Diário Caipira-150

Eu não sei se o anúncio do prêmio Nobel era tão importante no Brasil como é aqui. Talvez o fato dos veículos de comunicação da Suécia falarem bastante sobre isso seja porque a festa de gala do Nobel se dá aqui na Escandinávia.

As vencedoras do prêmio Nobel de química inclusive fizeram uma parte do seu trabalho aqui na Universidade de Uppsala. Mas não há dúvidas que o ponto alto da semana é a escolha do Nobel de literatura (indicado pela academia sueca de literatura) e o Nobel da paz.

O vencedor ser o Programa Mundial de Alimentos da ONU foi, de certa forma, uma deceção pra mim. O programa é importantíssimo e vai se tornar ainda mais essencial por conta das mudanças climáticas. Mas eu ainda acho mais bacana quando uma pessoa é indicada. Um programa é uma coisa tão abstrata… tô ficando velha e achando defeito em tudo.

Segurança alimentar e nutricional tem que se tornar uma política pública. Só assim vai ser possível enfrentar os desafios que as mudanças climáticas e o crescimento populacional vão representar para a humanidade nos próximos anos.

Diário Caipira-149

Notícias que chamaram minha atenção hoje:

1. O partido Cristão Democrata KD quer que o ensino de língua materna deixe de ser oferecido nas escolas. Não sei se entendi bem a coisa mas parece que querem acabar com ele porque funciona mal. É, acredito que o sistema de educação sueco tem muitas falhas, agora me parece que o ensino de língua materna não seja lá alguma coisa tão interessante a se preocupar… a menos que, evitando que estrangeiros tenham acesso a sua língua natal também se acabe com uma parte importante da cultura deles.

2. O governo sueco não alterou o número máximo de pessoas permitidas em consertos, shows e eventos. O limite está em 50 pessoas desde março e aí ficará, apesar de terem avaliado a possibilidade de permitir público de 500 pessoas. É lamentável que o corona tenha atingido tão duramente o setor cultural. Eu ainda não me recuperei de todo da deceção por ter perdido o espetáculo do Cirque du Soleil (que nem sei se existirá pós corona). As óperas estão “operando”, de alguma forma. As salas de cinema reabriram. Mas Håkan Hellström não vai mais poder bater o próprio recorde de público do Ullevi (mais uma vez). Ainda assim, soou extremamente contraproducente aumentar o número máximo de pessoas permitidas em eventos culturais e esportivos quando o número de casos vem crescendo.

No mais, parece que o “novo” normal já não é mais tão novo.

Diário de um ET -147

Ah! Esses dias infames quando a gente sente que é o patinho feio… sem a ignorância do porque sou diferente dessas pessoas?

Em outras palavras, eu sei que sou um cisne gracioso. Mas tô num lago de patos e sempre tem alguém pra me lembrar que sou diferente.

Ser estrangeiro é ser eternamente um patinho feio.

Diário Caipira-146

O fim de semana foi cheio de visitas e, como consequência, estava morta ontem a noite. Cheio na perspectiva latina seriam uns doze parentes, com respetivos filhos correndo pela casa em algo que lembra (o filme) 300. Cheio na perspectiva sueca é a cunhada com o bebê.

Mas, enfim, hoje estava conversando com uma colega de trabalho sobre “o novo normal” e as informações desencontradas a respeito do corona. Na cidade de Gotemburgo e região parece que a regra é: se alguém da sua casa testa positivo para Covid você deve permanecer em casa (assim como todos os membros da sua residência). Mas por mais que a gente procurasse não encontramos uma confirmação disso na página da Folkhälsomyndigheten.

Eu fiquei desconfiada pois há alguns dias atrás, quando postei aqui o quê valia pra quem testa positivo, as informações da Folkhälsomyndigheten eram de que não era necessário que os demais membros da mesma família/residência ficassem em quarentena. Agora nada consta no site.

Perguntei, só por curiosidade, para os meus pais o que vale na cidade em que eles moram. Mas eles não sabiam dizer.

Diário Caipira-146

Eu decidi desfazer um pedaço da manta de crochê que eu estava fazendo porque não gostei do tom da cor. Na verdade, o tom estava destoando. Como é lã e é lã de bebê comecei a fazer uma touca.

Desmanchei cinco vezes e já estou na sexta tentativa. Eu sigo a receita mas alguma coisa está errada. Ainda não descobri o que é, mas quando (e se) eu acertar boto a foto aqui.

O marido quase tem um treco quando eu desmancho mas faz parte da terapia.

Diário Caipira-145

Fui num curso hoje sobre violência doméstica. A palestrante estava falando sobre o problema da agressividade. Eu não sei quantas vezes já fiz o mesmo curso, mas essa foi a primeira vez que justo essas palavras ricochitiaram dentro da minha cachola.

AGRESSIVIDADE é um problema. É um problema de saúde pública. Mas ninguém se preocupa com isso da mesma forma que as pessoas se preocupam (ou não) com o corona. Mas digamos assim que ao menos as autoridades se preocupam com o corona. E tem se esforçado para enfrentar o problema. Um grande número de empresas e profissionais de ciência e tecnologia estão buscando uma solução para a doença que chegou em 2019.

A agressividade mata e deixa sequelas na vida de crianças, mulheres, pessoas negras, pobres, idosos, pessoas com deficiência… Mas a gente normaliza. A violência doméstica – que não é apenas a violência contra a mulher – a gente deixa de lado com um simples dar de ombros.

Estamos em um enorme descompasso, agindo como animais irracionais em uma sociedade complexa e moderna. E a gente ainda justifica a barbárie.

A agressividade é um grande problema.

Diário Caipira-144

E não é que deu batata?

Pra quem está por fora do resumo da ópera: plantei batatas com as crianças e estava muito confiante pois as plantas cresceram vistosas. Ao menos enquanto estavam dentro de casa… A batata floreceu, o tempo passou, eu tive que deixar do lado de fora (porque saímos de férias) e as plantas foram atacadas por lesmas espanholas (o terror das hortas aqui). Sobrou apenas o talo, e eu desisti.

Ontem remexendo nos vasos aonde as falecidas batatas estavam encontrei uma batatinha… e mais uma… e outra, e outra! Chamei os piás que se deliciaram com a “colheita de batatas”.