Leia antes de perguntar!

downloadCriei uma página nova para o blog por causa dos e-mails que tenho recebido com pedidos de informação. Essa seção tem uma chamada meio mal educada, mas eu queria prender a atenção. Meu objetivo ao criar o blog foi de auxiliar pessoas que como eu estivessem passando pela experiência de mudar de país e por conta própria eu sei que, quando estamos mergulhados nessa hora H da vida queremos informação para ontem – ao menos eu era assim.

Naquela época escrevi para muitas pessoas e fiquei no vácuo, no super vácuo, daqueles de nunca obter resposta ou um “não sei”, “não tenho tempo”, “não posso ajudar”; mesmo quando me reportei a blogs nos quais o autor deixava o e-mail para contato. Isso é chato, porque eu tinha pressa.

Na seção eu explico que quando criei o blog decidi por deixar o meu e-mail para contato e tem muita gente que escreve, que eu gosto realmente disso mas apenas aviso: podem me escrever se tiverem paciência para esperar e persistência para enviar um segundo e-mail – caso eu não tenha dado nenhum feedback. Também é bom deixar um coments no últimos post (do tipo: Oi Maria Helena, queria conversar, mandei um e-mail) porque meu spam joga gente nova no lixo – e eu nem sempre lembro de olhar a seção do spam antes de deletar todas aquelas maravilhosas propagandas de cartão de crédito, alongador de pinto e cartas de princesas africanas precisando de ajuda que recebo diariamente. Não fico procurando por gente que tenha me mandado e-mail. Assim, provavelmente algumas pessoas que me escreveram também ficarão no vácuo eterno.

Juntei algumas das perguntas mais frequentes que os sortudos que alcançam minha caixa de entrada de e-mails me dirigem e com elas montei um guia de orientações gerais. Dê uma passadinha por lá antes de me enviar um e-mail, não porque eu não queria ajudar, mas porque suas ansiedade pode ser aliviada muito mais rapidamente por lá.

Se esse não for o caso, deixe um coments!

Ps.: Só depois de publicar é que lembrei de explicar que a página fica logo acima do logo/nome do blog, ao lado de Eu, eu mesma e Maria. É um pouquinho clara a letra do enunciado mas não é muito difícil de achar. Até!

Pequenas Grandes Coisas das Minhas Férias

Chove… e somente porque choveu tirei um tempo para escrever algumas historinhas pra vocês porque antes estava tão quente que era meio impossível ficar em frente ao computador…

A viagem foi bem tranquila mas super exaustiva pois tivemos de esperar 5 horas pela nossa conexão doméstica no Brasil. Agora o pessoal das companhias aéreas não despacha mais a bagagem até o destino final porque a declaração de bens importados deve ser feita assim que o passageiro desembarca no Brasil – e quem não tem nada a declarar se lasca junto com pequena parte da população que viaja e volta para casa com 10 pila acima da cota. Eu nunca precisei ficar esperando minha mala em Guarulhos e me arrependi milhões por não ter trazido apenas bagagem de mão.

Também não consegui fazer o check in online (sei lá porque cargas d’água), podíamos acessar a reserva mas não podíamos realizar o chek in. Como resultado eu e o Joel acabamos por ficar com poltronas separadas (para o voo transatlântico – aquele que pode ser de 12 horas) e quando embarcamos no avião começamos a busca por uma boa alma que topasse trocar de poltronas com a gente. A opção mais simples – de trocar apenas um lugar com o pessoal mais próximo – não rolou já que ambos estávamos na fileira central entre um casal e dois gordos; os outros casais, assim como nós, queriam viajar lado a lado e os gordos haviam escolhido o banco do corredor por causa de espaço. Mas como brasileiro é gente boa encontramos um cidadão que trabalha para a Scania que entendeu que esse povo aqui era from Sweden e trocou com a gente – o que fez com que o cara ao lado dele também resolvesse trocar. E todos viveram felizes para sempre.

O calor aqui está deliciosamente demais. Tanto que tá rolando temporal a beça – como é comum nessa época do ano quando a primavera já tá fervendo – o que não é muito legal. O pessoal daqui já passou por uma chuva de pedras que estilhaçou todos os vidros de algumas residências, botou abaixo telhados de eternite e simplesmente deixou sem teto uma casa na roça. As “pedrinhas” daquele temporal foram do tamanho de um ovo de pato. Há duas semanas a tempestade veio com vento, atingindo a região do município que havia escapado da chuva de granizo. As árvores caíram e os telhados voaram, fazendo um monte de agricultores perderem seus frangos (essa região tem muito aviário – produção de frangos de corte). Ontem choveu forte, ventou mais ou menos, caiu granizo de novo (do tamanho de ovos de codorna) e eram tantos raios que a impressão é que estavam caindo ao lado da casa. Por sorte temos algumas torres altas com para-raio, mas acho que foi só impressão mesmo pois ainda não ovi ninguém comentar que alguma torre tivesse “pego” um raio. Como eu moro na Suécia e ouço trovejar duas vezes ao ano tenho que confessar com um pouco de medo e até fui rezar com a minha mãe.

Ademais, comi muita carne – churrasco, carne de panela e etc – e to tomando muito suco! Ai que delicia fazer suco com fruta fresca, uma folhinha de hortelã e um tiquinho de gengibre. E esquecer o açucar e todo mundo dizer: faltou açucar. Sério gente! Acho que não ouvia isso a décadas e me sinto quase estranha pois na Suécia estou acostumada a gente que me diga o “eu não acredito que você toma café com açucar!” e ” suco com açúcar? Que estranho…” ou “açucar engorda e faz mal a saúde!”. Agora tive que ouvir todo mundo reclamar que “a Maria fez suco de novo e esqueceu o açúcar!”. Hahaha… É a vida…

Fui a dermatologista que me repetiu todas as coisas que a dermatologista sueca havia me dito, com exceção de: a) há uma forma de clarear os melasmas, mas nenhum clareador vai funcionar a não ser que eu use protetor solar no mínimo 3 vezes ao dia mesmo quando eu não vá sair de casa (a Juliana comentou mesmo – neste post aqui – que a luz fluorescente ajuda a aumentar manchas de pele e ontem a dermato confirmou); e b) que eu preciso usar um filtro solar dermatológico porque comprar qualquer filtro mesmo que fator 50 não vai limpar a minha barra (e muito menos ajudar a clarear as manchas na minha cara – rimou). Saí satisfeita, com receita médica para compra do clareador e do protetor solar e… estranhei a rotina. Acordar e passar protetor para mim era coisa de praia (ou vamos para a piscina!!!) e agora vai virar padrão na minha vida. O bom é que o clareador que ela me receitou também existe na Europa – segundo a médica – assim eu posso pedir a receita lá na Suécia e continuar o tratamento.

To meio gripada (não há coisa pior do que gripe no meio do verão!), meio rouca e pisando torto depois que pisei em uma abelha. Não sou alérgica mas meu pé inchou e a picadura provocou uma lesão meio roxa, coisa que não é muito estranha na roça porque as abelhas daqui ficam contaminadas com agrotóxico que o pessoal espalha na lavoura. Apesar dos mortos e feridos (a abelha morreu) todos ficarão bem.

E agora chega de computador porque eu to de férias!

Socionomexamem! Vivaaaaaa!

Fonte aqui

Puta palavrão não? Mãe, desculpe aí os termos vulgares… Mas isso tem um significado tão grande que nem sei o que fazer comigo mesma essa semana depois de receber a resposta da Högskolverket (sim, o idioma sueco é cheio de palavrões, no bom sentido…) na terça e…: meu diploma de Serviço Social é válido na Suécia!!!

Isso significa tudo: de repente é como se eu tivesse acabado a minha graduação em Socionom (esse é o nome do curso de Serviço Social na Suécia) e definitivamente, muitas portas vão se abrir; profissionalmente falando. Aqui na Suécia há um curso específico de assistência social (Socialsekreterare) e um curso de Serviço Social (Socionom, como disse). A principal diferença é que quem tem o diploma de Socialsekretarare pode trabalhar como assistente social de prefeitura (para o governo) e ONGs (se não me engano). Quem tem Socionomexamem – como eu agora! =D – pode trabalhar dentro das escolas, do governo, das ONGs, dentro da área hospitalar e etc e até no judiciário ou como curador(a)… isso mesmo: aqui na Suécia o Judiciário não pode designar qualquer um para fazer/prestar serviço de graça não!

Claro que eu to imensamente feliz. Eu até tinha comentado com a Fernanda (do blog Aprendendo a Viver na Suécia) que eu estava com medo de ter o meu pedido negado… eu tive contato com muita gente que teve o pedido negado e teve que começar tudo de novo (inclusive cursar disciplinas suecas de ensino médio para ter a possibilidade de entrar na universidade). Mas olha só a coincidência (ou não): eu e a Fernanda enviamos os pedidos mais ou menos na mesma data (em algum dia de maio) e ela recebeu a resposta duas semanas antes de mim. A Fernanda é formada na área de educação e tem pós (se você é da mesma área dela ou apenas tem interesse de entender toda essa história pode ler ela aqui) e eu não – isso que estava me dando um medinho de não vai rolar, não vai rolar…

A Fernanda até tinha me passado o telefone da Högskolverket para eu entrar em contato, mas eu estava um pouco desanimada de tanto ouvir gente dizer que não tinha conseguido… esperei. E na terça-feira quando recebi o envelope, meu coração tava a mil: recebi três vias e na terceira, um documento com timbre e com letras grandes dizendo que “Sua formação corresponde a  graduação em Socionom“. Fiquei eufórica!

Isso significa duas coisas: primeiro, que a qualidade das universidade públicas brasileiras (apesar de sucateadas) é muito boa. Não estou querendo dizer que a Suécia é um país modelo em educação, que aqui tudo é lindo e perfeito não. Estou dizendo que os padrões suecos de exigência descartam uma grande quantidade de profissionais estrangeiros (que com diploma universitário trabalham de motorista de ônibus, por exemplo) e não só aqueles vindos da África, das Arábias, Ásia e do leste Europeu: profissionais de enfermagem espanholas tem dificuldade em obter a validação de seu diploma universitário aqui. Ou seja, se meu diploma de graduação foi aprovado é porque eu sou pró (é claro) e porque a universidade em que obti a graduação é de qualidade (UNIOESTE gente, campus de Toledo). E pelo que eu entendi, a Cíntia (do blog Minha Aquarela) que teve o diploma válido pela Högskolverket também estudou em universidade pública (UEL, de Londrina), o que reforça ainda mais o que eu to querendo dizer.

Segundo que, mesmo que meu curso de Serviço Social no Brasil não tivesse nada a ver com a Suécia eu não tenho a obrigatoriedade de frequentar nenhum curso complementar. Na carta em que recebi eles me dizem que meu curso apresenta pontuação superior ao curso sueco, e que a sugestão deles é que eu frequente um curso sobre a sociedade sueca e sobre legislação sueca – para que seja mais fácil para mim, e não por exigência deles. Diante disso, povo do meu Brasil que lê esse simples blog: acreditem na educação brasileira, vão para a universidade (de preferência, pública). E agora vem o discurso: nós brasileiros temos que parar de afirmar a todo o momento que nosso país é uma merda, que todo mundo só pensa em futebol e no final da novela das oito (que todo mundo sabe que começa as nove), que a política não tem jeito, que todo mundo é corrupto e blá blá blá. Temos muito o que fazer para que o nosso país dê certo sim, mas podemos começar por aprender a valorizar o que temos (e que sabemos) que é bom: nossas universidades públicas por exemplo.  Se elas são elitizadas e etc isso é problema nosso! Quem é pobre, negro, índio, mulheres e etc tem que ter coragem de gritar e lutar por seus direitos. Eu sou filha de pedreiro e toda a minha família se sacrificou para que eu frequentasse a universidade. Nós podemos, se quisermos, transformar essa situação!

Eu to fora do Brasil por enquanto, mas eu pretendo voltar e com a experiência que obtive aqui ajudar a fazer o Brasil ainda melhor. Isto porque a Suécia é um país de primeiro mundo e aqui há muitas experiências que funcionam mil maravilhas? Talvez… mas o meu pensamento é que simplesmente às vezes é mais fácil encontrar soluções quando “estamos de fora” e, independente da sociedade sueca ser assim ou assado, cada experiência abre nossos horizontes e faz desabrochar a criatividade.

Discurso bonito né? Eu quase podia pensar numa carreira política… mas agora eu vou estar muito ocupada aproveitando para melhorar a minha vida com o meu diploma de universidade pública brasileira que é válido na Suécia!

Quem sabe num futuro então… não? Ô meu pai!! hahahaha…

Todo dia ela faz tudo sempre igual…

…me sacode as seis horas da manhã,
me sorri um sorriso sensual e me beija com boca de maçã!
 

Eu gostaria muito que essa fosse a melodia da minha vida, ao menos de segunda a sexta – com exceção da parte das seis horas da manhã porque, convenhamos: com frio e chuva tem coisa melhor do que ficar na cama e dormir até cansar de ficar deitado?

Entrei numa rotina meio louca (de novo) porque vamos viajar e três semanas de Brasil significam três semanas sem ganhar dinheiro. Não fiquei mais capitalista depois que mudei e nem to pensando apenas em grana, mas como eu trabalho por hora recebo as férias antecipadas (ou não, eu decidi guardá-las para quando eu quiser sacar a grana, ou seja, para pagar as despesas do casório). Trabalhar por hora significa uma maior flexibilidade – eu posso sair agora sem perder o trampo e sem maiores problemas do que organizar minha agenda de forma que as pessoas com quem eu trabalho não fiquem na mão enquanto eu saio… mas eu não tenho “férias pagas”, aquela coisa que me foi tão natural nos meus 5 anos de prefeitura.

Eu não tenho saudade do meu trabalho na prefeitura, fico feliz pelo tempo que passei lá e por tudo que aprendi, mas trabalhar no governo brasileiro exige um estômago de avestruz, daqueles que digerem qualquer coisa como pedra, sapos, lagartos e merdas metida goela abaixo. E me acreditem, há muito o que ser engolido quando se é assistente social em início de carreira (em qualquer profissão em início de carreira há, eu acredito, mas não posso afirmar com segurança a não ser com relação a minha própria experiência). Mas enfim, sinto falta da rotina: acordar as tals horas e sair para o trabalho, terminar as x horas e voltar para casa tendo o fim de semana livre, isso é definitivamente uma coisinha que me faz pensar…

Por exemplo, na quinta trabalhei 5 horas em um trampo e 4 horas no outro (com intervalo de 3 horas entre cada), trabalhei 8 horas na sexta (isso é bom) mas 10 horas no sábado (começando as sete da manhã, o que significou acordar as 5 porque horário de ônibus e trem no fim de semana é diferenciado), e mais 8 horas no domingo (de novo começando as sete…). Hoje trabalho 4 horas (entre 16 e 20h30), amanhã 9 horas, na quarta seis horas e quinta… aff, cansei de explicar.

Todo esse papo deve fazer (ao menos) com que algumas pessoas tenham dó de mim e pensem puxa que confusão! Tadinha dela não? O blog dela é tão legal e ela é tão esforçada… Outras vão pensar que aff, isso não é nada: eu morava em São Paulo e pegava 6 ônibus diferentes para chegar ao trabalho, trabalhava como um cão o dia todo e tinha que pegar os mesmos 6 ônibus para voltar para casa, ganhando uma ninharia por mês…

Não quero que ninguém tenha dó de mim. Só penso que seja importante (sempre quero frisar isso no blog) que morar fora do Brasil significa ralar também. Ganhamos um bom salário? Sim. O transporte funciona melhor e é mais limpo e tranquilo? Sim. Vivemos com mais segurança? Ao menos em Göteborg, sim. Não sou uma mártir, definitivamente, e quem escolheu trabalhar fui eu, quem me candidatou a esse tipo de trabalho fui eu e é isso que eu faço todos os dias (inclusive sábado e domingo) quando eu não estou na escola ou sorrindo lá de uma linda fotinha tirada de Algero… caracas, isso foi em julho!

Recebo e-mails de gente que me pergunta como conseguir um emprego/trabalho na Suécia e eu não sei o que dizer, mas ter inglês fluente (ao menos) é um bom ponto de partida (afinal…). Preparar um bom CV, assim como você faria no Brasil. O que você faria para ter um bom trabalho no Brasil? Estudaria? Acho natural que as pessoas tenham o sonho de conhecer o mundo, mudar para os países que a gente assiste nas reportagens de tv e que tem uma sociedade tão distinta e interessante. Ganhar mais dinheiro (não há nenhum problema com isso) e viajar mais… mas, pelo menos no Brasil em que eu cresci isso não é assim tão impossível, a questão é aplicar energia no que você quer. Não é impossível conquistar um bom emprego no Brasil e desfrutar do dindim. A principal diferença é que no Brasil aprendemos a emprestar dinheiro primeiro (para a casa, o carro ou uma viagem), trabalhar e pagar depois. Aqui o povo aprende a trabalhar e guardar dinheiro (para a casa, o carro ou a viagem) e aproveitar o bem escolhido depois.

Eu tive que entrar nessa bonitinha também. Eu quero ir para o Brasil, muito bem, então eu tenho que saber quanto custa a passagem e quanto custa morar lá durante o tempo em que ficarei. Tenho que trabalhar, guardar o dindim para passagem, para a estadia no Brasil (mesmo ficando na casa dos pais…) e para o período pós Brasil, quando eu não vou ganhar salário porque eu não trabalhei 3 semanas. Se o meu trabalho é meio louco com horários esquisitos, tenho duas opções: melhorar meu CV para conseguir coisa melhor ou melhorar meu CV para conseguir coisa melhor. Estudar (melhorar o inglês e o sueco), adquirir experiência e boas referências.

Se você que tá lendo o post quer trabalhar na Suécia, na Europa ou simplesmente fora do Brasil, comece fazendo com que seu CV seja atraente. Seja um expert naquilo que você faz… Papo de palestra motivacional? Talvez! Mas sendo ou não a realidade é que esse é o primeiro passo para conseguir um trabalho em qualquer lugar, dentro ou fora do Brasil. E tenha um pé de meia.

Afinal, trabalho aqui é trabalho assim como em qualquer lugar do mundo. E acabou o meu recreio…

Era uma vez em São Paulo

Oilá! Não tenho certeza se já contei essa história por aqui, mas, sinceramente? Fiquei com preguiça de pesquisar se eu realmente tinha feito isso… então vamos lá – e se preparem que o trem é comprido!

Há dias da minha vida que parecem ser retirados de um livro e, como não podia deixar de ser, a minha visita a São Paulo quando eu precisei fazer a entrevista solicitando o visto foi uma verdadeira saga. Naquele tempo (ui! parece um século e não dois anos) o processo de solicitação de visto não era online mas mesmo assim o primeiro passo foi entrar na página da Embaixada da Suécia no Brasil e ler a sessão sobre vistos; ler e reler a relação de documentos necessários e em seguida, ligar para o consulado em Sampa para tirar as últimas dúvidas e marcar o dia da entrevista.

Ainda depois de acertar o dia da entrevista liguei e conversei com o pessoal de lá várias vezes por causa das dúvidas que vão surgindo quando a gente junta a documentação – por mais bobas que elas fossem – e sempre fui bem “respondida” (até por e-mails). Algumas pessoas que chegam ao blog me escrevem pedindo para elucidar dúvidas sobre o processo de solicitação de visto e em alguns casos eu posso ajudar, mas eu gosto de afirmar que se vocês quiserem encurtar o caminho liguem ou escrevam um e-mail para o consulado mais próximo ou a embaixada: além de ter a resposta certa, eles são bem rapidinhos em responder!

Eu iria para São Paulo pela primeira vez na vida e tava morrendo de preocupação afinal, a gente só vê problemas e problemas na televisão e notícias ruins sobre a cidade mas ao mesmo tempo fiquei de boa porque eu passaria só um dia na cidade, o que poderia sair errado? Cheguei as seis e meia na Estação Barra Funda e liguei para os meus pais dizendo que cheguei (a gente sempre fez isso, fosse para 10km longe, mandava um sms ou sinal de vida) e que a viagem de 15 horas nem tinha sido tão cansativa ao final – mentira. Não me pareceu muito medonho estar em um terminal rodoviário – tudo bem que eu nunca tinha visto tanta gente correndo em todas as direções na minha vida e que parecia que as pessoas simplesmente brotavam do chão, porque… Achei melhor entrar num banheiro e jogar uma água na cara pra acordar.

Eu tinha levado um kit de sobrevivência como se fosse passar a noite em um hotel – apesar que a ida e volta foram a noite no busão – pois o plano era ficar em Sampa apenas um dia mas vai saber né? Fora de casa é bom estar prevenido. Eu estava de frente para a pia do banheiro ao lado da faxineira que pegava água em um balde quando a torneira estourou e me deixou molhada desde o peito até as canelas. A faxineira entrou em pânico, me pedindo mil desculpas, que não era intenção, que ela não entendia o que tinha acontecido. E eu tinha virado pedra! Olhei para o chão cheio de água e dei graças a Deus que a água não tinha pego a minha mala com toda a documentação que eu tinha que entregar nas mãos do cônsul pela ocasião da entrevista… Respirei fundo e comecei a acalmar a mulher com aquele papo acidentes acontecem, não tem problema, eu tenho roupa extra, vai ver o encanamento é velho e tals.

Eu não tinha calças extras e o tempo estava nublado, meio chato. Não era frio, e depois de ter usado 900 papel toalha e duas toalhas de pano a minha calça estava vestível, grudando um pouco mas com sorte ia secar até as 14h, horário da entrevista. Eu ficava pensando: se o objetivo da entrevista é causar uma boa impressão to meio que lascada… chegar lá com cara de mal dormida e fedendo a cachorro molhado… vou dar uma caminhada, ver se me seco e me acalmo. Perdi a coragem assim que ia saindo do terminal: quase não tem calçada por ali e pra falar a verdade, não há nada próximo ao terminal para ver. Nem um cafézinho esperto ou o quê.

Voltei, sentei num banco perto de um botequinho de sucos dentro da estação e fiquei lendo um livro. Lá pelas nove da manhã eu pensei que seria bom me por em marcha se eu queria estar em tempo e encontrar com calma o prédio do consulado. Eu tinha impresso números e nomes de quais ônibus deveria pegar para chegar ao Consulado (com saída da Barra Funda, onde cheguei) e de trem (que depois mudava para ônibus e mais um trecho a pé) mas quando cheguei lá desisti: nunca tinha visto tanta gente se acotovelando por um espaço dentro de um transporte público; tanto que as portas quase não fechavam. Eu pensei: tá cedo, mais tarde melhora…

Comprei uma viagem de táxi as 10h e sai. O taxista era legal e não sei se ele ficou com dó de mim – pois imagina meu tipo depois de um banho involuntário – e deu uma de guia  turístico, desse lado de cá fica não sei o quê e do lado de lá as empresas tal… e a gente nunca chegava e ele admitiu que estava perdido (mesmo com GPS). Como eu tinha pago a viagem no terminal paguei uma tarifa padrão pelo destino, então fiquei relax. Ele se desculpando que o consulado dos EUA ele sabia de cor porque era tanta gente que ia para lá todo dia e blá blá blá… Por fim ele se achou e me deixou na porta do tal lugar, tipo 11h30.

Subi para o escritório do consulado e uma mocinha muito simpática veio conferir a documentação. Ela disse que eles iam fechar as 12h para almoço até as 13h mas que eu podia deixar os papéis com ela. Fiquei feliz… até ela me olhar e dizer: Cadê sua certidão de solteira? E eu… Ela falou: pode ser a certidão de nascimento original, você não trouxe? E eu não tinha levado! Fiquei meio baqueada, tentando me lembrar porque eu tinha deixado o RN de fora… Daí ela me orientou que perto do consulado havia um cartório e que eu poderia ir até lá e fazer uma certidão de solteira.

Eu poderia comparecer a entrevista mesmo que estivesse em falta com alguns documentos, o problema era que o os documentos seguiam para Brasília apenas uma vez por semana e seria na quarta (e só depois é que seguiam para a Suécia – oh, burocracia!). Eu tinha pressa e saí atrás do dito Cartório, mas tomei a direção errada sem saber e depois de caminhar 20 minutos e de ouvir todo mundo dizer “Não sei onde fica moça” desisti. Pensei que ela tinha dito perto, mas vai saber o que é perto para um paulista? Sentei num barzinho e comi alguma coisa. Estava muito cansada por causa da viagem, do stress do banho surpresa e com o taxista perdido, depois a história da certidão de nascimento… Aff, quem merece?

No caminho eu tinha visto uma praça e decidi voltar lá para tentar ler pois tinha cerca de uma hora ainda. E qual não foi minha surpresa quando vi a placa do tal cartório? Peguei uma senha e quase mato a atendente porque ela insistia que não existe declaração de solteirx. E eu pá e corda, o pessoal do consulado me orientou e tals… e ela negando. Insisti tanto que ela ligou para um tal lá em outra sala (com ar condicionado) que aceitou falar comigo.

O cara me explicou que para fazer a declaração eu precisava de duas testemunhas. Murchei. Tentei dar um jeitinho e ele falando que não, que isso e que aquilo, depois chegou mais um cara que acho que ficou com dó de mim e disse que ia me ajudar. Pediu meus documentos e R$250. oO! Eu… ainda perguntei se ele aceitava cartão (porque claro que eu não ia andar com 200 paus na carteira) enquanto abria a bolsa para pegar meu passaporte. Ele disse que não a mesma hora que me dei conta que não achava meu passaporte. Comecei a chorar lá no cartório e o cara ficou me olhando e pedindo se podia ajudar. E eu só pensando no passaporte, onde eu podia ter deixado? Se eu tinha deixado no consulado? Perdido na rua? Na lanchonete em que eu tinha comido? Falei que não tinha dinheiro e sai pedindo desculpas.

Liguei para o Joel. Chorei, reclamei do mundo, disse que odiava São Paulo e torneiras velhas. O Joel é pró na arte de consolar alguém e mesmo pelo telefone ele conseguiu me fazer respirar e entender que eu tinha que ficar tranquila ou tudo ficaria pior. Ainda fui até o consulado olhando pelo caminho para ver se eu tinha deixado o passaporte cair pela estrada, naquela inocente esperança de que ninguém pegaria.

Cheguei para a entrevista um caco e para minha sorte o cônsul foi super bacana comigo. Disse que orientou a estagiária a sempre solicitar o Registro de Nascimento com negativa de “nada consta” (no livro de registro de casamentos) como certidão de solteiro porque aquele outro documento é muito caro e desnecessário. Mas meu passaporte não estava na embaixada. Eu fui até a DP mais próxima lá do consulado (depois da entrevista) e fiz o BO no mesmo dia – orientada pelo cônsul. Paguei uma multa a Polícia Federal por ter perdido o passaporte e tive de solicitar de novo… mas isso é outra história.

No final das contas o mais importante daquele dia – que era a entrevista – foi super bem. Ele só me pediu para contar a minha história com o Joel, do tempo em que estivemos juntos e de planos para o futuro. O cônsul afirmou na época que a Imigração Sueca normalmente travava os pedidos por falta de documentação e que a maioria dos vistos negados acontecia quando o parceiro sueco não se mostrava mais interessado em que o solicitante residisse na Suécia (no caso de visto de residência por laço familiar); que quando os solicitantes já eram casados o processo tendia a ser mais rápido mas que não estar casado com o partner suecx não correspondia a negação do visto. Tanto que não sou casada e estou aqui…

No fim, nós vivemos felizes… para sempre!

Essa coisa de choque cultural…

Ontem apareci no blog “Minha Aquarela” da Cíntia lá de Stockholm. A Cíntia deu um pulinho aqui em Göteborg e para minha alegria eu estava de folga aquele fim de semana – é, quem muda para a Europa fica rico de tanto trabalhar no final de semana: não pode festar e nem tomar cerveja, daí além de ganhar os pilas do dia trabalhado economiza todo o dinheiro que iria para alguma festa – e pude encontrar com ela e tagarelar por uma meia hora lá na Central Estação. Foi bem legal mas como a cabeça de vento aqui nunca tem a máquina fotográfica junto (alguém reparou que esse blog quase não tem fotografias?) esperei a Cíntia contar do nosso encontro que afinal, foi ela que registrou. Dê uma passadinha aqui quem quiser saber todo os detalhes a respeito da incrível experiência de encontrar uma caipira no exterior!

Quem já conhecia o blog Minha Aquarela – e talvez acompanhe por algum tempo – tenha lido esse post aqui quando a Cíntia conta um pouco a respeito de como os suecos encaram ficar doente. Eu percebo essa questão da seguinte maneira: primeiro que se você ficou doente (na Suécia é melhor que) fique em casa; e, segundo, espere para tomar remédios e não corra atrás de médicos, deixe seu corpo aprender a reagir.

Eu até concordo com a última, mas a primeira me dá nos nervos! Não porque eu possa ficar em casa para descansar, acho que seria legal ter essa possibilidade no Brasil também (não se sente bem, ligue e avise dizendo que está passando mal). Acho importante sublinhar que esse dia de “descanso” não é pago e que faltar ao trabalho dias a fio sem atestado médico significa olho da rua tanto quanto no Brasil. O que me incomoda com relação ao “fique em casa” é que suecos tem um medo tão absurdo de contágio que nem chegam perto de pessoas doentes.

Seja fruto de séculos sobrevivendo a mais incontáveis pestes, seja somente uma questão cultural, isso me choca bastante. Eu consigo entender a lógica da situação, a racionalidade do costume e os efeitos positivos que um comportamento como esse traz para a sociedade. Por exemplo: descobri que uma pessoa com suspeita de rubéola na Suécia deve ligar para o posto de saúde antes de se dirigir para lá porque se houverem mulheres grávidas no local elas serão deslocadas para um quarto seguro de forma a evitar o contato com o possível cidadão contaminado pelo vírus; pessoas com suspeita de terem contraído o HIV ou AIDS devem deixar uma lista dos nomes dos parceiros e os mesmos serão intimados judicialmente a comparecer em posto de saúde para exames. Mas quando o caso é menos complexo me dá… uma coisa esquisita, é como se fosse uma maneira de exclusão, fracos e doentes ficam a margem enquanto os saudáveis continuam na dança…

Talvez isso seja fruto de uma educação de cunho religioso, aquela coisa de ajudar e acolher os doentes e por causa disso eu ache que é meio esquisito ficar sozinho em casa (sim, é preciso relembrar que a maioria dos suecos moram sozinhos) doente, com febre e sofrendo. Eu não tou dizendo que eu daria uma de São Francisco – que lavava os leprosos com água de bacia e ao final do rito tomava a tal da água – porque eu também me incomodo ao ter um estranho tossindo as tripas na minha direção ou espirrando até os pelos do nariz fora, mas o povo aqui tem o costume de nem ver os parentes – nem mesmo a mãe – para não contagiar outras pessoas.

E eu penso na minha mãe, que hoje tá de aniversário (eu te amo mãe, espero que você tenha tido um dia super especial) e que fazia meu pai ir buscar a gente para ficar de molho em “casa” – na casa deles. E tomar suco de cenoura e aquela gororoba de beterraba e açúcar mascavo – eu odiava isso! Mas era tão bom! – e então todo mundo ficava fazendo ares de enfermeiro em casa, um irmão querendo cuidar mais do outro, e brigando para roubar a atenção, aquele retetê todo…  e se todo mundo ficasse doente, que ficasse!

Claro que nem toda a família se entende, e que nem todo amigo é tão ligado no outro a ponto de querer fazer companhia para uma pessoa ranhenta.  Mas ainda acho estranho pacas ficar doente e sozinho.

Essa coisa de choque cultural…

O Brasil não é só Rio de Janeiro

Dia desses eu no trem (temos trens de novo!!!) e escuto a conversa de dois jovens:

Ele: todo mundo sai viajar e tenho pensado nisso. Eu quero sair e fazer alguma coisa diferente, grande… talvez a gente podia ir juntos.
Ela: Opa, que legal! Sim a gente podia ir para a Grécia! 
Ele: Não, Grécia não… todo mundo vai para a Grécia. Vamos para a Tailândia ao invés disso!
Ela: Aham… todo mundo vai para a Tailândia também!
Ele: O que eu queria mesmo era ir para a América Latina, para o Brasil…
Ela: Ta louco? Eu tenho uns amigos que foram para o Rio de Janeiro e olha só: no primeiro dia eles foram assaltados e levaram o dinheiro deles, no segundo dia foram assaltados de novo e ficaram sem máquina fotográfica e celulares. Se você acha que isso é tudo eles ainda foram assaltados uma terceira vez, até o usb da minha amiga carregaram embora!
Ele: É, mas nada disso acontece se você fica experto, a gente não precisa ir para uma favela!
Ela: Não precisar não precisa mas lá tudo é favela… além disso não é bom para mulheres irem para o Brasil porque os homens de lá não tem nenhum respeito. (e falando meio baixo) Ela foi quase estuprada na frente do namorado!

Três coisas me passam pela cabeça quando eu ouço uma conversa como essa: primeiro, que eu tenho uma opinião muito dura e preconceituosa contra gringo que vai para o Brasil e quer entrar numa favela, pelo motivo que for… pra não ser politicamente incorreta, paro por aqui.

Dois, é que eu acho um saco que todo mundo entende o Brasil a partir de três palavras: samba, futebol e Rio de Janeiro. E pensar no tamanho do Brasil! E na diversidade cultural! E na cara do povo quando eu digo que “não sei sambar” e que eu não morava nem no Rio de Janeiro e muito menos na praia. É, o Brasil tem 6 mil quilômetros de praia mas eu fui nascer as beiras do mar de soja e milho, lá onde comer carne não é pecado e ser vegetariano é que é ser esquisito. Minha cidade não tem estádio de futebol, acho mesmo que é uma das  únicas cidades no Brasil que construiu uma pista de corrida para tratores – é um “tratoródromo”; o maior show que já teve por lá foi de Fernando e Sorocaba (na minha opinião, claro); a gente dança, canta e vive sertanejo (alguns gostam de vanera, vanerão e mais um monte de coisas gaúchas também); e nem por isso sou menos brasileira que uma carioca.

E três… puxa essa coisa do machismo brasileiro realmente não casa com o feminismo sueco – se é que eu posso simplificar as coisas desse jeito. Só para reafirmar: não sou a favor de nenhum “ismo”. A verdade é que há uma imagem muito forte de que as mulheres latinas gostam de homens sem vergonha, porque somos todos passionais e queremos emoções fortes, sejam quais sejam.   Também posso acrescentar que as brasileiras (em especial) são fáceis e promíscuas. Homens acostumados com mulheres como essas não respeitam ninguém; e apesar de não concordar que o X esteja aí, também não acho que seja hora para discutir quem nasceu primeiro – o ovo ou a galinha; ao menos não nesse blog. O que posso afirmar é que os homens brasileiros são extremamente confiantes em si mesmos e muitas vezes não aceitam um não como resposta. Em contrapartida, na Suécia nenhuma mulher precisa se preocupar com avanços indesejáveis porque qualquer movimento incalculado de um homem pode e será usado contra ele em um tribunal em um processo de assédio sexual ou estupro, como no caso de Julian Assange.

O que eu quero testemunhar é que me dá um sentimento super estranho, mais ou menos do mesmo jeito que me incomoda que alguém pergunte como vai meu alemão e se a Suiça é mesmo fria, me incomoda escutar as pessoas falando que no Brasil tudo é uma merda, que a violência está em toda a parte e que as mulheres só servem para servirem.

Enfim, estamos mal na foto hein?