Dona Maria

Uma das coisas que mais quebrou as minhas pernas com a mudança de país foi a questão da minha identidade profissional. Eu não sou o tipo Dona Maria que é zelosa com a casa – afinal de contas, Amélia que era mulher de verdade – e o fato de ver meu diploma não valer de nada me angustiava.

Até eu arrumar um emprego…

É aquela velha história: você se mata estudando pra passar no vestibular, mas a universidade não é mole não; você se desdobra escrevendo e reescrevendo currículo e carta de apresentação, mas se dar bem no trampo é que são elas. Ano passado, trabalhei apenas um mês e meio antes de sair em licença maternidade e agora que estou há três meses de volta a ativa é que entendo o quanto foi suave aquele período (vassoura nova varre que é uma beleza). Eu estava mais tranquila, havia outras preocupações dentro e fora do campo profissional. Agora há muito mais pressão de todos os lados.

Isso está relacionado ao fato de ser mãe, em primeiro lugar, e ao fato de ser a mais jovem do meu grupo de trabalho, em segundo. Eu mencionei no post passado que apesar da Suécia ser um país liberal me espanta alguns comportamentos conservadores em relação a amamentação, da mesma forma que me espantou que algumas pessoas ficaram surpresas quando eu disse que voltaria ao trabalho antes do Benjamin completar um ano. Eu posso estar enganada, mas senti reprovação também. A pergunta que mais ouvi foi “por quê? Ele ainda não fez um ano, e a licença é longa”. É verdade, a licença é longa, mas eu quero dividir ela de modo igual com o Joel. Porquê eu sou mãe, é super importante minha presença ao lado do meu filho e etc (principalmente até o primeiro ano) mas ele tem um pai que também anseia por um vínculo forte com seu filho. É muito difícil, como mãe e tendo a carga cultural que eu tenho, dar abertura para que o meu parceiro seja pai. Primeiro, porque eu sou o tipo de pessoa chata que acredita que as coisas são muito melhores quando são feitas do “meu jeito”. Segundo, a gente cresce ouvindo que mãe é que sabe o que é bom para o filho. Mas pai também sabe. Eu sabia ser mãe o mesmo tanto que o Joel sabia ser pai quando Benjamin nasceu. Por conta da amamentação, meu vínculo com o Benjamin se estabeleceu mais rápido, mas tudo que eu aprendi aprendi com o Benjamin. Se o Joel não tivesse oportunidade de ficar sozinho com o bebê também não aprenderia.

Então eu quero deixar uma crítica para nós mulheres: temos que ter mais coragem de largar nossos filhos na mão de nossos companheiros. Você casou, ajuntou com essa pessoa porque ela é especial (se você está em um relacionamento saudável), então deixe seu bebê provar disso também. Instinto paterno existe, e o seu filho não vai gostar menos de você porque você é corajosa o suficiente para compartilhar responsabilidades.

Como eu falei, não é fácil… mesmo que racionalmente eu tenha tomado essa decisão, na prática a história é outra. Muitas vezes quando estou no trabalho penso que deveria ter esperado mais para voltar. Que seria mais fácil se eu não tivesse peitos cheios de leite que me fazem perguntar o que é que o meu pequeno está comendo, se ele está dormindo bem (mesmo porquê eu passo 24h seguidas longe de casa). Quando temos alguma reunião em que assuntos delicados estão sendo discutidos pela milésima vez desde que eu voltei, ou quando um dos adolescentes do abrigo começar a ser muito adolescente (e eu com eles né?); eu sempre me pergunto: o que é que eu tô fazendo aqui?

O fato de ser a mais nova do grupo me faz sentir meio burra às vezes porque nosso trabalho compreende tanto questões práticas como burocráticas. Há coisas que a galera já está cansada de fazer e eu não tenho a menor idéia de como funcionam; eu não tenho conhecimento da rede de apoio e frequentemente me pego boiando. É um desafio, e eu me sinto bem com isso, mas sempre rola aquela pressão também. Principalmente no quesito linguístico… meus colegas costumam elogiar meu sueco, mas na hora do pega pra capar ainda sou muito lenta tanto para escrever quanto para argumentar. Normalmente, entro muda e saio calada de reuniões porque não desenvolvi o sueco suficiente para entrar no timing de uma discussão acolorada e conseguir expressar meu ponto de vista. Vai melhorar com o tempo, mas nessas horas minha auto estima fica super abalada e eu me pergunto se eu quero mesmo isso.

Mas eu sei que eu quero. Estou acumulando experiência e apesar da pressão constante (eu sinto que “posso” trabalhar fora mas tenho que mostrar que ainda serei uma boa mãe – bem anos 80, mas é isso mesmo) eu começo a dominar e compreendercada vez melhor o sistema social sueco.

Dona Maria sim. Mas não daquele jeito.

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Um ano como mãe

Semana que vem vamos comemorar um ano: um ano do Benjamin, um ano como família, um ano desde que o Joel se tornou pai e eu mãe.

Eu fico tentando me lembrar das minhas expectativas naqueles últimos dias antes do parto, mas eu estava realmente focada no parto em si. A bem da verdade eu não me preparei para o primeiro ano do bebê, eu não me preparei para o puerpério e este último me quebrou as pernas. Eu não sei se adianta muita coisa “se preparar” ou, melhor, que tipo de planejamento eu deveria ter feito, programas, rotinas etc; e até que ponto isso ajuda ou atrapalha. Eu li muito, mas não fiz muita coisa.

Eu fico imaginando quais as diferenças entre ter filhos aqui e no Brasil. Pelo que tenho lido, parece que ter filhos aqui (agora estou falando no sentido literal do ter filho – parir mesmo) é melhor do que no Brasil por causa da  violência obstétrica. Apesar da confusão nos hospitais e da falta de recursos humanos, a Suécia parte do princípio de que toda a mulher tem direito à um parto humanizado. Há inúmeras falhas no sistema, mas nem de longe se assemelha ao caos das maternidades brasileiras.

Há boas redes de apoio para mães de primeira viagem também. Normalmente, o pessoal encontra ao menos alguém com quem dividir os perrengues da maternidade nos cursos de pais – mas eu e o Joel nunca fizemos. Felizmente, dois dos casais com quem normalmente saíamos tiveram bebês pouco antes de nós, então acabou que eu tenho mães um pouco mais experientes com quem conversar, as quais eu já tinha um pouco de contato antes. A questão da idade da criança aqui é importante não porque o Benjamin vai ter um amiguinho – a essa altura do campeonato é difícil saber se o santo dessas crianças vai bater – mas porque nós como mães podemos conversar sobre mais ou menos as mesmas coisas.

Mais ou menos né, porque já me disseram que eu escolhi maternar no modo hard: fralda de pano, amamentação em livre demanda, criação com apego, sling, cama compartilhada e… a coisa mais terrível de todas: não dei chupeta para o Benjamin. Particularmente, chupeta é um acessório que serve para calar a boca da criança e estragar os dentes. Felizmente, quando Benjamin era recém nascido dormia tanto que eu nunca tive vontade (ou necessidade) de dar chupeta. Então, antes que alguém me acuse de intitular como “menos mãe” quem dá chupeta eu só digo que não estou afirmando isso. Conheço mães muito melhores do que eu que dão chupeta para os filhos. Eu tentei dar chupeta para o Benjamin quando saímos de carro e ele gritava sem parar, às vezes funcionava, às vezes não. Bati o pé veementemente que não queria comprar mas tive que aceitar e tentar, não dá pra deixar a criança se esguelando por causa de um princípio. Em todo o caso, antes que eu me perca em explicações sem sentido, nenhuma das mães com quem costumo sair com mais frequência fazem isso. Recentemente conheci um casal vindo da Inglaterra, e ela e mais uma guria com quem dividia o coletivo nos meus primeiros meses de Suécia fazem parte do time das mães modo “hard on” com quem tenho contato.

A maioria dessas coisas escolhi baseada em leituras aqui e ali, coisas com que simpatizei pela Internet a fora. O sling foi um achado maravilhoso!! Mas para variar, dá trabalho. E, pobre Benjamin que é submetido a uma série de tentativas para amarrar a criança nas costas, do lado e na frente do jeito certo. Nos últimos três meses tenho praticado carregar ele nas costas e estou quase ficando craque. Deveria ter começado mais cedo, quando ele tinha cerca de 6 meses… mas aí eu não tinha o sling certo. Agora eu tenho dois slings de algodão, mas nunca saí para a rua com o Benjamin neles… seria o ideal uma vez que eu acho carrinho de bebê um trombolho e aqui os ônibus só tem dois lugares para carrinho. É, o transporte coletivo sueco é muito melhor do que o brasileiro em termos de acessibilidade, mas aqui todas as mães e pais tem carrinho de bebê, todas as mães e pais saem pra passear usando transporte coletivo com seus carrinhos e por causa disso, dois lugares no ônibus significa que você vai ficar no ponto esperando uns 15 minutos pelo próximo ônibus, porque o motorista não deixa que um número maior de carrinhos do que o permitido seja embarcado. Então, na maioria dos casos, saio com Benjamin no canguru (ergobaby), que têm o mesmo princípio do sling, só que é mais prático.

Ainda amamento, não tenho pretensão de parar tão cedo e por causa disso já recebi olhares de sensura. Me espanta que a Suécia, mesmo sendo um país muito liberal, tenha tanta gente que se incomoda de ver mulher amamentando. E o Benjamin, por ser um bebê cabeludo e cheio de dentes, parece mais velho do que é. Das gurias suecas que conheço, a maioria parou de amamentar quando o bebê tinha cerca de oito meses. Eu não digo que elas estão erradas de fazer isso uma vez que não conheço os motivos que levaram cada uma a tomar essa decisão, mas ontem estava lendoum artigo que dizia que apenas 14% das mães suecas amamentam o bebê exclusivamente com leite materno até os seis meses.

Nesse quesito, acho que a falha está no BVC (a hora que eu puder fazer um texto com mais dados e estatísticas, escrevo explicando o que é o BVC e como funciona, por enquanto digo apenas que é o centro de saúde da criança) pois quando Benjamin tinha quatro meses a enfermeira pediatra já começou a falar de introdução alimentar e de fazer papinhas. Além disso, ela me orientou a dar mamadeira para que o Benjamin dormisse melhor a noite. Disse que ele acordava provavelmente de fome e me orientou a dar välling (um tipo de mucilon, um pouco menos ruim, sueco). De novo, se a mãe quer dar mamadeira, que dê. Mas esse não era meu caso, então fiquei a ver navios pois fora a dica maravilhosa da mamadeira ela não tinha nada a me dizer. Eu não sou muito fã do BVC. E nem de dentistas suecas. Porque elas também sugerem que a mãe deixe de amamentar quando o bebê completa um ano. Mas essa é história para outra hora…

Já escrevi tanto e não escreci nem a metade do que gostaria. Mas vou tentar fazer um balanço simples: a Suécia é um ótimo lugar para parir. Se eu pudesse fazer tudo de novo, teria Benjamin aqui, mudaria parao Brasil (o Brasil que eu conheço) e ficaria lá os primeiros seis meses, depois voltaria para cá. Por quê? Porque senti falta de ter uma mão amiga nos primeiros meses de vida do Benjamin, principalmente no puerpério. Demorou muito tempo para mim me encontrar comigo mesma no meu papel de mãe e quando o Joel voltou para o trabalho eu me vi sozinha em casa com um bebê sem saber muito bem o que fazer. Eu não tive depressão pós parto mas estive perto, muito perto. Tenho certeza que teria sido diferente se tivesse minha família e minhas amigas comigo. Simplesmente porque lá não é tão complicado sair para dar um alô para o vizinho. Só depois de cerca de seis meses como mãe é que eu comecei a me sentir segura. Talvez esse processo tenha sido necessário, mas provavelmente teria sido mais curto.

De uma coisa tenho certeza: aqui é um lugar maravilhoso para ter família, crianças. Não tinha muita ideia do que seria meu primeiro ano como mãe, mas tenho algumas do que será daqui para frente.

E se fosse você?

Não é de hoje que ouço gente afirmar que a Europa está indo para o buraco por causa da imigração em massa de muçulmanos, africanos e “ciganos” – gente que não tem olhos azuis, é preguiçosa, quer viver a custa dos benefícios do governo e não contribui em nada para preservar o modo de vida “mais do que lindo” do velho mundo. Na Suécia, já ouvi muitos brasileiros e brasileiras afirmarem inclusive que odeiam ter que pagar impostos por para  “sustentar” essa gente.

Gente que buscou e ou busca a vida na Suécia pelos mesmos motivos que tanta gente (das quais recebo emails diariamente): qualidade de vida. É engraçado que, pela lógica do senso comum, esses estrangeiros vem mamar as tetas do governo e vão destruir o impecável sistema social sueco. Talvez eu esteja sendo ousada demais, mas qual é a diferença entre uma brasileira que muda para a Suécia e casa com um sueco e esses refugiados?

Legalmente, os refugiados recebem do sistema social sueco todo o tipo de apoio que uma pessoa em condições de miserabilidade de nacionalidade sueca receberia, com a diferença de que enquanto tem um status de refugiado sem visto permanente recebem menos bolsas do governo. Muitas brasileiras me dizem que a licença maternidade sueca é um sonho (e eu acho isso maravilhoso, que as brasileiras anseiem por esse modelo) e  que gostariam de usufruir desse direito. A maioria de nós, quando mudamos, viemos formar família e botar filho no mundo para usufruir desse sistema sueco  bom. Mas eu escuto com tristeza vindo da boca de muitas compatriotas que “essas somalianas mudam para cá só para ter filho e viver do social”.

Já repeti inúmeras vezes aqui o quanto é difícil conseguir emprego aqui. Conheço gente experta, com inglês, educação, anos de experiência, que mora aqui há tempos e não conseguiu emprego. Gente bem resolvida, que corre atrás mas ainda está trabalhando de tapa buracos. Se você não tem o domínio da língua tem que aprender, mas se você não sabe nem ler e escrever, acho que o caminho é um pouco mais longo.

Mas ninguém pensa nisso. Ninguém pensa que essas mulheres vieram muitas vezes de países onde o papel da mulher é ser mãe. Onde garotas não precisam e não devem estudar. Onde quem desafia essa lógica é punida com tiro na cabeça ou o estupro. Enquanto nós mudamos para a Suécia em busca do conforto ao lado de um companheiro sueco, aquelas mulheres fogem de realidades de intensa opressão. Apesar disso, assim que elas se sentem seguras em um lugar em que qualquer mulher do mundo gostaria de ter filhos, esse direito lhes é negado porque elas estão sobrecarrergando o sistema.

Eu também vim para cá sobrecarregar o sistema. Eu também recebo bolsa do governo para criar meu filho e provavelmente vou parir mais. Eu também pago imposto mas diferente de outras mães, não me importo que ele seja usado para apoiar o sonho de pessoas que até ontem não tinham nada. Se as somalianas, afegãs, iraquianas, “ciganas”, curdas, sírias ou qualquer mãe refugiada que vem parar aqui aproveita para ter crianças eu acho que está mais do que certo. E eu vou apóia las a continuar a ter o direito de ter quantos filhos quiserem.

Simplesmente porque eu não sei porquê eu nasci no Brasil, naquela família de mãe costureira e pai pedreiro. Não sei como é que se dá essa distribuição da cegonha. E se por um acaso eu tivesse nascido na Somália? Ou Afeganistão? Esse blog não seria sobre como se apaixonei por um homem lindo, vivi uma história de amor de cinema e casei num dia fantástico de verão. Esse blog (se eu pudesse escrever) seria sobre como eu tive que fugir da minha cidade porque meu marido sumiu e meus filhos estavam em perigo. Provavelmente minha história teria passagens assim:

“Minha casa foi destruída por uma bomba. Eu consegui fugir com minha família  e me esconder dos soldados que estavam matando aqueles que sobreviveram do ataque aéreo.”

“Eu tive que caminhar vários dias e noites sobre as montanhas, para cruzar as fronteiras longe dos postos de guardas. Não havia comida, apenas pão e água. Eu quase não tinha força para continuar”

“Nós fugimos pelo deserto do Saara. Foram duas semanas sentados na caçamba de uma pick up. Os atravessadores nos disseram para segurar firme, se alguém caísse da caçamba eles não parariam e não voltariam. Éramos muitos! A pick up atolava na areia o tempo inteiro, tínhamos que descer para empurrar. Depois tínhamos que voltar a subir muito rápido, pois eles apenas continuavam a dirigir”.

“Eu estava num barco para a Itália. Havia muita gente no barco. Era noite e ninguém sabia se realmente estávamos indo para o lugar certo. Quando nós avistamos a costa ficamos tão felizes! Mas aí algo errado aconteceu, e o barco começou a afundar. Eu nadei, nadei e nadei muito… vi pessoas morrendo do meu lado. Mães que gritavam pelos filhos que sumiam. Eu usei tudo o que pude para chegar a praia. Então desmaiei. Passei vários dias sem saber quem eu era e o que havia acontecido.”

“Eles (os atravessadores) me deixaram numa floresta com um pouco de pão. Me mandaram esperar uma semana que alguém viria me buscar. Eu tinha tanto medo! Não sabia se ficava ou se partia… se realmente podia acreditar que eles iriam voltar.”

Poderia ser eu. Mas eu nasci no país do carnaval e do futebol que muitos odeiam. Sim, o Brasil também é um lugar violento e eu felizmente não provei desse fel. Ainda assim, isso não me dá o direito de esbravejar minha falta de empatia pelo próximo que está ameaçando minha zona de conforto.

Já ouvi dizer que o preconceito tem crescido muito contra os haitianos que invandiram o Brasil. É uma pena. Pena porquê eles enxergam a beleza e a oportunidade em um país onde “os filhos que não fogem a luta” decidiram gastar seu tempo na internet para xingar o governo e reclamar por ter nascido no país do carnaval. É uma pena que a entrada de estrangeiros pobres no Brasil tenha derrubado a velha lenda do quanto acolhedor o Brasil é.

Enquanto todo mundo reclama da praga que os estrangeiros representam aqui e lá, eu apenas me pergunto: e se fosse eu?

E se fosse você?