A filosofia da cebola – vezes dois

Esse final de semana o inverno deu as caras (oficialmente ainda estamos no outono) e ontem tivemos uma madrugada de trincar os ossos, com nada menos do que 10°C negativos. O frio chegou na sexta, intensificou no sábado (com seus três graus negativos durante o dia) e  ficou até o anoitecer de ontem quando o termômetro conseguiu registrar 2°C.

Esses números são bastante difíceis de compreender. Eu ficava com frio só de pensar em passar dias abaixo de zero. O aquecimento das casas faz uma diferença enorme e a gente não sente – tão longe se mantenha dentro de casa – o quanto está frio. É na hora de sair que o bicho pega.

Essa é uma questão fundamental para sobreviver o inverno. Hahahaha, ficou séria demais a colocação mas o fato é que saber se vestir vai fazer você passar pelo inverno com menos percalços, vai por mim. Meu corpo mudou muito após a gestação (acho que o fato de gestar um mini viking me causou algum tipo de mutação) e eu estou muito mais resistente ao frio, isso é claro. Mas também não posso negar que depois de tanto tempo finalmente entendi a filosofia da cebola (ou a arte de se vestir em camadas) de que tanto falam desde que eu mudei. Feliz ou infelizmente algumas manhas a gente só aprende com a experiência; ainda assim vou tentar deixar um guia.

Dentro de casa normalmente não é necessário mais do que uma regata e uma manga longa. Claro que você pode substituir por um moleton ou uma blusa mais fina, mas como eu gosto de ter a base da “cebola” eu normalmente visto isso. Vou salientar também que essa é a “cebola” que eu aprendi, não é um modelo universal e sim um exemplo, quiçá o melhor, mas é o que veste aqui em casa e funciona. E o ministério da saúde adverte: não se vista dessa maneira  se você pretende sair correr. Então, para sair em -5° C ontem usei: uma regata, uma manga longa de malha, uma camisa, uma blusa de lã e o casaco; uma calça de malha e um jeans, meias de algodão, meias de lã e uma bota. Touca, cachecol e luvas se você ainda quiser ter orelhas e dedos e não morrer de dor de garganta. E só.

Algumas considerações: quando eu digo uma blusa de lã estou dizendo lã mesmo, não materiais sintéticos. Blusas tricotadas podem ou não ser de lã, a única forma de saber – além de ler a etiqueta – é o preço. Não há na face da Suécia blusas de lã (novas) por menos de 500dinheiros. É possível encontrar lindas blusas de lã em lojas de segunda mão e não importa se elas são finas, a lã esquenta de verdade. Eu aconselho a não usar a blusa de lã durante o outuno se você costuma ter alergias, pois com menos camadas por baixo é provavel rolar aquela coceira básica que vai te deixar ranzinza. Eu não tenho esse problema e usei muito a minha blusa de lã durante o outono, acho mais simples botar apenas ela por cima de uma malha e a jaqueta tapa vento. Ainda com relação às roupas de baixo, no caso das crianças é bom investir em roupas de lã. A maioria das lojas vendem roupas de lã que são como calçolas e manga longa, de materias que misturam lã e seda ou alguma outra coisa. A malha de algodão é ótima para países quentes, mas no frio assim que a criança transpira a malha fica molhada e fria. Já a lã deixa respirar e faz a umidade passar para fora da primeira camada de roupas, assim mesmo que a criança transpire muito ela não ficará molhada e com frio. É uma boa pedida para quem pensa em sair caminhar durante o inverno ou mesmo para os mais sensíveis ao frio, existem essas roupas de baixo (em sueco underställ) para adultos também, tanto em lã (mais caros) quanto em materiais sintéticos  (mais baratos). E, é claro que se você tem uma roupa de baixo que é quente não vai precisar usar o casaco de lã, que pode ser substituído por um tricô normal ou mesmo moleton.

Outra questão importante: se a jaqueta é tapa vento (windproof) não é necessário muita roupa por baixo quando só está frio. Eu tenho uma jaqueta de verão tapa vento e impermeável, usei ela na sexta feira com 3°C, as camadas costumeiras e minha blusa de lã e não houve problemas. Mas se venta essa combinação já não rola porque a jaqueta não tem forro e por mais que seja tapa vento  é um tapa vento mais light por ser uma peça de verão. Há jaquetas de outuno com um forro fino, com um tapa vento ainda melhor que é possível usar em dias com até alguns graus negativos. Para os dias frios de verdade as melhores jaquetas são as forradas com pena de ganso (exatamente). No caso de Gotemburgo, onde chove tanto que chega a chover canivete, é bom que a jaqueta seja de um material impermeável forte. Se você mora aonde neva bastante (e as temperaturas ficam abaixo de 15°C nagativos por longos períodos) vai precisar de jaqueta e calça térmica. Do contrário, a neve é “seca” quando as temperaturas estão abaixo de -2°C.

Observação importante número três: quanto tempo você vai ficar fora? E quanto desse tempo você estará parada/o? Se você vai de carro em algum lugar, não vai precisar de tudo isso para chegar até o carro. Mas é importante levar um casaco grosso a tiracolo, pois se um imprevisto acontecer e o carro morrer na beira da rodovia você não vai querer estar de regata e moleton sem aquecedor enquanto espera o guincho (que pode demorar muito) num frio de 0°C. Mas digamos que você vai caminhar até a estação ou ponto de ônibus, usar o transporte coletivo e depois trabalhar/visitar amigos/vai às compras… quanto tempo você vai ficar fora? Em dias menos frios, quando as temperaturas ainda estão acima de 5°C é melhor se vestir menos. Antes de usar um monte de casacos, experimente botar algo mais quente nos pés e uma touca de tecido – ter a cabeça e os pés quentes faz milagres. Os suecos tem uma filosofia de que é preciso passar um pouco de frio durante o outono para que o corpo acostume. E depois, se você botar muita roupa vai suar caminhando até o ponto/estação, depois vai suar dentro do transporte coletivo, vai suar no mercado/shopping ou vai ter que levar uma porrada de casacos, touca, cachecol, luva na mão. E não esqueça o desodorante, que tem muita gente que não acha as axilas depois de se vestir como cebola e fede violentamente como uma cebola em decomposição.

Agora, imagine que lindo é todo esse ritual cebolístico quando você tem uma criança pequena… conseguiu? Peraí que eu vou ajudar. Você decide sair e aí veste a criança primeiro (lógico) pra depois tomar a sua meia hora de cebola. Errado! A criança fica quente demais nas roupas, fica louca, começa a chorar e arranca touca, luvas e tudo o  que conseguir, pega ódio da roupa de inverno e vai chorar só de ver aquele casaco. Qual a saída? Essa mesma: vista todas as suas camadas (a exceção do casaco e acessórios) e  comece a caçada. Depois de vinte minutos correndo atrás da cria, implorando para ela deixar a gente enfiar mais duas camadas de casaco e meia calça e meia de lã e os sapatos, suada feito uma porca (com roupas para temperaturas negativas dentro de casa você fica mais molhada que funkeira no baile… viu a importância do desodorante?) você finalmente abre a porta e enfia casaco e touca, luvas na criança. E fica feliz de refrescar a cara antes de botar a cereja do bolo você também.

Quem foi que falou da magia do inverno? ;)

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7 comentários sobre “A filosofia da cebola – vezes dois

  1. Olá Maria! A-D-O-R-O seu blog!!! Sempre que recebo um e-mail informando que tem um post novo venho correndo ler! Eu namoro um sueco e ano que vem vou me casar com ele e me mudar pra Suécia (pra Goteborg, coincidentemente!). Eu já fui algumas vezes pra Suécia como turista, mas eu sei que viver aí acaba sendo bem diferente. E ler as coisas que vc escreve torna tudo ainda mais claro (adoro seus choques de realidade! haha), apesar de já saber (ouvir falar) de algumas dessas coisas (principalmente pelo meu namorado). De qq maneira, continuo achando que em geral, a vida aí ainda tá melhor que a nossa aqui no Brasil (principalmente agora, no meio dessa crise econômica maluca que tem tirado o sono e tantas outras coisas de nós brasileiros… ou de muitos, o pouco que tinham… Triste!!!).
    Falando em crise e tristeza, não posso deixar de mencionar o terror que a Europa está vivendo neste momento. Nao estou ignorando o resto do mundo e outros grandes problemas que vejo, mas como vc vive aí e eu também estou indo praí, acabo me preocupando mais com o lugar pra onde estou indo. Queria te perguntar como vcs estão lidando com as ameaças terroristas. Vi em sites de notícias sobre a suposta ameaça à Suécia por email, do suposto terrorista que foi preso e outras coisas mais… Se não me engano, também li algo sobre o governo estar pedindo para os suecos evitarem inclusive bares, restaurantes, etc. (sobre isso realmente não me lembro se foi sobre a Suécia em específico). Meu namorado disse que é claro que se sente desconfortável com tudo isso e que é uma droga, mas não sinto que ele esteja realmente com medo, sabe? E vc e sua família? Como estão lidando? O que vc acha disso tudo?
    Fique com Deus e te desejo tudo de bom!
    Beijos

  2. Oi Amanda,
    A ameaça terrorista existe mas não é assim como as notícias pintam. Acho que mesmo com a ameaça terrorista mesmo viver em Stockholm ainda está mais tranquilo do que viver em uma cidade violenta no Brasil. O terrorista que prenderam aqui não era terrorista coisa nenhuma e agora ele tem direito a processar o governo e a mídia – que divulgou a foto dele fazendo o maior alarde por nada. Então a meu ver, cuidado é bom e não mata ninguém, mas a situação aqui não tem nada de caótica, sensível ou preocupante. Abracos

  3. Entrei no ‘Blogs Recomendados do WordPress’ e lá estava o seu, Maria!
    Que bacana que entrei! :)
    Parabéns pelo espaço. Super clean e ótimos posts. Sempre gosto de conhecer novos colegas de blog assim vou aumentando minha rede e claro, conhecendo sobre diversos assuntos e até mesmo cultura.
    Bom, já estou seguindo para não perder as novidades. Sucesso.

    Estendo aqui o convite para conhecer o meu blog… Ficarei contente com sua visita! :)
    HuG!
    http://www.andrehotter.com
    👻 Snapchat: andrehotter
    📸 Instagram: @AndreHotter

  4. Oi queridas. Eu vivo na Italia desde o 1991. Muitas vezes acho que é melhor nao colocar na cabeça tudo aquilo que o midia diz. O mundo inteiro nao esta seguro. Acho que a III Guerra Mundial jà começou mas o inimigo é invisivel e pode estar até mesmo do nosso lado…
    Coloco tudo nas maos de Deus.
    Um abraço pra todas,

  5. Olá Maria.. tudo bem? te mandei uma msg inbox no facebook. Quando puder, favor verifique. Um abraço. att Carlos

  6. Olá Maria! Na boa, eu não consigo pensar como é um frio dessa potência. É até plausível entender a fama do europeu não tomar banho, isso guardadas as devidas proporções, lógico. Aqui pela quentura, quanto mais chuveirada por dia, o corpo agradece.

Agora vamos prosear!

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