Diário Caipira-

Hoje Gotemburgo ferveu. Não por causa de uma festa – ao menos que eu saiba – mas porque estava quente. Nossa que dá um nó na minha cabeça esses dias que a gente inclusive transpira por essas bandas. Até andei pela sombra – coisa que era prática comum lá no Brasil e que aqui perdeu completamente o sentido.

Pois bem, temos o luxo de morar pertinho de uma lagoa. Já coloquei uma fotinhas dele por aqui. Calor e sol combinam com banho refrescante, certo? Errado. Combinam com “tente convencer as crianças a sair de casa”.

Por fim quando chegamos ao lago estava poluído de gente. Em plena segunda feira… Eu ia dar meia volta mas agora os piás estavam correndo para a praia. Lembrei da briga pra tirar eles de casa. Pensei na briga que ia ser dizer “vamos embora”. Desisti. A ideia era ficar uns minutos para as crias brincarem na areia, já que eu levei um tempão pra convencê -los a sair. Mas quando vi a multidão escolhi um cantinho longe e avisei os meninos que a gente ficaria só um cadinho.

Entraram na água, rolaram na areia e eu ali, apreciando o entra e sai do povo que vinha, pulava na água, nadava, saía da água, gastava dez minutos ao sol e depois ia embora. Quando o choque do “meu Deus tem uma pandemia em curso o que é que toda essa gente está se embolando aqui?” passou eu percebi que só as mulheres com crianças (eu incluída) gastavam mais do que dez-quinze minutos a beira do lago. A maioria vinha com a toalha no ombro.

Fiquei pensando num post que li sobre o quanto as mães com crianças que fazem parte do grupo de risco tem sofrido com o isolamento. Fiquei me perguntando se está certo me expor, expor as crianças por conta de um luxo.

Às vezes eu acredito que o melhor da estratégia sueca de combate ao Covid é o fato de eles pensarem no bem estar das crianças. O isolamento quebra a rotina e aprisiona muitas famílias em locais pequenos com crianças. O isolamento é extremamente necessário nos contextos de sociedades onde a família estendida e principalmente idosos convivem com os mais pequenos de maneira intensa e até mesmo dividindo o mesmo teto. Mas não é o caso sueco.

Os raios de sol aqui são um luxo tão caro… só passando a escuridão e isolamento do inverno pra entender a necessidade de sair durante o verão. Que vai acabar qualquer dia desses… basta chover e estamos aí, de volta aos 10°C.

Me sinto muito dividida mas tenho certeza de que se a Suécia tivesse adotado o lockdown eu estaria doente. É ser muito egoísta? Sim. Tenho consciência disso… só não tenho certeza se deveria fazer algo a respeito.

Memórias de um Caracol-8

Essa coisa de ter filhos e expectativas é algo bem difícil de conjugar. Tipo, você sai de férias a beira de um lago lindo e está super a fim de sair caminhar, molhar os pés na água e tals e as crianças querem… ficar dentro do trailer.

Nada contra, eu amo um sofá. Mas justo no camping, quando fazem 27°C e sol, quando você sabe que esse pode ser o único dia quente do verão todo… difícil. O mais engraçado é que quando você quer só sofá e preguiça aí, pode esquecer.

Por outro lado, eu adoro a curiosidade e espontaneidade das crianças. Ao lado delas tudo pode assumir proporções diferentes e uma simples pipa ou uma pá de areia bastam para que o dia esteja completo.

Encontre a pipa!

Eu aprendi com meu pequeno grande piá, em uma certa viagem da qual gostei muito, que o melhor da vida era aquilo que está a mão, no dia a dia. Porque quando eu perguntei “filho, o que é que você gostou mais dessa viagem?”, ele respondeu “o meu irmão e brincar de lego.”

Memórias de um Caracol-7

Caracol, doce caracol…

PS.: um desejo em prol de um mundo melhor pós corona: que sejam proibidas lâmpadas com sensores de movimento em banheiros e cozinhas. Não basta fazer as necessidades fisiológicas dando tchau, hoje tive que inclusive lavar louça dançando valsa.

Diário Caipira-64

O tempo voa quando a gente está se divertindo; e eu me diverti muito fazendo crochê hoje. Tô super zen já que o crochê diminui meu tempo de tela… ao mesmo tempo que acabo tendo muito tempo pra pensar.

Ainda não sei se isso é realmente positivo. Tem certas coisas que eu gostaria de ignorar completamente. Que fase essa, de achar que a ignorância é uma benção…

Mas aí, voltando para o crochê: mesmo que eu esteja fazendo quadrados que em princípio deveriam ter o mesmo tamanho (mesmo desenho e número de pontos) descobri que certos quadros ficaram menos quadrados e que o tamanho varia em até meio centímetro. Vamos ver como resolver lá na frente, quando eu tiver peças suficientes para a minha colcha.

Diário Caipira-63

Lar, doce lar…

Quem nunca acampou não sabe a felicidade que é chegar em casa. É certo que acampamento de verdade – com barraca – é mais hardcore do que essa coisa de sair de caracol. Caracóis tem cozinha, luz elétrica, banheiro, cama. Tudo mini. Mas tudo lá.

Já barraca… se estiver acampando em uma área de camping pode ser que haja banheiro, chuveiro e cozinha. Mas se não até isso é improvisado. Esse camping que visitamos tem umas instalações básicas. Não gostei dos chuveiros e reconheço de longe aquele tipo de piso que quando molhado seca apenas a base de secador de cabelo. Era o martírio dos tempos de inverno no Brasil, limpar a casa quando tinha esse tipo de piso: molhou ele fica molhado. Por horas.

O que me leva a indagar: qual a lógica? De ter esse tipo de piso. De comprar esse tipo de piso. De que sequer exista esse tipo de piso. Ainda mais num país como a Suécia, frio e úmido. Nos chuveiros de camping. Molhou de manhã e vai estar seco lá pelo meio da tarde, que é quando alguns vão tomar banho de novo e aí você entra tá aquela meleca molhada no chão… quase que uma “guegamoia”, como dizem os meninos. Em todo o caso, a aparência e sensação é de que está sujo o tempo todo.

Ah, lar doce lar. Doce cama, doce sofá, doce chuveiro… Doce piso que seca.

Memórias de um Caracol-6

Fomos passar frio na praia hoje de novo. A maré estava subindo e as ondas traziam águas vivas. Não sei se estavam morrendo ou morriam na praia, mas a orla estava cheia delas.

Eu, que não sou do mar, fico toda estressada. Eu, que ando pela praia tremendo debaixo dos meus casacos sem nem entender como é que as crianças estão brincando só de calção na beira d’água fico ali tentando convencer meus pequenos vikings a não mexer nas águas vivas mortas porquê vai quê? Né? Mesmo o marido dizendo que essas não queimam, eu fico naquela que “o prevenido morreu de velho”.

Aqui jaziam águas vivas que deixaram essa marca na areia ao morrer.

Eu tô feliz que vamos para casa. Os chuveiros aqui do camping tem a função frio, congelante ou ducha para arrancar a pele. Brasileira sem tomar banho perde a alegria de viver…

Memórias de um Caracol-5

Engraçado essa coisa de Covid-19 e férias. Estamos aqui num camping, cheio de trailers estacionados. Mas está vazio. Tipo, as pessoas pagam para deixar o caracol estacionado num determinado camping por um ano. Algumas parecem ter comprado um local vitalício… constroem até cerca ao redor.

É certo que ainda está frio e a alta temporada é entre as semanas 27 e 32. Mas estamos nós e (pelo que parece) outras três famílias aqui nesse camping. Acho bom mas ao mesmo tempo me dá pena do proprietário. É uma puta estrutura… não deve ser barato.

Acertamos em sair cedo. Ao menos.

Diário Caipira-62

Interrompemos a programação normal para dizer que o presidente do partido de extrema direita sueco (que eu não vou escrever o nome aqui pra não dar ibope pra esse safado – mas sim; se você tá pensando no J é ele mesmo); tá fazendo campanha pra trocar o responsável da Folkhälsomyndigheten, Anders Tegnell.

Assim, que eu não me sinta lá muito segura ou contente com a estratégia sueca não é segredo. Mas trocar o “ministro” é bem típico de quê? De gente que não sabe governar. Pra mudar uma estratégia não é preciso mudar o responsável pela bagaça. Até agora os partidos de oposição estavam “unidos” ao governo. Agora começaram a dar chilique. Agora as estatísticas da Folkhälsomyndigheten mostram que a “curva” achatou. Agora que não está morrendo tanta gente por dia decidiram dar piti por conta de quê exatamente?

E olha, criticar é preciso. Apresentar outras propostas, avaliar o trabalho feito até aqui também. Mas eu fico doida com esses políticos que não estão pensando no povo apesar de saber muito bem usar o emocional da galera.

A Suécia que se cuide, pra não eleger para o cargo máximo do país um babaca completo como fizemos no Brasil.

Diário Caipira-61

De todas as coisas que cultivei durante essa primavera a única coisa que vingou mesmo foram as batatas. Essa semana, que o tempo ficou mais quentinho botei elas na varanda.

Hoje o dia amanheceu bonito, a despeito da previsão de chuva. Foi fechando, fechando, mas estava quente. Na hora do almoço o céu se abre e chove… pedra. Apesar de que é normal chover pedra aqui no verão eu nunca vi granizo tão grande como o que caiu hoje. O normal é granizo do tamanho de ervilhas mas estavam mais para framboesas.

Quando eu vi sai correndo catar um guarda-chuva pra proteger a batata. Catei o primeiro que vi na frente – o das crianças – e sai na varanda fazendo o ridículo de tentar proteger quatro plantas com uma sombrinha de frevo.

No final arrastei os vasos do jeito que deu pra dentro de casa… E foi sorte que consegui colocar as plantas pra dentro porque o granizo continuou por uns dez minutos.

Agora não sei o que fazer com as batatas. Sobreviveram… Mas eu queria botar pra fora. E a coragem?

Diário Caipira-60

Tô treinando meus dotes. Vamos fazer um crochê coletivo e eu consegui pela primeira vez fazer um círculo que não virasse um cone. Tô me achando a crocheteira.

Eu queria dizer algo sobre o #BlackLivesMatter. Mas eu não acho que preciso dizer o óbvio: eu sou racista. Talvez não seja uma racista agressiva, mas falo bastante sobre isso com uma amiga negra e ela me ensina muito, às vezes sem nem pensar que está me ensinando e eu percebo o quanto a gente é racista justo por pensar que racismo era coisa lá do tempo da juventude do meu pai – que quase não casou com a minha mãe porque é preto.

Entonces, eu não tenho que dizer nada. Preciso refletir e mudar. Aí sim, vou mostrar na prática que #VidasPretasImportam.

Diário Caipira-59

O governo sueco retirou hoje as restrições em relação à viagens dentro da Suécia. Isso significa que a partir de 13 de junho as pessoas poderão viajar livremente pelo país.

Até o momento a recomendação era de que as viagens deveriam ser de no máximo duas horas de carro do ponto de partida. Mas já que os suecos não podem pisar em outros países parece que o governo decidiu ao menos consolar os cidadãos com o fato de que eles podem ir para Gotland.

Isso porque o número de pacientes que estão sendo tratados na UTI está sob controle ao mesmo tempo que há mais testes disponíveis. O governo diz que a abertura atual depende de como os cidadãos irão se comportar. Se houver denúncias a respeito de aglomerações ou se o número de infetados subir novas medidas de contenção serão tomadas.

Essa semana a polícia sueca repreendeu uma manifestação em Estocolmo que foi convocada para apoiar o movimento #BlackLivesMatter. A polícia havia liberado uma licença para uma manifestação de no máximo 50 pessoas (seguindo as recomendações de distanciamento) acontecesse, mas cerca de mil pessoas compareceram. A confusão gerada dividiu opiniões. O direito de formar assembleias e se manifestar na Suécia é muito forte… Ao mesmo tempo, Estocolmo foi a região que mais sofreu com a pandemia até agora.

O número de testes disponíveis aumentou. Mas ninguém sabe ao certo a porcentagem da população que já esteve doente com corona ou que está doente agora.

Estou aliviada que eu vou ter férias em breve.