Dona Maria

Uma das coisas que mais quebrou as minhas pernas com a mudança de país foi a questão da minha identidade profissional. Eu não sou o tipo Dona Maria que é zelosa com a casa – afinal de contas, Amélia que era mulher de verdade – e o fato de ver meu diploma não valer de nada me angustiava.

Até eu arrumar um emprego…

É aquela velha história: você se mata estudando pra passar no vestibular, mas a universidade não é mole não; você se desdobra escrevendo e reescrevendo currículo e carta de apresentação, mas se dar bem no trampo é que são elas. Ano passado, trabalhei apenas um mês e meio antes de sair em licença maternidade e agora que estou há três meses de volta a ativa é que entendo o quanto foi suave aquele período (vassoura nova varre que é uma beleza). Eu estava mais tranquila, havia outras preocupações dentro e fora do campo profissional. Agora há muito mais pressão de todos os lados.

Isso está relacionado ao fato de ser mãe, em primeiro lugar, e ao fato de ser a mais jovem do meu grupo de trabalho, em segundo. Eu mencionei no post passado que apesar da Suécia ser um país liberal me espanta alguns comportamentos conservadores em relação a amamentação, da mesma forma que me espantou que algumas pessoas ficaram surpresas quando eu disse que voltaria ao trabalho antes do Benjamin completar um ano. Eu posso estar enganada, mas senti reprovação também. A pergunta que mais ouvi foi “por quê? Ele ainda não fez um ano, e a licença é longa”. É verdade, a licença é longa, mas eu quero dividir ela de modo igual com o Joel. Porquê eu sou mãe, é super importante minha presença ao lado do meu filho e etc (principalmente até o primeiro ano) mas ele tem um pai que também anseia por um vínculo forte com seu filho. É muito difícil, como mãe e tendo a carga cultural que eu tenho, dar abertura para que o meu parceiro seja pai. Primeiro, porque eu sou o tipo de pessoa chata que acredita que as coisas são muito melhores quando são feitas do “meu jeito”. Segundo, a gente cresce ouvindo que mãe é que sabe o que é bom para o filho. Mas pai também sabe. Eu sabia ser mãe o mesmo tanto que o Joel sabia ser pai quando Benjamin nasceu. Por conta da amamentação, meu vínculo com o Benjamin se estabeleceu mais rápido, mas tudo que eu aprendi aprendi com o Benjamin. Se o Joel não tivesse oportunidade de ficar sozinho com o bebê também não aprenderia.

Então eu quero deixar uma crítica para nós mulheres: temos que ter mais coragem de largar nossos filhos na mão de nossos companheiros. Você casou, ajuntou com essa pessoa porque ela é especial (se você está em um relacionamento saudável), então deixe seu bebê provar disso também. Instinto paterno existe, e o seu filho não vai gostar menos de você porque você é corajosa o suficiente para compartilhar responsabilidades.

Como eu falei, não é fácil… mesmo que racionalmente eu tenha tomado essa decisão, na prática a história é outra. Muitas vezes quando estou no trabalho penso que deveria ter esperado mais para voltar. Que seria mais fácil se eu não tivesse peitos cheios de leite que me fazem perguntar o que é que o meu pequeno está comendo, se ele está dormindo bem (mesmo porquê eu passo 24h seguidas longe de casa). Quando temos alguma reunião em que assuntos delicados estão sendo discutidos pela milésima vez desde que eu voltei, ou quando um dos adolescentes do abrigo começar a ser muito adolescente (e eu com eles né?); eu sempre me pergunto: o que é que eu tô fazendo aqui?

O fato de ser a mais nova do grupo me faz sentir meio burra às vezes porque nosso trabalho compreende tanto questões práticas como burocráticas. Há coisas que a galera já está cansada de fazer e eu não tenho a menor idéia de como funcionam; eu não tenho conhecimento da rede de apoio e frequentemente me pego boiando. É um desafio, e eu me sinto bem com isso, mas sempre rola aquela pressão também. Principalmente no quesito linguístico… meus colegas costumam elogiar meu sueco, mas na hora do pega pra capar ainda sou muito lenta tanto para escrever quanto para argumentar. Normalmente, entro muda e saio calada de reuniões porque não desenvolvi o sueco suficiente para entrar no timing de uma discussão acolorada e conseguir expressar meu ponto de vista. Vai melhorar com o tempo, mas nessas horas minha auto estima fica super abalada e eu me pergunto se eu quero mesmo isso.

Mas eu sei que eu quero. Estou acumulando experiência e apesar da pressão constante (eu sinto que “posso” trabalhar fora mas tenho que mostrar que ainda serei uma boa mãe – bem anos 80, mas é isso mesmo) eu começo a dominar e compreendercada vez melhor o sistema social sueco.

Dona Maria sim. Mas não daquele jeito.

Um ano como mãe

Semana que vem vamos comemorar um ano: um ano do Benjamin, um ano como família, um ano desde que o Joel se tornou pai e eu mãe.

Eu fico tentando me lembrar das minhas expectativas naqueles últimos dias antes do parto, mas eu estava realmente focada no parto em si. A bem da verdade eu não me preparei para o primeiro ano do bebê, eu não me preparei para o puerpério e este último me quebrou as pernas. Eu não sei se adianta muita coisa “se preparar” ou, melhor, que tipo de planejamento eu deveria ter feito, programas, rotinas etc; e até que ponto isso ajuda ou atrapalha. Eu li muito, mas não fiz muita coisa.

Eu fico imaginando quais as diferenças entre ter filhos aqui e no Brasil. Pelo que tenho lido, parece que ter filhos aqui (agora estou falando no sentido literal do ter filho – parir mesmo) é melhor do que no Brasil por causa da  violência obstétrica. Apesar da confusão nos hospitais e da falta de recursos humanos, a Suécia parte do princípio de que toda a mulher tem direito à um parto humanizado. Há inúmeras falhas no sistema, mas nem de longe se assemelha ao caos das maternidades brasileiras.

Há boas redes de apoio para mães de primeira viagem também. Normalmente, o pessoal encontra ao menos alguém com quem dividir os perrengues da maternidade nos cursos de pais – mas eu e o Joel nunca fizemos. Felizmente, dois dos casais com quem normalmente saíamos tiveram bebês pouco antes de nós, então acabou que eu tenho mães um pouco mais experientes com quem conversar, as quais eu já tinha um pouco de contato antes. A questão da idade da criança aqui é importante não porque o Benjamin vai ter um amiguinho – a essa altura do campeonato é difícil saber se o santo dessas crianças vai bater – mas porque nós como mães podemos conversar sobre mais ou menos as mesmas coisas.

Mais ou menos né, porque já me disseram que eu escolhi maternar no modo hard: fralda de pano, amamentação em livre demanda, criação com apego, sling, cama compartilhada e… a coisa mais terrível de todas: não dei chupeta para o Benjamin. Particularmente, chupeta é um acessório que serve para calar a boca da criança e estragar os dentes. Felizmente, quando Benjamin era recém nascido dormia tanto que eu nunca tive vontade (ou necessidade) de dar chupeta. Então, antes que alguém me acuse de intitular como “menos mãe” quem dá chupeta eu só digo que não estou afirmando isso. Conheço mães muito melhores do que eu que dão chupeta para os filhos. Eu tentei dar chupeta para o Benjamin quando saímos de carro e ele gritava sem parar, às vezes funcionava, às vezes não. Bati o pé veementemente que não queria comprar mas tive que aceitar e tentar, não dá pra deixar a criança se esguelando por causa de um princípio. Em todo o caso, antes que eu me perca em explicações sem sentido, nenhuma das mães com quem costumo sair com mais frequência fazem isso. Recentemente conheci um casal vindo da Inglaterra, e ela e mais uma guria com quem dividia o coletivo nos meus primeiros meses de Suécia fazem parte do time das mães modo “hard on” com quem tenho contato.

A maioria dessas coisas escolhi baseada em leituras aqui e ali, coisas com que simpatizei pela Internet a fora. O sling foi um achado maravilhoso!! Mas para variar, dá trabalho. E, pobre Benjamin que é submetido a uma série de tentativas para amarrar a criança nas costas, do lado e na frente do jeito certo. Nos últimos três meses tenho praticado carregar ele nas costas e estou quase ficando craque. Deveria ter começado mais cedo, quando ele tinha cerca de 6 meses… mas aí eu não tinha o sling certo. Agora eu tenho dois slings de algodão, mas nunca saí para a rua com o Benjamin neles… seria o ideal uma vez que eu acho carrinho de bebê um trombolho e aqui os ônibus só tem dois lugares para carrinho. É, o transporte coletivo sueco é muito melhor do que o brasileiro em termos de acessibilidade, mas aqui todas as mães e pais tem carrinho de bebê, todas as mães e pais saem pra passear usando transporte coletivo com seus carrinhos e por causa disso, dois lugares no ônibus significa que você vai ficar no ponto esperando uns 15 minutos pelo próximo ônibus, porque o motorista não deixa que um número maior de carrinhos do que o permitido seja embarcado. Então, na maioria dos casos, saio com Benjamin no canguru (ergobaby), que têm o mesmo princípio do sling, só que é mais prático.

Ainda amamento, não tenho pretensão de parar tão cedo e por causa disso já recebi olhares de sensura. Me espanta que a Suécia, mesmo sendo um país muito liberal, tenha tanta gente que se incomoda de ver mulher amamentando. E o Benjamin, por ser um bebê cabeludo e cheio de dentes, parece mais velho do que é. Das gurias suecas que conheço, a maioria parou de amamentar quando o bebê tinha cerca de oito meses. Eu não digo que elas estão erradas de fazer isso uma vez que não conheço os motivos que levaram cada uma a tomar essa decisão, mas ontem estava lendoum artigo que dizia que apenas 14% das mães suecas amamentam o bebê exclusivamente com leite materno até os seis meses.

Nesse quesito, acho que a falha está no BVC (a hora que eu puder fazer um texto com mais dados e estatísticas, escrevo explicando o que é o BVC e como funciona, por enquanto digo apenas que é o centro de saúde da criança) pois quando Benjamin tinha quatro meses a enfermeira pediatra já começou a falar de introdução alimentar e de fazer papinhas. Além disso, ela me orientou a dar mamadeira para que o Benjamin dormisse melhor a noite. Disse que ele acordava provavelmente de fome e me orientou a dar välling (um tipo de mucilon, um pouco menos ruim, sueco). De novo, se a mãe quer dar mamadeira, que dê. Mas esse não era meu caso, então fiquei a ver navios pois fora a dica maravilhosa da mamadeira ela não tinha nada a me dizer. Eu não sou muito fã do BVC. E nem de dentistas suecas. Porque elas também sugerem que a mãe deixe de amamentar quando o bebê completa um ano. Mas essa é história para outra hora…

Já escrevi tanto e não escreci nem a metade do que gostaria. Mas vou tentar fazer um balanço simples: a Suécia é um ótimo lugar para parir. Se eu pudesse fazer tudo de novo, teria Benjamin aqui, mudaria parao Brasil (o Brasil que eu conheço) e ficaria lá os primeiros seis meses, depois voltaria para cá. Por quê? Porque senti falta de ter uma mão amiga nos primeiros meses de vida do Benjamin, principalmente no puerpério. Demorou muito tempo para mim me encontrar comigo mesma no meu papel de mãe e quando o Joel voltou para o trabalho eu me vi sozinha em casa com um bebê sem saber muito bem o que fazer. Eu não tive depressão pós parto mas estive perto, muito perto. Tenho certeza que teria sido diferente se tivesse minha família e minhas amigas comigo. Simplesmente porque lá não é tão complicado sair para dar um alô para o vizinho. Só depois de cerca de seis meses como mãe é que eu comecei a me sentir segura. Talvez esse processo tenha sido necessário, mas provavelmente teria sido mais curto.

De uma coisa tenho certeza: aqui é um lugar maravilhoso para ter família, crianças. Não tinha muita ideia do que seria meu primeiro ano como mãe, mas tenho algumas do que será daqui para frente.

E se fosse você?

Não é de hoje que ouço gente afirmar que a Europa está indo para o buraco por causa da imigração em massa de muçulmanos, africanos e “ciganos” – gente que não tem olhos azuis, é preguiçosa, quer viver a custa dos benefícios do governo e não contribui em nada para preservar o modo de vida “mais do que lindo” do velho mundo. Na Suécia, já ouvi muitos brasileiros e brasileiras afirmarem inclusive que odeiam ter que pagar impostos por para  “sustentar” essa gente.

Gente que buscou e ou busca a vida na Suécia pelos mesmos motivos que tanta gente (das quais recebo emails diariamente): qualidade de vida. É engraçado que, pela lógica do senso comum, esses estrangeiros vem mamar as tetas do governo e vão destruir o impecável sistema social sueco. Talvez eu esteja sendo ousada demais, mas qual é a diferença entre uma brasileira que muda para a Suécia e casa com um sueco e esses refugiados?

Legalmente, os refugiados recebem do sistema social sueco todo o tipo de apoio que uma pessoa em condições de miserabilidade de nacionalidade sueca receberia, com a diferença de que enquanto tem um status de refugiado sem visto permanente recebem menos bolsas do governo. Muitas brasileiras me dizem que a licença maternidade sueca é um sonho (e eu acho isso maravilhoso, que as brasileiras anseiem por esse modelo) e  que gostariam de usufruir desse direito. A maioria de nós, quando mudamos, viemos formar família e botar filho no mundo para usufruir desse sistema sueco  bom. Mas eu escuto com tristeza vindo da boca de muitas compatriotas que “essas somalianas mudam para cá só para ter filho e viver do social”.

Já repeti inúmeras vezes aqui o quanto é difícil conseguir emprego aqui. Conheço gente experta, com inglês, educação, anos de experiência, que mora aqui há tempos e não conseguiu emprego. Gente bem resolvida, que corre atrás mas ainda está trabalhando de tapa buracos. Se você não tem o domínio da língua tem que aprender, mas se você não sabe nem ler e escrever, acho que o caminho é um pouco mais longo.

Mas ninguém pensa nisso. Ninguém pensa que essas mulheres vieram muitas vezes de países onde o papel da mulher é ser mãe. Onde garotas não precisam e não devem estudar. Onde quem desafia essa lógica é punida com tiro na cabeça ou o estupro. Enquanto nós mudamos para a Suécia em busca do conforto ao lado de um companheiro sueco, aquelas mulheres fogem de realidades de intensa opressão. Apesar disso, assim que elas se sentem seguras em um lugar em que qualquer mulher do mundo gostaria de ter filhos, esse direito lhes é negado porque elas estão sobrecarrergando o sistema.

Eu também vim para cá sobrecarregar o sistema. Eu também recebo bolsa do governo para criar meu filho e provavelmente vou parir mais. Eu também pago imposto mas diferente de outras mães, não me importo que ele seja usado para apoiar o sonho de pessoas que até ontem não tinham nada. Se as somalianas, afegãs, iraquianas, “ciganas”, curdas, sírias ou qualquer mãe refugiada que vem parar aqui aproveita para ter crianças eu acho que está mais do que certo. E eu vou apóia las a continuar a ter o direito de ter quantos filhos quiserem.

Simplesmente porque eu não sei porquê eu nasci no Brasil, naquela família de mãe costureira e pai pedreiro. Não sei como é que se dá essa distribuição da cegonha. E se por um acaso eu tivesse nascido na Somália? Ou Afeganistão? Esse blog não seria sobre como se apaixonei por um homem lindo, vivi uma história de amor de cinema e casei num dia fantástico de verão. Esse blog (se eu pudesse escrever) seria sobre como eu tive que fugir da minha cidade porque meu marido sumiu e meus filhos estavam em perigo. Provavelmente minha história teria passagens assim:

“Minha casa foi destruída por uma bomba. Eu consegui fugir com minha família  e me esconder dos soldados que estavam matando aqueles que sobreviveram do ataque aéreo.”

“Eu tive que caminhar vários dias e noites sobre as montanhas, para cruzar as fronteiras longe dos postos de guardas. Não havia comida, apenas pão e água. Eu quase não tinha força para continuar”

“Nós fugimos pelo deserto do Saara. Foram duas semanas sentados na caçamba de uma pick up. Os atravessadores nos disseram para segurar firme, se alguém caísse da caçamba eles não parariam e não voltariam. Éramos muitos! A pick up atolava na areia o tempo inteiro, tínhamos que descer para empurrar. Depois tínhamos que voltar a subir muito rápido, pois eles apenas continuavam a dirigir”.

“Eu estava num barco para a Itália. Havia muita gente no barco. Era noite e ninguém sabia se realmente estávamos indo para o lugar certo. Quando nós avistamos a costa ficamos tão felizes! Mas aí algo errado aconteceu, e o barco começou a afundar. Eu nadei, nadei e nadei muito… vi pessoas morrendo do meu lado. Mães que gritavam pelos filhos que sumiam. Eu usei tudo o que pude para chegar a praia. Então desmaiei. Passei vários dias sem saber quem eu era e o que havia acontecido.”

“Eles (os atravessadores) me deixaram numa floresta com um pouco de pão. Me mandaram esperar uma semana que alguém viria me buscar. Eu tinha tanto medo! Não sabia se ficava ou se partia… se realmente podia acreditar que eles iriam voltar.”

Poderia ser eu. Mas eu nasci no país do carnaval e do futebol que muitos odeiam. Sim, o Brasil também é um lugar violento e eu felizmente não provei desse fel. Ainda assim, isso não me dá o direito de esbravejar minha falta de empatia pelo próximo que está ameaçando minha zona de conforto.

Já ouvi dizer que o preconceito tem crescido muito contra os haitianos que invandiram o Brasil. É uma pena. Pena porquê eles enxergam a beleza e a oportunidade em um país onde “os filhos que não fogem a luta” decidiram gastar seu tempo na internet para xingar o governo e reclamar por ter nascido no país do carnaval. É uma pena que a entrada de estrangeiros pobres no Brasil tenha derrubado a velha lenda do quanto acolhedor o Brasil é.

Enquanto todo mundo reclama da praga que os estrangeiros representam aqui e lá, eu apenas me pergunto: e se fosse eu?

E se fosse você?

4 anos de Suécia

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E ontem comemorei meus quatro anos de Suécia.
Sei lá se comemorar é a palavra certa. Quando eu mudei para cá achei que em quatro anos estaria voltando para o Brasil. E daí que eu não vou falar sobre a minha vontade de voltar para o Brasil porquê sempre está cheio de gente lendo um post desse blog que acha que me conhece e que sou no mínimo boba por querer sair do “bom” pra voltar para a zona do Brasil. O Brasil está mesmo uma zona e a responsabilidade por isso também é minha. Ao invés de ficar criticando veementemente o governo, eu deveria estar fazendo algo pela mudança. Mas eu não estou no Brasil, aí para muitas pessoas isso já tira o meu direito de achar qualquer coisa. Então eu vou ficar na minha e não vou discutir com estranhos a falta de responsabilidade civil e política dos brasileiros que ficam vomitando merda nas redes sociais  (ou fazendo passeata pelo impeachment)  e acham que estão resolvendo alguma coisa. Fim.
Nunca quis lançar raízes muito profundas por aqui, sempre imaginei minha estadia na Suécia como uma espécie de “passagem”. Agora eu vejo que não há como controlar o tamanho do meu envolvimento com esse país, principalmente por causa das minhas escolhas e do fato de ter tido um filho aqui. Por escolhas eu me refiro ao fato de que  fiz de tudo para me inserir o mais rápido possível e acho que me saí bem nesse intento: tenho um emprego na minha área, estou estabilizada com casa, marido e filho… isso me deixa muito mais ligada a Suécia do que eu poderia imaginar.
Isso me fez perceber que fiquei adulta aqui. Me assusta um pouco. Na verdade, assusta muito. Saí do Brasil sonhadora, muito inexperiente, mas cheia daquele vigor juvenil do
eu posso… o que foi positivo e me ajudou a vencer muita coisa aqui – mas é fato que também tive muita ajuda para isso.
Eu quero falar mais sobre isso, fazer uns comparativos tipo o que eu pensava versus o que penso agora, e deixar algumas dicas para quem está decidindo mudar (para a Suécia ou qualquer parte do mundo)…
Ah, estou suequizando. Isso também é louco, e eu também gostaria de falar mais sobre…
Mas  por enquanto, por hoje é só pessoal.

Dia dos namorados e um alô para quem morre de amores por um viking

Eu ando com muita saudades de escrever. O blog sempre serviu de válvula de escape para mim, principalmente nos meus dias mais difíceis do lado cá. Esses dias recebi um e-mail mal educado, de uma pessoa me perguntando se eu cansei de falar mal da Suécia ou simplesmente caí na real. Fala sério? Há uma porcão de blogs mostrando o quanto a vida na Suécia é boa, eu não acredito que precise frisar essa questão. Não quer dizer que esses blogs são menos importantes, ou que eu queira ser diferente. Quer dizer apenas que eu decidi mostrar o lado B das coisas, uma vez que o lado A está bem explícito.

Eu gosto da vida na Suécia e concordo com a maioria das coisas que as minhas colegas blogueiras expõe sobre esse país tão seguro. Sou feliz vivendo aqui. Em muito devido aos fatos especiais que me trouxeram para cá, e é justamente sobre isso que eu quero falar…

Hoje se comemora o dia dos namorados no hemisfério norte – ou melhor, o dia de todos os coracões na Suécia (já deu para perceber que eu não estou usando cedilhas?). Apesar das parcas atualizacões que venho fazendo por aqui, ainda há muita gente que me escreve por causa da minha história. O que vem mudando é que ultimamente mais e mais gente vem me escrevendo para pedir conselhos amorosos e isso, bem, é muito complicado.

Já me perguntaram se eu achava que dá para confiar em suecos, se dá para levar eles no motel, se transar no primeiro encontro faz com que eles pensem que somos putas, se vale a pena largar marido e filhos por causa de uma paixão avassaladora por um sueco super carinhoso e gentil de olhos azuis, se é normal que o namorado viking tenha fotos de mulheres nuas no computador, se é verdade que eles preferem as latinas e tailandesas porque as suecas são feministas peludas egocêntricas e malvadas…

Quero abrir um parêntese sobre a última questão. Há uma dicotomia muito interessante relacionada a esse fato. Por um lado, um monte de gente dissemina e acredita piamente que suecos não se casam com suecas porque elas são feministas castradoras. Por outro lado, um monte de gente – quando não as mesmas pessoas – afirmam que suecos são ótimos partidos, uma vez que cresceram em um país onde homens e mulheres tem direitos iguais, então eles são mais gentis e nem um pouco machistas. Partindo do pressuposto que mulheres suecas não servem para casar (elas são feministas peludas egocêntricas e malvadas), imagino que a maioria desses príncipes encantados sejam filhos de chocadeira…

Ironias a parte, o meu problema se deve ao fato de que não sou uma boa conselheira amorosa. Uma, porque me dá preguica. Tem gente que romantiza demais a relacao com um estrangeiro. Gente, se você é uma mulher hétero interessada em um cara hétero, saiba que o estrangeiro é só um homem hétero e ponto final. Homens podem ser doces e interessantes, podem ser malas arrogantes, podem ser machistas retrógrados, podem ser sexistas disfarcados, podem ser um ser maravilhoso, único e especial, e isso não porque são suecos ou brasileiros, mas sim porque são humanos.

Mas a cultura influencia, óbvio. E que a cultura sueca é muito diferente da cultura braisleira é um fato. Feliz ou infelizmente, ninguém nasce em linha de producao e, apesar da diferenca cultural, na Suécia os homens também traem, também assistem pornô, também batem em mulher e também abandonam a mocinha na porta da igreja.

Vou contar alguns casos: mais de uma guria me escreveu e-mails gigantes me contando os pormenores de suas histórias tristes com um sueco. Enquanto elas sonhavam em vir para cá (e o cara enrolando), ele estava saindo numa boa com outras garotas. Certa vez em uma festa eu conheci um sueco que veio me dizer que tinha uma namorado no Rio e que estava querendo trazer ela para cá. Me perguntou se tinha sido fácil para mim conseguir o visto. Eu comecei a contar minha história, até que um amigo do Joel veio tirar uma com a cara do sujeito, bem no estilo ” ai ai João, você ainda não tirou a Ana da cabeca? Olha que se a Rosa ficar sabendo…”. Aí que eu fui entender: o cara estava noivo de uma sueca, mas tinha uma namorada no Brasil. Ele vivia dizendo para ela que ia trazer ela para cá e visitava a guria uma vez por ano, mas ela nem sonhava que o cara estava na contagem regressiva para o casamento. A desculpa dele para ela era que por causa da filha dela o processo era mais demorado… Ele veio me fazer perguntas para descobrir se ia ser fácil ela descobrir que ele só estava enrolando… e ele me confessou isso na cara dura, justificando que era muito jovem para assumir uma crianca!

Ano passado, uma outra garota me escreveu dizendo que sofria violência psicológica do parceiro sueco. Estava grávida, não tinha dinheiro para voltar para o Brasil e vivia abandonada pelo cara, que tinha várias amantes e vivia viajndo a Europa com elas e contando para que lugares lindos ele tinha levado as outras gurias. Ainda uma segunda garota grávida me escreveu para contar que estava numa situacao semelhante. Na comunidade de Brasileiros na Suécia (no facebook) uma terceira pediu ajuda pelo amor de Deus pois tinha sido despejada pelo namorado, que simplesmente decidiu que ela não ia mais ficar na casa dele e pau, largou a menina na estacão de Stockholm e disse: se vira… Além de violência psicologica, eu sei que há brasileiras que sofrem de violência física aqui também.

Por fim, há aqueles que desistem “a tempo”. Quando você dá entrada no visto, o sueco tem que confirmar a história e dizer a imigracão que está disposto a te dar casa, comida e roupa lavada. Tem gente que entra em pânico nesse momento e simplesmente diz que não, que não era bem isso, que não pode ser responsável por outra pessoa. Não sei se é melhor ou pior, só sei que deve ser bem duro descobrir que o cidadão no fundo nem sabia ao certo o que queria.

Isso tudo para jogar mais um pouco de lama na reputacao inimputável desse reino tão e tão distante?

Não, é apenas para dar um toque: o que você espera ouvir quando escreve para uma pessoa que não te conhece, que não conhece o homem dos seus sonhos, que não tem a mínima ideia dos pormenores que envolvem a história de vocês? Se você espera ouvir um vem, vem agora que você será feliz para sempre, bateu na porta errada baby. Uma, que mesmo que eu escreva isso para você será uma mentira e duas, acho que você deve pedir conselhos para alguém que te conhece, tipo a sua mãe ou a melhor amiga.

É certo que eu vivo uma história de amor com um sueco. Isso pode ser algo que temos em comum. Mas, apenas para reforcar, cada ser humano é unico e eu não posso orientar um terceiro a tomar as mesmas atitudes que eu. É muita responsabilidade. E tem gente que se irrita! Tipo a guria que me escreveu perguntando se ela devia largar o marido e filhos para ficar com um sueco e eu disse que não iria opinar, me deu uma resposta torta dizendo que eu devia ajudar por ser uma questão cultural. Uma questão cultural? Essa é uma questão pessoal e no mínimo extremamente sensível por dizer respeito a vida de menores. Além de tudo, tem bem cara de cilada: a pessoa me escreve, pergunta o que eu acho; eu digo que eu acho que ela deve apostar; tudo dá errado e depois… foi a caipira do blog que me MANDOU largar do marido!

Enfim, se você é solteira, independente e quer arriscar… coloque as coisas na balanca do seguinte modo: e se ele não fosse sueco? E se ele fosse brasileiro e eu tivesse que me mudar, sei lá, do Amazonas para o Rio Grande do Sul ou vice e versa, sabendo o que eu sei, eu faria isso?

Se você está na duvida, é bom por um freio.

Guia rápido e rasteiro para mudar para a Suécia

Obrigada Globo Repórter, por fazer uma reportagem linda mostrando a Suécia maravilhosa do verão.

Sem ironias, esse é um país muito bom para se viver. Se você quer saber mais sobre, tem todos os posts desse blog para você matar sua curiosidade e ficar com raiva de mim por causa dos meus pontos de vista bobos. Mas como quem quer mudar tem pressa, preparei esse guia, principalmente depois de receber uma série de pedidos do tipo: e aê guria! Blz? Quero morar na Suécia, como é que eu faço? Simples, é só seguir os passos desse…

Guia rápido e rasteiro para mudar para a Suécia:

1. Prepare-se para fazer a mudança depois de um ano, ao menos. Isso mesmo. Não dá para vir para cá de mala e cuia sem visto. Visto você só consegue para estudar, trabalhar ou viver com um parceirx suecx. E o processo de solicitação demora, às vezes, até um ano. E por favor, não me mande perguntas sobre visto, fale com a embaixada sobre isso.

2. Planeje-se. Você pode estudar na Suécia por meio do programa Ciências Sem Fronteiras (se você fala inglês), ou trabalhar em uma multinacional (se você fala inglês), ou arrumar um parceirx suecx (nesse caso, falar é um tanto importante, mas ficar quieto pode ser ainda mais). Dê uma olhada nos site da Embaixada da Suécia em Brasília, eles tem informações incríveis relativas a todos os três processos. E de novo, não me mande perguntas sobre o visto.

O Ciência sem Fronteiras tem vagas para a Suécia ao menos uma vez ao ano, fique de olho. Há sites específicos para buscar por oportunidades de trabalho na Europa. Se você já tem uma boa faculdade dê uma olhada se o seu perfil não se encaixa em uma empresa sueca com filial no Brasil, tipo a Volvo, Skanska, Ericsson, etc. Trabalhar no Brasil já te abre portas para experimentar a vida no exterior, quem sabe, não apenas na Suécia. Se nenhuma das opções acima te parece interessante e você tem fetiche por vikings barbudos, faça um perfil em sites de relacionamento tipo match.com . Não é sarcasmo não. Essa semana mostraram uma pesquisa dizendo que o número de suecos que busca por parceiros em sites de relacionamento cresce cada vez mais. Vai que você dá sorte?

Não estou incentivando ninguém a dar golpe do baú. Só quero que fique claro que mudar para o exterior é um processo que é demorado e não se resolve do dia para a noite. E é suado. Tanto para estudar, trabalhar ou arrumar um parceirx aqui exige muita energia e dedicação.

3. Leia tudo que puder sobre a Suécia. Há blogs sobre a vida na Suécia (além desse, tem uma lista no rol de blogs ao lado que, eu sei, está desatualizado), há grupos sobre a vida na Suécia no facebook. Mas não seja o tipo chato que fica fazendo perguntas tipo: me arruma um emprego aí? Dá para me mudar sem visto? É muito dura a adaptação? Adaptação é como reeducação alimentar: tem gente que tira de letra, enquanto outros ainda acordam no meio da noite para comer chocolate. Isso não significa que no primeiro caso rola menos sofrimento. Tem a galera que chega, ama logo de cara e vive feliz durante um bom tempo e depois, cai na rotina e começa a odiar. O contrário também é verdadeiro: gente que odeia, sofre e chora e queria voltar para casa ontem, mas depois cai na rotina e gosta (ou se conforma). E gente que ama hoje, odeia amanhã, engole depois de amanhã, quer voltar na semana que vem, mas no mês que vem resolveu que esse é o melhor lugar para se viver ever. Você melhor do que ninguém sabe que tipo de pessoa você é. Nesse caso, vale ler muito, de tudo. Tanto os pontos positivos quantos os negativos tem que ser levantandos. Por isso que eu acho que blogs sobre a Suécia são a melhor forma de ter uma ideia, principalmente blog de gente que escreve há anos – e aí não importa se a pessoa já parou de escrever ou continua postando. É aí que você encontra relatos do dia a dia, tantos felizes quanto infelizes. Leia também coisas sérias, sobre a política sueca, economia sueca e etc. Um bom canal para esse fim é o The Local (em inglês).

4. Se você não fala inglês, estude ingês antes de vir para cá. Fazer intercâmbio cultural para aprender inglês na Suécia é muito estranho, no meu ponto de vista, uma vez que o idioma oficial do país é o sueco. Quer aprender sueco e tentar um interncâmbio cultural para isso, fine, mas se você quer aperfeiçoar o seu inglês… well, você está fazendo isso errado.

5. Tenha em mente que sem sueco você praticamente não consegue um trabalho. Há duas exceções: quando você já trabalha para uma multinacional em uma função em que o inglês é predominante, ou foi contratado falando apenas inglês; ou no caso de você vir como professor pesquisador. Ué, mas você não diz para estudar inglês antes de vir para cá? Digo. Aqui praticamente todo mundo fala inglês. Se você vem estudar por um tempo vai se virar bem falando inglês; e se vem se amarrar é bom saber inglês para não ficar tão dependente. Mas chegar aqui falando inglês fluente não te dá maiores chances de encontrar um trabalho (a menos, é claro, que você seja um fodão na área de TI, engenharia, marketing, comunicação, economia, sei lá… mas nesse caso você não terá problema em descolar um trampo em qualquer lugar do mundo não é mesmo?). O inglês abre portas sim, mas aqui todo mundo fala inglês, então você é apenas mais um na multidão, saca? Em média, estrangeiros (com educação superior) levam cerca de 7 anos para entrar no mercado de trabalho de forma definitiva, ou seja, para conseguir um trampo integral com salário legal. Eu levei três anos para descolar um trampo integral, e conheço outras brasileiras que também conseguiram se estabilizar um tanto quanto rápido. Mas isso é uma questão de sorte e, muitas vezes, de QI – de Quem Indica mesmo, não de cérebro. A Suécia é uma roça – já dizia a Cinthia – e aqui é super importante que alguém diga que você é uma pessoa do bem. E essa pessoa tem que ser um sueco.

É isso. Espero que ajude a clarear um pouco as ideias de quem está buscando uma luz.

Ah, eu acho legal receber feedback dos leitores. Também procuro responder quando me escrevem, mas se você quer orientação, LEIA ANTES DE PERGUNTAR.

Boa sorte!

As velhas novas de sempre

Hoje meu pequeninho completa 15 dias.

Quando ele nasceu parece ter ativado um modo de repaginação na minha vida. A gente nunca acredita naquele papo do tipo “um filho muda radicalmente a vida de uma pessoa”, “crianças viram tudo de pernas para o ar”. Bom, meu ceticismo é reflexo da teimosia infinita de nunca aceitar esse tipo de “papo furado”.

(eu deixei a introdução original do post, porque é legal lembrar o que eu estava pensando lá trás).

Na verdade, Benjamin completará sua décima semana de vida em breve. Mas, antes que eu me perca em bla bla bla, tudo começou pouco depois da meia noite do dia 24 de junho – minha DPP, ou data prevista para o parto (na qual eu também não acreditava). A gente assistiu ao jogo do Brasil contra Camarões e estava naquela preguiça de ir deitar (são cinco horas de diferença para o Brasil, o que explica porquê eu estaria indo dormir) quando a bolsa estourou. Eu até brinquei e disse que a culpa era do comentarista sueco, que ficou repetindo que time nenhum vence a Copa com apenas um artilheiro, e que se a seleção quisesse a taça precisava de mais um goleador. Acho que o Benjamin levou o papo a sério e resolveu na hora: eu vou!

Mas e daí que bolsa estourar não significa que a criança está saindo. Como eu contei há uns tempos atrás, também não é bem assim só chegar chegando no hospital. Ligamos para a central de partos – sim, existe uma central de partos em Göteborg – e recebemos a instrução de esperar em casa até que as contrações estivessem chegando com cerca de 3 ou 4 minutos de intervalo e, a menos que eu começasse a sangrar ou passar mal, deveríamos esperar até as 8h do dia seguinte para ir ao hospital onde uma enfermeira iria me examinar para ver se havia realmente sido a bolsa que rompeu.

Eu não tinha contração nenhuma e só dei uma checada na bolsa da maternidade antes de ficar um tempão inventando coisas para conter o rio de água que saía de mim – conter não, porque não há como; dei um jeito de prender uma fralda descartável na calcinha e fui dormir (com um monte de toalhas e apetrechos ao redor). Acordei pouco antes das 4h sentindo que agora sim o trem estava começando para valer. Fiquei eufórica e perdi o sono – o que não foi muito esperto mas… mãe de primeira viagem.

Quando chegamos ao hospital um pouco depois das oito para o tal exame – devidamente munidos de toda a bagagem necessária para permanecer lá – as contrações já estavam chegando naquela frequência louca de cerca de 3 a cada 10 minutos. Depois de esperar o que pareceu uma eternidade, uma enfermeira bem gente boa nos atendeu. Eu não estava muito feliz com a situação porque é super estranho ter de ser submetida a um exame tipo ginecológico quando você está com dor – e ela não ia medir a minha dilatação, ia só checar se eu estava perdendo líquido. E ela mexeu e mexeu e não escorreu um filetinho de água sequer – provavelmente devido ao fato de que eu já havia perdido muito água. Mas, como eu tinha contrações frequentes ela me encaminhou para a sala de partos – mas no outro hospital, uma vez que esse que fica mais perto de casa estava lotado.

Lá vamos nós pela cidade para o próximo hospital. Nos perdemos nos corredores e elevadores – a sala de partos não ficava no térreo. A situação seria cômica se eu não estivesse com dor. Mas aí topamos com uma boa alma que arrumou uma cadeira de rodas para mim – caminhar e ter contrações ao mesmo tempo não funciona – e depois disso pareceu que num tiro eu estava dentro de uma banheira cheia de água quente.

Tudo bem, não foi tão rápido assim. E não, eu não tive o parto na água. É só que o tempo ganha uma dimensão bem estranha durante o parto, eu acho. Foi tudo tão enrolado no primeiro hospital – ou eu estava me acostumando as contrações – que assim que chegamos ao segundo e entramos na “minha” sala de parto eu relaxei definitivamente e pensei: agora é pra valer. E foi realmente bom tomar um banho quente. Aliás, banho quente e exercícios de respiração me ajudaram demais a lidar com as contrações. Não vou bancar a romântica e dizer que foi uma maravilha, parir dói demais. Mas com as ferramentas certas dá para contornar a dor com certo sucesso – ao menos até chegar a parte do pega pra capar, quando a criança está saindo.

Particularmente achei a experiência de ser assistida por parteiras uma maravilha. Eu tive sorte de contar com duas parteiras experientes durante o meu trabalho de parto. Uma delas ficou comigo cerca de 4h, a outra 7h (meu trabalho de parto todo durou 20h se contar desde que a bolsa rompeu). Elas fizeram o papel de doulas também: traziam água, sempre me perguntavam se eu estava confortável, ajudaram o Joel a se encontrar e davam dicas de como ele podia me ajudar, me motivar; elas me motivaram muito e só faltou me abraçarem. A segunda parteira que esteve comigo era porreta demais, tinha o tempo todo uma palavra de motivação, uma dica, me ajudou com os exercícios de respiração e etc. Eu usei o tal do gás do riso e ajuda também, mas fora disso não usei anestesia – teimosia viu, nada demais. Tive que rebolar um bocado, no sentido literal; descobri que isso ajuda a criança a sair (se eu soubesse antes, teria treinado o samba da boquinha da garrafa com afinco – #ficaadica). Na verdade eu até havia lido sobre o assunto, mas essa é mais uma das coisas que eu nã0 acreditei muito.

Na hora do nascimento mesmo haviam mais pessoas na sala de parto, ou seja, na hora do pega pra capar a parteira chama por reforços para que haja uma esquipe no caso de alguma interverção se fazer necessária. Depois do parto vem também um médico se necessário. No meu caso veio um por causa de uma laceração que eu tive no assoalho pélvico (grau III), e antes que alguém mal intencionado use esse texto para justificar episiotomia eu explico: apenas 3,4% das mulheres que tem parto normal na Suécia tem esse tipo de laceração. Isso me faz pensar duas coisas: uma, que Murphy é meu amigo mesmo, do coração, e estava lá comigo no parto – haha, eu dispenso! E duas que eu vou jogar na mega sena quando estiver no Brasil de novo.

Com relação ao parto é mais ou menos isso mesmo. Depois que o bebê chega podemos (mamãe, papai e bebê) ficar no hospital por até três dias – isso é o normal. É muito bom porque contamos com muita ajuda das enfermeiras obstetras para amamentar, trocar a fralda, cuidar do umbigo do bebê, da higiene (não se deve dar banho no bebê de imediato), de como segurar, etc e tal. Mesmo que a gente tenha alguma experiência com criança é dificil (e também maravilhoso) esse primeiro momento porque a gente realmente não sabe o que fazer. Agora já não é mais tão simples como parece quando estamos de fora afinal, quando a criança chora a mãe sou eu.

Espero dar as caras por aqui novamente antes que um mês inteiro se passe. Mas isso não é uma promessa.