Pré Natal na Suécia #03

É interessante perceber como o interesse pelo blog diminuiu brutalmente depois que anunciei a minha gravidez. Acho que o público do blog vai mudar e, enquanto isso, eu também vou ter que me decidir sobre o que é que vou continuar – ou não – escrevendo.

Há algum tempo atrás compartilhei as minhas primeiras impressões sobre o pré-natal na Suécia (post aqui e aqui). Como mãe de primeira viagem, estrangeira e etc e tal me senti bastante insegura. Além disso, o lance de ser atendida por uma enfermeira obstetra (aprendi o nome correto da profissional) ao invés do médico me deixou bastante confusa. Mas quando eu estive no Brasil fui a uma consulta com o médico e percebi que também saí do consultório apreensiva. O que me levou a concluir que meu causo é apreensão mesmo e não qualquer outra coisa (todo mundo já sabia, menos eu).

Depois da viagem ao Brasil encontrei com a enfermeira obstetra três vezes. A partir da 35a semana de gestação as consultas ficam mais frequentes. Na última delas fiquei sabendo que o bebê já está encaixado. Lindo né? E ela fez um exame manual, sem ultrassom. Essas enfermeiras são treinadas de modo que elas sabem identificar a posição do bebê por meio do toque e massagem na barriga da gestante. Em caso de dúvida aí sim o ultrassom será marcado.

Identificar a posição do bebê na semana 35 ou 36 de gestação é procedimento de rotina aqui. Normalmente a criança “encaixa” mais ou menos nesse período. Às vezes o bebê pode “virar” até no último minuto antes do parto. Mas aqui o procedimento é o seguinte: se durante esse exame a enfermeira obstetra identificar que a criança está sentada a grávida fará um acompanhamento semanal até a semana 37 para ver se o bebê encaixa. Caso isso não ocorra é marcado um procedimento durante a semana 38 em que, com a ajuda de algumas drogas que deixam o útero maleável, um profissional obstetra ajuda a criança a posicionar-se de cabeça para baixo. Umas das suecas que eu conheço passou por esse procedimento. Segundo ela, a mulher fica deitada em uma maca com a cabeça levemente mais baixa que o resto do corpo. A equipe de trabalho aplica a “droga” e você se sente meio anestesiada, com o corpo formigando. Um tanto tonta também. Então a enfermeira obstetra faz uma massagem na sua barriga, e fica massageando até que de repente usa um movimento mais seco para “virar” o bebê. Isso dói e é fácil ficar enjoada (não sei se por causa da droga ou por causa do procedimento). Durante todo o retetê o bem estar da mãe e criança estão sendo controlados por aqueles aparelhinhos e seus bips. Tudo isso dura menos do que 20 minutos mas o procedimento todo leva basicamente um dia pois é feito ultrassom antes e depois da intervenção e, além disso, tanto a droga aplicada quanto o movimento de massagem podem desencadear o parto, então eles ficam com a mulher sobre observação (e é também por causa disso que esse trem não é feito antes da semana 38 de gestação).

Eu não vou ter que fazer nada disso e fiquei com um sentimento de satisfação gigante quando a minha parteira me disse que ele estava de cabeça para baixo e bem encaixado. É claro que o bebê pode virar e resolver sentar no último minuto, mas é de praxe que a mulher seja submetida a um ultrassom quando chegar a maternidade (se houver suspeita de que o bebê está sentado). Nesse caso não sei se eles apenas “viram” a criança ou se rola a cesária. Só sei que parto pélvico não rola por aqui.

Durante essa fase da reta final é comum que os pais sejam convidados a participar de uma série de cursinhos. Como a gente estava no Brasil (e eu acho que minha parteira me esqueceu) não vamos participar do curso de pais – que é tipo um curso sobre parto e sobre os primeiros dias com o bebê. Eu tive uma aula particular sobre amamentação – isso porquê eu suspeito que minha parteira ficou com dor na consciência após perceber que nos esqueceu – do contrário iríamos eu e o Joel também participar de um curso para pais que é sobre amamentação. O que fizemos juntos foi uma aula de apresentação da maternidade, onde uma enfermeira obstetra muito engraçada falou sobre o parto, explicando tintim por tintim todos os procedimentos disponíveis no hospital, como é o quarto, como funciona o atendimento, o que os pais tem direito e  bla bla bla.

Eu perdi metade da aula porque estava no trabalho e justo naquele dia meu trem atrasou. De toda forma, Joel estava lá e disse que a primeira parte foi mais ou menos uma repetição do que já estamos aprendendo no curso de parto natural (que é particular e já já explico). Duas coisas que não são legais sobre o parto aqui na Suécia: 1. eu não sei aonde vou parir – quando o trabalho de parto começar eu tenho que ligar para a central de partos e eles me dirão se há vagas no hospital mais próximo da minha casa e, em caso negativo, nós teremos que optar por outro hospital fora de Göteborg*; 2. a parteira ou melhor, enfermeira obstetra que me acompanhará no parto não é a mesma que fez meu pré natal. Na verdade, os hospitais tem suas próprias equipes e quem atende as parturientes são as equipes de plantão. O lado positivo disso é que as equipes devem contar com profissionais que tem diversas habilidades, entre elas até acupunturistas. Chique né? Ao menos na teoria as enfermeiras obstetras aqui incentivam as parturientes a utilizarem práticas alternativas para diminuir a dor e a tensão na hora do parto. Na prática eu sei que às vezes o carro entra na frente dos bois, em especial em épocas como essa em que todo mundo quer tirar férias. Sim, a temporada de férias na Suécia vai de junho a agosto e isso significa que se eu pegar uma equipe completa no hospital terei ganhado na mega.

Pois bem, além disso há banheiras disponíveis no hospital – para um banho quente, não perguntei se é possível parir na água (claro que é, mas não sei como é que a gente faz esse requerimento); cada quarto tem seu chuveiro – caso a mulher prefira o banho quente; bolas de pilates; gás do riso e acupuntura (além dos demais anestésicos de praxe); e… esqueci. Pá é tanta coisa que a gente fica meio tonto de informação. Só sei que cada quarto de parto é super equipado com tudo que é necessário para que o trem se transforme numa sala cirúrgica em dois três se necessário, sendo que a mulher tem o direito de ter consigo o/a parceiro/a e uma doula durante todo o trabalho de parto. De forma geral, há muita liberdade e se você quiser ficar andando para lá e para cá pode, assim como se você só quiser ficar deitada na cama olhando o teto pode também.

Uma coisa que achei engraçada é que na listinha que eles nos dão para ajudar a fazer a mala da maternidade estão entre os itens indispensáveis telefone celular, máquina fotográfica e uma lista de músicas que você goste (segundo a parteira palestrante, às vezes a equipe sofre muito com listas que são uma verdadeira rave ou um show de hard rock… fazer o quê?). Além disso eles encorajam o/a parceiro/a a levar um livro e comida para si mesmo. E chocolate e chips para a parturiente! Não é proibido comer durante o trabalho de parto mas a parteira comentou que a maioria das mulheres fica tão nervosa que não consegue comer. Aí ela recomendou bater uma marmita de pedreiro assim que sentir que o trabalho de parto começou.

Enfim… estava falando do curso de parto natural: iniciamos o curso em a abril, logo após chegarmos do Brasil. Seriam quatro encontros para trabalhar respiração, tirar dúvidas sobre o processo do parto, para aprender a relaxar, para que o Joel aprendesse macetes de massagem, enfim, técnicas para ter um parto mais feliz. E tudo isso na faixa, já que é uma amiga da mãe do Joel que nos estava fazendo esse favor. No dia do segundo encontro, a mulher quebra o braço e com fratura praticamente exposta (só não rasgou a carne mas o braço virou um U). Moral da história: ficamos sem o curso de pais lá do posto de saúde e provavelmente ficaremos sem o curso de parto natural, uma vez que a senhora lá teve que fazer uma cirurgia, coitada.

Apesar disso, me sinto bem relax com relação ao parto. Eu infeliz ou felizmente não sou daquelas que pira o cabeção. Na verdade, sou relaxada demais: enquanto tem grávida que fica escutando música clássica desde o quinto mês de gestação para incentivar o desenvolvimento da cria (ao contrário, dia desses eu e Joel estávamos ouvindo hip hop!) eu nem estou lendo para o Benjamin. Ok, eu fiz isso algumas vezes. Mas não fiz yoga para grávidas, tirei uma foto da barriga a cada mês, fiz um diário de gestação ou coisas do tipo. Estou vivendo normal… acho que estou tentando aproveitar porque sei que logo logo minha vida vira de pernas para o ar.

Num domingo de sol

Num domingo de sol

*Sobre os hospitais: Göteborg tem dois, o Salhgrenska Universitetet e o Östra Sjukhuset, mas há um terceiro que fica na cidade vizinha (que é colada em Göteborg) chamado Mönldal Sjukhuset que faz parte desse grupo. A maternidade do Salhgrenska foi fechada há alguns anos então, no caso só há dois hospitais com maternidade em Gotis. No caso deles estarem lotados, temos a opção de nos locomovermos para Trollhätan ou Varberg, ambas a cerca de 1h de carro daqui.

Dedinhos cruzados…

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Três anos de Suécia e mais do mesmo

Eu completei três anos de Suécia em abril mas… olha só como é que as coisas vão mudando de prioridade na nossa vida não é? Logo que mudamos vamos contando os dias, as semanas, os meses, as novidades, sempre e com bastante detalhes. Depois a gente vai deixando isso de lado. Não porque não passemos por situações inusitadas, mas simplesmente porque – no meu caso – eu me acostumei a ter um choque cultural com tudo.

Essa coisa de choque cultural… pá, eu lembro de que quando li sobre isso imaginei que seria mais ou uma menos como um tombo, uma ducha de água fria ou um tapa na cara; que viria assim e pau! Eu sentiria tudo de uma vez e com bastante intensidade. É assim às vezes, mas o fato é que não chega tudo de uma paulada só. Vem a prestações, daquelas em que os juros são flutuantes. Às vezes é só um desconforto, às vezes é angustiante. Nesses momentos dá vontade de jogar tudo para o alto e dizer: cansei dessa brincadeira, eu quero voltar para casa!

E foi isso que eu fiz. Grávida, desempregada e me sentindo o koo do mundo cheguei chorando para o Joel e disse que estava cansada dessa merda de país e que queria voltar para casa. Sorte minha que ele é louco para morar no Brasil. Azar o meu que tudo não é tão simples como fazer as malas, comprar um bilhete e zarpar – ou melhor, voar – para o lado de lá. Mas a bem da verdade é: três anos de Suécia não me fazem amar esse país, não me fazem idolatrar essa riqueza, essa segurança, as facilidades e essa perfeição absurda que me cerca. Três anos de Suécia apenas me levaram a simples constatação de que eu sou, definitivamente, o estranho no ninho.

Nota: acho fabuloso gente que mudou para cá e vive bem e feliz. Quem conseguiu entrar no ritmo e está saboreando intensamente cada pedacinho dessa terra cheia de novidades é que está certo porque dispensa dramas desnecessários, dores de cabeça e desapontamento. Vocês tem meu respeito.

Ainda ontem comentei que minha vida na Suécia ainda parece estar dentro de uma bolha. Quando voltei para cá em abril lembro dessa sensação ser muito forte nos primeiros dias: essa paisagem ao meu redor é familiar, mas parece muito a cena de algum filme que eu vi. Eu poderia ser o personagem de algum suspense tenso, daqueles que você espera durante o filme inteiro que algo aconteça e no fim…  não havia nada para acontecer. Talvez essa sensação de estranhamento venha porque de forma inconsciente eu sou a espectadora a espera dessa alguma coisa e não percebi que essa alguma coisa acontece todo dia, mesmo sem ser extraordinária.

Ainda é uma dificuldade muito grande me conectar com suecos. Já desisti. Às vezes me chateio imensamente com isso – ontem foi o caso – mas na maioria dos momentos somente aceito que não rolou e ponto. Eu tenho outros latinos a minha volta, outros estrangeiros e brasucas com os quais é muito simples conversar, marcar um encontro, falar ao telefone ou simplesmente mandar um recado no facebook. No final das contas pode ser que os suecos com quem eu convivo acreditam que estejam super conectados comigo – mas eu não sinto isso. Eu sou quem liga, quem convida para sair e quem tenta manter a conversa animada – sempre. Se eu não fizer, fico no vácuo eterno.

A sensação de solidão é constante.

Quem sabe isso mude agora que eu tenho um emprego e que eu vou estabelecer uma certa rotina na minha vida afinal, quando se tem muito tempo para coçar se acha até chifre em cabeça de cavalo. Quando converso com outros brasileiros a respeito da minha insatisfação em morar aqui eles só sorriem e dizem que assim que eu tiver meu filho minha cabeça vai mudar, eu vou priorizar outras coisas que eu não posso ter no Brasil. Eu me pergunto quais são as minhas prioridades e, sinceramente, ainda não entendi porque elas vão mudar assim que meu filho nascer. Ao contrário, antes de engravidar eu pensava que a Suécia seria um ótimo lugar para educar uma criança. Já desde que engravidei tenho enormes dúvidas. Quem sabe seja isso que acontece com tantos pais pelo mundo afora – e pelo Brasil também – principalmente aqueles que me escrevem querendo saber como mudar para cá porque querem dar um futuro melhor aos filhos – afinal o Brasil anda assim, assado, frito e cozido – e parece que ninguém gosta desse combinação.

Não sei o que responder. Provavelmente minha insatisfação venha porque não me acostumei com o estilo de vida sueco. Talvez seja birra ou minha eterna teimosia que me faz reclamar sempre… o fato é que quando alguém me escreve no seco com “eu quero pelo amor de Deus ir embora daqui!” (do Brasil) minha única vontade é dizer “eu também pessoa… vamos trocar de lugar?”

Qualquer dia desses enfio o Joel numa mala e o nome do blog muda para “de volta para minha terra”. Pena que o programa do Gugu acabou.

 

Coisas que você não sabe antes da gravidez

Essa coisa de internet transformou todo mundo em pac mens da informação: você entra no labirinto do google e começa a consumir zilhões de bytes em qualquer assunto do seu interesse e volta e meia topa com coisas bizarras que você gostaria de evitar. Ainda assim, estamos lá loucos comendo cada frase, torcendo para que encontremos algumas espécie de super poder no meio da nosso busca que nos torne aptos a enfrentar nossa própria ignorância – e capazes de devorá-la à Djavan.

Já faz um tempo que ando pensando em dividir coisas que eu descobri com a gravidez (garimpando o Google) que definitivamente não passavam pela minha cabeça. Primeiro, é cilada Bino! como diria uma Bruna que conheço. Você passa por um monte de processos fodásticos, sente dores esquisitas, ama e odeia o mundo em escala 9.7 richter pra depois ficar com cara de boba (e não só com a cara) a partir da primeira vez que o bebê mexe dentro de você.

Eu sei que há mulheres que não sentem nenhum romantismo pelo fato de estarem grávidas. Eu respeito vocês, de boa, mas… deixem que nós, que levamos uma rasteira dos hormônios e das emoções, fiquemos babamos e exaltando os desprazeres de carregar um barrigão. Prometo que vou deixar vocês falarem que gravidez é um saco e nem vou revidar – afinal, gravidez é uma coisa bem pessoal.

Por mais que eu tenha um bebê que foi querido e planejado, quem não estava definitivamente preparada para a gravidez era eu. No dia do teste eu senti um pânico absurdo, do tipo: lascou-se guria… agora é real. É o mesmo sentimento que dá quando sentamos naquele banco do vagão do carrinho da montanha russa: você sabe que tem medo de altura, você sabe que vai quase se mijar na primeira queda, que vai gritar o trajeto inteiro (no meu caso, eu grito muiiiiiittttooooo mesmo) mas mesmo assim… você senta lá e afivela aquela merda de cinto. Porque simplesmente uma vez que você fez isso, não tem volta. Não tem pedir pinico. É sinistro, mas é legal.

Eu passei a gravidez bem, sem maiores peripécias. Tem gente que vomita os bofes todo os dias. Eu passei alguns dias enjoada, mas nada muito grave. O que mais me pegou foi a parte emocional e a questão do trabalho mesmo… trabalhar com uma criança deficiente que é doente quando se está grávida não é lá uma combinação muito esperta. Sempre ouvi dizer que grávidas ficam emotivas, choram por qualquer coisa. Ou que ficam com uma TPM constante em que dá vontade de explodir o mundo. Mas não acreditava muito… parecia aquele papo de homem que gosta de ficar fazendo piadinha do tipo “todo mulher fica louca na TPM”. No meu caso, as duas coisas foram reais. Tinha pesadelos constantes, um medo absurdo de a minha criança nascer/ficar doente (acho que a deficiência, num país como a Suécia, é uma situação com a qual a gente pode trabalhar. Já a doença…) e uma raiva infinita de tudo relacionado a Suécia. Principalmente a escuridão. Até o Natal me incomodou. E o A. Mas o A e eu temos um caso de amor e ódio antigo… então não foi muita novidade.

A solidão natural do inverno sueco resultou em uma péssima combinação para esse maremoto emocional. Se você está pensando em engravidar e mora aqui, eu sugiro que vá para o Brasil nos meses de escuridão. Sol e calor fazem milagres. Família (se você tem uma que te ama muito) também. Eu só me recuperei do meu stress no Brasil. Foi lá que eu realmente comecei a sentir felicidade e paz em relação a minha gravidez.

Por causa da sobrecarga emocional eu tive dores lombares nos primeiros meses. Sabe aquela história de que grávida tem dor nas costas? Tem mesmo, e você não precisa esperar até o sétimo mês de gestação. Além disso, eu sempre tive gengivite como sintoma de TPM. Enquanto usava anticoncepcional esse problema foi controlado. Eu lembro de encontrar uma guria (aquela mesma Bruna) que comentou que grávidas deveriam ter atendimento odontológico gratuito na Suécia por causa do sangramento da gengiva. E eu hein? Sangramento? Da gengiva? Achei a maior dodeira. E é: depois de uma semana, lá estava eu com a gengiva hiper mega ultra inflamada. Nunca tive tanta dor na minha vida. A dor irradiava até o ouvido e metade da minha cara ficava dormente e latejando (tudo ao mesmo tempo). Depois de passar duas noites sem dormir, resolvi ir ao dentista – o que é uma coisa super cara aqui. Eu estava morrendo de medo de perder os dentes, tamanha a dor que eu sentia. Depois de uma consulta de 15 minutos, saí do consultório dentário R$120 reais mais pobre (isso foi apenas pela consulta, para ela ficar cutucando a minha gengiva duzentas vezes e fazendo sangrar e para passar uma pomadinha anestésica enquanto ela limpava – pasme – apenas um dente) levando um tapinha nas costas enquanto ouvia uma parada de “gravidez é assim mesmo; você fica sensível e acaba com gengivite. É normal que você sinta dor, que inflame, e que sangre. Escove bem os dentes várias vezes por dia e use essa coisa aqui com gosto super ruim e que vai te dar uma super dor de estômago 30 min após cada escovação”. Sorriso amarelo.

Outra coisa que chega quando quiser é a sensação de gelatina nos ossos, principalmente no quadril. Eu nem tinha barriga ainda e de repente lá estava eu perdendo os passos porque tinha a impressão que meu fêmur desencaixou. Que tristreza né?

E dor no umbigo… cara, o que foi aquilo? Acordei no meio da noite com a sensação de que minha barriga estava abrindo. Bem no meio. Bem no umbigo. Pânico!!!! Eu tenho uma relação especial com meu umbigo. Não gosto que mecham. Limpo sempre com muito cuidado. Sempre tive um pavor surreal de que se eu cutucar demais o umbigo vou arranjar uma hérnia que vai crescer e crescer até explodir. E daí vou ter que juntar as minhas próprias tripas que estarão espalhadas pelo chão envoltas em muito sangue para numa tentativa desesperada, colocar tudo de volta. E essa será minha última visão antes de morrer. Que história mais linda né? Imagina o que me passou pela cabeça quando acordei com dor no umbigo? Mais do mesmo, com a difenreça de que o meu bebê também estaria no meio de toda essa confusão de sangue e de tripas… Nada disso aconteceu (até agora), mas a sensação da dor no umbigo vai e volta (junto com a queimação na pele).

A última da vez é a dor nas costelas. Não estou falando de quando o bebê resolve por o pé bem pertinho do pulmão não e sim de dor nas costelas constante. Se eu sentei por muito tempo, dói. Se eu deitar apenas de um lado, dói. Tenho que virar para o outro até que comece a dor daquele lado e aí, mudar de posição… e vice versa até o infinito.

Mãe de primeira viagem, imagina se não enchi o saco de todo mundo com essas histórias um milhão de vezes. A minha parteira só suspira e repete que “se não há sangramento ou contrações, está tudo bem porque o corpo passa por muitas transformações durante a gravidez e esse tipo de desconforto é normal”. Ou melhor, todo esse leque infinito de desconfortos. Daí eu busco respostas no google, e em fóruns de mães, e não sei ao certo se isso é bom ou ruim, porque… fiquei sabendo que a gravidez pode (em casos raros) desencadear uma hérnia no umbigo. E que as costelas podem quebrar mesmo por causa da pressão dos órgãos e do bebê (em casos mais do que raros quando as mulheres são pequenas e os bebês grandões). Que você pode perder os dentes por causa da constante inflamação na gengiva. Isso tudo sem nem tocar no mérito da diabetes gestacional e pré eclâmpsia, ambas que aparecem assim meio do nada.

O bom mesmo dessa saga doida é o lado A das informações. Você descobre que é possível realizar o parto normal de um bebê que está sentado. Que cordão umbilical enrolado no pescoço não é sinônimo de cesárea (30% dos bebês nascem com o cordão em volta do pescoço e não há risco de sufocamento, como se diz no Brasil). Que episiotomia é desnecessária. Que bebês sonham dentro do útero materno. Que eles tem soluços. Que eles podem reconhecer músicas que ouviram durante a gestação já nos primeiros dias de vida. E que estar grávida é um barato muito maior do que andar de montanha russa…

Mas que dá um medo sinistro e vontade de gritar o trajeto inteiro, ah, isso dá.