão invisível aos olhos do país super organizado e progressista Suécia. É verdade, eu sou uma pessoa carente que precisa muito de atenção, afirmação e bajulação 24 horas por dia. Meu marido tem que trabalhar então essa bajulação tem que vir de algum outro canto quando ele não está comigo e adivinhem? Meu estoque de “sinta-se o máximo por causa da gravidez” já está quase no fim. Sorte minha que conheço uma sueca louca por crianças (que amou estar grávida e que acha a experiência da maternidade a coisa mais sublime do mundo) e um par de brasileiras porretas que ficam me amaciando via whatsapp e facebook. Eu quero tanto falar sobre fraldas, parto e o carrinho que a gente comprou para o bebê. E a reforma que está quase pronta e aí finalmente vou poder montar o quarto. Mas é só eu adentrar esse assunto que a coisa já muda para a crise na Ucrânia, estupro coletivo de mulheres, o racismo, as eleições para o Parlamento Europeu. Quer saber? Eu também uma vontade enorme de gritar histericamente com essas pessoas. Eu estou grávida apenas por 9 meses. Eu quero compartilhar esse momento – que está sendo tão bacana para mim – falar dos meus medos, dos meus receios e das minhas escolhas. Mas não tem ninguém para escutar porque isso é secundário. O resto é mais importante.

Merda não é. E é por isso que tem tanta gestante achando uma bosta ficar grávida. Você se torna um saco enorme de peidos que vai inflando e inflando – tanto por causa das reviravoltas intestinais como hormonais, somada ao crescimento do bebê – que apesar de tudo é invisível. Eu sei que tem um monte de gente que está tentando desmitificar essa coisa de que “ser mãe é padecer no paraíso” e esse é um movimento importante. Mas porque é que a gente tem que transformar a gestação em uma merda e todo mundo tem que entrar no clube do “ser mãe é um mal necessário”? Eu não me importo de que passem a mão na minha barriga, o corpo é meu mas eu vejo isso como carinho e não invasão. E se alguém vier com algum conselho furado eu vou sorrir e dizer obrigada. Não preciso ficar indignada e já ajuntar cinco pedras na mão “porque as pessoas acham que tem o direito de se meter na minha vida porque estou grávida e não é bem assim”. Não é bem assim mesmo! Por que o mundo se tornou tão ranzinza e ninguém pode curtir um pouco  a vida?

Lá na minha cidade do interior eu fiz isso. Nada de Putin. Nada de grandes conflitos mundiais ou crises sociais. Só a vida mesmo como ela é, e principalmente, a vida que vem crescendo em mim como centro das atenções. Nada mal para uma pessoa carente não acham?

E para mudar o foco um pouco da coisa – mas não muito – eu não me conformo com o gosto da comida  nesse país. Acho que quem mora em cidade grande no Brasil sinta o mesmo que eu – ou não, e as feiras ao ar livre tenham muitas opções de comida boa – mas eu fico triste de tentar fazer comida às vezes. E o pão já me dá nojo e o café também. Pra quem acordava as seis da matina todo dia por causa do cheiro maravilhoso de café recém passado na cozinha, to na miséria do iogurte, suco e algumas frutas – maçãs aqui tem um gosto bom. Feijão e arroz funcionam bem também – viva o feijão nosso de cada dia. Mas saladas, carnes e verduras – em geral tudo que é muito gostoso quando é fresco – tem um gosto estranho. E me desanima. Se ao menos comer não fosse tão importante para mim. E não é só agora que estou grávida, sempre foi; mas comida aqui tem gosto de papel.

Tudo culpa da minha mãe, que é a melhor cozinheira do mundo. Saudades de comida caseira de verdade…