Diário de uma cabeça de vento-71

Acho que sempre ouvi “ai ai menina! Se a cabeça não fosse grudada no pescoço tu ia deixar por aí”.

Hoje fui no mercado. Fiquei brava porque o mercado passou por uma reforma e tudo mudou de lugar. Aí a gente fica besta zanzando e caçando as coisas. Quando saí, prendi a sacola na magrela e… cadê a chave do cadeado?

Nada num bolso, nada no outro. A bolsa? Cheia de tudo, menos da chave. Que remédio né? Juntei as tralhas, entrei no mercado de novo e comecei a procurar a chave já me preparando mentalmente pra ligar para o marido com o rabo entre as pernas “amor, tranquei a bici e perdi a chave do cadeado. Pode me salvar?”

Por sorte, encontrei a chave. Mas acho que deixei mesmo a cabeça em algum lugar…

Diário Caipira-70

Eu gosto de escrever no WordPress. Me dá um pouquinho de nostalgia lá do início do blog, quando eu ainda estava no Brasil estudando sueco. Pá, parece que foi uma vida atrás…

Não sei como é que a galera que muda pra cá com a família se arranja. Porque não se trata apenas da adaptação de uma pessoa mas de três ou quatro. São uma série de contextos novos. E agora com as empresas mandando uma série de funcionários embora há o perigo de terem que erguer acampamento e… sei lá! Como é que se volta para o Brasil se as fronteiras estão fechadas?

Muita coisa mudou no meu trabalho e eu não vejo a hora de as coisas voltarem a algum tipo de normalidade. Porque esse normal de agora não me apetece.

Seria pedir demais?

Diário Caipira-68

Hoje começou um dos programas de rádio mais populares da Suécia: Sommar i P1. Traduzindo numa linguagem popular seria um podcast onde pessoas famosas ou que tiveram destaque no cenário sueco em diferentes nichos falam sobre como se tornaram o que são.

Greta Thunberg abriu o programa desse ano. Eu sigo o movimento que ela acabou criando e tenho grande admiração pela coragem dela de dizer algumas verdades aos políticos do acontecendo todo. Sabemos que o sistema no qual vivemos está acabando com nossos recursos. Corremos o risco de acabar sem água e sem ar nos próximos anos e ainda assim continuamos agindo como se nada estivesse acontecendo. Eu sei que estou agindo assim… tento melhorar mas a gente sempre acha desculpas. Estava ansiosa por ouvir o programa dela e me senti chocada.

Infelizmente, há aqueles que preferem matar o mensageiro ao invés de se preocupar com a mensagem. É terrível ouvir de uma garota de 18 anos que ela teve que chamar a polícia para se proteger porque foi ameaçada de morte. E tudo o que ela diz é “parem de ignorar os sinais, ouçam a ciência”.

Eu tenho pensado bastante sobre o fato de que cientistas tem alertado há anos que uma pandemia atingiria o planeta mais cedo ou mais tarde. Ninguém ouviu, do mesmo modo que ninguém dá bola para a crise climática. Mas o que seria do mundo agora se os governos houvessem prestado atenção aos avisos dos cientistas? Os impactos da pandemia seriam os mesmos?

O que será de nós se continuarmos ignorando a ciência?

Memórias de um Caracol-10

Tomei banho de lago três vezes hoje. Não lembro de ter feito isso no verão de 2018. Mas aqui onde estamos tem um “trapiche” para o meio do lago o que facilita demais a vida: você vai até o fundo, pula, se refresca e sai da água. Porque a água continua fria então não dá pra ficar brincando…

É interessante também que os lagos suecos por aqui tenham cor de “coca-cola”: no raso dá pra ver o fundo, mas quanto mais fundo fica o lago mais escura parece a água por causa do tom caramelo. Dá um medinho de pular porque parece água à noite, escura e misteriosa, mesmo no meio do dia.

Só não pulei dos trampolins. Morro de medo de altura.

Memórias de um Caracol-9

Hoje viajamos 170 km para nos encaracolar. Para brasileiro isso é uma trivialidade, 170 km é logo ali. Para sueco (principalmente os do sul ou das grandes cidades), não é lá tão comum.

Uma boa road trip pede música e histórias (abençoado Spotify e seus podcasts). A gente mistura de tudo um pouco e rolam clássicos suecos. Como vamos de trailer sempre ouvimos a canção “Você deve ter um trailer” composta pelo grupo Galenskaparna. Essa não é uma banda musical e sim um programa de humor sueco que fez uma música em homenagem a essa particularidade que é viajar com um trailer. Vou deixar o link do vídeo do YouTube e compartilho a letra da música (traduzida pelo Tio Google – e ficou entendivel):

“Man ska ha husvagn” – Galenskaparna

Eu já tentei de quase tudo o que há para escolher
Jag har prövat nästan allt som finns att välja på/ Acampar, alugar barcos, canoagem, andar de bicicleta ou caminhar
Campa, hyra båtar, paddla, cykla eller gå/ Passei férias da maneira mais estranha
Jag har semestrat på dom allra konstigaste sätt/ E finalmente eu descobri como tirar férias
Och äntligen jag funnit hur man ska semestra rätt

Você deve ter uma caravana – o feriado já está feito
Man ska ha husvagn – så är semestern redan klar/ Você deveria ter uma caravana – eu vi que todo mundo tem
Man ska ha husvagn – det har jag sett att alla har/ Você deve ter uma caravana – e guardar a família
Man ska ha husvagn – och stuva in familjen i/ Você deveria ter uma caravana – porque então você estará livre
Man ska ha husvagn – för då blir man fri

Por muitos anos não fomos particularmente bem viajados
I många år så var vi inte särdeles beresta/ Estávamos em Askersund e uma vendinha em Gnesta
Vi hade vart i Askersund och pressbyrån i Gnesta/ Mas então um dia eu disse para a minha mulher, gentil mas firmemente
Men så en dag sa jag till frugan, vänligt men bestämt/ Temos uma casa que roda sobre rodas e, assim, sempre
Vi skaffar oss ett hus som går på hjul och därmed jämt

Você deve ter uma caravana – com geladeira, TV, chuveiro e fogão
Man ska ha husvagn – med kylskåp, TV, dusch och spis/ Você deve ter uma caravana – será como estar em casa de alguma maneira
Man ska ha husvagn – det blir som hemma på nåt vis/ Você deve ter uma caravana – e deve ser grande e larga.
Man ska ha husvagn – och den ska vara stor och bre’/ Você deveria ter uma caravana – pense no que pode conhecer
Man ska ha husvagn – tänk vad man får se

Cinco minutos Falsterbo e cinco minutos Koster
Fem minuter Falsterbo och fem minuter Koster/ Cinco minutos Flen e Hjo e cinco minutos Mosteiro
Fem minuter Flen och Hjo och fem minuter Kloster/ Cinco minutos Örebro e cinco minutos nas montanha
Fem minuter Örebro och fem minuter fjäll/ Cinco minutos de intervalo em um motel rodoviário europeu
Fem minuters rast på ett europavägsmotell

Você deve ter uma caravana – o feriado não será um fracasso
Man ska ha husvagn – så blir semestern ingen flopp/ Você deve ter uma caravana – e fazer muitas paradas
Man ska ha husvagn – och göra lagom många stopp/ Você deveria ter uma caravana – e dirigir e parar para tomar um chá ‘
Man ska ha husvagn – och köra runt och stanna te’/ Você deveria ter uma caravana – pense no que pode conhecer
Man ska ha husvagn – tänk vad man får se

Cinco minutos da cidade de Estocolmo e cinco minutos do arquipélago
Fem minuter Stockholm stad och fem minuter skärgård/ Cinco minutos de sol e banho e cinco minutos de mansão
Fem minuter sol och bad och fem minuter herrgård/ Cinco minutos Grums e Trosa, Tjörn e Härnsand
Fem minuter Grums och Trosa, Tjörn och Härnsand/ Mais cinco minutos você já viu em toda a Suécia
Fem minuter till så kan man hela Sveriges land

Você deve ter uma caravana – e levar tudo com você
Man ska ha husvagn – då har man med sig rubbet jämt/ Você deve ter uma caravana – então nada acontece indefinidamente
Man ska ha husvagn – då händer inget obestämt/ Você deve ter uma caravana – para saber como tudo será
Man ska ha husvagn – så att man vet hur allt ska bli/ Você deveria ter uma caravana – porque então você estará livre
Man ska ha husvagn – för då blir man fri/ Você deve ter uma caravana – onde quer que vá em sua viagem
Man ska ha husvagn – varthän man än sin resa ställt/ Você deve ter uma caravana – para não precisar viajar de barraca
Man ska ha husvagn – så slipper man att resa tält/ Você deve ter uma caravana – para saber como tudo será
Man ska ha husvagn – så att man vet hur allt ska bli/ Você deveria ter uma caravana – porque então você está seguro, trancado e livre
Man ska ha husvagn – för då är man trygg och låst och fri

Fonte: MusixmatchCompositores: Claes Eriksson

Diário Caipira-66

Essa semana tem midsommar. O normal é chover no dia em que se celebra o início do verão. Os suecos costumam brincar que Natal, Páscoa e midsommar normalmente tem exatamente o mesmo clima: chuva e 10°C. Excepcionalmente temos temperaturas acima dos 25°C desde sexta e parece que o tempo vai se manter assim até o fim de semana.

Veremos…

Diário Caipira-

Hoje Gotemburgo ferveu. Não por causa de uma festa – ao menos que eu saiba – mas porque estava quente. Nossa que dá um nó na minha cabeça esses dias que a gente inclusive transpira por essas bandas. Até andei pela sombra – coisa que era prática comum lá no Brasil e que aqui perdeu completamente o sentido.

Pois bem, temos o luxo de morar pertinho de uma lagoa. Já coloquei uma fotinhas dele por aqui. Calor e sol combinam com banho refrescante, certo? Errado. Combinam com “tente convencer as crianças a sair de casa”.

Por fim quando chegamos ao lago estava poluído de gente. Em plena segunda feira… Eu ia dar meia volta mas agora os piás estavam correndo para a praia. Lembrei da briga pra tirar eles de casa. Pensei na briga que ia ser dizer “vamos embora”. Desisti. A ideia era ficar uns minutos para as crias brincarem na areia, já que eu levei um tempão pra convencê -los a sair. Mas quando vi a multidão escolhi um cantinho longe e avisei os meninos que a gente ficaria só um cadinho.

Entraram na água, rolaram na areia e eu ali, apreciando o entra e sai do povo que vinha, pulava na água, nadava, saía da água, gastava dez minutos ao sol e depois ia embora. Quando o choque do “meu Deus tem uma pandemia em curso o que é que toda essa gente está se embolando aqui?” passou eu percebi que só as mulheres com crianças (eu incluída) gastavam mais do que dez-quinze minutos a beira do lago. A maioria vinha com a toalha no ombro.

Fiquei pensando num post que li sobre o quanto as mães com crianças que fazem parte do grupo de risco tem sofrido com o isolamento. Fiquei me perguntando se está certo me expor, expor as crianças por conta de um luxo.

Às vezes eu acredito que o melhor da estratégia sueca de combate ao Covid é o fato de eles pensarem no bem estar das crianças. O isolamento quebra a rotina e aprisiona muitas famílias em locais pequenos com crianças. O isolamento é extremamente necessário nos contextos de sociedades onde a família estendida e principalmente idosos convivem com os mais pequenos de maneira intensa e até mesmo dividindo o mesmo teto. Mas não é o caso sueco.

Os raios de sol aqui são um luxo tão caro… só passando a escuridão e isolamento do inverno pra entender a necessidade de sair durante o verão. Que vai acabar qualquer dia desses… basta chover e estamos aí, de volta aos 10°C.

Me sinto muito dividida mas tenho certeza de que se a Suécia tivesse adotado o lockdown eu estaria doente. É ser muito egoísta? Sim. Tenho consciência disso… só não tenho certeza se deveria fazer algo a respeito.

Memórias de um Caracol-8

Essa coisa de ter filhos e expectativas é algo bem difícil de conjugar. Tipo, você sai de férias a beira de um lago lindo e está super a fim de sair caminhar, molhar os pés na água e tals e as crianças querem… ficar dentro do trailer.

Nada contra, eu amo um sofá. Mas justo no camping, quando fazem 27°C e sol, quando você sabe que esse pode ser o único dia quente do verão todo… difícil. O mais engraçado é que quando você quer só sofá e preguiça aí, pode esquecer.

Por outro lado, eu adoro a curiosidade e espontaneidade das crianças. Ao lado delas tudo pode assumir proporções diferentes e uma simples pipa ou uma pá de areia bastam para que o dia esteja completo.

Encontre a pipa!

Eu aprendi com meu pequeno grande piá, em uma certa viagem da qual gostei muito, que o melhor da vida era aquilo que está a mão, no dia a dia. Porque quando eu perguntei “filho, o que é que você gostou mais dessa viagem?”, ele respondeu “o meu irmão e brincar de lego.”

Memórias de um Caracol-7

Caracol, doce caracol…

PS.: um desejo em prol de um mundo melhor pós corona: que sejam proibidas lâmpadas com sensores de movimento em banheiros e cozinhas. Não basta fazer as necessidades fisiológicas dando tchau, hoje tive que inclusive lavar louça dançando valsa.

Diário Caipira-64

O tempo voa quando a gente está se divertindo; e eu me diverti muito fazendo crochê hoje. Tô super zen já que o crochê diminui meu tempo de tela… ao mesmo tempo que acabo tendo muito tempo pra pensar.

Ainda não sei se isso é realmente positivo. Tem certas coisas que eu gostaria de ignorar completamente. Que fase essa, de achar que a ignorância é uma benção…

Mas aí, voltando para o crochê: mesmo que eu esteja fazendo quadrados que em princípio deveriam ter o mesmo tamanho (mesmo desenho e número de pontos) descobri que certos quadros ficaram menos quadrados e que o tamanho varia em até meio centímetro. Vamos ver como resolver lá na frente, quando eu tiver peças suficientes para a minha colcha.