Diário Caipira-130

Tivemos curso na segunda feira, no trabalho. Sempre que temos essas capacitações “perdemos” algum tempo falando das metas traçadas pelo município de Gotemburgo. Digo perder porque essas metas são bem difusas.

Um exemplo: umas das metas é que a cidade de Gotemburgo será um empregador que trata bem seus funcionários e que tem uma política de RH que faz com a possibilidade de trabalhar para a cidade seja muito atraente. É, mas não é: nossa capacitação foi num local micro e dava a impressão que sentamos no colo uns dos outros. Eu imagino porque a gente vai para o outro lado da cidade sentar numa mini sala quando todo mundo deveria estar tendo capacitação online.

E não é que eu goste de encontros online. Prefiro ter uma capacitação presencial. Mas nas condições atuais, e considerando que a cidade de Gotemburgo trata bem seus empregados… 8h numa mini sala menor do que aquelas que temos disponíveis onde trabalho…

Às vezes não dá pra entender.

Diário Caipira-129

Eu sou aquele tipo sem noção que sempre pensa assim: ah, mas eu tenho um quarto de hóspedes então fulano pode vir dormir aqui em casa. E morro de vergonha na hora que o fulano chega porque não tenho lençóis e travesseiros “de visita”.

Estava me achando porque finalmente havia providenciado roupa de cama e travesseiro “pras visitas”. Aí a visita veio e pá… A luz do quarto de hóspedes estava queimada e ahhh, esqueci do edredom.

Eu ganhei muita coisa de segunda mão quando mudamos para casa, inclusive roupas de cama, cobertores e travesseiros. Usados, mas bons – e continuam bons na minha opinião. Para os meninos compramos pois a gente não tinha extra.

Aqui na Suécia as boas maneiras dizem que a visita que deve levar lençóis, travesseiros e etc. Mas a maior parte das pessoas que vem aqui em casa tem criança… Já vem com uma bela mudança para apenas uma noite, imagina trazer os apetrechos pra dormir?

Seria o ideal em se tratando dessa anfitriã aqui. Mas agora só me faltam edredons.

Diário Caipira-128

Duas coisas que me deixaram pensativa nesse domingo:

1. Me perguntaram quando eu acho adequado que crianças tenham sua própria conta e perfil em redes sociais. Eu só respondi: boa pergunta. Será que gente grande deveria ter um perfil na redes?

2. Vi um documentário sobre os Andes que me tocou imensamente. Fiquei com lágrimas nos olhos. Definitivamente não posso morrer sem visitar os Andes. Como eu pude ignorar esse paraíso na América do Sul? Por que nós brasileiros sabemos tão pouco sobre nossos vizinhos?

Diário Caipira-127

Depois de receber o resultado do exame fui trabalhar sexta. Se já antes do corona era sensível ir ao trabalho com um pouco de tosse, agora depois do corona a gente se sente realmente fora da lei. Ainda que meus colegas de trabalho saibam que eu testei negativo, fica aquela tensão no ar pois se eu der a minha gripe para alguém, esse alguém terá de ficar em casa até fazer o teste e receber o resultado.

É muito improvável que eu transmita qualquer coisa uma semana depois de apresentar os primeiros sintomas. Ainda assim, sempre foi um coisa sensível entre suecos e valia várias caras feias ir trabalhar “meio resfriada”. Pedagogas de centro de educação infantil sempre publicaram longos textos nas mídias sociais sobre a irresponsabilidade dos pais que feixam crianças meio doentes na escola. Estar meia boca em público ou no ônibus poderia disparar uma guerra civil.

O problema é que, mesmo que o assalariado receba o equivalente a 80% do valor do seu saldo de um dia por cada vez que ele precise ficar em casa – cuidando de crianças doentes ou tossindo – dá uma bela diferença no final do mês. As pessoas preferem trabalhar recebendo 100% do seu soldo a ficar em casa recebendo 80%. Além disso há sim famílias na Suécia onde esses 20% fazem muita diferença.

Estamos numa situação estranha onde as autoridades simplesmente esperam que o “normal” volte, algum dia. As pessoas que mais sofrem são aquelas que tem menos recursos materiais, como sempre. Mesmo aqui nessa bolha chamada Suécia.

Por quê será não conseguimos aproveitar esse momento de ruptura para provocar e exigir mudanças que beneficiem as pessoas mais vulneráveis?

Diário Caipira-126

Uma das coisas mais suecas que eu conheço e que já ando ficando enjoada é Bamse. Ele foi o primeiro gibi que os meninos tiveram contato e é simplesmente sucesso. Ao menos uma vez por dia tem que rolar um Bamse, e se a gente sai de carro para longas viagens escuta os episódios disponíveis no Spotify.

Bamse foi criado no fim da década de 60 por Rune Andreasson, sendo lancado primeiro como filme em preto e branco assim como série dentro de outro gibi. A história gira em torno de um urso marrom que fica super forte sempre que come o mel especial preparado pela sua avó. Todas as aventuras do urso trazem alguma mensagem educativa. Eu particularmente gosto muito da edição “O livro do amigo” do Bamse onde os personagens falam sobre bullying e sobre como ser um bom amigo.

Bamse tem como melhores amigos um coelho branco – Lille Skutt – que vive assustado e uma tartaruga – Skalman – que é inventor e sempre dorme nos momentos mais improváveis. Apesar de ser o Bamse quem tem força nem sempre é ele quem resolve os problemas. O urso, por ser o mais forte de todos, não bate em ninguém e sempre tenta ficar amigo com os antagonistas. O personagem Vargen – que como o próprio nome já diz é um lobo preto – se torna amigo do Bamse e deixa a vida de crimes (roubar doces) para trás.

O Bamse tem uma família de quatro crianças, sendo a menor delas uma ursa com deficiência. Não fica claro qual o tipo de deficiência dela, às vezes o desenho dela sugere que ela possa ser uma ursinha com síndrome de Down, outras vezes parece que ela pode ser uma ursa dentro do espectro autista. É Skalman quem percebe que Brumma é diferente e que ela precisa de outro tipo de apoio do que as outras crianças que aparecem na história.

Bamse faz parte da vida dos suecos há tanto tempo que meu sogro lia Bamse quando criança, depois meu marido e agora meus filhos também. Há quem critique a história e diga que ela é propaganda comunista (porque sempre se repete que todo mundo é igual, tem os mesmo direitos e o Bamse não se aproveita de ninguém apesar de ser mais forte…); mas eu não entendo muito bem porquê.

Do mesmo jeito que não entendo como é que os pequenos não podem passar um dia sem!

Diário Caipira-125

Hoje foi daqueles dias em que o tempo se arrastou e eu me arrastei junto.

Primeiro, que eu fiz o teste do PCR pra poder ir para o trabalho em casa, mas ninguém me avisou que horas o cara viria com o teste. Então fiquei tipo não sei se começo isso ou aquilo.

Fui fazer crochê pra passar o tempo enquanto esperava que me ligassem e descobri que um lado do trabalho estava todo torto… deixei de lado porque não queria desmanchar.

Estava lendo um desses romances água com açúcar e a história estava boa mas o final foi uma merda… se o livro fosse físico eu jogaria no lixo.

Finalmente me ligaram dizendo que o teste estava a caminho. Fiz o teste eram praticamente onze da manhã e aquela sensação de que todas as coisas estavam erradas me acompanhou o dia inteiro.

Diário Caipira-124

Autoflagelação do século XXI:

“Use a ponta macio do palito de teste e introduza na garganta, tão fundo que o seu reflexo de vômito dispare. Esfregue o palito de teste nessa região da garganta por pelo menos cinco segundos. Em seguida, introduza o palito no nariz (com cuidado para não empurrar muito fundo) o suficiente para disparar seu reflexo de espirro. Esfregue o palito da parte interna do nariz por no mínimo 10 e no máximo 20 segundos. Cuspa saliva no tubo, mergulhe o palito de teste na saliva e feche o tubo, tendo o cuidado de mante-lo em pé.”

Parece um capítulo de um livro de terror né? É a orientação de como fazer o PCR em casa.

Diário Caipira-123

Se eu leio as notícias a respeito do corona no Brasil fico pensando o que será que pensam as pessoas que estão cumprindo isolamento há seis meses…?Eu vejo no meu feed das redes sociais todo mundo pedindo e insistindo para que todos aqueles que podem fiquem em casa… mas pelas notícias vejo vídeos e fotos onde parece que a pandemia acabou. Ao mesmo tempo, outras notícias dizem exatamente o contrário. Parece extremamente contraditório.

Enquanto isso, na Suécia, chegamos ao total de quase 85mil casos confirmados e também quase 5900 mortes. A faixa etária mais atingida (segundo a testagem) é de pessoas entre 50-59 anos. Homens morrem mais do que mulheres e quase que a totalidade daqueles que vieram a óbito por causa do Covid tinham mais de 70 anos (5.194 das 5.835 mortes). Desde o dia 18 de agosto as mortes provocadas por corona tem ficado abaixo de 5 por dia.

Apesar disso, a recomendação é manter distância, evitar aglomerações e ficar em casa caso haja qualquer suspeita de doença. Sabemos que temos o inverno pela frente e que Espanha e Itália já vem sentindo uma segunda onda e estão aplicando novas medidas de contenção. A gente também sabe que há bastante gente que já esqueceu a pandemia e que não segue as recomendações. Os cinemas reabriram a semana passada (ou retrasada?). A vida segue certa normalidade (o que é normal?) mas tudo está diferente.

Parece que vivemos em dimensões diferentes do mesmo mundo simultaneamente.

*Fonte das estatísticas: Folkhälsomyndigheten

Diário Caipira-122

Já que todo mundo está meio pestiado, passamos o dia em casa fazendo nada. Ou melhor, muita coisa. Entre elas, tive que disputar com a gata as peças do meu quebra cabeça.

Ela apenas se deita no meio. Daquilo que eu estiver montando… não importa qual parte do desenho seja, ela vai para o ponto exato que eu decidir montar. Eu tirei ela de cima do que já havia montado, bagunçando tudo. Tive que montar novamente. Coloquei um tampo em cima, ela achou graça e passou a “desenterrar” as peças e morder. Por fim, tive que esconder o quebra cabeça.

Ao menos agora as crianças passaram a achar o quebra cabeça interessante. Por causa da gata.

Diário Caipira-121

Ser mãe é padecer.

Só. Acho que se deve muito ao fato de ainda estar numa cultura bastante machista no que se refere a maternidade, mesmo na Suécia. Porque há muitas cobranças que estão sobre os meus ombros porque eu fui ensinada que o papel da mãe é “esse”, se doar integralmente. Claro que a personalidade também conta. E o meu complexo de perfeição materna aliada a culpa não me deixa dormir. Assim como o nariz trancado das crianças.

Eu queria ser uma mosca pra ver o que as outras pessoas fazem em noites em que as crianças choram a cada dez minutos, seja por causa do nariz tapado ou por causa de pesadelos. Como é que a gente levanta pela quinta vez e ainda tem alguma paciência? Como é que a gente faz pra internalizar o “não é nada, apenas um resfriado” e voltar a dormir depois?

Se eu não me cobrasse a ser uma mãe perfeita ao mesmo tempo que eu fico angustiada por pensar que provavelmente esteja fazendo algo errado e por isso as crias tem pesadelo e ficam resfriadas… isso não é normal. A cobrança, eu quero dizer, e a culpa. As crianças são normais.

E eu tô puta de cansada.

Diário Caipira-120

Setembro é o mês de combate ao suicídio. Ainda me choca saber que muitas pessoas acreditam que na Suécia há uma alta taxa de suicídio porque a maioria dos suecos é ateu (60% ainda fazem parte da Igreja Sueca e, estatisticamente, a população sueca é mais agnóstica do que ateia). Eu li isso no SCB, mas já não sei se os dados são atuais.

O que é muito atual quando o assunto é suicídio é tabu. São muitos, aliás: falar sobre suicídio vai acabar incentivando as pessoas a tirarem a própria vida; gente que diz que quer morrer só quer chamar atenção; gente que não dá valor a própria vida tem falta de Deus; gente que está por baixo só precisa se esforçar; gente que tira a própria vida é ingrata e egoísta…

Queria falar sobre um em especial: falar sobre suicídio. Se alguém te confessar que a vida anda pesada (e está, essa pandemia está quebrando as pernas geral) e que já pensou em suicídio, não diga a pessoa pra tentar ver o lado bom das coisas. Sabe, quando a gente chega lá naquele ponto em que começa a pensar na morte como algo a desejar (e não a evitar), significa que algo não está funcionando. E não é que ficamos bobos. É que alguma coisa cria uma deficiencia no cérebro que nos impede de curtir, sentir satisfação, ver o lado luminoso das coisas. Esse papo tipo “ah, mas pensa nos seus filhos, cachorro, periquito, papagaio,.casa, carro, viagem, blá blá blá etc etc” talvez funcione uma vez. Depois vai servir apenas pra alimentar a fogueira da angústia onde a gente vai se cobrar por não conseguir ficar feliz. Afinal, é só querer…

Se alguém lhe disse que pensa em se matar pergunte a pessoa se ela já fez um plano de como seria. Se a pessoa lhe diz que não pode haver tempo para tentar entrar em ação aos poucos. Se a pessoa lhe contar com detalhes como faria para se matar não perca tempo.

Fale com o posto de saúde ou até mesmo chame a emergência.

Diário Caipira-119

A melhor coisa que a pandemia me fez foi retomar o crochê. Estou animada. E comprando linhas e mais linhas. Não posso ir numa loja de segunda mão que lá estou eu pegando mais novelos de algodão e outros tamanhos de agulha.

Hoje comecei a fazer um poncho!

Essa magnólia é o meu desenho favorito.