As velhas novas de sempre

Hoje meu pequeninho completa 15 dias.

Quando ele nasceu parece ter ativado um modo de repaginação na minha vida. A gente nunca acredita naquele papo do tipo “um filho muda radicalmente a vida de uma pessoa”, “crianças viram tudo de pernas para o ar”. Bom, meu ceticismo é reflexo da teimosia infinita de nunca aceitar esse tipo de “papo furado”.

(eu deixei a introdução original do post, porque é legal lembrar o que eu estava pensando lá trás).

Na verdade, Benjamin completará sua décima semana de vida em breve. Mas, antes que eu me perca em bla bla bla, tudo começou pouco depois da meia noite do dia 24 de junho – minha DPP, ou data prevista para o parto (na qual eu também não acreditava). A gente assistiu ao jogo do Brasil contra Camarões e estava naquela preguiça de ir deitar (são cinco horas de diferença para o Brasil, o que explica porquê eu estaria indo dormir) quando a bolsa estourou. Eu até brinquei e disse que a culpa era do comentarista sueco, que ficou repetindo que time nenhum vence a Copa com apenas um artilheiro, e que se a seleção quisesse a taça precisava de mais um goleador. Acho que o Benjamin levou o papo a sério e resolveu na hora: eu vou!

Mas e daí que bolsa estourar não significa que a criança está saindo. Como eu contei há uns tempos atrás, também não é bem assim só chegar chegando no hospital. Ligamos para a central de partos – sim, existe uma central de partos em Göteborg – e recebemos a instrução de esperar em casa até que as contrações estivessem chegando com cerca de 3 ou 4 minutos de intervalo e, a menos que eu começasse a sangrar ou passar mal, deveríamos esperar até as 8h do dia seguinte para ir ao hospital onde uma enfermeira iria me examinar para ver se havia realmente sido a bolsa que rompeu.

Eu não tinha contração nenhuma e só dei uma checada na bolsa da maternidade antes de ficar um tempão inventando coisas para conter o rio de água que saía de mim – conter não, porque não há como; dei um jeito de prender uma fralda descartável na calcinha e fui dormir (com um monte de toalhas e apetrechos ao redor). Acordei pouco antes das 4h sentindo que agora sim o trem estava começando para valer. Fiquei eufórica e perdi o sono – o que não foi muito esperto mas… mãe de primeira viagem.

Quando chegamos ao hospital um pouco depois das oito para o tal exame – devidamente munidos de toda a bagagem necessária para permanecer lá – as contrações já estavam chegando naquela frequência louca de cerca de 3 a cada 10 minutos. Depois de esperar o que pareceu uma eternidade, uma enfermeira bem gente boa nos atendeu. Eu não estava muito feliz com a situação porque é super estranho ter de ser submetida a um exame tipo ginecológico quando você está com dor – e ela não ia medir a minha dilatação, ia só checar se eu estava perdendo líquido. E ela mexeu e mexeu e não escorreu um filetinho de água sequer – provavelmente devido ao fato de que eu já havia perdido muito água. Mas, como eu tinha contrações frequentes ela me encaminhou para a sala de partos – mas no outro hospital, uma vez que esse que fica mais perto de casa estava lotado.

Lá vamos nós pela cidade para o próximo hospital. Nos perdemos nos corredores e elevadores – a sala de partos não ficava no térreo. A situação seria cômica se eu não estivesse com dor. Mas aí topamos com uma boa alma que arrumou uma cadeira de rodas para mim – caminhar e ter contrações ao mesmo tempo não funciona – e depois disso pareceu que num tiro eu estava dentro de uma banheira cheia de água quente.

Tudo bem, não foi tão rápido assim. E não, eu não tive o parto na água. É só que o tempo ganha uma dimensão bem estranha durante o parto, eu acho. Foi tudo tão enrolado no primeiro hospital – ou eu estava me acostumando as contrações – que assim que chegamos ao segundo e entramos na “minha” sala de parto eu relaxei definitivamente e pensei: agora é pra valer. E foi realmente bom tomar um banho quente. Aliás, banho quente e exercícios de respiração me ajudaram demais a lidar com as contrações. Não vou bancar a romântica e dizer que foi uma maravilha, parir dói demais. Mas com as ferramentas certas dá para contornar a dor com certo sucesso – ao menos até chegar a parte do pega pra capar, quando a criança está saindo.

Particularmente achei a experiência de ser assistida por parteiras uma maravilha. Eu tive sorte de contar com duas parteiras experientes durante o meu trabalho de parto. Uma delas ficou comigo cerca de 4h, a outra 7h (meu trabalho de parto todo durou 20h se contar desde que a bolsa rompeu). Elas fizeram o papel de doulas também: traziam água, sempre me perguntavam se eu estava confortável, ajudaram o Joel a se encontrar e davam dicas de como ele podia me ajudar, me motivar; elas me motivaram muito e só faltou me abraçarem. A segunda parteira que esteve comigo era porreta demais, tinha o tempo todo uma palavra de motivação, uma dica, me ajudou com os exercícios de respiração e etc. Eu usei o tal do gás do riso e ajuda também, mas fora disso não usei anestesia – teimosia viu, nada demais. Tive que rebolar um bocado, no sentido literal; descobri que isso ajuda a criança a sair (se eu soubesse antes, teria treinado o samba da boquinha da garrafa com afinco – #ficaadica). Na verdade eu até havia lido sobre o assunto, mas essa é mais uma das coisas que eu nã0 acreditei muito.

Na hora do nascimento mesmo haviam mais pessoas na sala de parto, ou seja, na hora do pega pra capar a parteira chama por reforços para que haja uma esquipe no caso de alguma interverção se fazer necessária. Depois do parto vem também um médico se necessário. No meu caso veio um por causa de uma laceração que eu tive no assoalho pélvico (grau III), e antes que alguém mal intencionado use esse texto para justificar episiotomia eu explico: apenas 3,4% das mulheres que tem parto normal na Suécia tem esse tipo de laceração. Isso me faz pensar duas coisas: uma, que Murphy é meu amigo mesmo, do coração, e estava lá comigo no parto – haha, eu dispenso! E duas que eu vou jogar na mega sena quando estiver no Brasil de novo.

Com relação ao parto é mais ou menos isso mesmo. Depois que o bebê chega podemos (mamãe, papai e bebê) ficar no hospital por até três dias – isso é o normal. É muito bom porque contamos com muita ajuda das enfermeiras obstetras para amamentar, trocar a fralda, cuidar do umbigo do bebê, da higiene (não se deve dar banho no bebê de imediato), de como segurar, etc e tal. Mesmo que a gente tenha alguma experiência com criança é dificil (e também maravilhoso) esse primeiro momento porque a gente realmente não sabe o que fazer. Agora já não é mais tão simples como parece quando estamos de fora afinal, quando a criança chora a mãe sou eu.

Espero dar as caras por aqui novamente antes que um mês inteiro se passe. Mas isso não é uma promessa.

 

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