Maternidade colorida

Há coisas que ficam mais fáceis porque eu moro aqui. Isso é um fato que, na minha humilde opinião, mostra que o papo da meritocracia é só conversa para boi dormir (eu não vou explicar como não fiz por merecer para mudar para a Suécia. Chame de destino se quiser). Uma dessas coisas é a maternidade.
Comeca já na gravidez. Foi chocante para mim e assustador ter que aprender que gravidez não é doenca, mas no fundo… eles estão certos (oh my God, isso é difícil para caralho de dizer). Uma mulher grávida não está doente, está apenas vivendo uma condicão inerente de ser mulher. Não vou dizer com isso que toda mulher grávida está desfilando lindamente com seu barrigão (ou não), cheirando flores e suspirando de felicidade a cada chute do bebê. Estar grávida é uma bosta – com B maiúsculo – do ponto de vista hormonal. Sabe aquela TPM fdp? Tipo assim durante nove meses. Você chora, se acha feia/gorda/uma azeitona que foi trespassada por um palito ou uma elefanta com as pernas inchadas horríveis – quando você não está com a cara inchada e o nariz que lembra o nariz dos anões da Branca de Neve. Ou vive o êxtase que descrevi logo acima, ouve o cantar dos pássaros, sente o ar puro e se imagina Bundchen em pleno catwalking com os flash estourando ao seu redor. Há mulheres que tem problemas de saúde que se agravam durante a gravidez e outras que adquirem problemas durante a gravidez – já ouviu falar de hiperemese? diabetes gestacional? pré eclâmpsia? sínfese púbica? – relacionados ou não com a tempestade hormonal de que falei ali atrás. Mas o fato é que não estamos doentes. E ser tratada como uma pessoa normal que está passando por uma condicão especial – a de gestar – faz da gravidez um momento bem mais fácil de se viver. E fica mais fácil de curtir também.
Até o momento posso dizer que tive gestacões tranquilas. Na primeira delas praticamente não tive  enjoos, tive um pouco de dor nas costas e os incômodos costumeiros com achar posicões confortáveis para dormir etc quando você está com aquela barriga que mais parece com uma bola de pilates embaixo do couro da sua cintura. Ah, tinha os chutes também. Primeiro a gente sempre fica loucamente feliz a cada pequeno movimento do bebê e no final da gestacão a gente só pensa “ô moleque tira seu pé do meu pulmão que eu preciso respirar!”. Essa segunda gravidez está passando tão rápido que eu já nem sei ao certo em qual semana gestacional estou (só sei a dpp e acho que está bom não?), além do quê eu vivo como um zumbie. Não, não estou conectada com aquele jogo estranho do Pokemon. É “só” cansaco mesmo. Já tem umas semanas que estou tomando ferro como complemento mas estou ferrada mesmo porque não tem ajudado e eu simplesmente vivo me arrastando. Infelizmente nem sempre estou me arrastando para a cama, e eu sinto que meu dia seria mais fácil se eu pudesse tirar uma siesta depois do almoco – mas como eu não moro naquele país que eu não sei qual é que diz a lenda que as pessoas tem direito de dormir a siesta – eu apago tão cedo quanto Benjamin. Às vezes mais cedo do que ele na verdade, porque a bateria do meu piá é mais forte do que a minha.
Benjamin já percebe que algo está mudando. Uma pessoa cansada não é tão paciente – e eu me pego muitas vezes saindo de perto para não fazer aquelas coisas burras que pais cansados e estressados fazem com os filhos – o que eu sinto que não é nada bom. Nem sempre eu tenho a clareza de parar e explicar: olha meu filho a mãe está cansada. Então eu procuro dar alguns minutos do meu dia para ele em que eu possa estar bem focada. E isso eu só posso fazer porque tem um homem do meu lado que é pai.
Nessas horas de cansaco e estresse eu me imagino sendo mãe solteira, ou vivendo em um país em que a cultura dominante é do pai que ajuda (tipo o Brasil por exemplo). A mãe tem todas as obrigacões com o(s) filho(s) e a casa e o marido chega e descansa do trabalho, mesmo quando a mulher também trabalha fora. Ou o cara já largou a mulher, paga pensão e acha que faz uma grande coisa (aquela louca fica me cobrando, o que ela quer?, eu pago a pensão). Eu me imagino na outra ponta e me sinto aliviada porque estou apenas imaginando, porque eu quero e posso enquanto grávida e mãe tirar um tempo para mim, fazer comida quando meu estômago está revirando de fome sem ter um menino agarrado as minhas pernas e contar com a divisão das tarefas domésticas. Aleluia! Porque sim, porque isto ajuda demasiado a fazer a minha vida como mãe e grávida mais fácil, afinal, eu não preciso chegar ao ponto de espalhar papel higiênico sobre o tampo do meu próprio vaso para dar uma mijadinha com dignidade (e olha que a gestacão implica em muitas mijadinhas).
Eu vivo uma maternidade colorida. E me pergunto: como as mulheres que não tem disso sobrevivem? Porque eu não me considero fraca, eu gosto de um desafio e tenho pulso suficiente pra vencer o Rambo numa queda de braco se eu quisesse. Mas a maternidade quebra as pernas da gente. É uma correria 24/7, você fica planejando os próximos passos para tentar dar uma rotina e seguranca para a crianca (nem sempre dá certo, afinal, criancas são seres vivos imprevisíveis) e ao final do dia sente que… não sente. Não há como prever tudo e, provavelmente por causa do tipo de criacão que eu tive, eu vivo preocupada com o bicho papão que vai pular do guarda-roupa na forma do meu pior pesadelo – igualzinho como acontece no Harry Potter. Um exemplo simples: a gente saiu de férias uns dias e ficamos num apê com sacada no quinto andar. Uma sacada standard, com uma cerca standard. Passei a primeira noite praticamente em claro com medo de que o Benjamin caísse da sacada. Por quê? Sei lá, eu nem vi ele tentar subir. Mas eu não podia dormir. Criancas são criancas, não veem perigo e estão curiosas o tempo inteiro em que estão acordadas – e eu garanto, meu piá fica muitoooo tempo acordado para a idade dele. Vai quê? E eu não estou olhando. Se quiserem recomendar um terapeuta podem fazer isso na caixa de comentários – obrigada – mas eu me sentiria mais tranquila sabendo que outras mães vivem essas paranoias também (alguém levantou a mão aí?).
Eu vi uma mãe escrever no Facebook que queria um tempo da maternidade. Depois eu vi mais uma mãe escrevendo que trocava duas criancas por balas – alguém aceitava? – só para ela poder ir a academia. Loucas? Sem coracão? De modo algum. Às vezes me dá pena ver gente escrevendo sobre como a maternidade é bela, principalmente quando parte de pessoas que não são mães. Porque maternidade é linda, rosas são lindas, carro novo é lindo e casais apaixonados vivem grudadinhos. A gente aceita que a rosa murcha e morre, aceita que até carro novo dá problema, aceita que a paixão acabe mas não aceita de forma alguma que uma mãe diga que maternidade é um saco. Não se ela não usar as palavras mágicas e colocar um “mas… vale a pena” na mesma frase. Vale a pena? Não. Do alto da minha maternidade colorida eu acho que não vale a pena. Ser mãe é literalmente levar na cara o tempo inteiro e é super bom quando estamos cheias de hormônios gestacionais e da amamentacão, mas depois que eles somem do corpo a coisa vai mudando de figura. Eu cheguei a rasa conclusão – baseada nos meus parcos conhecimentos teóricos e empíricos a respeito do tema – que maternidade é uma coisa instintiva e puramente animal. A gente tem que trabalhar e muito para que ela não seja baseada em trocas – tipo eu te cuido agora e você me cuida quando estiver velho, eu te sustento agora e você me sustenta daqui uns anos – e parar de ver a maternidade como se a gente fosse a virgem Maria se doando pela maior causa da humanidade. Não porque não possa ser doacão, eu acredito conhecer mulheres que tomaram uma decisão de se doar integralmente a maternidade e que curtem isso. Não quer dizer que elas achem super todos os dias da semana, correndo atrás dos filhos, limpando vômito, bunda, mijo, fazendo comida, balancando o menino doente num braco e limpando com o outro – não exatamente nessa ordem e muitas vezes tudo ao mesmo tempo – sem pensar um “aonde foi que amarrei meu burro?”. Mas tudo bem se elas pensarem. Tudo bem se eu pensar. Posso compartilhar com algumas outras mães, mas jamais dizer em voz alta. Não se eu não usar as palavras mágicas na mesma frase.
Se você é uma das mães que vai morrer dizendo que maternidade é sempre linda ou que maternidade é padecer no paraíso não me odeie. Eu não te conheco e não estou te criticando, só penso diferente. A maioria das mães que eu conheco vivem aquela agonia louca de amarem muito seus filhos e ao mesmo tempo odiarem – não em tempo integral – a maternidade, principalmente por causa dessa opressão absurda de que a gente tem que dizer que tudo bem, tudo bem, tudo bem, quando não está bem; e ouvir um: “mais vai passar… é fase”. É engracado que a maternidade é feita de uma série de fases difíceis em que a maioria das mulheres está arrancando os cabelos, mas é uma coisa linda demais, um dom de Deus. “Olha que esse tempo vai passar rápido demais e você vai sentir saudade”. Sim, já sinto saudades das coisas lindas e charmosas que meu piá fez enquanto bebê, mas não sinto saudade da trabalheira que era dar conta de todo o resto que envolvia o fato de ele ser bebê. E quando eu penso que mais um está chegando… mas, espera, é uma fase e vai passar.
Eu não consigo entender o paradoxo. Talvez seja cedo demais. Talvez seja porquê meu cérebro de alguma forma estagnou naquela fase que a maioria das pessoas vive entre os 3 e 5 anos quando você irrita infinitamente todos os adultos ao redor fazendo um milhão de perguntas a respeito dos “porquês”. O meu porquê atual é mais um para quê: para quê – e para quem – romantizar tanto a maternidade quando ela é uma coisa tão difícil?
Isso, e eu já falei que vivo uma maternidade bem mais descomplicada aqui na Suécia?

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Fechado para o verão

Sabe aquele papo de que o ano só comeca no Brasil depois do carnaval?
A Suécia fecha para o verão.
Todo mundo que tem um emprego fixo tem direito a cinco semanas de férias por ano. Até os 40 anos, porque a partir daí serão seis. Quem ainda não tem direito as seis semanas dá um jeito de ter, juntando horas extras ou tirando a licenca parental. E aí tudo fecha porquê, né… ninguém quer estar trabalhando enquanto o colega está aproveitando um dia de verão.
E não se trata apenas daquela loucura para viajar. Se trata de ficar com a família, os amigos e tirar um tempo fora da rotina. Sueco adora uma rotina, mas também é louco por cortar a grama. Eu tenho uma teoria de que essa alegria toda de cortar a grama está relacionada ao fato do “veja, tudo está verde, está quente, eu vou sentar do lado de fora de casa e por isso estou arrumando meu quintal”. Ou só um “preciso um lugar para colocar a grelha”, ou melhor, “preciso um lugar do lado de fora para colocar a grelha”. E, é claro, está relacionado ao fato de que o sueco corta a grama durante dois, três meses por ano – e não o contrário, como é comum no Brasil. Quando eu trabalhava em Falköping tinha um colega iraquiano que se sentia extremamente incomodado com essa coisa da grama. Ele morava num condomínio de casas – aquelas que são grudadinhas umas nas outras, mas tem um quintal em frente e outro nos fundos – e dizia que o vizinho cortava a grama uma ou duas vezes por semana durante o verão. Esse não era o problema. O problema era que o vizinho já havia dado a ele inúmeras indiretas sobre a grama estar muito crescida, e sobre a altura ideal do corte, aquelas coisas tipo de revista de jardinagem. Ele se sentia pressionado a cortar a grama mesmo quando achava que a grama estava curta, só por causa do vizinho da fita métrica. O Joel vive angustiado com o que os vizinhos vão pensar sobre a grama. Enquanto ele se sente em meio a uma plantacão de capim, com grama até os olhos, eu olho para fora e penso: ué… que grama?
Verão na Suécia significa ir para a casa de campo, jogar cartas com as criancas, ler um livro que está em alta e ouvir o programa especial da P1, o Sommarpratarna (Papo de verão, talvez, se eu posso ser um pouco criativa). Ao menos os mais velhos. Ou talvez não. Eu achava que todo mundo que ouvia esse programa era a galera dos 40+ mas sabe o quê? Puro preconceito. Tem muito jovem que adora o programa. Basicamente não é nada além do que gente famosa e nem tão famosa assim falando de coisas da vida. Pode ser uma ativista pelo direito do povo sami, os índios suecos (ela inclusive é rapper gente!); ou o Zlatan, contando histórias da infância; o ex primeiro ministro sueco falando do livro ruim que ele publicou e até freira fala nesse programa – sobre caridade e Deus.
Outra coisa interessante do verão é que, já que a galera toda sai de férias, entra uma multidão de substitutos. Jovens substitutos, em sua maioria, que vão trabalhar apenas o verão ou gente que vai garantir (ou tentar ao menos) uma vaga. É tipo aquele lance de trabalho de fim de ano no Brasil, nas festas: gente que está dando uma mão porque algo extraordinário acontece (sol e calor). Esse lance dos trabalhos de verão são muito sérios aqui porque os jovens recebem um subsídio do governo para estudar (tipo bolsa escola, mas todo mundo em idade escolar recebe dependendo apenas da frequência). O detalhe é que durante as férias escolares não tem bolsa. E isso vale para os universitários também – na Suécia é possível emprestar dinheiro do governo para poder se dedicar 100% aos estudos sem trabalhar. É tipo como se todo o universitário tivesse acesso a bolsa de estudos, só que no caso, você devolve depois de formado. Mas como você só recebe enquanto tem frequência, e a frequência é zero durante as férias, entre junho e agosto/setembro ninguém ganha auxílio… aí o jeito é descolar uma grana extra. E já que todo mundo sai de férias mesmo e as empresas ficam as moscas… junta-se a fome com a vontade de comer.
O lado negativo dessa história é que isso pode até mesmo acontecer em hospitais. Tipo as enfermeira obstetras saem de férias e do quadro de pessoal permanente tem apenas duas pessoas trabalhando… juntamente com uma porrada de jovens recém formados ou em formacão que conseguiram um bico de verão. E isso sem exagero gente.
Eu também saí de férias. Mas como eu não tenho as manhas e não sei das tretas, não vou ficar “deboas” cinco semanas…