Repost: violência doméstica, onde buscar ajuda?

Fonte: imagem ONU Mulheres (http://www.un.org/en/events/endviolenceday/)

Há cerca de dois anos escrevi na página do Facebook um texto com orientações sobre o que fazer em caso de violência doméstica aqui na Suécia. Reposto em razão da campanha da ONU Mulheres 16 dias contra a violência contra a mulher.

A Suécia conta com uma linha para denúncias que é o 020 505050. Mesmo que você tenha dúvidas a respeito de se a situação na qual você vive é ou não violência doméstica, converse com alguém sobre isso. Pode usar o “uma amiga está passando por uma situação assim” ou nem precisa se identificar. Essa linha tem atendimento em português, inclusive, então você não precisa falar sueco ou inglês para obter informações. No entanto importante saber que o 020 505050 só pode te ouvir e orientar. Eles não oferecem outro tipo de atendimento.

– Em algumas cidades o BVC e o MVC (centro de saúde da crianca e o centro de saúde da mulher) ficam em uma organização chamada de familjcentral. Normalmente nesses centros há uma psicóloga e assistente social trabalhando. Uma das tarefas delas é prestar apoio a mulheres vítimas de violência. Assim que você pode aproveitar a visita ginecológica ou a pesagem do bebê contar para a barnmoska ou a barnsköterska a respeito “daquela sua amiga” que está passando por umas situações estranhas em casa ou simplesmente dizer que gostaria de conversar com uma assistente social porque está pensando em se separar e não sabe como agir. A barnmoska pode ou não tentar entrar em detalhes e fica a seu critério o que você vai contar. Já para a assistente social é importante botar todas as cartas na mesa para que ela possa te dar a orientação correta.

– Existem advogados que prestam serviço de orientação jurídica gratuita no medborgarkontor (escritório do cidadão). Normalmente essas consultas não podem tomar mais de quinze minutos, mas você pode nesses quinze minutos receber o contato para um advogado especializado em direito de mulheres vítima de violência. Esses tipos normalmente oferecem uma consulta gratuita para explicar para a mulher como ela deve proceder em caso de ela querer se divorciar por causa de violência. Eles inclusive te orientam a como fazer para arcar com os custos de eventuais processos (sabia que o seu seguro da casa pode cobrir esses custos nas maioria dos casos?).

– Em caso de cárcere privado ou de você ter de se trancar num canto da casa para fugir de porrada não duvide: ligue a polícia (112). A polícia sueca é treinada para dar apoio a mulher vítima de violência e (eu espero que sempre) fica ao lado da mulher. Se você chegou ao limite e decidiu que não pode/quer mais ficar com seu parceiro mas ele te impede de sair de casa, ligue a polícia. Você explica a situação é pede escolta para juntar as suas coisas e as criancas (caso você tenha). Eles te deixam no escritório de assistência social mais próximo onde você pode contar sua situação e pedir abrigo.

– Mulheres vítimas de violência tem direito a abrigamento por meio do escritório de assistência social. Infelizmente tem muito filho de cachorro trabalhando nos escritórios de assistência social que prestam um servico de bosta. De modo geral o assistente social não está lá para encorajar ninguém a dar outra chance para o parceiro e sim para avaliar se a pessoa pedindo ajuda precisa de um abrigo secreto ou um lugar num abrigo comum. Em ambos os casos a mulher será abrigada com os filhos – se tiver fugido com eles. A diferenca entre abrigos secretos e normais são que os abrigos secretos são para mulheres que tem medo de que o parceiro roube as criancas, ou venha atrás dela se vingar, tenham sofrido violência física ou estejam ameaçadas de morte. Abrigos normais são para mulheres que sofreram violências “mais leves”. Eu acho importante salientar aqui que nem sempre a mulher vítima de violência tem noção do tamanho da violência que ela sofre, ou de quão grave ela é. Já vi mulheres que o parceiro tentou estrangular dizerem que não precisam de um abrigo secreto. Em todo o caso, os abrigos em geral oferecem acomodações simples, cozinha comunitária, e o tempo de abrigamento varia de caso a caso. Infelizmente nem toda a mulher abrigada consegue um apartamento por meio do social (sim, triste mas verdadeiro), por isso fica mudando de endereco de tempos em tempos (o que é muito complicado). Mulheres vítimas de violência que não tem trabalho ou algum tipo de renda podem pedir auxílio econômico e o receber-lo enquanto tiverem o desejo de se separar. Se a mulher decidir voltar para o seu parceiro no entanto o benefício é cancelado.

Enfim, gostaria de acrescentar que caso você não fale inglês ou sueco tem o direito de solicitar um intérprete gratuitamente, mesmo que você chege no escritório de assistência social de uma hora para outra. Em caso de consultas pré agendadas peça a presença do intérprete com antecedência. Só para constar, todos os profissionais que trabalham com mulheres vítimas de violência (e são bons profissionais) tem boca de siri. E por último mas não menos importante, deixar uma relação violenta sempre conta como um ponto a favor da mãe (no caso de existirem crianças). Para o serviço social sueco mais vale uma mãe pobre com suas crias embaixo do braço pedindo auxílio do social do que uma mãe que não deixa o parceiro violento por medo da pobreza. Difícil, mas não é considerado negligência ser pobre e sim expor as crianças à um parceiro violento.

Anúncios

Brasil, ame-o ou deixe-o

Parece piada mas, já que passei boa parte do processo eleitoral no Brasil e ousei me meter em discussões (mulher que tem opinião é metida) ouvi de vários conhecidos e desconhecidos “um pra você é fácil ficar falando, só que você é de fora e não conhece a realidade brasileira”. Um tipo gentil de cala boca. Normalmente seguido de “volta pra cá se está achando tão bom” ou “por que não muda pra um país comunista?”

A Suécia é socialista para muito estadunidense. Enquanto metade da galera que tem um posicionamento político de direita jura que a Suécia é um país de direita e que foi o capitalismo que salvou o país (e foi); outra metade enquadra a Suécia no mesmo pelotão de países socialistas como… digam um qualquer aí. Essa galera jura que os suecos não se tocaram que vivem num comunismo, com um governo que decide tudo (inclusive aonde você pode comprar bebida alcoólica).

Se a coisa vai nesse pé num país desenvolvido, porque seria estranho que tantos brasileiros vivam uma dissonância entre a realidade e o que eles acreditam que é a realidade? Porque a gente é um país que não lê mas principalmente não sabe questionar o que lê, porque temos complexo de irmão caçula e de vira lata e por causa da violência da nossa educação (fechem as universidades, eu tenho todas as respostas).

Essa coisa de crescer dentro de um sistema educacional violento, eu não me refiro a escola e qualquer doutrinação que a galera do escola sem partido se refere. Eu me refiro a educação que a gente recebe em casa mesmo. E sei que muita gente vai protestar do tipo “palmada não mata, ensina” e eu vou concordar: palmada ensina mesmo, ensina muito, ensina que quando é enquanto você puder usar da violência e estiver no topo da cadeia você resolve tudo. A gente vive tão violentado que não percebe. A gente nasce e cresce dentro de núcleos familiares onde existe o certo e o errado, separados muito bem separados por uma linha imaginária. O certo é bom, o errado é mau, e ponto. Ser e estar certo evita sofrimento (físico, psicólogo) e estar certo nos causa bem estar ou simplesmente um sentimento de ufa!, escapei. Quando aprendemos a resolver tudo na base de gritos e pontapés não é estranho que tenha gente ameaçando de morte quem pensa diferente. Sempre que eu me sentir maior ou melhor do que outra pessoa vou fazer valer “o meu certo”, vou fazer todo mundo me engolir, nem que tenha de ser goela abaixo – ou seja, usando de violência.

Pra muitos de nós brasileiros a Suécia só pode ser socialista ou só pode ser capitalista, ela não pode ser uma coisa e também outra coisa. Não existe essa de um pé lá e outro cá, 18, 28, 58… Muito menos 9, 33 ou 77. É 8. Ou 80. E quem decide se é oito ou oitenta é quem manda. Manda quem tem mais – mais dinheiro, mais testosterona, mais poder. Eu pirei meu cabeção nessas férias. É incrível como a mulher brasileira só tem direito de fala se for pura, puríssima, mais alva do que a Branca de Neve. Porque te mandam calar a boca até porque você tem uma espinha na cara. Fulana não tem moral, ela tem caspa!!!

Cidadãs crescidas são tratadas como retardadas mas quem está na última casta dessa cadeia de violência são as crianças. E mesmo assim querem queimar o ECA em praça pública porque essa lei de merda acabou com o direito dos pais – como se o único dever dos pais fosse dobrar os filhos na base da porrada. Engraçado pensar que eu tenho uma lembrança dessa necessidade de me tornar maior, mais velha e mais forte para poder mandar em alguém. Mas a gente esquece quando cresce… ou não. A minha criança interior não aguenta ver tanta gente ríspida: mal dormida, mal comida, mal amada. Tanta gente precisando esculachar o outro pra se sentir bem. A minha criança interior chora de pensar que enquanto pra mim cala-boca-já-morreu-e-quem-manda-aqui-sou-eu ainda tem todo um Brasil de gente sendo violentado diariamente sem armas mas de forma escancarada, escandalosa, que deixa feridas na alma. Quando as pessoas me dizem que deixaram o Brasil por causa da violência eu me pergunto: será que fora do Brasil elas percebem o quanto são violentas? Se a gente pudesse fazer essa auto crítica (que graças a Deus já começou em muitos corações brasileiros) não teria de escutar “vai pra Cuba” ou “pra Venezuela” tantas vezes.

Eu já sabia. Tenho trabalhado isso bastante desde que o Benjamin nasceu por meio de terapia. Porque bem lá no fundo eu quero vencer na força. Eu quero dobrar os outros. Tenho uma necessidade absurda de provar que estou certa, que tem que ser do meu jeito. Eu vou para o Brasil e vejo esse meu comportamento (que eu não quero mais) sendo esfregando diariamente na minha cara. Resultado: saí do Brasil triste, mas aliviada. Cansei da brutalidade. Essa aí que está na nossa pele no dia a dia. O assalto, o assassinato é o resultado desse feijão com arroz nosso de violências cotidianas, aquelas que a gente faz e que a gente não vê mas que minam a nossa auto estima e acabam com a nossa energia.

O que me entristece é ter consciência de que essa discussão está longe de chegar na mesa do brasileiro porquê tem muito mais coisas que o cidadão precisa resolver. O brasileiro vive sem tempo pra pensar e poder planejar, vive correndo atrás de estabilidade. Na Suécia isso tem de sobra, aí temos tempo de roer nossas neuroses. Eu já estou aqui roendo a minha: como é possível amar essa bagunça toda chamada Brasil?

A boneca do poço

Não estou falando de filme de terror. Hallowen já passou apesar de que no Brasil a caça às bruxas continua.

Recentemente “li” (ouvi) a tetralogia Os Emigrantes do autor sueco Vilhelm Moberg que trata da saída em massa dos suecos para os EUA durante a segunda metade do século XIX. A obra segue a saga da família de camponeses de Karl-Oskar e Kristina Nilsson que, fugindo da fome, enfrentam uma longa viagem num barco a vela até Nova York com três crianças pequenas. Depois, se fixam no território selvagem de Minesota a beira do lago Ki-Chi-Sago, atualmente Chisago County.

Desde janeiro ando buscando informações sobre meus antepassados italianos e, também por isso, a saga Os Emigrantes mexeu muito comigo. Mas mais do que isso, o autor soube descrever de forma formidável as duas faces da imigração que vivem brigando dentro de cada imigrante: Karl-Oskar está decidido que Minesota é maravilhosa, mesmo que ele tenha que lutar muito para botar em ordem seu pedaço de chão enquanto Kristina vive suspirando pela Suécia que ficou para trás, ainda que a vida no novo mundo lhe traga gratas surpresas.

Eu sofro muito sempre que deixo o Brasil. Sofro porque assim que as portas do avião se fecham eu sei que vou adentrar a zona europeia, o velho mundo de onde tantos fugiram para escapar da fome mas que hoje fecha as suas portas para aqueles que querem fazer o caminho oposto. Sorte minha não ter fugido da fome para cá e ter adentrado este território meio que na birra. Azar o meu ter perdido meu coração para um europeu. Sorte minha ele ser sueco e não húngaro. Azar o meu a Suécia ter nove meses de inverno…

Mas pra não ficar nessa lista interminável, Moberg fala de uma coisa que bateu fundo na minha alma: a saudade que Kristina sente pela Suécia está enraizada na imagem da Suécia que Kristina guarda na memória. A analogia que ele faz no livro é a seguinte: Kristina tinha uma boneca de porcelana, de rosto redondo e branco, touca e um vestido de seda azul. Um dia, quando buscava água, Kristina derrubou a boneca por acidente dentro do poço. Era possível ver a boneca, ou ao menos uma parte dela, e Kristina ficou inconsolável. Seu pai e irmãos não mediram esforços para resgatar a boneca, ainda que em vão. Por muito tempo foi possível vislumbrar a seda azul do vestido da boneca, e apesar de Kristina ter ganhado uma nova boneca semelhante a anterior ela se dirigia constantemente para o poço para espiar a boneca perdida. Como era linda. Na memória de Kristina a boneca perdida era mais bonita do que a atual, o tecido do vestido mais brilhante (apesar de estar mergulhado há tempos na água), o rosto era mais bem desenhado, a porcelana mais suave ao toque.

O Brasil que guardo na memória é sempre mais quente, caloroso, mais feliz. Eu fico meio chocada de ver aranhas e baratas pra todo o lado. Meu primo matou uma cascavel dia desses no sítio em que mora. Tem mais passarinhos cantando (e cagando na cabeça da gente) do que eu possa me lembrar – eu até vi um pica-pau no jardim. Tem chefe gritando com os funcionários. Tem chefe ameaçando funcionárias porque elas engravidam. Tem homem assobiando na rua atrás da gente, quando se tem sorte. Tem gente chamando mulher de vadia e puta o tempo inteiro. Curitiba é cinza. É barulhenta. O som do tráfego intenso de caminhões me dá medo. Caminhoneiro não respeita limite de velocidade. Todo mundo dirige colado na sua bunda. Todo mundo ultrapassa em faixa contínua e na curva. Tem gente pedindo em cada sinaleiro. Tem gente dormindo embaixo da ponte, no meio do calçadão. Tem gente morando no barranco, numa casa que lembra um ninho de falcão. Tem pastor com cabine dupla. Tem playboy gastando gasosa na avenida de um km de comprimento, pra cima e pra baixo. Tem competição de som na porta da casa das pessoas. Tem a vizinha ouvindo gospel no último volume (toda quarta e quinta – aleluia). Tem bolo de chocolate no café da manhã. Tem coca cola na mamadeira. Tem criança obesa, diabética e hipertensa aos nove anos. Tem violência. No campo. Na cidade. No trânsito. No parquinho da praça. No escritório. Dentro de cada casa. Dentro de cada boca gritando impropérios. Dentro de cada mão se fechando num soco e perna se estendendo num chute.

Mas agora eu estou aqui em Nárnia e o Brasil… o Brasil é a minha boneca que caiu no poço.

Abismos

Oi.

Minha relação com o blog tem sido meio que como de um frequentador de AA. No começo a gente empolga e fala sobre o “eu” o tempo inteiro. Conta os dias, as semanas, os meses e os anos olhando meio que para o próprio umbigo. Provavelmente você não está entendendo muita coisa desse bla bla bla todo e pra ser sincera, sei lá aonde eu quero chegar.

Chegar eu cheguei, na Suécia, há sete anos atrás. Mas chegar de verdade eu só cheguei quando o Benjamin nasceu. Até o Benjamin nascer eu não me sentia aqui. Sem perceber eu já estava muito mais ligada nos paranauês da sociedade e cultura sueca do que eu imaginava, mas ainda tinha feito uma série de coisas sem saber bem porquê. Eu não tinha o nome dos bois. E agora, para meu desgosto, eu tenho. Porque quando o Mikael nasceu eu percebi que eu tinha fincado em definitivo minhas raízes na Suécia.

Quem segue o blog há mais tempo sabe que eu sempre escrevi sobre uma vontade de voltar para o Brasil. Eu sempre escrevi sobre muita coisa nada a ver, bagatelas do dia a dia, umas coisas mais importantes e outras menos, falei um monte de besteira e idiotice sobre todo o possível porque né, quando a gente é ignorante fala e fala muito; muitas vezes continua falando porque acha que esta abafando e só depois de muito tempo é que percebe que as pessoas ao redor não estavam quietas por achar interessante mas pelo simples fato de ver se a pessoa em si se toca. E a vontade de voltar ao Brasil estava ali sempre no meio dessa bagunça de informação e desinformação – de um troll em transformação. Mas essa, das tantas asneiras que eu falei aos olhos dos outros, foi a única que não era besteira pra mim.

Cansei de ler coisa tipo: “você não sabe o que está dizendo”, “você só fala disso porque não está aqui (no Brasil)”. Quando eu saí do Brasil sabia o que estava deixando no plano estrutural: a sociedade machista, meritocrática e racista. Não sabia o grau da coisa, mas sabia que não era bom. Mudar para a Suécia e viver numa sociedade considerada feminista, igualitária e tolerante a diversidade me deu um breve dislumbre desse abismo que eu nunca tinha entendido. Até eu ter parido aqui eu achava que a maior distância entre Brasil e Suécia estava no plano geográfico e que no resto um dia a gente poderia fazer igual. O problema é que quando eu tive meu filho eu comecei a realmente perceber as pessoas ao meu redor. Eu comecei a pensar nas mulheres ao meu redor. Foi tipo como ter uma revelação. E isso criou outro abismo: um dentro de mim mesma.

Existe uma pequena parte de mim que continua querendo fechar olhos, ouvidos e todos os sentidos que me fazem pensar e entender isso. Mas o fato é que viver na Suécia não é viver em uma sociedade que se contrapõe ao Brasil. A Suécia – talvez a Escandinávia e Alemanha (uma parte dela, ao menos) – é uma bolha num cantinho do mundo. E não é que eu esteja reclamando, estou constatando que a menos que você já tenha vivido em um desses países vizinhos, a hora que você entrar aqui vai perceber que tem coisas que não tem nada a ver com o resto do mundo. E isso tanto para o bem quanto para o mal.

Sete anos de Suécia. O número sete na bíblia tem um significado de totalidade, perfeição. Mas para mim foi mais de cair a ficha mesmo e perceber o quanto estava errada: a distância geográfica entre o Brasil e a Suécia é a menor delas. E a chance de eu voltar para o Brasil fica menor a cada ano que passa.

Isso me deixa triste.

Saudades

Eu tenho saudades de escrever aqui. Agora ainda mais, quando não sei porquê meu teclado ficou doido e até me deu um ç. Posso escrever criança, lambança e poupança; realizações, felicitações e paparico e bico de pato, assim sem mais. Haha.
Miguel chegou e nós tivemos dois meses muito intensos mas tranquilos. Quem é mãe sabe como é que são essas coisas todas do pós parto, mas eu estava preparada dessa vez e com a minha mãe a tiracolo o puerpério foi fichinha. Sabe como é, mãe sabe das coisas, sabe até mesmo cuidar de outra mãe (que queira esse tipo de ajuda, que fique bem claro). Minha mãe voltou para o Brasil e Murph veio morar com a gente. Simplesmente…
Foi um festival de todas as gripes e viroses (diarréias em geral) que se possa imaginar. Eu ficava doente e aí os meninos ficavam doentes ou eles (um de cada vez ou os dois juntos) e depois eu… e assim foram fevereiro, março e abril. Eu quase ganhei um cartão fidelidade do hospital (#exagerada). Nunca imaginei que um inverno pudesse ser tão comprido… e aí que já se vão seis anos de Suécia e eu não sabia que o inverno podia ser esta merda. Pra você que curte um friozinho e sonha com a neve, só um recadinho: é lindo, mas é letal. É frio que não acaba mais e tudo que você queria é uma semana de sol e calor, uma semana para você botar os colchẽs para fora e abrir todas as janelas da casa para ver se arejando a coisa melhora.
Mas e daí que passou. Amém.
A semana de sol e calor já veio e já foi embora. Eu não botei os colchões para fora mas estou esperando que Gotemburgo me dê ao menos mais uma semana de sol e calor esse ano.
Falando nisso, achei bonito que algumas pessoas me escreveram perguntando se vou parar de postar, já que eu parei de postar, se me entendem. Eu não sei… o engraçado é que ainda recebo perguntas por email a respeito da vida na Suécia. Mas devem haver outros blogs mais atualizados não?
Enfim, essas perguntas que recebo soam super bizarras justo quando a gente está passando por essas situações especiais da vida… tipo, isso que comentei acima, essa sensação de que o inverno nunca acaba… aí uma pessoa me manda um email (fazia uma cara que não recebia perguntas via email, só via facebook) se Gotemburgo dá praia. Eu lendo o email, resfriada com uma puta dor de garganta, meu coral de duas vozes recitando ´´a Tosse´´ numa sonata que poderia ser de Bethoven, chuva lá fora e 4 graus C…
Gotemburgo dá praia. Mas é bom usar neopreno de manga longa.

Nomes bizarros suecos

Já que estou nos finalmente e todo mundo sempre pergunta nessa etapa da jornada se a pessoa/casal já escolheu como vai batizar a crianca pensei em dividir algumas opcões bizarras que existem por aqui. Quê? Achou que essa era uma exclusividade brasileira? Sinto informar mas o gene responsável para que um indivíduo seja sem nocão está presente na espécie humana em geral. :P

Peguei do site do Expressen (um jornal sueco que às vezes, bom… dispensa comentários) uma lista dos 23 nomes mais estranhos com que bebês foram batizados no ano de 2015 (que segundo o Expressen, saiu da central de estatísticas da Suécia – SCB):

– sete meninnas foram batizadas com [o nome de] Tequila (sendo que uma delas tem Tequila como primeiro nome!).
– uma guria com o nome de Svamp (que significa fungo/cogumelo).
– um guri como Skåne (região da Suécia…).
– duas meninas como Ragata (eu penso sinceramente que eles não se referem a palavra italiana).
– dois piás como Pucko (significa idiota).
– um piá como Potatis (me faz pensar naquela piadinha: o colono chega no cartório e diz “quero batizar meu filho de E-batata”; ao que o escrivão responde “não pode, porque E-batata não existe”. E o colono “Mas meu vizinho batizou o filho de E-milho!” Ha ha ha).
– Hitler. Para um menino, coitado.
– Oito meninas foram batizadas como Pung (saco escrotal, em sueco).
– Um menino, Fido.
– Duas gurias de Penna (no caso, caneta/lápis em sueco).
– Está em busca de algo unissex? Cinco gurias e quatro guris receberam o nome de Porsche em 2015.
– Outra opcão unissex: Munk, com a qual 61 guris e 39 gurias foram “contemplados” (que significa monge… mas também pode ser um docinho que lembra nosso sonho de padaria).
– E as opcões unissex não param por aí: Mcdonald para três meninas e dois meninos (um deles chama Mcdonald no primeiro nome).
– Kossa (vaca), para um piá. (seria boi, no caso? nãããão).
– Matta – unissex – para 31 homens e dez mulheres (significa tapete).
– Anus – aquele mesmo – para duas pobres gurias, como primeiro nome.
– Katt – nomes unissex estão com tudo – para dez meninas e três meninos (gato/gata).
– E mais um unissex: Majs [que se pronuncia mais] para quatro gurias e um piá (lembra a piadinha ali de cima da batata? Então).
– Gud (Deus) para uma menina sortuda.
– Balle, para meninos (1) e meninas (4) – eu não vou traduzir.
– Bärs, só para gurias – e são três (eu não tenho certeza aqui se se referem ao verbo carregar ou à gíria para cerveja…)
– Norrman, só para guris – foram quatro (homem do norte – mas isso é meio óbvio quando se nasce na Suécia).
– As, que deve ser a irmã da Anus, ou prima. Coitada. O significado é o mesmo, em todo o caso.

Em alguns casos a coisa é tão feia por aqui que os nomes são proibidos. Por lei. Alguns exemplos são Metallica, Ikea, General, Hallå, Q e HV 71. Mas personagens de ficcão e contos parecem ser permitidos, já que a Suécia tem:
– quatro Spiderman,
– nove Batman,
– sete Phantomen (Fantasma) e sete Guran;
– dois Superman,
– sete Zorros,
– quinze Frankstein,
– oito Yodas,
– dois Darth Vader,
– três Chewbacca,
– um Drakula,
– quinze Tarzans,
– três Skalman (a tarturaga da turma do Bamse),
– um Super Mario,
– um Megaman,
– uma Törnrosa (Bela Adormecida) e
– seis Snövit (Branca de Neve – faz sentido não?).

E pra fechar o post, quero avisar que nomes de filmes também funcionam como nomes na Suécia, tanto que tem um cara que se chama Hajen (Tubarão). Vai ver que a mãe dele é bióloga ou sei lá, o pai era fanático por esse clássico dos anos 80.

Não. A gente vai de algo normal mesmo. Tipo José.

Proibida a entrada de crianças (mas na Suécia não)

Em meados de outubro uma guria de um programa de culinária no Brasil fez uma postagem no facebook elogiando a atitude de um restaurante brasileiro que proíbe a entrada de menores de 14 anos. Uma longa discussão se deu início, e um dos principais argumentos utilizados pela galera que acha essa proposta cabível é de que isso funciona na França, além de pontuar que as crianças francesas são infinitamente mais educadas do que as brasileiras e tem modos a mesa.
Eu nunca estive na França por mais de três dias e não tenho a mínima ideia de se essa história de que restaurantes fecham as portas para uma parcela da população seja realista – o que me parece bem burro, diga-se de passagem. Infelizmente já vi muitos textos de gente que acha aquele livro (crianças francesas não jogam comida no chão) sobre adestramento de crianças a última bolacha do pacote – normalmente gente que não tem crianças – e que acredita que na França tudo é como a autora do livro aponta: crianças francesas são extremamente educadas e não gritam a mesa.
Bom, tenho uma má notícia para quem é fã da Suécia e que adora o modelo francês: crianças suecas são u ó, como se diz lá de onde eu vim. Elas não vão apenas gritar a mesa e jogar comida ao chão, elas vão subir na mesa se quiserem e cagar na cabeça dos pais. Eu não sei se todo mundo compartilha da mesma perspectiva que eu, mas desde que mudei para cá tenho visto como essas criaturinhas são indomáveis nessas terras, e penso que talvez o último traço da barbárie viking se expresse justa na infância desse povo (que a partir da idade adulta não dá um pio, a exemplo das crianças francesas). Aliás, ao contrário do que se pensa a respeito da modo francês de educar os pequenos, a forma sueca de tratar a infância comunente é tratada como um experimento que deu errado porque veja bem, aqui as crianças tem direitos. Mas isso é um assunto para outro post.
Mas é importante salientar: a Suécia está infestada de pequenas pestinhas que tem poder, muito poder diga-se de passagem, sobre os pais. E o pior de tudo: aqui os restaurantes não proíbem a entrada de crianças. É claro que existem ambientes mais sofisticados aonde sutilmente se dá sugestão de que esse é um espaço reservado para adultos. Mas não há placas proibindo a entrada de crianças e adolescentes – não a menos que se trate de um pub ou uma espécie de taverna em que bebidas alcoolicas sejam servidas e aonde a questão comida fique em segundo plano. Aí sim há um aviso relacionado ao fato de que menores não são permitidos sem a presença dos pais.
De modo geral os estabelecimentos comerciais suecos querem ter o reconhecimento de serem espaços amigos da criança e contam com estrutura para receber desde bebês até… bom, principalmente bebês. Mas o cardápio, por exemplo, sempre traz uma sugestão para que a galerinha que ainda não aguenta um verdadeiro prato de comida e que normalmente não gosta dessas combinações que um adulto procura quando sai para jantar possa ser servido. O menu infantil pode nem ter nada a ver com a cara do restaurante – tipo um restaurante de peixes e frutos do mar que tem no menu infantil hamburguer – mas a ideia é que a crianca no caso possa ter uma opção para que os pais não deixem de frequentar aquele espaço justo porque a criança não vai ter o que comer.
Os cafés então são espaços maternos – e todo mundo sabe como essa história de “fikar” é importante na Suécia. Desde que me tornei mãe sempre que saio para a cidade encontrar uma amiga que também tenha filhos nós escolhemos cafés que tem a fama de serem “amigos da criança”. Isso porque sabemos que teremos espaço para o carrinho de bebê (ou um estacionamento seguro para deixar do lado de fora), cadeirões, um banheiro com trocador (essencial nos primeiros meses de vida) e todas essas coisas que crianças de colo precisam. Além disso sabemos que aquele ambiente vai ser mais acolhedor, que com certeza encontraremos outras mães naquele mesmo espaço com suas criaturinhas indomáveis aos berros e portanto, estaremos livres dessa gente chata que acha que criança tem que estar trancada em casa.
Porque é isso mesmo: sair com criança é uma loteria. Há dias em que eles estão tranquilos e felizes, vão sentar no cadeirão, deixar papai e mamãe conversar com os amigos enquanto comem o que estiver sendo servido ou simplesmente vão curtir a vista, olhando curiosos ao redor. Mas há dias… há dias em que um copo de água transforma sua criança em um verdadeiro gremlim, que vai gritar, jogar comida no chão, se contorcer no cadeirão, te bater se você segurar no colo e sair correndo a primeira oportunidade.
O que não é normal na Suécia é crianças serem bem vindas a casamentos, por exemplo, ou alguns tipos de festinhas mais íntimas. De todos os casamentos aos quais fui convidada acredito que apenas um deles não deixava claro no convite que apenas crianças de colo eram bem vindas. Eu reagi a isso de forma forte no começo, mas quando me casei fiz o mesmo. Um casamento a moda sueca tradicional é uma coisa um tanto chata e comprida até mesmo para adultos, um monte de gente fica fazendo discursos e homenagens aos noivos enquanto os demais convidados sentam e comem. Por horas. Tipo, meu próprio casamento teve um “jantar” de aproximadamente cinco horas. Nessas cinco horas foi servido o buffet, então nos prestaram homenagens, e mais homenagens, e mais homenagens, nesse ínterim os convidados poderiam repetir e beber; houveram mais homenagens, uma pequena pausa e então servimos o bolo, com café e mais bebida e mais homenagens e discursos. Todos esperam que enquanto os discursos e homenagens aos noivos acontecem os demais convidados estejam em silêncio. Aí se dão pequenos intervalos entre meio, quando você tem tempo de dar uma mijadinha ou dizer para a pessoa ao seu lado que a noiva está realmente bonita, para aí um novo discurso se iniciar e todo mundo fazer boca de siri. Chato. Bem chato. Extremamente chato quanto você não sabe a língua, se você não é íntimo dos noivos e não entende as piadinhas internas, ou se você tem menos de 20 anos. Dessa forma os noivos normalmente colocam no convite que crianças não são bem vindas porque as pessoas entendem que crianças precisam correr e brincar e que não vão ficar sentadas ouvindo o avô da noivo contar que ele gostava de pescar quando era pequeno. Sei lá se eu acho isso uma justificativa plausível, porque depois que virei mãe tive que escolher entre ir ou não a alguns casamentos. Escolhi ficar em casa quando senti que não queria arrumar alguém para ficar com o Benjamin para ficar sentada ouvindo homenagens para pessoas as quais eu não sou tão íntima, deixei Benjamin com alguém da família quando realmente quis participar de um momento especial na vida de amigos queridos.
Melhor seria ter deixado ele em casa sempre, e em qualquer circunstância?
Não, definitivamente. Acho que você não ensina nada a seu filho deixando ele à margem. Eu posso estar redondamente enganada, mas acredito que na Suécia a perspectiva de encontrar pequenos vikings demostrando toda a sua selvageria e barbarie em locais públicos seja encarada de forma natural porque as pessoas entendem que crianças são seres em desenvolvimento. Há espaços para crianças em restaurantes, em cafés, em museus, na biblioteca (a biblioteca da cidade de Gotemburgo tem uma área tão grande para crianças que é inacreditável) e assim as pessoas que não querem se “incomodar” com gritaria e birra de criança utilizam as outras áreas do mesmo serviço. Além disso eu tenho uma impressão que as pessoas são mais de boas com as escolhas alheias (dentro da perspectiva do lagom de ser) e que normalmente o pessoal anda em tribos. Tipo, a galera festeira vai se juntar para fazer festa até começarem a casar ou ajuntar, aí mais ou menos todo mundo casa, aí mais ou menos todo mundo tem filhos, e você vai seguindo a onda dominante dentro do seu próprio círculo de amizades. E isso é visto como natural, coisas da vida.
É claro que também existe a galera que quer uma placa em restaurantes proibindo a entrada de crianças – ou de forma mais radical ainda, dos pais que não são capazes de domar os filhos. Mas quem disse que a Suécia é um país perfeito?