Diário Caipira-126

Uma das coisas mais suecas que eu conheço e que já ando ficando enjoada é Bamse. Ele foi o primeiro gibi que os meninos tiveram contato e é simplesmente sucesso. Ao menos uma vez por dia tem que rolar um Bamse, e se a gente sai de carro para longas viagens escuta os episódios disponíveis no Spotify.

Bamse foi criado no fim da década de 60 por Rune Andreasson, sendo lancado primeiro como filme em preto e branco assim como série dentro de outro gibi. A história gira em torno de um urso marrom que fica super forte sempre que come o mel especial preparado pela sua avó. Todas as aventuras do urso trazem alguma mensagem educativa. Eu particularmente gosto muito da edição “O livro do amigo” do Bamse onde os personagens falam sobre bullying e sobre como ser um bom amigo.

Bamse tem como melhores amigos um coelho branco – Lille Skutt – que vive assustado e uma tartaruga – Skalman – que é inventor e sempre dorme nos momentos mais improváveis. Apesar de ser o Bamse quem tem força nem sempre é ele quem resolve os problemas. O urso, por ser o mais forte de todos, não bate em ninguém e sempre tenta ficar amigo com os antagonistas. O personagem Vargen – que como o próprio nome já diz é um lobo preto – se torna amigo do Bamse e deixa a vida de crimes (roubar doces) para trás.

O Bamse tem uma família de quatro crianças, sendo a menor delas uma ursa com deficiência. Não fica claro qual o tipo de deficiência dela, às vezes o desenho dela sugere que ela possa ser uma ursinha com síndrome de Down, outras vezes parece que ela pode ser uma ursa dentro do espectro autista. É Skalman quem percebe que Brumma é diferente e que ela precisa de outro tipo de apoio do que as outras crianças que aparecem na história.

Bamse faz parte da vida dos suecos há tanto tempo que meu sogro lia Bamse quando criança, depois meu marido e agora meus filhos também. Há quem critique a história e diga que ela é propaganda comunista (porque sempre se repete que todo mundo é igual, tem os mesmo direitos e o Bamse não se aproveita de ninguém apesar de ser mais forte…); mas eu não entendo muito bem porquê.

Do mesmo jeito que não entendo como é que os pequenos não podem passar um dia sem!

Diário Caipira-125

Hoje foi daqueles dias em que o tempo se arrastou e eu me arrastei junto.

Primeiro, que eu fiz o teste do PCR pra poder ir para o trabalho em casa, mas ninguém me avisou que horas o cara viria com o teste. Então fiquei tipo não sei se começo isso ou aquilo.

Fui fazer crochê pra passar o tempo enquanto esperava que me ligassem e descobri que um lado do trabalho estava todo torto… deixei de lado porque não queria desmanchar.

Estava lendo um desses romances água com açúcar e a história estava boa mas o final foi uma merda… se o livro fosse físico eu jogaria no lixo.

Finalmente me ligaram dizendo que o teste estava a caminho. Fiz o teste eram praticamente onze da manhã e aquela sensação de que todas as coisas estavam erradas me acompanhou o dia inteiro.

Diário Caipira-124

Autoflagelação do século XXI:

“Use a ponta macio do palito de teste e introduza na garganta, tão fundo que o seu reflexo de vômito dispare. Esfregue o palito de teste nessa região da garganta por pelo menos cinco segundos. Em seguida, introduza o palito no nariz (com cuidado para não empurrar muito fundo) o suficiente para disparar seu reflexo de espirro. Esfregue o palito da parte interna do nariz por no mínimo 10 e no máximo 20 segundos. Cuspa saliva no tubo, mergulhe o palito de teste na saliva e feche o tubo, tendo o cuidado de mante-lo em pé.”

Parece um capítulo de um livro de terror né? É a orientação de como fazer o PCR em casa.

Diário Caipira-123

Se eu leio as notícias a respeito do corona no Brasil fico pensando o que será que pensam as pessoas que estão cumprindo isolamento há seis meses…?Eu vejo no meu feed das redes sociais todo mundo pedindo e insistindo para que todos aqueles que podem fiquem em casa… mas pelas notícias vejo vídeos e fotos onde parece que a pandemia acabou. Ao mesmo tempo, outras notícias dizem exatamente o contrário. Parece extremamente contraditório.

Enquanto isso, na Suécia, chegamos ao total de quase 85mil casos confirmados e também quase 5900 mortes. A faixa etária mais atingida (segundo a testagem) é de pessoas entre 50-59 anos. Homens morrem mais do que mulheres e quase que a totalidade daqueles que vieram a óbito por causa do Covid tinham mais de 70 anos (5.194 das 5.835 mortes). Desde o dia 18 de agosto as mortes provocadas por corona tem ficado abaixo de 5 por dia.

Apesar disso, a recomendação é manter distância, evitar aglomerações e ficar em casa caso haja qualquer suspeita de doença. Sabemos que temos o inverno pela frente e que Espanha e Itália já vem sentindo uma segunda onda e estão aplicando novas medidas de contenção. A gente também sabe que há bastante gente que já esqueceu a pandemia e que não segue as recomendações. Os cinemas reabriram a semana passada (ou retrasada?). A vida segue certa normalidade (o que é normal?) mas tudo está diferente.

Parece que vivemos em dimensões diferentes do mesmo mundo simultaneamente.

*Fonte das estatísticas: Folkhälsomyndigheten

Diário Caipira-122

Já que todo mundo está meio pestiado, passamos o dia em casa fazendo nada. Ou melhor, muita coisa. Entre elas, tive que disputar com a gata as peças do meu quebra cabeça.

Ela apenas se deita no meio. Daquilo que eu estiver montando… não importa qual parte do desenho seja, ela vai para o ponto exato que eu decidir montar. Eu tirei ela de cima do que já havia montado, bagunçando tudo. Tive que montar novamente. Coloquei um tampo em cima, ela achou graça e passou a “desenterrar” as peças e morder. Por fim, tive que esconder o quebra cabeça.

Ao menos agora as crianças passaram a achar o quebra cabeça interessante. Por causa da gata.

Diário Caipira-121

Ser mãe é padecer.

Só. Acho que se deve muito ao fato de ainda estar numa cultura bastante machista no que se refere a maternidade, mesmo na Suécia. Porque há muitas cobranças que estão sobre os meus ombros porque eu fui ensinada que o papel da mãe é “esse”, se doar integralmente. Claro que a personalidade também conta. E o meu complexo de perfeição materna aliada a culpa não me deixa dormir. Assim como o nariz trancado das crianças.

Eu queria ser uma mosca pra ver o que as outras pessoas fazem em noites em que as crianças choram a cada dez minutos, seja por causa do nariz tapado ou por causa de pesadelos. Como é que a gente levanta pela quinta vez e ainda tem alguma paciência? Como é que a gente faz pra internalizar o “não é nada, apenas um resfriado” e voltar a dormir depois?

Se eu não me cobrasse a ser uma mãe perfeita ao mesmo tempo que eu fico angustiada por pensar que provavelmente esteja fazendo algo errado e por isso as crias tem pesadelo e ficam resfriadas… isso não é normal. A cobrança, eu quero dizer, e a culpa. As crianças são normais.

E eu tô puta de cansada.

Diário Caipira-120

Setembro é o mês de combate ao suicídio. Ainda me choca saber que muitas pessoas acreditam que na Suécia há uma alta taxa de suicídio porque a maioria dos suecos é ateu (60% ainda fazem parte da Igreja Sueca e, estatisticamente, a população sueca é mais agnóstica do que ateia). Eu li isso no SCB, mas já não sei se os dados são atuais.

O que é muito atual quando o assunto é suicídio é tabu. São muitos, aliás: falar sobre suicídio vai acabar incentivando as pessoas a tirarem a própria vida; gente que diz que quer morrer só quer chamar atenção; gente que não dá valor a própria vida tem falta de Deus; gente que está por baixo só precisa se esforçar; gente que tira a própria vida é ingrata e egoísta…

Queria falar sobre um em especial: falar sobre suicídio. Se alguém te confessar que a vida anda pesada (e está, essa pandemia está quebrando as pernas geral) e que já pensou em suicídio, não diga a pessoa pra tentar ver o lado bom das coisas. Sabe, quando a gente chega lá naquele ponto em que começa a pensar na morte como algo a desejar (e não a evitar), significa que algo não está funcionando. E não é que ficamos bobos. É que alguma coisa cria uma deficiencia no cérebro que nos impede de curtir, sentir satisfação, ver o lado luminoso das coisas. Esse papo tipo “ah, mas pensa nos seus filhos, cachorro, periquito, papagaio,.casa, carro, viagem, blá blá blá etc etc” talvez funcione uma vez. Depois vai servir apenas pra alimentar a fogueira da angústia onde a gente vai se cobrar por não conseguir ficar feliz. Afinal, é só querer…

Se alguém lhe disse que pensa em se matar pergunte a pessoa se ela já fez um plano de como seria. Se a pessoa lhe diz que não pode haver tempo para tentar entrar em ação aos poucos. Se a pessoa lhe contar com detalhes como faria para se matar não perca tempo.

Fale com o posto de saúde ou até mesmo chame a emergência.

Diário Caipira-119

A melhor coisa que a pandemia me fez foi retomar o crochê. Estou animada. E comprando linhas e mais linhas. Não posso ir numa loja de segunda mão que lá estou eu pegando mais novelos de algodão e outros tamanhos de agulha.

Hoje comecei a fazer um poncho!

Essa magnólia é o meu desenho favorito.

Diário Caipira-118

O ano letivo começou há quase duas semanas mas meu piá começou na escola hoje. Tudo porque estava ligeiramente resfriado. Criança com coriza deve ficar em casa e eu estou agradecida de ele não estar começando a alfabetização.

Temos o direito de ficar uns minutos com a criança, já que é um ambiente novo para eles. Chegando na escola ele comenta:

– Mãe, as outras crianças estão sozinhas.

– Pois é, elas já estão vindo há dias e estão acostumadas (me dá uma agonia! Já tá na hora de ele sentir vergonha da mãe?)

Na porta da sala pergunto: “quer que eu fique um pouquinho?” e para meu alívio recebo um sim como resposta. Mas eu tô sobrando ali. A professora percebe que ele está super a vontade e sugere que ele diga tchau pra mamãe… 15 minutos depois.

Dá uma mistura de sentimentos. É tão bom ver ele seguro de si. Dá um medo danado de ver ele tão grande. O próximo passo vai ser roubar o carro para dirigir escondido?

Diário Caipira-117

Domingo sempre dá uma ansiedade. Tudo por causa das segunda-feiras…

Eu gosto do meu trabalho mas a pandemia só fez deixar ainda mais claro que eu preciso mais do que isso. Gostar do meu trampo é quase pouco pra me fazer sair de casa ultimamente. Não sei vou conseguir trocar de trabalho, mas eu tenho que procurar por algo que faça mais sentido do que a posição que eu ocupo atualmente.

Faz tempo que eu sinto que eu queria provar algo diferente. Mas eu ainda não consegui descobrir o que esse diferente seria. Não quero trocar seis por meia dúzia mas acredito que seja a hora de começar a procurar outra coisa.

Vamos ver aonde vou acabar.

Diário Caipira-116

E de repente… resolvi entrar no time das minhas irmãs e arrumei um quebra cabeça pra montar. Os meninos estavam super animados até eu abrir a caixa. Aí eles só olharam para o tamanho das peças e buscaram os próprios quebra-cabeças.

Hoje tivemos chuva, sol, vento frio e calorzinho no final da tarde. Dá aquela preguiça de sair… agora vou ter horas de atividade dentro de casa (como se eu não tivesse outra coisa o que fazer). Vamos ver se eu consigo montar o quebra cabeça durante o inverno… porque, apesar dos meninos não se interessarem a gata se interessou bastante e estava tentando roubar as peças.

Ättestupan

O palavrão aí em cima define o local onde, segundo alguns mitos, havia um precipício do qual os idosos se jogavam ou eram jogados para encontrar a morte (lembram da família dinossauro?). De acordo com esse mesmos mitos, a tradição tomava lugar quando o idoso já não podia se sustentar sozinho ou não podia contribuir para o sustento da comunidade à qual pertencia.

Quando visitamos o morro do Chapéu em Halmstad no verão havia a informação que, segundo a cultura popular local, Viserhatt fora um desses “precipícios do suicídio/assassinato” de idosos. Entretanto, de acordo com historiadores suecos não foram encontradas provas de que essa tradição realmente existiu na Suécia, ainda mais porque essa suposta tradição teria existido até por volta do século V.

Ainda assim, a expressão “ättestupan” é utilizada como metáfora para criticar quando alguma política de proteção à terceira idade não funciona. Um exemplo atual foi quando a estratégia sueca de combate ao Covid fracassou em relação à proteção dos idosos que vivem em asilos. Já se sabia que o vírus era mais perigoso para os idosos, e a forma como o vírus se propagou nos asilos suecos foi criticada duramente.

Parece que a prática existia e existe, ainda que ninguém seja jogado de um princípio… ao menos não literalmente.