Pequenas Grandes Coisas #Capítulo Já perdi a conta


Impaciência.

Eis a palavra que rege meus dias.

Super dramático né? Me avisaram. Me disseram que no fim estaria implorando para essa criança nascer e eu duvidei. Acho que isso é bem normal e no meu caso em particular, inevitável. Eu sou desconfiada por natureza e tão teimosa que se alguém me dissesse que bananas vem de bananeiras e eu não soubesse, duvidaria até descobrir a verdade.

Em todo o caso, nem completei as 40 semanas ainda. Tecnicamente estou com 38 semanas e alguns dias. Minha barriga já não cabe mais em blusa nenhuma. Tenho uma calça de grávida servindo, mas graças ao bom Deus tem feito calor nessa terra de gelo e uso e abuso dos meus vestidos (nessas horas, eu agradeço ainda mais aos céus por ter uma mãe costureira).

Aviso aos navegantes: para quem começou a acompanhar o blog agora e não está entendendo bulhufas (afinal é verão na Europa certo?), aqui vai uma verdade absoluta sobre a Suécia: o verão aqui significa temperaturas acima de 15 graus C durante uma semana. Podemos ter um único dia de verão durante toda a estação – sim, isso aconteceu (exagero) em 2011 quando me mudei para a terra dos vikings: choveu, choveu, choveu e choveu durante junho, julho e agosto. As temperaturas ficaram em torno dos 16 graus C e o verão todo foi uma bosta. Esse ano os termômetros tem marcado temperaturas recordes: 20 até 26 graus C já em maio. Mas o midsommar vem aí (dia 20) e esse é com certeza um dia em que chove ou faz frio. Se não fizer, algo está bem errado…

Ando tão cansada que meu complexo de Macunaíma anda ao extremo. Tanto que eu nem uso dizer “ai que preguiça”, tamanha a preguiça. Estar grávida quase parindo é como viver em slow motion: tu-do le-va ma-is do que o do-bro do tem-po pa-ra ser con-cluí-d0 e mui-tas ve-zes le-va ho-ras a-té ser co-me-ça-do. Já comecei vários posts aqui, queria contar coisas sobre o trabalho e etc e tal, mas não vai. Fico o tempo todo pensando: ah puxa, melhor fazer isso primeiro. Isso sempre demora. E aí não volto mais. Os rascunhos estão salvos e quem sabe, num futuro não muito distante, eles saiam do forno. Ainda não vou responder aos coments, sorry, mas queria deixar claro que não penso em fechar o blog. Sei que me expressei mal no início do último texto, e o que quero dizer é que: minha vida já mudou. Me sinto tão diferente agora! Não sei sobre o que vou escrever depois que o Benjamin chegar, não sei se vou continuar tendo o mesmo foco no blog e talvez seja difícil uma vez que eu não sou mais a mesma pessoa. Isso é uma coisa que sempre converso com a Vânia, como a maneira que a gente escreve vai mudando conforme o tempo vai passando… normal. Não vou fechar as portas, mas pode ser que fique algum tempo sem postar (tipo duas semanas, como da última vez!).

Mas, já que toquei no assunto trampo, estou ansiosa para sair – porque quero ver a carinha desse ser que me habita – mas também estou um pouco triste de não poder continuar. Há tanta coisa que fazer, tenho tantas ideias, mas não dá para começar nada agora pois… pá, nem dá tempo. Ainda estou com aquela sensação de que vassoura nova varre que é uma beleza mas ao mesmo tempo já me descobri em alguns conflitos. Por exemplo, o fato de ser a mais nova no grupo às vezes faz o pessoal me tratar como se eu precisasse de orientação constante. É maravilhoso, eu sei, e sou grata por isso, mas também dá aquela sensação de ei! Eu sou grande sabia? Talvez seja excesso de cuidado por causa do meu estado interessante – como eu trabalho com uma maioria de não suecos, o tratamento dispensado a grávidas é bem mais cheio de cuidados do que quando eu trabalhei apenas com suecos. E não, isso não é impressão minha: existem suecos que são extremamente calorosos com uma gestante, mas a grande maioria mantém distância como se você tivesse lepra.

Por causa disso é bom procurar se enturmar com a galera que já tem filho ou está para ter. Das gurias solteiras que conheço – à exceção das cunhadas – são umas poucas que se dão ao trabalho de perguntar como é que a coisa anda e quando é que essa criança sai. Talvez seja um traço cultural, ou só mais um fruto da minha falta de capacidade de estabelecer conexões com as suecas: se eu não ligo elas não ligam, e isso não mudou com a questão do parto iminente.

Falando em parto iminente, me perguntaram se eu não tenho medo de parir. E sim, é claro que a gente fica tentando advinhar o quanto é que vai doer (se é mesmo que o grau de intensidade da dor é como de cólicas renais, tenho uma ideia de que o negócio não será mole) mas no mais eu estou torcendo para as dores começarem. Como cada parto é diferente, eu fico gastando energia imaginando o que vai rolar primeiro: as contrações ou a bolsa estourando; e aonde é que vou estar afinal, eu trabalho em uma cidade que fica a uma hora de trem de Göteborg, e ainda não saí de licença.

Falando em trem e transporte coletivo, eu andava bem contente com o meu translado para o trabalho, até passar por três atrasos gigantescos no início do mês. Teve um dia que tive que dirigir (130 km) para o trabalho e outro em que simplesmente demorei quatro horas para chegar… aí, como Murphy é meu amigo, junta-se a isso o fato de que meu celular estragou. Hahahaha! E eu nessa vibe super slow motion passei uma semana procrastinando para resolver o problema… O que seria dessa vida sem um pouco de aventura não? Nem imagino o que aconteceria se o parto começa lá no trampo (ainda vou trabalhar mais dois turnos antes de entrar em licença) e eu não posso chegar em casa por falta de trem e nem avisar que estou presa no caminho por falta de celular…

Mas não há motivos para pânico, e além da super barriga e da minha lerdeza nada mudou. Ou melhor, o que mudou é que a dor nas costelas amainou muito – talvez porque o bebê encaixou e baixou um pouco – graças a Deus; e que eu tenho uma certa tristeza por saber que não vou poder mostrar o pequeno grande homem a família assim que ele resolver dar as caras. Quando a gente decide mudar pesa uma série de prós e contras, mas eu na minha cabecinha de vento nunca pensei o quanto seria triste estar grávida longe da minha mãe, do meu pai, dos meus irmãos.

Com certeza a família do Joel está me cercando de cuidados. Eles estão eufóricos – é o primeiro neto, e todo mundo está na torcida para que a criança chegue logo. Até organizamos um chá de bebê – coisa que não é tradição na Suécia, e eles adoraram participar. Além disso, na falta da família de sangue, arrumei uma linda família de amigas brasileiras… Nada melhor do que a própria língua e cultura para que a gente se sinta em casa.

 

Essa foi no chá... quando a barriga ainda estava mais ou menos limpa

Essa foi no chá… quando a barriga ainda estava mais ou menos limpa

Uma dessas gurias me disse – há um tempo atrás – que a maternidade me abriria muitas portas, e estou começando a entender… eu sempre tive medo de acabar me apoiando excessivamente no Joel, ou de usar meu filho como escudo para a minha falta de afinidade com a cultura desse país, mas devagar as coisas tem se ajeitado. É tanto carinho de perto e de longe que nem estou cabendo dentro de mim!

Eu continuo pensando, com um cadinho de tristeza, em todas as pessoas com quem eu gostaria de dividir esse momento especial e percebi que há muita gente daqui que entra nessa lista agora.

Finalmente!

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