Memórias de um Caracol

Assim que no ano passado, depois de extrema insistência por parte do marido e uma campanha que durou mais de ano compramos um velho trailer.

Eu ainda não estava convencida de que seria uma boa idéia, mas entre dormir em uma barraca no mato no verão sueco (leia-se 15 graus C e chuva) e um trailer, cedi. Afinal, pode-se ter um banheiro no trailer mas não se pode fazer as necessidades fisiológicas dentro de uma barraca. Assim que a ideia de ao menos cagar dentro e não precisar ter as partes ao vento quando fazem 15graus e chove me convenceu a escolher a casa que podemos levar nas costas.

Para as crianças é uma aventura. É como brincar de casinha o tempo todo. É também incrível o tanto de tralha que é possível tranpostar em um desses, assim que vamos preparados para 10graus e chuva e também 25 e sol sem maiores problemas.

Guardamos nosso caracol na casa de amigos que tem um grande galpão. Como ele é velho tem goteiras e não pode ficar fora no frio. Agora quando as temperaturas sobem na primavera não há problemas e ele veio para casa.

É uma sensação maravilhosa ter nosso caracol no quintal. Agora pode-se dizer que foi dada – oficialmente – a largada da temporada do verão sueco.

É bom lembrar que o verão sueco pode chegar em qualquer dia. E ir embora no mesmo dia também. Então é bom estar preparado…

Diário Caipira-33

Hoje tive coriza e tive que voltar pra casa no meio do expediente. Aproveitei pra ouvir a coletiva de imprensa da Folkhälsomyndigheten que foi transmitida ontem.

Eu acho interessante que durante a conferência sempre há repórteres de outros países do mundo questionando a postura da Agência de Saúde Pública Sueca de uma forma provocativa: “a estratégia sueca é muito mais branda que do no país X. Senhor Tegnell, você considera a estratégia do país X pior do que a estratégia sueca? Você acredita que as estratégias dos demais países são bobas?” Aí ele responde: “Eu acredito que não há uma fórmula certa e que cada país está fazendo o seu melhor”.

(Será que ele também pensa no Brasil quando diz isso?)

Uma das coisas que se trata na coletiva é uma pesquisa que se aplica aos cidadãos suecos, com questões simples sobre “como o Covid mudou a sua vida?”. Eu queria ter encontrado os dados dela mas por mais que eu pesquisasse não achei. O que me chama atenção é que as pessoas respondem que elas prestam mais atenção na higiene das mãos.

Não é incrível?

Diário Caipira-32

Tem uma coisa maravilhosa com crianças de cinco anos que é o fato de que elas acreditam piamente que são o supra sumo, o gás da Coca e a última bolacha do pacote; tudo de uma vez. E com intensidade.

No começo eu me preocupava, achava que isso era um pouco demais. Aí descobri que era algo bem normal da idade e considerado um sinal de a que a criança tinha uma boa segurança sobre si mesma. Fiquei feliz… afinal, o que é que pode ser melhor do que sinais de que nossos filhos estão bem?

Hoje percebi que essa fase começou a acabar… foi bem duro. Estávamos preenchendo um questionário para a escola com “coisas que você acha que faz muito bem”. A lista estava indo bem, eu sugeri completar com cantar.

– Não mamãe, eu não canto bem.

– Dançar…?

– Eu não sei dançar.

– Quem disse?

– “Eles”. Na escola.

Tenho que confessar que eu chorei.

Diário Caipira-31

Caraca! E eu que escrevi trintas posts seguidos? O que é que um vírus não faz na vida da gente…

Duas coisas estão bem claras: vamos ter de aprender a lidar com o isolamento e com o fato de que não podemos encontrar as pessoas com a mesma espontaneidade de sempre. Não que “Suécia” e “espontaneidade” seja algo passível de ser conjugado mas agora a coisa está um degrau mais séria: “se a gente pode se ver? Claro. Eu vou olhar a minha agenda e a previsão do tempo…pera aí… dia 23 de maio parece que vai ter sol e eu tô livre entre 14.30 e 16h, pode ser pra você? A gente dá uma volta no bosque e senta tomar um café ao ar livre.”

Número dois: estamos descobrindo lugares lindos nos bosques dos arredores…

Casinha a beira de uma trilha qualquer… não é um charme?

Diário Caipira – 30

Meu livro favorito em sueco é “Vem ska trösta Knyttet” de Tuve Jansson. É poesia para todas as idades mas como ela usa os personagens que existem no mundo do Mummin então é maravilhoso ler para as crianças.

Knyttet é um pequenos troll que foge do mundo em que vive pois era um mundo muito tristonho, chuvoso e apavorante. Ele acaba por mudar para uma concha a beira do mar, onde as ondas e o vento são suaves e o sol aquece. Mas aí acontece algo que o obriga a enfrentar o seu maior medo: Mårran, o monstro que tudo congela.

Quem tiver a oportunidade, descubra quem vai confortar Knyttet. É maravilhoso.

Fonte: Adlibris.se

Diário Caipira – 29

Trump estava usando a Suecia de novo pra falar de Covid19. Dessa vez pra dizer que parece que a Suécia é que está usando a melhor tática pra dar conta da pandemia.

Acho que isso é uma coisa que só saberemos depois que tudo passar. O que me incomoda é que Trump comece a elogiar a estratégia sueca. Trump… bom, é Trump. Ele é um empresário e só se preocupa com a economia.

Fui dar uma olhada na estatística. O número de casos continua a subir e isso é esperado – afinal, não há ainda vacina pra conter a disseminação do vírus. O número de pessoas que precisam de UTI estabilizou e até caiu ligeiramente durante a semana 17 (20 a 26 de abril). O número de pessoas morrendo em decorrência de corona é menor agora do que na metade do mês. No entanto o próprio representante da organização sueca de saúde afirmou que a estatística de mortes costumam estar uma semana atrasada.

Ainda assim eu acredito que a situação esteja ficando melhor na Suécia. O governo está testando mais pessoas, assim que o número de casos confirmados cresceu bastante na semana 17 e 18. São mais de 21000 casos confirmados mas eu não encontrei o número total de pessoas testadas.

Não estamos de quarentena. Nunca tivemos isolamento horizontal. Não sei se teremos. Só tenho certeza que a vida não continua igual.

Diário Caipira -28

Eu sou lerda… demoro a reagir, demoro a entender certas coisas e quando entendo, fico magoada. Já cansei de tentar entender quando as pessoas estão sendo rudes, sarcásticas, cruéis. Não somente comigo, mas com os outros.

Normalmente fico bem chateada por ter presenciado alguma injustiça sem ter feito nada. Aconteceu hoje. Eu ainda estou triste, primeiro porque há certos tipos de violência que machucam mais do que um pontapé. Segundo, porque eu olho mas não vejo, eu ouço mas não escuto.