Diário Caipira-45

Eu quase desisti das flores. Os veados e São Pedro me boicotando, a gata comendo as mudas que estão dentro de casa… Mas aí compramos umas sementes de flores do campo e eu joguei elas na terra hoje.

Eu estava lendo relatos de gente que diz que a melhor terapia que eles encontraram até hoje é estar em contato com a natureza. Muitos suecos dizem que este contato tem sido algo essencial para que eles mantenham a saúde mental durante a pandemia. Que lhes traz calma e esperança perceber que as árvores, por exemplo, mantém-se em pé após uma ventania – e céus, como tem ventado.

A natureza com certeza me acalma também. Adoro sentar ao sol e ouvir os pássaros cantando. Mas minha flores preferidas do jardim não floriram: os rododendros. Em outros anos as flores já teriam há muito caído. Esse ano nem apareceram ainda. Parece que o corona amarrou até a chegada da primavera e o frio não vai embora.

Em abril a Suécia teve o pico de 116 mortes em um só dia. Em maio, o pico se deu no dia quatro, com 80 mortos. Já são quase 3700 pessoas que perderam suas vidas. A gente espera tanto que esse inverno vá embora… queria saber pra quando esperar o fim desses meses que se arrastam e dessa agonia toda.

Preciso abraçar árvores com mais frequência.

Diário Caipira-44

Essa semana a Suécia estendeu a recomendação de que suecos evitem viajar até 15 de julho. Sinceramente, não acho que seria possível mesmo que os suecos quisessem já que muitos países estão com as fronteiras fechadas. A vizinha Dinamarca estuda abrir a fronteira para a Noruega, mas não com a Suécia.

Enquanto o Bozó do presidente brasileiro toma a Suécia como exemplo o primeiro ministro sueco tem que rebolar para defender a estratégia sueca. O partido de Stefan Lövfen gostaria de aplicar medidas mais rígidas mas eu não acredito que teria apoio enquanto a agência nacional de saúde pública defender a estratégia atual.

A Suécia tem mantido o número de leitos de UTI e de respiradores disponíveis acima da demanda. Mas a Suécia não está testando geral e tem um número de mortes alta por milhão de habitantes. A justificativa que foi dada é que a estatística é mais exata por causa do número social sueco e da digitalização e integração de diversos sistemas.

Entretanto o governo tem recebido críticas muito duras sobre a forma como o corona se espalhou por asilos em toda a região de Estocolmo. A maior porção de vítimas do corona na Suécia tem mais de 70 anos e o ministério de seguridade social pensa em baixar a idade do grupo de risco de 70+ para 65+. Alguns estudos foram sugeridos para que se faça uma estimativa de como isso afetaria a saúde mental desse grupo.

As férias de verão vão ser por aqui mesmo. A recomendação é de que não se saia do próprio condado e que as viagens de carro respeitem um limite de 2h (no maximo). Pensando no número de pessoas que passarão o verão “em casa” o governo quer editar uma lei que descreva como os restaurantes e cafés devem funcionar durante a pandemia.

Só espero que não seja muito frio.

Diário Caipira-43

Tínhamos planos de sair de caracol esse final de semana. Infelizmente ainda estou com sintomas de resfriado, um pouco de coriza e tosse. Nada que não seja normal no caso um resfriado comum mas as recomendações da Folkhälsomyndigheten é de que as pessoas doentes, ainda que com sintomas leves semelhantes a uma gripe fiquem em casa.

Assim que, primeiro, meu resfriado me boicotou e, segundo, não lembro de um maio tão frio desde meu primeiro maio na Suécia há nove anos atrás. Venta uma ventania digna do outono e o céu está frequentemente nublado. Aí que o sol aparece, você se anima e sai na varanda; o sol some e você morre de frio e volta pra dentro de casa; o sol sai e… eu já desisti.

Se não fosse tão frio poderíamos ter saído com o nosso caracol pra algum “ställplats” que é como se chamam os estacionamentos para trailer à beira de um bosque. Mas na madrugada passada fez 3°C e essa noite estava previsto 2°C.

Frio demais mesmo quando se tem uma casa sobre rodas.

PS: O SCB (IBGE sueco) tem um estudo de 2016 que aponta que em média os suecos viviam em 42m quadrados. Stockholm era na época a cidade com a média menor (33m2 por pessoa) e Emmaboda a cidade onde em média cada sueco tinha 54m2 pra viver. Os dados devem ter mudado bastante, já que a crise de moradia tem se agravado na Suécia. Entretanto se explica pois há muitas pessoas acima dos 55-60anos morando em casa enormes sem filhos.

Diário Caipira-42

Essa semana apareceu no meu feed de notícias do facebook uma foto de quando a gente tinha recém mudado para nossa casa. Fiquei lembrando a história do poço e rindo…

Depois pensei que, de fato, desde que nos mudamos pouquíssimas vezes tomamos um café com os vizinhos. Quando eu era criança as vizinhas costumavam se visitar e tomar chimarrão, comendo cuca; por vezes enquanto faziam crochê. Como a minha mãe era costureira não era tão fácil pra ela levar a costura junto e participar. Mas sei que muitas vezes uma das vizinhas parava lá em casa.

Um dos nossos vizinhos sempre aproveita quando o Joel está no quintal pra vir puxar conversa. Normalmente ele é uma pessoa cordial, mas algumas vezes já foi bem intrometido. Ele não tem vergonha de perguntar quem são nossas visitas, muitas vezes por meio de um interrogatório que deixa elas um tanto constrangidas.

Mas ele já é um senhor aposentado há muito anos. Os demais vizinhos ainda tem uma “agenda cheia”, digamos assim. E apesar de termos vizinhos com crianças na mesma idade que as minhas, muito raramente elas brincam juntas. Agora isso se dá principalmente pelo fato de que uma das crianças da vizinha tem asma.

Vizinhos que não se visitam… E hoje eu também ouvi que na Suécia se considera que uma família vive sob condições precárias de moradia e sem espaço adequado quando cada membro da família (a exceção do casal) não tem o próprio quarto de dormir. Isso significa dizer que numa família de quatro pessoas onde há casal mais dois filhos entende -se que condições adequadas de moradia é um apê ou casa com três quartos. Se estivermos falando de uma família de quatro pessoas com apenas um responsável então condição adequada passa a ser quatro quartos.

Fiquei curiosa e quero descobrir qual é média de espaço – em metros quadrados – per capita na Suécia. Não a densidade demográfica, mas quanto espaço uma pessoa teria em uma casa se todos tivessem o mesmo.

Quanto vocês chutam que seria?

Diário Caipira-41

Das coisas que eu posso fazer na Suécia que eu não conseguia fazer no Brasil é bordar, costurar, fazer tricô e crochê.

Nunca fui uma moça prendada que soubesse fazer aquelas peças delicadas. Não tinha paciência para que o acabamento fosse bonito. Fazia do que jeito que dava e pronto. Meu problema é que transpiro rios na palma da mão.

Assim que a maioria dos trabalhos manuais que exigem o uso de linhas ficavam ridículos. O fio molhava, não dava pra trabalhar direito, eu me irritava e deixava de lado. Quando não ficava com aparência de sujo ou gosmento – eca!

Aqui comecei a fazer tricô e crochê com mais assiduidade. Fiz toucas para os filhos, cachecol pra mim e pro marido e até tinha começado uns sapatinhos… depois as crianças nasceram e eu até tentei começar outros projetos mas nunca rendeu. Eu sempre acabava deixando de lado.

Agora formamos um grupo que vai fazer uma colcha de “retalhos” de crochê na quarentena. A ideia foi inspirada no projeto da artista Sara Degerfält, de Lund, que deu início um projeto de bordado coletivo onde os interessados bordam uma pequena peça que vai formar um grande mosaico. A peça que a Sara e a mais algumas dezenas de suecos está bordando será exposta em Lund. Ainda não sabemos ao certo o que vai dar, se vamos formar uma colcha só ou muitas (ou nenhuma) mas estou bem entusiasmada. Já desenterrei a agulha e estou reaprendendo pontos.

Sem suar.

Diário Caipira-40

Comecei a mexer em gavetas, armários e comodas pra jogar fora e doar coisas que a gente não usa mais.

Não é incrível o tanto de tralha que a gente guarda? Eu dei praticamente tudo que os meninos tinham que já está pequeno pra eles mas cada vez que eu mexo acho mais e mais coisa que está aqui só ocupando espaço e fazendo a casa parecer uma bagunça.

De tempos em tempos tenho que botar pra fora coisas que estão aqui ocupando espaço e fazendo bagunça dentro da minha cachola também. Não as coisas bonitas, a poesia da vida e essas coisas que eu às vezes consigo escrever aqui.

Cansa bem mais e é mais trabalhoso do que limpar as gavetas.

Diário Caipira-39

Crianças são muito engraçadas e tem um jeito de conversar que é espetacular. Há dias que eu queria gravar tudo que meus filhos falam.

Recentemente começamos a brincar de trava-línguas. O primeiro foi “a babá boba bebeu o leite do bebê”; seguida dos clássicos “o peito do pé do Pedro é preto” e “o rato roeu a roupa do…”; vocês sabem.

Como os meninos são bilíngues teve trava-línguas em sueco também: “sex laxar i en lax ask” e “pappa hänger upp hinkar i taket”. Eles se sairam super bem… mas eu praticamente não consigo falar o primeiro.

No final a gente riu tanto que chorou. E o Mikael paga da minha cara repetindo “sex laxar i en lask akx. Ax. Asch. Ask”

Diário Caipira-38

A gente sentou na beira do lago e estava comendo fruta com as crianças. Ficamos olhando a água e fazendo de conta que o vento não estava assim tão frio, todo mundo encarrapixado.

Aí o Joel tipo: “aquilo é um peixe ou uma pedra no meio do lago?” Eu “onde?” Ele “ali”; e eu “não tô vendo nada” e ele “meio que reto na sua frente”… Eu só vejo as ondas… e o Joel “olha na direção que eu tô apont…” e o peixe pula fora dá água um meio metro.

Como quem diz: “viu agora besta?”

Diário Caipira-36

Com a pandemia, ou apesar dela, cresceu o número de suecos que vão caminhar em meio aos bosques que permeiam as cidades. Em alguns parques e reservas ambientais o número de visitantes aumentou em 130% segundo dados da Naturvårdsverket.

Ao lado de casa há uma trilha – o Bohusleden – que faz parte de um caminho que cruza toda a Escandinávia. Por causa do número de casas que foram construídas na vizinhança o desenho do trajeto mudou; mas a gente continua precisando apenas ir logo ali para usufruir dessa belezura.

As vantagens de caminhar nos bosques suecos nesse período do ano são muitas: há o som constante de pássaros; há sempre muitos lagos a cerceando as trilhas; não há bichos peçonhentos nos bosques que representem um perigo para as crianças; quase não há mosquitos. Não se podem subestimar os alces (principalmente mamães com filhotes) e muito menos os carrapatos mas, a exceção disso basta curtir a natureza e aproveitar para repor o estoque de vitaminas D e calibrar os pulmões.

(Eu fiz um vídeo supimpa com algumas fotos do Bohusleden, mas o WP não mostra. Então está lá na página do facebook).

PS: para o sueco é essencial levar café para fazer uma pausa e lagartear a beira da água.

Diário Caipira-35

Estou “de atestado” desde terça. Isso significa ficar em casa em isolamento. O único dia que não estive em casa foi na quarta quando buscamos nosso caracol.

Mas isso dá uma ansiedade danada. Eu ficou naquela do será que é? Será que não é? Tenho tosse e dor de cabeça. Mas a dor de cabeça pode muito bem ser stress. Aí fico com um aperto no peito e já imagino que estou com corona. Que vou contaminar meu marido e meus filhos. Que eles podem morrer. E a culpa vai ser minha.

Eu queria poder fazer um teste. Eu queria poder saber. Eu queria mesmo, no mais profundo do meu ser, era estar trabalhando porquê, quando não havia toda essa pressão e a opressão em torno do corona a gente ia trabalhar com coriza e um cadinho de tosse… e quando menos percebia já estava bem de novo. Ou ficava doente de vez. Mas não ficava nesse martírio.

Essa angústia amarra o peito da gente. Estamos coletivamente sem ar.

Diário Caipira-34

Acho que não tem nada mais bonito do que um dia de sol e céu azul. Ontem a gente estava na estrada e eu pensando no contraste do verde escuro dos pinheiros com o céu e os lagos.

Fica ainda mais bonito com os campos de canela, parecendo ouro, contra o céu azul. Toda vez que eu passo por esses campos me dá saudades de ver as lavouras lá do Paraná… O soja não é lá muito bonito, acho eu, mas o milho e principalmente o trigo são campos lindos. O vento passando vai ondulando as plantas e a gente tem a impressão de que é um mar verde.

Tem dias que é só saudade mesmo.